{"id":5610,"date":"2009-10-01T14:55:15","date_gmt":"2009-10-01T14:55:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5610"},"modified":"2009-10-01T14:55:15","modified_gmt":"2009-10-01T14:55:15","slug":"angola-ricos-e-pobres-um-unico-pais-mas-mundos-totalmente-diferentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/angola-ricos-e-pobres-um-unico-pais-mas-mundos-totalmente-diferentes\/","title":{"rendered":"ANGOLA: Ricos e Pobres \u2013 um \u00fanico pa\u00eds mas mundos totalmente diferentes"},"content":{"rendered":"<p>LUANDA, 01\/10\/2009 &ndash; Um motorista conduz um reluzente BMW com trac\u00e7\u00e3o \u00e0s 4 rodas, saindo de um condom\u00ednio fechado e transportando uma executiva elegantemente vestida e os tr\u00eas filhos fardados, numa manh\u00e3 como todas as outras na capital angolana, Luanda. <!--more--> Ao deixar o seu escrit\u00f3rio com ar condicionado para almo\u00e7ar, a nossa executiva vai pagar $100 pela sua refei\u00e7\u00e3o num caf\u00e9 na marginal e gastar $300 dol\u00e1res, sem qualquer problema, num pequeno n\u00famero de produtos alimentares importados adquiridos numa luxuosa mercearia. <\/p>\n<p>A poucas milhas de dist\u00e2ncia, uma outra mulher est\u00e1 sentada na berma de uma estrada poeirenta, uma entre muitas que vendem latas amolgadas com \u00f3leo de palma e tomates pisados. Estas mulheres sentam-se no ch\u00e3o ou em cima de baldes de pl\u00e1stico virados ao contr\u00e1rio, a poucos metros de uma vala cheia de lixo putrefacto. <\/p>\n<p>Sem prestar aten\u00e7\u00e3o ao cheiro nauseabundo e aos enxames de moscas, ela faz tran\u00e7as no cabelo de outra mulher e v\u00ea os filhos subnutridos a brincar em po\u00e7as de lama perto dal\u00ed. <\/p>\n<p>Ambas estas mulheres s\u00e3o angolanas, mas nunca se ir\u00e3o encontrar, e ser\u00e1 pouco prov\u00e1vel que alguma vez compreendam as realidades opostas uma da outra. <\/p>\n<p>Desde o fim das tr\u00eas decadas de guerra civil, que terminou em 2002, o pa\u00eds tem gozado de um crescimento econ\u00f3mico sem precedentes \u2013 com um crescimento m\u00e9dio anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 15 por cento \u2013 gra\u00e7as aos elevados pre\u00e7os do pretr\u00f3leo e a bilh\u00f5es de dol\u00e1res de investimento estrangeiro, especialmente na constru\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Produzindo aproximadamente 1.8 milh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo por dia, Angola j\u00e1 ultrapassou a Nig\u00e9ria como maior produtor de petr\u00f3leo em \u00c1frica e quinto maior exportador de diamantes do mundo.<\/p>\n<p>Mas, enquanto o pa\u00eds conquista o reconhecimento internacional pela sua economia em r\u00e1pida expans\u00e3o, dois ter\u00e7os da sua popula\u00e7\u00e3o continua a viver com menos de dois dol\u00e1res por dia, segundo o Banco Mundial. <\/p>\n<p>O Centro de Estudos e Investiga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (conhecido pela sua sigla em portugu\u00eas, CEIC) da Universidade Cat\u00f3lica de Angola registou uma taxa de desemprego da ordem dos 25 por cento, mas refere que mais de metade da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 dependente do sector informal para gerar rendimento e que, nas zonas rurais, a maioria da popula\u00e7\u00e3o continua dependente da agricultura de subsist\u00eancia. <\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 empregos <\/p>\n<p>A expans\u00e3o do sector petrol\u00edfero em Angola trouxe milh\u00f5es de dol\u00e1res aos cofres do Estado, mas criou muito poucos postos de trabalho, e os milhares de projectos de constru\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds \u2013 sinais que o pa\u00eds est\u00e1 em reconstru\u00e7\u00e3o depois de muitos anos de guerra \u2013 usam principalmente trabalhadores provenientes da China e de outros pa\u00edses asi\u00e1ticos. Em resultado, poucos angolanos t\u00eam beneficiado destas oportunidades de trabalho. <\/p>\n<p>Segundo Alcides Sakala, porta-voz do principal partido da oposi\u00e7\u00e3o em Angola, a UNITA (Uni\u00e3o para a Independ\u00eancia Total de Angola), o fosso entre aqueles que t\u00eam e os que nada t\u00eam continua a aumentar. <\/p>\n<p>\u201cO que vemos \u00e9 que uma pequena minoria de pessoas fica mais rica enquanto que a maioria do povo est\u00e1 a ficar cada vez mais pobre,\u201d disse \u00e0 IPS. <\/p>\n<p>O fosso entre ricos e pobres \u00e9 evidente por todo o lado, especialmente em Luanda, onde mendigos deambulam perto dos apartamentos no centro da cidade com rendas que podem elevar-se a mais de $25.000 dol\u00e1res por m\u00eas, e onde as v\u00edtimas de minas ajudam os motoristas a parar os seus Ve\u00edculos Utilit\u00e1rios Desportivos (SUV) excessivamente grandes, na esperan\u00e7a de ganhar alguns tost\u00f5es para comprar uma refei\u00e7\u00e3o no fim do dia. <\/p>\n<p>De acordo com o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano das Na\u00e7\u00f5es Unidas (IDH) \u2013 que mede a riqueza, educa\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a de vida dos cidad\u00f5es \u2013 Angola mostra poucos sinais de melhoria, apesar da sua riqueza petrol\u00edfera.