{"id":5522,"date":"2009-09-11T17:14:00","date_gmt":"2009-09-11T17:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5522"},"modified":"2009-09-11T17:14:00","modified_gmt":"2009-09-11T17:14:00","slug":"peru-um-roedor-andino-ajuda-a-autonomia-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/09\/america-latina\/peru-um-roedor-andino-ajuda-a-autonomia-das-mulheres\/","title":{"rendered":"PERU: Um roedor andino ajuda a autonomia das mulheres"},"content":{"rendered":"<p>Pucyura, Peru, 11\/09\/2009 &ndash; Nos Andes peruanos, muito perto e muito longe da tur\u00edstica e hist\u00f3rica cidade de Cusco, o cuy, um roedor origin\u00e1rio da regi\u00e3o, se transformou no melhor aliado das mulheres para obter recursos para a sobreviv\u00eancia de suas fam\u00edlias e para aprender a defender seus direitos.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5522\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Mujeres_cuyes_JulioAnguloIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5522\" class=\"size-medium wp-image-5522\" title=\" - Julio Angulo\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Mujeres_cuyes_JulioAnguloIPS1.jpg\" alt=\" - Julio Angulo\/IPS\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5522\" class=\"wp-caption-text\"> - Julio Angulo\/IPS<\/p><\/div>  A cerca de 15 quil\u00f4metros da cidade que foi capital do imp\u00e9rio inca e do vice-reinado colonial, no povoado de Pucyura, no sul do pa\u00eds, as mulheres lideram as associa\u00e7\u00f5es de produtores de cuyes e em torno dessa atividade come\u00e7aram a se organizar at\u00e9 criar uma entidade para defender seus direitos.<\/p>\n<p>Te\u00f3fila Anchachua \u00e9 uma destas mulheres. Ela possui galp\u00f5es com mais de cem cuyes separados por ra\u00e7as, idades e tamanhos. \u201cOs cuyes rec\u00e9m-nascidos devem ficar sozinhos com suas m\u00e3es porque se forem colocados com os demais n\u00e3o poder\u00e3o se alimentar bem. \u00c9 preciso lhes dar concentrado de nutrientes, n\u00e3o apenas alfafa\u201d, explicou essa produtora de 58 anos.<\/p>\n<p>Ela viajou v\u00e1rias regi\u00f5es do sul do pa\u00eds para se capacitar na cria\u00e7\u00e3o de cuyes como parte do projeto Corredor Puno-Cusco, que at\u00e9 o final de 2008 foi financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agr\u00edcola (Fida) para apoiar iniciativas camponesas e microempres\u00e1rias entre os 380 quil\u00f4metros que separam as duas cidades.<\/p>\n<p>\u201cCom a cria\u00e7\u00e3o destes animaizinhos pude alimentar meus filhos e meus netos sem descuidar de minha fam\u00edlia, porque posso fazer neg\u00f3cios sem sair de casa\u201d, contou Anchachua \u00e0 IPS enquanto sua filha Milagros, de 8 anos, a ajudava a alimentar os cuyes com alfafa, seu principal alimento.<\/p>\n<p>Pucyura \u00e9 um povoado que fica a 3.300 metros de altitude, a mais de 1.550 quil\u00f4metros ao sul de Lima e com mais de 3.500 habitantes, majoritariamente ind\u00edgenas e dos quais 65,7% vivem na pobreza e 31,2% na mis\u00e9ria, segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Inform\u00e1tica (INEI).<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com o neg\u00f3cio<\/p>\n<p>Algo come\u00e7ou a mudar h\u00e1 quatro anos, quando o cuy deixou de ser criado apenas como animal dom\u00e9stico e para consumo familiar, para se transformar em um neg\u00f3cio que se sustenta na produ\u00e7\u00e3o comercial e com a venda em escala mediana.<\/p>\n<p>O cuy (Cavia porcellus), tamb\u00e9m conhecido como curi, cobaia ou coelho das \u00edndias, \u00e9 um roedor pr\u00f3prio dos Andes, explorado em cativeiro desde tempos imemoriais e cuja carne \u00e9 consumida na faixa ocidental da Am\u00e9rica do Sul, desde a Col\u00f4mbia at\u00e9 o norte da Argentina.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 no Peru onde adquire valores simb\u00f3licos, sociais e familiares que transcendem suas qualidades nutritivas e o convertem no mundo rural em um refor\u00e7ador de rela\u00e7\u00f5es sociais, de prestigio e de virtudes medicinais, al\u00e9m de mascote, segundo o especialista em sa\u00fade animal Ernando Castro.