{"id":5516,"date":"2009-09-10T17:22:45","date_gmt":"2009-09-10T17:22:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5516"},"modified":"2009-09-10T17:22:45","modified_gmt":"2009-09-10T17:22:45","slug":"brasil-energia-artistica-como-antidoto-da-exclusao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/09\/america-latina\/brasil-energia-artistica-como-antidoto-da-exclusao-social\/","title":{"rendered":"BRASIL: Energia art\u00edstica como ant\u00eddoto da exclus\u00e3o social"},"content":{"rendered":"<p>Salvador, 10\/09\/2009 &ndash; Testar a arte em situa\u00e7\u00f5es limite foi um aspecto involunt\u00e1rio do Projeto Ax\u00e9, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que se prop\u00f4s criar condi\u00e7\u00f5es para que crian\u00e7as que vivem na rua ou em risco social superem a exclus\u00e3o educacional, familiar e comunit\u00e1ria.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5516\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Projetoaxe_61.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5516\" class=\"size-medium wp-image-5516\" title=\" - Gentileza Mila Petrillo\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Projetoaxe_61.jpg\" alt=\" - Gentileza Mila Petrillo\" width=\"200\" height=\"141\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5516\" class=\"wp-caption-text\"> - Gentileza Mila Petrillo<\/p><\/div>  A Est\u00e9tica e a \u00e9tica dos direitos humanos s\u00e3o reitores da a\u00e7\u00e3o desta organiza\u00e7\u00e3o que recorre a um arsenal de m\u00fasica, dan\u00e7a, capoeira, teatro, circo, moda e artes visuais para praticar sua \u201cPedagogia do Desejo\u201d, cujo diretriz \u00e9 a capacidade de sonhar uma nova vida.<\/p>\n<p>Criado em 1990 pelo italiano Cesare La Rocca na capital baiana, o Projeto Ax\u00e9 acolheu cerca de 19 mil crian\u00e7as e adolescentes, e com seus m\u00e9todos conseguiu que quase todos voltassem ou permanecessem na escola formal, 80% com freq\u00fc\u00eancia regular e o restante de forma intermitente. J\u00e1 h\u00e1 muitos formados ou universit\u00e1rios, um n\u00edvel praticamente inacess\u00edvel para os negros e os extremamente pobres deste pa\u00eds, que s\u00e3o quase em sua totalidade os benefici\u00e1rios do projeto.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o oferecida tamb\u00e9m se mostrou efetiva na profissionaliza\u00e7\u00e3o. Pelo menos 15 de seus ex-alunos de dan\u00e7a hoje trabalham no exterior, principalmente na Europa, e muitos outros bailarinos, m\u00fasicos, atores de teatro e circo al\u00e9m de artistas visuais est\u00e3o dispersos pelo Brasil, aos quais se somam profissionais da moda e do desenho gr\u00e1fico. O projeto Ax\u00e9 entende que \u201ca arte \u00e9 fundamental\u201d, an\u00e3o apenas para os que podem ser artistas, mas par que outros descubram seus potenciais, negados pelo fracasso escolar, e desenvolvam sua criatividade. Mas, tamb\u00e9m \u00e9 crucial continuar o ensino tradicional para superar a exclus\u00e3o social, segundo Marle Macedo, coordenadora de Arte-Educa\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p>Por isso, al\u00e9m de oferecer sues cursos e pr\u00e1ticas, o Ax\u00e9 tenta convencer seus alunos a prosseguirem nos estudos formais, para concluir pelo menos o secund\u00e1rio. \u201c\u00c9 indispens\u00e1vel para a inser\u00e7\u00e3o profissional\u201d, embora se trata de um \u201censino que molda as pessoas para manter o statu quo\u201d, disse Macedo. \u201cRepeti muitas series, mas terminou o ensino m\u00e9dio, porque \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para ser educador do Ax\u00e9\u201d, contou Anderson G\u00f3is, de 25 anos, recordando sua inf\u00e2ncia de brigas nas ruas. \u201cEra um grito de socorro, porque alguma coisa me atormentava\u201d, afirmou. N\u00e3o gostou da vida na rua e voltou para casa, mas continuou sendo agressivo.