{"id":5646,"date":"2009-10-12T15:15:37","date_gmt":"2009-10-12T15:15:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5646"},"modified":"2009-10-12T15:15:37","modified_gmt":"2009-10-12T15:15:37","slug":"quenia-melhoramentos-de-bairro-de-lata-vistos-como-ocupacao-de-terra-nubios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/quenia-melhoramentos-de-bairro-de-lata-vistos-como-ocupacao-de-terra-nubios\/","title":{"rendered":"QU\u00c9NIA: melhoramentos de bairro de lata vistos como ocupa\u00e7\u00e3o de terra \u2013  N\u00fabios"},"content":{"rendered":"<p>NAIROBI, 12\/10\/2009 &ndash; Os vizinhos abandonaram a \u00e1rea h\u00e1 uma semana, mas Fatuma Abou est\u00e1 sentada e encostada \u00e0 porta de lat\u00e3o da sua barraca em Kibera, com um \u2018hijab\u2019 na cabe\u00e7a e o queixo pousado sobre os joelhos, e uma express\u00e3o de desafio na cara quando olha para cima. <!--more--> Vive na zona \u201cOriental do Soweto\u201d, em Kibera, h\u00e1 20 anos. Tenciona ali ficar com os seus tr\u00eas filhos. A hist\u00f3ria de Abou \u00e9 hist\u00f3rica e cultural, e semelhante \u00e0 hist\u00f3ria do resto da comunidade n\u00fabia em Kibera \u2013 entrela\u00e7ada com o medo de perder direitos sobre a terra, solidariedade comunit\u00e1ria e rendimento, benef\u00edcios herdados da primeira gera\u00e7\u00e3o de N\u00fabios que criaram ra\u00edzes nesta \u00e1rea. Em 2003, a Coliga\u00e7\u00e3o Nacional Arco-\u00cdris ingressou no governo ap\u00f3s elei\u00e7\u00f5es. Mwai Kibaki tornou-se presidente e Raila Odinga \u2013 na altura, como agora, deputado representando o enorme bairro de lata de Kibera, em Nairobi \u2013 foi nomeado Ministro das Estradas e Obras P\u00fablicas. O governo anunciou um plano para transformar o bairro de lata num sub\u00farbio residencial moderno. Agora, em Setembro de 2009, os primeiros residentes, aproximadamente 150 fam\u00edlias, mudaram da sombria zona \u201cOriental do Soweto\u201d, a um quil\u00f3metro do vale da Barragem de Nairobi, para um novo local; essa mudan\u00e7a faz parte da primeira fase do projecto para os transferir para novas casas de maior densidade populacional. A teimosia de Abou espelha os argumentos que t\u00eam sido usados pela comunidade n\u00fabia em geral que vive em Kibera, segundo os quais vivem nesta \u00e1rea h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, e o facto de encararem aquela \u00e1rea como terra ancestral. Em Junho, quando o governo anunciou que mais de 1.000 residentes de Kibera iriam mudar para novas casas, alguns residentes do bairro de lata \u2013 especialmente os senhorios \u2013 opuseram-se \u00e0 mudan\u00e7a, dizendo que essa desloca\u00e7\u00e3o os privaria do seu sustento. Chegaram mesmo a apresentar queixa no tribunal para contestar a decis\u00e3o. Al\u00e9m de ir a tribunal para discutir o programa de transfer\u00eancia residencial, patrocinado pelo governo, o Conselho dos Anci\u00e3os N\u00fabios do Qu\u00e9nia, que representa a comunidade a n\u00edvel nacional, exprimiu d\u00favidas que o programa de melhoramento tenha algum impacto em termos de desenvolvimento. Os anci\u00e3os afirmam que o programa \u00e9 um estratagema do governo para confiscar a sua terra, tal \u201ccomo o fizeram em programas de melhoramento da \u00e1rea semelhantes.\u201d \u201cQuando os nossos antepassados chegaram aqui. em 1900, para ajudar os ingleses a lutarem contra os soldados alem\u00e3es, receberam esta terra em recompensa em 1914, depois de uma campanha bem sucedida contra os agressores,\u201d afirmou o Secret\u00e1rio Geral do Conselho, Ibrahim Diab. Referindo-se a Kibera pelo seu nome n\u00fabio, acrescentou, \u201cEsta \u00e9 a hist\u00f3ria de Kibra, e pedimos que seja respeitada.