{"id":5600,"date":"2009-09-29T17:56:18","date_gmt":"2009-09-29T17:56:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5600"},"modified":"2009-09-29T17:56:18","modified_gmt":"2009-09-29T17:56:18","slug":"mexico-o-campo-se-feminiza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/09\/america-latina\/mexico-o-campo-se-feminiza\/","title":{"rendered":"M\u00c9XICO: O campo se feminiza"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e9xico, 29\/09\/2009 &ndash; H\u00e1 mudan\u00e7as que por serem silenciosas s\u00f3 s\u00e3o percebidas quando a nova realidade se instala. \u00c9 o que correu no campo mexicano, onde fatores econ\u00f4micos e sociais o deixaram em m\u00e3os majoritariamente das mulheres.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5600\" style=\"width: 143px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Flores_mexicorural_emiliogodoyIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5600\" class=\"size-medium wp-image-5600\" title=\"Ver\u00f3nica Mart\u00ednez - Emilio Godoy\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Flores_mexicorural_emiliogodoyIPS1.jpg\" alt=\"Ver\u00f3nica Mart\u00ednez - Emilio Godoy\/IPS\" width=\"133\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5600\" class=\"wp-caption-text\">Ver\u00f3nica Mart\u00ednez - Emilio Godoy\/IPS<\/p><\/div>  A emigra\u00e7\u00e3o dos homens para os Estados Unidos e outras regi\u00f5es dentro do pa\u00eds ou seu \u00eaxodo para trabalhos com melhor remunera\u00e7\u00e3o, embora permane\u00e7am no lugar, levou a mulher a assumir tarefas de produ\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o dos recursos no mundo rural, concordam autoridades do setor e especialistas.<\/p>\n<p>Fundamentalmente, a camponesa preencheu o vazio deixado pelo homem, somando \u00e0s suas tarefas anteriores a de agente produtivo em uma feminiza\u00e7\u00e3o da economia rural, sintetizou o Banco Interamericano de Desenvolvimento.<\/p>\n<p>Alberto C\u00e1rdenas, ministro da Agricultura e do Desenvolvimento Rural at\u00e9 o \u00faltimo dia 7, explicou pouco antes de deixar o cargo que essa pasta procura reorientar suas prioridades e seus recursos para responder \u00e0 \u201cfeminiza\u00e7\u00e3o do campo\u201d e mudar a cultura e as pr\u00e1ticas machistas na atividade agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Ver\u00f4nica Martinez, produtora de flores de 29 anos, est\u00e1 \u00e0 frente do negocio herdado de seus pa\u00eds e recebeu este ano cr\u00e9dito brando de US$ 22 mil, de um fundo estatal, para substituir a cobertura de suas estufas nos 650 metros de terreno onde sua fam\u00edlia come\u00e7ou a plantar d\u00e1lias h\u00e1 20 anos.<\/p>\n<p>\u201cGra\u00e7as a isso pude multiplicar a semeadura\u201d, disse \u00e0 IPS no povoado de San Gregorio, ao sul da capital, enquanto verificava as 40 mil sementes rec\u00e9m-plantadas de amor-perfeito e zempas\u00fachtil, uma flor amarela muito usada no M\u00e9xico no dia 2 de novembro, quando \u00e9 celebrado o Dia dos Mortos.<\/p>\n<p>San Gregorio faz parte da demarca\u00e7\u00e3o de Xochimilco (campo de flores, em l\u00edngua n\u00e1huatl) que agora integra o Distrito Federal e onde a tradi\u00e7\u00e3o de cultivar flores em uma especie de jardins flutuantes em seus lagos remonta a tempos ancestrais.<\/p>\n<p>O caso de Martinez n\u00e3o \u00e9 a maioria nas estat\u00edsticas, que dizem que o novo peso da mulher na agricultura n\u00e3o se traduziu em mudan\u00e7as not\u00e1veis nos padr\u00f5es da propriedade e do acesso a recursos como \u00e1gua e cr\u00e9dito, em uma amplia\u00e7\u00e3o de direitos ou em uma maior lideran\u00e7a feminina no desenvolvimento rural.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, a situa\u00e7\u00e3o da mulher rural e de suas fam\u00edlias se deteriorou em um fen\u00f4meno paralelo \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o do agro mexicano, devido ao Tratado de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte, com Canad\u00e1 e Estados Unidos, que desde sua entrada em vigor em 1994 p\u00f4s um torniquete ao desenvolvimento agr\u00edcola mexicano.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico \u00e9 de 107,6 milh\u00f5es, dos quase 24,2 milh\u00f5es vivem em 196 mil localidades com menos de 2.500 habitantes. Pouco mais da metade desse n\u00famero, 12,3 milh\u00f5es, s\u00e3o mulheres, segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica.<\/p>\n<p>Entretanto, as mulheres representam 25% dos 4,5 milh\u00f5es dos que possuem t\u00edtulos de propriedade de direitos agr\u00e1rios. No pa\u00eds h\u00e1 31.514 \u201cejidos\u201d e comunidades que manejam quase 106 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p>Um \u201cejido\u201d \u00e9 um territ\u00f3rio usado em sistema de uso-fruto por um grupo campon\u00eas, com base na Lei Agr\u00e1ria de 1915, enquanto uma comunidade rural \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o coletiva que data de muitos anos, inclusive s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Na localidade de Santa Rosa de Lima, no central Estado de Quer\u00e9taro, a 250 quil\u00f4metros ao norte da capital, um grupo de seis mulheres e um homem formaram h\u00e1 quatro anos a cooperativa Del\u00edcias Santa Rosa, que produz doces de tamarindo e goiaba, sementes assadas e fruta cristalizada em a\u00e7\u00facar, entre outras guloseimas.<\/p>\n<p>\u201cCompramos a mat\u00e9ria-prima na regi\u00e3o e tudo \u00e9 artesanal\u201d, disse \u00e0 IPS Alejandra Olvera, uma de suas integrantes.<\/p>\n<p>Um fundo estatal lhes emprestou US$ 16 mil em condi\u00e7\u00f5es especiais, com os quais compraram um veiculo e ferramentas, para melhorar sua produtividade e distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um projeto rent\u00e1vel. Podemos viver disso e enviar nossos filhos \u00e0 escola. Al\u00e9m do mais, a maioria das mulheres \u00e9 de m\u00e3es e assim n\u00e3o saem da comunidade\u201d, afirmou Olvera.<\/p>\n<p>Povoados sem homens<\/p>\n<p>Garantir a sustentabilidade de comunidades rurais \u00e9 um dos desafios em um pa\u00eds que viu como muitos povoados ficaram literalmente \u201cvazios de homens\u201d em Estados como Oaxaca e Guerrerno, no sul; Michoac\u00e1n, no nordeste, ou o central Guanajuato, em uma maci\u00e7a imigra\u00e7\u00e3o masculina para os Estados Unidos e as cidades.<\/p>\n<p>A isso soma-se a migra\u00e7\u00e3o interna entre regi\u00f5es agr\u00edcolas, em que fam\u00edlias inteiras ou homens sozinhos se deslocam, geralmente desde o pobre sul do pa\u00eds para Estados do norte como Sinaloa e Sonora, para trabalhar em empresas agroindustriais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, estima-se que a cada ano cerca de um milh\u00e3o de pessoas deixam temporariamente seus locais de resid\u00eancia para trabalhar em atividades agr\u00edcolas no pr\u00f3spero norte mexicano. Estes diaristas se deslocam em 55,4% em grupo familiar.<\/p>\n<p>As tarefas agr\u00edcolas continuam sendo, em geral, a dedica\u00e7\u00e3o de apenas 17,8% do total dos emigrantes rurais.<\/p>\n<p>\u201cA posi\u00e7\u00e3o da mulher se deteriorou, pois h\u00e1 regi\u00f5es onde a marginaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande e \u00e9 principalmente ali onde pela migra\u00e7\u00e3o masculina a mulher assumiu os encargos de levar dinheiro para casa\u201d, explicou \u00e0 IPS Jos\u00e9 da Cruz, professor do privado Instituto de Estudos Superiores de Monterrey.<\/p>\n<p>Pelo menos 60% das mulheres que participam da atividade econ\u00f4mica na \u00e1rea rural n\u00e3o recebem remunera\u00e7\u00e3o ou trabalham por conta pr\u00f3pria e, em geral, as mulheres do setor carecem de contrato e de acesso a servi\u00e7os sociais.<\/p>\n<p>Sete em cada 10 lares camponeses t\u00eam a mulher como \u00fanico suporte da economia familiar. Al\u00e9m disso, a renda de 34,7% dos lares rurais que t\u00eam na chefia uma mulher \u00e9 igual ou inferior ao sal\u00e1rio m\u00ednimo mexicano, e a de 34,3% oscila entre um e dois sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n<p>De fato, apenas 31% das fam\u00edlias rurais que tem \u00e0 frente uma mulher obt\u00eam mais de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos por m\u00eas, que no M\u00e9xico est\u00e1 em torno dos US$ 120,00.<\/p>\n<p>A Rede de Promotoras e Assessoras Rurais realizou uma pesquisa com mulheres do campo em 11 dos 32 Estados mexicanos, que mostrou que elas sofrem um aumento de trabalho, renda m\u00f3vel, menor consumo de alimentos e combina\u00e7\u00e3o do impacto de baixos pre\u00e7os de seus produtos e alta de bens b\u00e1sicos de consumo, como \u00f3leo, carne e outros.<\/p>\n<p>Para esta organiza\u00e7\u00e3o, a maneira de romper esta in\u00e9rcia \u00e9 favorecer a produ\u00e7\u00e3o para o autoconsumo e limitar a depend\u00eancia do mercado.<\/p>\n<p>Uma nova realidade de paradoxos<\/p>\n<p>Entre os paradoxos que florescem no campo mexicano na nova realidade em constru\u00e7\u00e3o se destaca que a migra\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos alterou seu desenvolvimento, sendo, por sua vez, os recursos provenientes dessa emigra\u00e7\u00e3o que sustentam o mundo rural.