<\/p>\n<p>Anderson uniu-se ao Projeto Ax\u00e9 aos 9 anos, convencido por uma educadora, mas ali tamb\u00e9m se envolveu em brigas. Por isso foi exclu\u00eddo do grupo que viajou \u00e0 It\u00e1lia para apresenta\u00e7\u00f5es de m\u00fasica e capoeira. Ap\u00f3s isso, \u201cdecidi mudar e entrei para a banda Ax\u00e9, vi que era capaz e pude participar de viagens a S\u00e3o Paulo, tr\u00eas vezes para a It\u00e1lia e Nova York\u201d, disse Anderson, que concluiu a duras penas o ensino secund\u00e1rio para se converter em educador de rua do projeto e fazer parte dos 32% de seus funcion\u00e1rios que, como ele, s\u00e3o ex-alunos.<\/p>\n<p>Desejo de hist\u00f3ria<\/p>\n<p>Seus companheiros Ricardo Mendes e Sandro Cardoso, de 22 e 26 anos, respectivamente, tiveram um passado semelhante. O primeiro, agora professor de m\u00fasica, se incorporou cedo ao Ax\u00e9, aos 6 anos, ainda perplexo, \u201cbuscando resposta\u201d para a discrimina\u00e7\u00e3o que sofria nas ruas. Agora quer estudar direito \u201ccomo profiss\u00e3o\u201d, ou hist\u00f3ria, para conhecer \u201cmelhores respostas\u201d, especialmente ap\u00f3s viajar a Nova York, o que lhe permitiu ver melhor o \u201cracismo disfar\u00e7ado\u201d do Brasil. \u201cL\u00e1 \u00e9 mais aparente, mas o negro est\u00e1 em melhores condi\u00e7\u00f5es\u201d, constatou. A hist\u00f3ria tamb\u00e9m interessa a Anderson e h\u00e1 uma carreira superior que exerce uma atra\u00e7\u00e3o justificada sobre os negros da Bahia, Estado de acentuada maioria afrodescendente.<\/p>\n<p>Essa caracter\u00edstica tamb\u00e9m \u00e9 a que faz da percuss\u00e3o a atividade mais atraente para as crian\u00e7as e os adolescentes, segundo Jos\u00e9 Carlos Freire, musicoterapeuta e supervisor de artes na unidade do bairro historio do Pelourinho na capital baiana. O ritmo est\u00e1 impregnado em todos desde o \u00fatero, mas na Bahia \u00e9 b\u00e1sico na cultura, inclusive pela forte presen\u00e7a do candombl\u00e9, onde o atabaque \u00e9 tocado com sutilezas t\u00e3o refinadas que induzem ao transe, explicou Freire.<\/p>\n<p>O Ax\u00e9 se integra ao m\u00e1ximo na cultura negra local, pois oferece a pr\u00e1tica de percuss\u00e3o a todos os educandos e tamb\u00e9m destaca a dan\u00e7a e a capoeira, disse Macedo. A pr\u00f3pria palavra \u201cax\u00e9\u201d \u00e9 de origem africana e significa \u201cenergia que flui entre os seres\u201d, \u201cfor\u00e7a da natureza\u201d ou \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d, segundo diferentes interpreta\u00e7\u00f5es. Em todo caso, expressa um princ\u00edpio vital positivo. Al\u00e9m do projeto, foi adotada para identificar o g\u00eanero musical surgido na Bahia e de grande \u00eaxito comercial nos anos 90.<\/p>\n<p>Namoro pedag\u00f3gico em xeque<\/p>\n<p>Apesar de seus atrativos, Sandro Cardoso resistiu a entrar para o projeto at\u00e9 os 11 anos. N\u00e3o conheceu seu pai. Trabalhava carregando compras em um supermercado para ajudar a m\u00e3e, lavadeira que sozinha criava tr\u00eas filhos. Sandro entrou para o Ax\u00e9 quando se torno grande o medo de \u201cdesaparecer como muitos amigos\u201d, na Kombi que as autoridades usavam para recolher as crian\u00e7as de rua, para \u201cesconder a pobreza\u201d. Anderson, Ricardo e Sandor, os tr\u00eas educadores do projeto, contam com a experi\u00eancia \u201cdo outro lado\u201d para exercer o que chamam de \u201cnamoro pedag\u00f3gico\u201d, destinado a atrair as crian\u00e7as de rua, aquelas que vivem permanentemente nela, assumindo sua cultura e seu modo de vida \u201clivre\u201d, e s\u00e3o mais reacion\u00e1rios \u00e0 mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>O projeto atende essa popula\u00e7\u00e3o infantil que, segundo Macedo, limita-se a algumas centenas e nunca passou de 800 nas pesquisas feitas, mas, tamb\u00e9m alcan\u00e7a preventivamente menores em \u201csitua\u00e7\u00e3o de risco\u201d, como os que ficam algumas horas nas ruas, buscando dinheiro para ajudar suas fam\u00edlias. Dos atendidos pelo projeto, alguns voltaram \u00e0s drogas, cometeram crimes graves ou ca\u00edram na mis\u00e9ria. H\u00e1 tamb\u00e9m presos e assassinados, mas a metodologia desenvolvida permitiu reintegrar uma imensa maioria \u00e0 escola, \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 comunidade, assegurou Macedo.<\/p>\n<p>Um problema novo surgiu em Salvador nos \u00faltimos anos, \u201ccolocando em xeque nosso trabalho\u201d. Trata-se do crack, derivado da coca\u00edna em forma de pedras que s\u00e3o aquecidas para inala\u00e7\u00e3o, contra o qual se chocaram todas as t\u00e9cnicas dos educadores do Ax\u00e9, admitiu Freire. O crack \u201cdesarticula tudo\u201d, ao gerar uma r\u00e1pida e \u201ctotal depend\u00eancia\u201d, acrescentou. Uma reflex\u00e3o interna do Projeto Ax\u00e9 concluiu que os viciados em crack \u201cdevem ser internados compulsivamente para tratamento\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Isto contr\u00e1ria posi\u00e7\u00f5es anteriores do Ax\u00e9, mas e trata de \u201cum problema de sa\u00fade p\u00fablica, n\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o\u201d, ressaltou Macedo. Ainda s\u00e3o poucos as crian\u00e7as e os adolescentes afetados por essa droga em Salvador, mas \u201ccontagiam e aumentam a viol\u00eancia nas ruras\u201d, afirmou. \u201cO crack n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o\u201d, segundo o educador de rua Ricardo Mendes, que, como seus colegas, conta historias terr\u00edveis de viciados mortos em seus bairros, roubando e matando por dinheiro para comprar as pedrinhas. Alguns inclusive \u201cpediram ajuda ao Ax\u00e9\u201d, que freq\u00fcentaram durante algum tempo, afirmou.<\/p>\n<p>Crise financeira<\/p>\n<p>Outra barreira \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Projeto Ax\u00e9 s\u00e3o os problemas de financiamento que for\u00e7aram a suspens\u00e3o desde junho de suas atividades \u00e0s ter\u00e7as-feiras e quintas-feiras e a promover uma campanha de capta\u00e7\u00e3o de recursos entre empresas e contribuintes individuais. Luciana Xavier, uma educanda que se converteu em educadora de ModAx\u00e9, atividade onde de 25 a 30 pessoas aprendem desenho e produzem roupas e acess\u00f3rios, se queixa que est\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios meses sem receber seu sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aos 24 anos, ela \u00e9 apontada como exemplo de sucesso da arte-educa\u00e7\u00e3o: formou-se em desenho, prepara-se para um mestrado e cria sofisticados produtos, como uma cole\u00e7\u00e3o de joias a partir de uma pesquisa que a levou a \u201cdescobrir as hero\u00ednas negras\u201d da hist\u00f3ria brasileira do s\u00e9culo XIX. No Ax\u00e9 desde os 12 anos de idade, \u00e9 a mais jovem de uma fam\u00edlia de 14 filhos, cujo pai morreu quando Luciana nasceu. Vendeu jornal, limpou vidro de carros e mendigou nas ruas de Salvador, antes de entrar para o Projeto, onde fez curso de costura, artesanato, canto e artes visuais. Somente cerca de 30% dos participantes do Ax\u00e9 s\u00e3o meninas, propor\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 presen\u00e7a feminina no mundo das ruas. A dan\u00e7a, a moda e o canto s\u00e3o suas atividades preferidas.