<\/p>\n<p>Seu alto valor nutritivo e seu reduzido custo de produ\u00e7\u00e3o o transformaram tamb\u00e9m em um suporte da seguran\u00e7a alimentar de fam\u00edlias rurais e de baixos recursos, al\u00e9m de integrar parte apreciada da gastronomia do Peru, seu maior consumidor mundial.<\/p>\n<p>Atualmente, cerca de 500 produtoras do povoado formam sete organiza\u00e7\u00f5es, agrupadas todas na Associa\u00e7\u00e3o Central de Mulheres de Pucyura, contou \u00e0 IPS sua presidente, Indira N\u00fa\u00f1ez.<\/p>\n<p>\u201cComo j\u00e1 est\u00e1vamos organizadas pelo com\u00e9rcio, decidimos levar adiante uma associa\u00e7\u00e3o ara defender nossos direitos em casa e em nossa comunidade, onde a mulher nem sempre \u00e9 vem valorizada\u201d, explicou a dirigente de 34 anos.<\/p>\n<p>\u201cEm nosso povoado h\u00e1 muita necessidade econ\u00f4mica e \u00e9 importante que possamos ajudar nossos maridos e termos acesso a um trabalho que nos coloque em uma posi\u00e7\u00e3o melhor. Eu fui em frente com a venda dos cuyes\u201d, disse N\u00fa\u00f1ez.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos cuyes, ganha o equivalente a US$ 200 mensais, pouco mais do que o chamado sal\u00e1rio m\u00ednimo vital. \u201c\u00c9 uma grande ajuda para n\u00f3s diante das poucas possibilidades que temos de melhorar nossa renda porque as autoridades pouco promovem o desenvolvimento das mulheres\u201d, assegurou N\u00fa\u00f1ez.<\/p>\n<p>De acordo com o INEI, 82,9% dos habitantes do povoado t\u00eam como principal fonte de renda as microempresas. Pucyura vive fundamentalmente da agricultura, pecu\u00e1ria e da cria\u00e7\u00e3o de animais como o cuy e os porcos.<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o no povoado do Centro de Informa\u00e7\u00e3o Comercial, como parte do projeto Puno-Cusco, tamb\u00e9m contribuiu para que seus habitantes tivessem acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o via Internet, para se capacitarem na cria\u00e7\u00e3o dos cuyes ou ampliar suas receitas de pratos preparados com esses animais.<\/p>\n<p>As inova\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias ajudam a incentivar o consumo do cuy por meio de festivais gastron\u00f4micos nos quais s\u00e3o ressaltados seus valores nutritivos, como, por exemplo, que sua carne quase n\u00e3o possui gordura e proporciona mais prote\u00ednas do que as carnes de ave, ovelha, su\u00edna ou bovina.<\/p>\n<p>Produtoras unidas contra a viol\u00eancia<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres t\u00eam muita habilidade para o neg\u00f3cio, elas sabem oferecer como ningu\u00e9m nossos produtos\u201d, assegurou \u00e0 IPS Ra\u00fal Nolasco, que preside uma associa\u00e7\u00e3o de venda de derivados de porco integrada em 40% por mulheres.<\/p>\n<p>Nolasco reconheceu que \u00e9 necess\u00e1ria maior capacita\u00e7\u00e3o para o com\u00e9rcio, tanto para homens como para mulheres, mas as autoridades n\u00e3o priorizam este aspecto em seus investimentos.<\/p>\n<p>Com o projeto Puno-Cusco, as mulheres foram capacitadas na cria\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o desses prol\u00edficos mam\u00edferos que em todo o mundo s\u00e3o procurados tamb\u00e9m por seu pelo e para experi\u00eancias cient\u00edficas e cujas ra\u00e7as peruanas s\u00e3o as maiores.<\/p>\n<p>Mas, ao terminar o apoio do Fida, a produ\u00e7\u00e3o comercial enfraqueceu este ano.<\/p>\n<p>\u201cDevemos reconhecer que nem todas s\u00e3o organizadas e unidas. Algumas querem sair na frente por conta pr\u00f3pria, outras perdem o interesse. Nem todos avan\u00e7os por igual\u201d, explicou \u00e0 IPS a criadora de 52 anos Elbertina Santoyo.<\/p>\n<p>A isto se somou a queda da produ\u00e7\u00e3o de alfafa que as mulheres cultivam para alimentar seus cuyes, j\u00e1 que comprar a leguminosa \u00e9 muito caro. Um fardo de alfafa (11,5 quilos) custa o equivalente a US$ 5,00, quando um cuy \u00e9 vendido no m\u00e1ximo por US$ 3,00.