\u201d Os anci\u00e3os conseguiram que o resto da terra lhes fosse entregue ao abrigo de um documento de propriedade comunal: a Escritura do Trust de Caridade do Conselho dos Anci\u00e3os N\u00fabios do Qu\u00e9nia. <\/p>\n<p>Defender a posse da terra Numa entrevistra \u00e0 IPS, Issa Abdul-Farai e o Secret\u00e1rio General, Ibrahim Diab rejeitaram o programa de melhoramento. \u201cO programa de melhoramento dos bairros de lata n\u00e3o \u00e9 coisa nova. Come\u00e7ou em 1962, com oito fases planeadas. Mas, infelizmente, em todas estas fases, as autoridades usaram os N\u00fabios para angariar dinheiro para os projectos mas, no final do processo, os fundos foram distribu\u00eddos para fins comerciais,\u201d explicou Adbul-Faraj. Os dois dirigentes comunit\u00e1rios chamaram a este melhoramento um \u201cnot\u00e1vel plano\u201d, devido \u00e0 confisca\u00e7\u00e3o da terra dos N\u00fabios, situa\u00e7\u00e3o que tem continuado ao longo de administra\u00e7\u00f5es sucessivas desde a de Jomo Kenyatta. presidente queniano e fundador do pa\u00eds. Citaram como exemplo Nyayo Highrise, outra \u00e1rea residencial perto da zona \u201cOriental do Soweto\u201d, constru\u00edda nos anos 80 ao abrigo da mesma causa de melhoramento dos bairros de lata, mas que acabou por ser usada para alojar uma comunidade da classe m\u00e9dia. \u201cO regime de Moi tamb\u00e9m cercou um enorme peda\u00e7o de terra que pertence aos N\u00fabios para construir o Liceu Feminino Moi, do outro lado da estrada. Este \u00e9 o tipo de coisa que d\u00e1 legitimidade ao pedido para nos deixarem em paz na nossa terra,\u201d disse Abdul-Farai, de 70 anos. Segundo Diab (53), um verdadeiro sistema de melhoramento de Kibra \u2013 nome que deu origem a Kibera, que quer dizer \u201cfloresta verde\u201d na l\u00edngua n\u00fabia \u2013 devia envolver a comunidade, que considera ser a quinta gera\u00e7\u00e3o a viver na \u00e1rea, antes do projecto ser apresentado. \u201cQuando os nossos antepassados vieram para aqui, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1900, para ajudarem os ingleses na sua luta contra os soldados alem\u00e3es, acabaram por receber esta terra em recompensa em 1914, depois de uma campanha bem sucedida contra os agressores. Esta \u00e9 a hist\u00f3ria por detr\u00e1s de Kibra e que n\u00f3s queremos que seja respeitada\u201d, disse Diab, fazendo eco da determina\u00e7\u00e3o de Abou de n\u00e3o mudar para as novas casas. &#8220;Inicialmente, os 4.195 acres de terra eram uma kuxuriante e deslumbrante floresta verde, contendo animais selvagens, e \u00e1gua pot\u00e1vel. Mas vejam o que resta agora \u2013 s\u00f3 conseguimos ver 780 acres de bairros de lata e sujidade,\u201d concluiu Abdul-Faraj, com um olhar de raiva nos olhos. No entanto, os anci\u00e3os conseguiram, mediante grandes esfor\u00e7os, que o resto da terra lhes fosse entregue, ao abrigo de um t\u00edtulo de propriedade comunal: a Escritura do Trust de Caridade do Conselho dos Anci\u00e3os N\u00fabios do Qu\u00e9nia. \t<\/p>\n<p>&#8220;Em 2007, escrevemos ao President Kibaki, exprimindo a nossa preocupa\u00e7\u00e3o quanto ao facto de a maior parte da nossa terra em Kibera ter sido confiscada. Pedimos-lhe que providenciasse os recursos que nos possibilitariam receber o t\u00edtulo de propriedade comunal, pedido que respondeu de forma positiva atrav\u00e9s de um emiss\u00e1rio,\u201d afirmou o presidente do conselho, Issa Abdul-Faraj. \u201cEstamos \u00e0 espera desse t\u00edtulo de propriedade\u201d. <\/p>\n<p>Quando a IPS visitou o local onde as 150 fam\u00edlias foram realojadas, a maior parte dos novos ocupantes parecia contente com a mudan\u00e7a, apesar de ter havido problemas no in\u00edcio. <\/p>\n<p>\u201cTer uma casa permanente \u00e9 como ver um sonho realizado depois de muitos anos. Nunca pens\u00e1mos que pod\u00edamos ter esta vida,\u201d afirmou alegremente Anne Wanjiru \u2013 antiga senhoria.