<\/p>\n<p>O transporte \u00e9 um alto custo para a organiza\u00e7\u00e3o, que atende a uma m\u00e9dia de 1.500 crian\u00e7as e adolescentes ao ano, procedentes das mais variadas partes da \u00e1rea metropolitana, disse En\u00e1 Benevides, coordenadora geral do Ax\u00e9. Al\u00e9m da passagem, s\u00e3o oferecidas tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias a cada um. A doa\u00e7\u00e3o de eletrodom\u00e9sticos com pequenos defeitos para serem vendidos, feita por uma empresa, ajudar\u00e1 a reduzir a d\u00edvida salarial, e se busca superar a atual crise com uma ampla campanha para multiplicar contribuintes, segundo a dire\u00e7\u00e3o do Projeto.<\/p>\n<p>Apesar de seus reconhecidos \u00eaxitos, os m\u00e9todos e as id\u00e9ias do Ax\u00e9 ainda n\u00e3o se converteram em uma pol\u00edtica p\u00fablica, como \u00e9 seu objetivo. A organiza\u00e7\u00e3o tampouco conseguiu promover uma reforma no ensino estatal de Salvador, como pretendia a partir da gest\u00e3o de uma escola municipal entre 1999 e 2004. Mas o Projeto desenvolveu uma proposta pedag\u00f3gica que exerce uma influ\u00eancia difusa e fortalece muitas iniciativas sociais, educacionais e art\u00edsticas. Sua sistematiza\u00e7\u00e3o anal\u00edtica foi publicada em forma de livro para comemorar o d\u00e9cimo aniversario de sua cria\u00e7\u00e3o. Uma conclus\u00e3o importante foi que a arte \u00e9 educa\u00e7\u00e3o em si mesma, sem necessidade de ser instrumentada pela escola para gerar efeitos positivos. Al\u00e9m disso, permite \u201caprender com prazer\u201d, uma dimens\u00e3o que n\u00e3o existe no ensino oficial.<\/p>\n<p>Uma fam\u00edlia ax\u00e9<\/p>\n<p>\u201cO Projeto Ax\u00e9 foi pai e m\u00e3e para meus filhos\u201d, afirma Creuza Maria de Jesus ao contar com criou os seis que teve com dois maridos que \u201cfaziam filhos e iam embora\u201d. Todos passaram longos anos no projeto, onde permanece o mais jovem, de 12 anos. Os dois mais velhos, g\u00eameos de 28 anos, dan\u00e7am e d\u00e3o aulas de dan\u00e7a popular e capoeira na Europa, contratados por 10 anos por uma empresa. Com suas economias j\u00e1 adquiriram quatro casas em Salvador, uma delas para a m\u00e3e, em um bairro mal urbanizado, mas menos violento do que o lugar onde viveu 25 anos e onde viu muitos cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>O terceiro bailarino da fam\u00edlia, Diego da Cunha, de 20 anos, estuda na Escola do Teatro Bolshoi em Joinville (SC). Revelou seu talento e \u201cvoca\u00e7\u00e3o maior\u201d no Ax\u00e9, onde foi recrutado pela exigente academia de bal\u00e9 russo. Outro filho se encaminhou para a inform\u00e1tica. A \u00fanica mulher teve sua oportunidade no ModAx\u00e9, onde participou de desfiles de moda com seu \u201ccorpo bonito\u201d, mas desistiu.<\/p>\n<p>A comida que as crian\u00e7as recebiam na organiza\u00e7\u00e3o \u201caliviou muito\u201d os gastos da m\u00e3e, que s\u00f3 precisava aliment\u00e1-los nos finais de semana. Sua renda, como lavadeira e \u201cbab\u00e1 dos filhos dos outros\u201d, dava para pouco mais al\u00e9m do \u201cg\u00e1s, da roupa e dos rem\u00e9dios\u201d. Mas, o mais importante foi \u201cn\u00e3o deix\u00e1-los soldos na rua\u201d, segundo esta mulher de 53 anos, que por medo das drogas e da criminalidade \u00e0s vezes deixava os filhos \u201cpresos em casa\u201d. Eles, entretanto, apesar de serem crian\u00e7as, a ajudaram, vendendo sandu\u00edches, fazendo entregas e limpeza.