<\/p>\n<p>No primeiro semestre de2009, o M\u00e9xico recebeu US$ 12,912 milh\u00f5es em remessas, apesar de este ano este setor sofrer queda de 11% pelo impacto da crise financeira mundial, segundo previs\u00f5es oficiais.<\/p>\n<p>\u201cO problema se exacerbou com a migra\u00e7\u00e3o masculina e deixou \u00e0 mulher o trabalho em um campo sem recursos financeiros e despovoados\u201d, destacou de la Cruz.<\/p>\n<p>E esses recursos s\u00e3o majoritariamente administrados pelas mulheres que os emigrantes deixaram para tr\u00e1s, cuidando das fam\u00edlias e das terras, quanto as tinham em propriedade ou uso-fruto.<\/p>\n<p>Embora o governo tenha implementado programas de apoio a projetos produtivos dirigidos por mulheres, n\u00e3o conseguiu resolver os problemas de fundo do meio rural.<\/p>\n<p>No ano passado, as mulheres foram benefici\u00e1rias de 32% dos programas de capacita\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia t\u00e9cnica da Secretaria de Agricultura e de 60% do projeto Estrat\u00e9gico para a Seguran\u00e7a Alimentar, afirmou C\u00e1rdenas antes de deixar o cargo de ministro do setor.<\/p>\n<p>\u201cOs programas s\u00e3o positivos, mas, deveriam estar voltados ao desenvolvimento de pessoas com maior capacidade de empreendimento. Devem ter a fun\u00e7\u00e3o de gerar maior valor agregado\u201d, disse de la Cruz.<\/p>\n<p>A feminiza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola se d\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de desvantagem porque a mulher \u00e9 tradicionalmente marginalizada de elementos primordiais na produ\u00e7\u00e3o, com a propriedade, o cr\u00e9dito ou a assist\u00eancia t\u00e9cnica e financeira.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, sua incorpora\u00e7\u00e3o como produtora por conta pr\u00f3pria ou assalariada ocorre em condi\u00e7\u00f5es de maior precariedade do que no caso do homem, por sua menor escolaridade e capacita\u00e7\u00e3o, junto com o fato de precisar compartilhar seu novo papel com os que lhe s\u00e3o tradicionais, como cuidar da casa, a reprodu\u00e7\u00e3o e a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, especialistas como de la Cruz e organismos nacionais e internacionais coincidem em afirmar que o resgate do ambiente rural \u00e9 uma necessidade estrat\u00e9gica para o M\u00e9xico e que o mesmo depender\u00e1 de as mulheres do campo se capacitarem e se desenvolverem como produtoras, o que, por sua vez, levar\u00e1 a mudan\u00e7as em seus papeis tradicionais.<\/p>\n<p>Entretanto, experi\u00eancias positivas nesse caminho, como a da floricultura Martinez ou da cooperativa Delicias Santa Rosa, s\u00e3o amea\u00e7adas por uma conjun\u00e7\u00e3o de problemas como a recess\u00e3o econ\u00f4mica mexicana e a seca que afeta boa parte de seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Uma conjuntura que coloca o mundo rural mexicano e as mulheres encarregadas majoritariamente dele perante uma crise em sua j\u00e1 minguada renda e perante o risco de uma crise alimentar.<\/p>\n<p>Olvera tem clara a receita para que isso n\u00e3o aconte\u00e7a: \u201cmais recursos, mais capacita\u00e7\u00e3o, mais assist\u00eancia t\u00e9cnica e mais participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es para as mulheres. Com tem sido, agora o campo est\u00e1 em m\u00e3os femininas, dizem, pois ent\u00e3o que nos levem em conta\u201d, ressaltou. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9xico, 29\/09\/2009 &ndash; H\u00e1 mudan\u00e7as que por serem silenciosas s\u00f3 s\u00e3o percebidas quando a nova realidade se instala. \u00c9 o que correu no campo mexicano, onde fatores econ\u00f4micos e sociais o deixaram em m\u00e3os majoritariamente das mulheres. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/09\/america-latina\/mexico-o-campo-se-feminiza\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":66,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[21,24],"class_list":["post-5600","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5600","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/66"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5600"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5600\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5600"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5600"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5600"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}