<\/p>\n<p>O \u00cdndice come\u00e7a no zero, que significa desenvolvimento humano nulo, e acaba no um, que significa pleno desenvolvimento humano. <\/p>\n<p>Na \u00faltima contagem, o IDH de Angola era 0.484, comparado com 0.670 na \u00c1frica do Sul, 0.664 no Botswana e uma m\u00e9dia de 0,541 em todos os pa\u00edses da Comunidade de Desenvolvimento da \u00c1frica Austral (SADC). <\/p>\n<p>Embora haja dinheiro suficiente no pa\u00eds para construir hospitais privados para aqueles que podem pagar as respectivas tarifas, a maioria dos angolanos tem dificuldade em ter acesso at\u00e9 mesmo a cuidados de sa\u00fade b\u00e1sica, com falta de pessoal qualificado e de infra-estruturas, especialmente nas zonas rurais. <\/p>\n<p>E, apesar das escolas privadas cobrarem propinas astron\u00f3micas para educar os filhos da elite, um ter\u00e7o das crian\u00e7as do pa\u00eds est\u00e1 fora do sistema escolar. Muitas ficam em casa para trabalhar e ajudar as suas fam\u00edlias. <\/p>\n<p>Douglas Steinberg, Director da organiza\u00e7\u00e3o Save The Children em Angola. explica: \u201cExiste um enorme fosso entre os ricos e os pobres aqui, e muitas pessoas n\u00e3o est\u00e3o realmente cientes da enorme riqueza de Angola. As pessoas que vivem nas zonas rurais ou nas zonas centrais do pa\u00eds n\u00e3o v\u00eaem as plataformas petrol\u00edferas offshore, n\u00e3o sabem qual \u00e9 a enorme quantidade de dinheiro existente nem v\u00eaem as novas constru\u00e7\u00f5es nem os carros com pre\u00e7os exorbitantes nem os restaurantes caros.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPenso que isto faz parte do problema \u2013 se as pessoas n\u00e3o sabem como o pa\u00eds \u00e9 rico, \u00e9 mais dif\u00edcil exigirem responsabilidades do governo a n\u00edvel de como este gasta o dinheiro,\u201d acrescentou. <\/p>\n<p>No seu Relat\u00f3rio Econ\u00f3mico para 2008, o CEIC apontou a cont\u00ednua exist\u00eancia de pobreza, um contraste directo com a crescente riqueza do pa\u00eds. <\/p>\n<p>\u201cO PIB aumentou cinco vezes entre 2003 e 2008 \u2013 de $959 para $4961 em 2008,\u201d refere o relat\u00f3rio. \u201cMas, apesar disso, a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o continua a viver num estado de pobreza permanente, sendo obrigada a sobreviver com pouco mais de dois dol\u00e1res por dia.\u201d <\/p>\n<p>O fosso aumenta <\/p>\n<p>A irm\u00e3 Domingas Loureiro dirige uma institui\u00e7\u00e3o de caridade que ajuda fam\u00edlias pobres no sobrelotado bairro do Cazenga, um labirinto de casas construidas pela popula\u00e7\u00e3o, sem electricidade e com acesso reduzido a \u00e1gua e saneamento. <\/p>\n<p>\u201cAs pessoas aqui lutam para sobreviver, e muitas crian\u00e7as s\u00e3o for\u00e7adas a trabalhar a partir de uma tenra idade. A realidade da vida e o elevado n\u00edvel de pobreza nestes bairros n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que o governo conhe\u00e7a em profundidade,\u201d disse. <\/p>\n<p>No entanto, o Presidente angolano, Jos\u00e9 Eduardo Dos Santos, afirma conhecer a pobreza no seu pa\u00eds. Em Mar\u00e7o, durante um discurso que proferiu ao lado do Papa Bento XVI, Eduardo dos Santos, h\u00e1 trinta anos no poder, reconheceu os \u201cdesafios tremendos\u201d que o pa\u00eds enfrenta para reduzir a pobreza e o desemprego, e prometeu um investimento cont\u00ednuo para resolver estes problemas. <\/p>\n<p>Durante a visita da Secret\u00e1ria de Estado dos Estados Unidos, Hilary Clinton, que esteve em Angola em Agosto, o Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Assun\u00e7\u00e3o dos Anjos, foi solicitado por um rep\u00f3rter do Washington Post a explicar como \u00e9 que o maior produtor de petr\u00f3leo em \u00c1frica tinha uma pontua\u00e7\u00e3o t\u00e3o baixa em termos do IDH. <\/p>\n<p>O ministro respondeu dizendo: \u201cD\u00eaem-nos tempo para resolver este problema. Temos mecanismos, temos vontade e temos as estruturas para podermos guarantir ao nosso povo que pode viver em condi\u00e7\u00f5es dignas. Infelizmente, a pobreza n\u00e3o pode ser resolvida com uma varinha m\u00e1gica.\u201d<\/p>\n<p>Para os cerca de cinco milh\u00f5es de angolanos que vivem nos bairros de lata de Luanda, uma varinha m\u00e1gica pode parecer a sua \u00fanica esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LUANDA, 01\/10\/2009 &ndash; Um motorista conduz um reluzente BMW com trac\u00e7\u00e3o \u00e0s 4 rodas, saindo de um condom\u00ednio fechado e transportando uma executiva elegantemente vestida e os tr\u00eas filhos fardados, numa manh\u00e3 como todas as outras na capital angolana, Luanda. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/angola-ricos-e-pobres-um-unico-pais-mas-mundos-totalmente-diferentes\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":123,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,5],"tags":[],"class_list":["post-5610","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/123"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5610"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5610\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}