<\/p>\n<p>\u201cNunca tive adolesc\u00eancia, meus filhos sim\u201d, concluiu Creuza, uma dessas camponesas negras que mudaram para a cidade para cumprir o \u201ctrabalho escravo\u201d de bab\u00e1 e cozinheira de uma fam\u00edlia rica, entre os 7 e os 15 anos, \u201csem ganhar nada\u201d nem poder estudar, contou. Tamb\u00e9m sofreu com o preconceito. \u201cSenti vergonha por meus filhos bailarinos\u201d, quando a vizinhan\u00e7a os via como homossexuais. \u201cDepois relaxei, j\u00e1 que era o melhor para eles\u201d, que n\u00e3o se importavam com os estere\u00f3tipos e conquistaram o respeito do bairro quando voltaram como profissionais de sucesso em suas f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Pai traficante, filho educador<\/p>\n<p>\u201cAp\u00f3s assassinarem meu pai, um traficante, minha m\u00e3e vendeu tudo e foi viver na rua comigo, aos 4 anos de idade. Gostava da rua, tinha divers\u00e3o, dinheiro e liberdade para fazer o que quisesse. Lavava carros, pedia dinheiro\u201d. Edvaldo Lima vagabundeou por muitos bairros de Salvador, foi detido algumas vezes, chegou a se sentir perseguido pela pol\u00edcia e rejeitado pelas pessoas, mas resistiu ao \u201cdesejo do Ax\u00e9\u201d at\u00e9 os 12 anos. Depois foram 14 em v\u00e1rias atividades da organiza\u00e7\u00e3o, especialmente no coral e na banda de percuss\u00e3o, que o levaram \u00e0 It\u00e1lia, aos Estados Unidos, \u00e0 \u00c1frica e a outras capitais brasileiras. Mas, somente decidiu que \u201cn\u00e3o queria mais as ruas\u201d aos 20 anos.<\/p>\n<p>Seus estudos foram intermitentes, apesar da press\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o. Concluiu o secund\u00e1rio aos 25 anos. Um ano depois, em 2008, passou a educador do projeto atendendo \u201ccrian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o de risco\u201d e aproveitando sua longa experi\u00eancia. \u201cTudo de bom em minha vida aprendi no Ax\u00e9, minha segunda fam\u00edlia, e agora procuro retribuir\u201d afirmou. Edvaldo quer estudar ates c\u00eanicas na universidade e \u201cprovar que n\u00e3o sou igual ao meu pai\u201d. Muitos, inclusive sua m\u00e3e, previam para ele uma vida criminosa como a de seu pai, porque era muito agressivo, \u201ca \u00fanica forma de obter respeito sendo da rua\u201d, explicou. Por isso quis aprender capoeira, \u201cpara brigar melhor. Eu mais temia do que admirava meu pai\u201d, disse, mas sente sua falta at\u00e9 hoje. \u201cChoro quando meu filho me diz te amo. Meu pai nunca me disse isso, e nunca pude lhe dar um beijo\u201d, confessou. IPS\/Envolverde<\/p>\n<p>* O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investiga\u00e7\u00e3o Jornal\u00edstica. A Funda\u00e7\u00e3o AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pelos conceitos, opini\u00f5es e outros aspectos de seu conte\u00fado.<\/p>\n<p> (Envolverde\/IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvador, 10\/09\/2009 &ndash; Testar a arte em situa\u00e7\u00f5es limite foi um aspecto involunt\u00e1rio do Projeto Ax\u00e9, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que se prop\u00f4s criar condi\u00e7\u00f5es para que crian\u00e7as que vivem na rua ou em risco social superem a exclus\u00e3o educacional, familiar e comunit\u00e1ria. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/09\/america-latina\/brasil-energia-artistica-como-antidoto-da-exclusao-social\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[19,20,21],"class_list":["post-5516","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-arte-y-cultura","tag-educacion","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5516","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5516"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5516\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5516"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5516"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5516"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}