<\/p>\n<p>\u201cO tempo n\u00e3o esteve bom para cultivar alfafa e quase tudo foi perdido. Por isso vendi meus cuyes e fiquei com uns poucos porque do contr\u00e1rio acabaria trabalhando para aliment\u00e1-los e j\u00e1 n\u00e3o me seria rent\u00e1vel\u201d, explicou Julia Quispe, de 42 anos.<\/p>\n<p>V\u00e1rias das entrevistadas coincidiram em afirmar que seus maridos se opuseram quando come\u00e7aram a se ausentar continuadamente de casa para participar de reuni\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto cuidamos do cuy em casa tudo vai bem, ou quando trabalhmos na ch\u00e1cara, mas, se nos reunimos para nos organizarmos ou para defender nossos direitos, os homens come\u00e7am a reclamar, por causa do machismo\u201d, assegurou Quispe.<\/p>\n<p>\u201cEles sempre pensam ter mais direito de falar do que n\u00f3s. Mas isto de mudar\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que aprenderam a produzir comercialmente e vender cuyes, \u201cas mulheres aprenderam que s\u00e3o capazes de empreender projetos pr\u00f3prios e colaborar significativamente com a economia familiar\u201d, explicou Quispe.<\/p>\n<p>Mas, mais importante ainda, as produtoras de cuyes perceberam que organizadas podiam defender melhor seus direitos e serem ouvidas, ent\u00e3o formaram a Associa\u00e7\u00e3o Central de Mulheres de Pucyura, com o objetivo inicial de enfrentar os altos \u00edndices de viol\u00eancia familiar em seu povoado, contou N\u00fa\u00f1ez, sua presidente.<\/p>\n<p>O prefeito, Tomy Loayza, admitiu \u00e0 IPS a exist\u00eancia dessa viol\u00eancia e a vinculou ao alcoolismo, um importante problema de sa\u00fade na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Pro essa situa\u00e7\u00e3o, as pr\u00f3prias mulheres incentivaram a cria\u00e7\u00e3o de defensorias de mulheres e crian\u00e7as com coopera\u00e7\u00e3o estrangeira e recursos estatais.<\/p>\n<p>\u201cTrabalhamos com toda a comunidade para reduzir os maus-tratos f\u00edsicos contra as mulheres, mas ainda continua sendo um desafio\u201d, explicou.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante que as mulheres se organizem e d\u00eaem sua contribui\u00e7\u00e3o, porque a equidade \u00e9 valiosa. N\u00f3s estamos fazendo algumas coisas para ajud\u00e1-las, mas reconhecemos que ainda falta maior apoio\u201d, disse Loayza.<\/p>\n<p>N\u00fa\u00f1ez informou que existe um novo projeto de comercializa\u00e7\u00e3o de cuyes de uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que pode ajudar a lhes dar novo impulso.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o queremos depender sempre da ajuda de outros. Se as autoridades nos dessem informa\u00e7\u00e3o e nos capacitassem para termos acesso \u00e0s diversas alternativas de trabalho, talvez isto fosse diferente\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>\u201cMas, o que se pode escrever \u00e9 que para tr\u00e1s n\u00e3o iremos, que aprendemos a fazer e a pensar diferente, e isso n\u00e3o muda mais\u201d, concluiu, enquanto limpava os galp\u00f5es de seus cuyes, seus aliados. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pucyura, Peru, 11\/09\/2009 &ndash; Nos Andes peruanos, muito perto e muito longe da tur\u00edstica e hist\u00f3rica cidade de Cusco, o cuy, um roedor origin\u00e1rio da regi\u00e3o, se transformou no melhor aliado das mulheres para obter recursos para a sobreviv\u00eancia de suas fam\u00edlias e para aprender a defender seus direitos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/09\/america-latina\/peru-um-roedor-andino-ajuda-a-autonomia-das-mulheres\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,5],"tags":[21,24],"class_list":["post-5522","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-economia","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5522"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5522\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}