<\/p>\n<p>Wanjiru era propriet\u00e1ria de 10 quartos individuais na zona \u201cOriental do Soweto\u201d, que alugava por uma quantia equivalente a $4.70 cada um. Tem poupan\u00e7as que vai usar para montar uma mercearia para suplementar o neg\u00f3cio de aluguer de quartos a que perdeu direito. Wanjiru \u00e9 um dos residentes que os anci\u00e3os n\u00fabios apelidam de \u201cpoliticamente correctos\u201d, afirmando tamb\u00e9m que a essa situa\u00e7\u00e3o se deve o facto de conseguirem terra de forma f\u00e1cil e \u201cilegal\u201d. <\/p>\n<p>Wanjiru est\u00e1 preocupada com a falta de electricidade e \u00e1gua corrente, mas j\u00e1 recebeu garantias das autoridades. <\/p>\n<p>&#8220;Uma equipa da Companhia de Luz e Electricidade do Qu\u00e9nia esteve aqui, e garantiu-nos que ir\u00edamos ter electricidade em breve,\u201d acrescentou. <\/p>\n<p>Abdul-Faraj rejeitou pessoas como Wanjiru como senhorios oportunistas que n\u00e3o s\u00e3o genu\u00ednos. Disse ainda que, provavelmente, ela era uma das pessoas que iria regressar ao bairro de lata. <\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, Abou faz parte dos senhorios que n\u00e3o est\u00e3o preparados para abandonar a vida que conseguiram estabelecer na zona \u201cOriental do Soweto\u201d. Esta m\u00e3e n\u00fabia \u00e9 dona de duas outras barracas constru\u00eddas para ela pelos seus pais. O aluguer de um quarto custa $4.70.<\/p>\n<p>\u201cDepois de ter nascido o meu primeiro filho, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que n\u00e3o podia continuar a viver com os meus pais. Eles constru\u00edram esta casa para mim e ainda outras duas, com as quais ganho a vida. N\u00e3o estou preparada para come\u00e7ar uma nova vida com estranhos,\u201d ela disse. <\/p>\n<p>Muitos est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de Abou. Aqueles que concordaram falar \u00e0 IPS disseram que os filhos j\u00e1 se estavam a preparar para os exames escolares do fim do ano e, por isso, n\u00e3o queriam ser transferidos. <\/p>\n<p>Mas um funcion\u00e1rio superior do Minist\u00e9rio da Habita\u00e7\u00e3o disse \u00e0 IPS que o governo tinha acordado com l\u00edderes locais providenciar transporte para os seus filhos, de forma a evitar a interrup\u00e7\u00e3o dos estudos. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para que ningu\u00e9m use a escola como desculpa para n\u00e3o seguir em frente com o realojamento. A Senhora Ministra (Soita Shitanda) j\u00e1 chegou a um acordo com os l\u00edderes da \u00e1rea no que diz respeito \u00e0 provis\u00e3o de ve\u00edculos para transportar as crian\u00e7as todos os dias. No fim de contas, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria,\u201d uma fonte an\u00f3nima disse \u00e0 IPS. <\/p>\n<p>Como parte da primeira fase do projecto, o novo local \u00e9 um \u201clocal de realojamento tempor\u00e1rio\u201d, onde os residentes ter\u00e3o de viver antes de eventualmente regressaram \u00e0s suas novas casas em Kibera. Mas os l\u00edderes c\u00edvicos est\u00e3o divididos quanto \u00e0 transfer\u00eancia de pessoas. <\/p>\n<p>O vereador do bairro Lindi, Adam Babu, um N\u00fabio, apoia aqueles que se op\u00f5em ao realojamento, afirmando que o uso dos jovens e da pol\u00edcia para tentar for\u00e7ar os residentes era um abuso de direitos individuais, enquanto que o seu hom\u00f3logo no bairro de Laini Saba, Samson Owino \u2013 onde se iniciou a primeira fase do processo de realojamento \u2013 atribu\u00edu alguma da resist\u00eancia \u00e0 interfer\u00eancia pol\u00edtica, tendo tamb\u00e9m apelado ao governo que demonstrasse compreens\u00e3o nos seus esfor\u00e7os para realojar os residentes mais resistentes. <\/p>\n<p>James Otieno, um inquilino \u00e0 espera da segunda fase do programa, cujo in\u00edcio \u00e9 esperado em Novembro, tem receio que, nas zonas onde existem propriedades mais caras, os pre\u00e7os sejam mais elevados do que em Kibera, onde a comida \u00e9 barata. <\/p>\n<p>\u201cAqui, podemos comprar duas colheres de a\u00e7\u00faucar pelo m\u00f3dico pre\u00e7o de dois xelins ($0.28). Outros produtos b\u00e1sicos como farinha, folhas de ch\u00e1, \u00f3leo para cozinhar e sab\u00e3o s\u00e3o mais acess\u00edveis,\u201d disse. <\/p>\n<p>A renda nas zonas mais caras vai ser $7 d\u00f3lares por m\u00eas e os inquilinos v\u00e3o tamb\u00e9m pagar $4.70 pela electricidade e $2.80 pela \u00e1gua canalizada, servi\u00e7os a que n\u00e3o tinham acesso na zona \u201cOriental do Soweto\u201d. <\/p>\n<p>Os receios de que novos ocupantes ocupem as casas recentemente abandonadas em Kibera, criando problemas para o eventual plano de redimensionamento \u2013 foram rejeitados pelo presidente da C\u00e2mara de Nairobi, Geoffrey Majiwa; a sua c\u00e2mara \u00e9 um importante parceiro do projecto que faz parte do Programa Nacional de Melhoramento dos Bairros de Lata do Qu\u00e9nia. <\/p>\n<p>\u201cJuntamente com o Ministro da Habita\u00e7\u00e3o, empregamos jovens de ao abrigo da Iniciativa Kazi Kwa Vijana (\u201cemprego para os jovens\u201d, em sua\u00edli), visando proteger as casas vazias daqueles que tencionam voltar a ocup\u00e1-las,\u201d disse o presidente da C\u00e2mara. <\/p>\n<p>Kibera \u00e9 uma zona de tens\u00e3o pol\u00edtica no Qu\u00e9nia. A \u00e1rea dos bairros de lata alberga membros dos 42 grupos \u00e9tnicos do pa\u00eds e a sua proximidade da capital aumenta o seu significado pol\u00edtico. Tamb\u00e9m est\u00e1 perto da linha de caminho de ferro Qu\u00e9nia-Uganda, com mais de 100 anos, que transporta produtos para a \u00c1frica Oriental e Central.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NAIROBI, 12\/10\/2009 &ndash; Os vizinhos abandonaram a \u00e1rea h\u00e1 uma semana, mas Fatuma Abou est\u00e1 sentada e encostada \u00e0 porta de lat\u00e3o da sua barraca em Kibera, com um \u2018hijab\u2019 na cabe\u00e7a e o queixo pousado sobre os joelhos, e uma express\u00e3o de desafio na cara quando olha para cima. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/quenia-melhoramentos-de-bairro-de-lata-vistos-como-ocupacao-de-terra-nubios\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":580,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5646","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5646","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/580"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5646"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5646\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5646"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5646"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5646"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}