{"id":5647,"date":"2009-10-13T08:20:31","date_gmt":"2009-10-13T08:20:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5647"},"modified":"2009-10-13T08:20:31","modified_gmt":"2009-10-13T08:20:31","slug":"malawi-colheitas-excedentarias-mas-estamos-a-passar-fome-agricultores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/malawi-colheitas-excedentarias-mas-estamos-a-passar-fome-agricultores\/","title":{"rendered":"MALAWI: colheitas excedent\u00e1rias, mas estamos a passar fome \u2013 Agricultores"},"content":{"rendered":"<p>BLANTYRE, 13\/10\/2009 &ndash; Num pa\u00eds onde as colheitas de milho excedent\u00e1rias enchem os armaz\u00e9ns nacionais at\u00e9 ao limite, Ida e Montfort Salijeni, agricultores, e os seus quatro filhos come\u00e7aram a a comer tub\u00e9rculos selvagens. <!--more--> A pouca sorte da fam\u00edlia Salijeno assenta no facto de ter plantado uma cultura \u2013 o algod\u00e3o \u2013 que n\u00e3o conseguiu vender. <\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica fam\u00edlia de agricultores com dificuldades para sobreviver, visto que em todo o pa\u00eds existem outros agricultores de algod\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o id\u00eantica. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que muitos atribuem ao governo, que tem estado em desacordo permanente com os compradores sobre os pre\u00e7os m\u00ednimos.<\/p>\n<p>Uma vez que os compradores acham que os pre\u00e7os prescritos pelo governo s\u00e3o demasiado elevados, muitos decidiram simplesmente n\u00e3o comprar algod\u00e3o este ano. Esta decis\u00e3o significa que a fam\u00edlia Salijeno tem de alimentar-se \u00e0 base de tub\u00e9rculos selvagens. \u201cN\u00e3o tenho outra alternativa sen\u00e3o procurar estes (tub\u00e9rculos). Tenho de alimentar os meus filhos. Se pudesse vender o meu algod\u00e3o, teria dinheiro para comprar milho,\u201d disse Montfort, descascando um tub\u00e9rculo com forma de batata que encontrou no mato perto de sua casa em Chingale, Zomba, no sul do Malawi. <\/p>\n<p>Chingale est\u00e1 localizada numa \u00e1rea que muitas vezes tem chuvas insuficientes. Embora o Malawi tenha produzido colheitas de milho excedent\u00e1rias, em resultado do subs\u00eddio destinado a insumos agr\u00edcolas introduzido pela administra\u00e7\u00e3o do Presidente Bingu wa Mutharika, em 2005, Chingale n\u00e3o tem colhido muito milho devido \u00e0 seca. <\/p>\n<p>Mas a \u00e1rea \u00e9 uma das principais regi\u00f5es produtoras de algod\u00e3o no Malawi. De acordo com a popula\u00e7\u00e3o local, a elevada produ\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o e boas vendas neutralizaram os efeitos da baixa produ\u00e7\u00e3o de milho. O algod\u00e3o tem trazido dinheiro muito necess\u00e1rio, permitindo \u00e0s fam\u00edlias comprar milho de outras zonas. <\/p>\n<p>Mas, este ano, a maior parte dos agricultores diz que n\u00e3o vendeu um \u00fanico quilo de algod\u00e3o, na sequ\u00eancia do desacordo entre governo e compradores sobre os pre\u00e7os.<\/p>\n<p>O governo do Malawi fixou o pre\u00e7o m\u00ednimo do algod\u00e3o em 54 c\u00eantimos por quilo, mas os compradores s\u00f3 ofereceram 30 c\u00eantimos, afirmando que a crise financeira mundial reduzira a procura e, consequentemente, os pre\u00e7os. O governo recusou ceder. Sustenta que os agricultores de algod\u00e3o s\u00e3o explorados h\u00e1 muito tempo e merecem ter bons retornos pelo seu trabalho. <\/p>\n<p>O desacordo sobre os pre\u00e7os levou os grandes compradores, como a Cargill, que encerrou alguns dos seus escrit\u00f3rios no Malawi, a retirarem-se das principais \u00e1reas produtoras de algod\u00e3o. <\/p>\n<p>Desde que o per\u00edodo de vendas come\u00e7ou em Abril, os compradores de algod\u00e3o n\u00e3o t\u00eam visitado Chingale, e as fam\u00edlias locais est\u00e3o agora desesperadas, visto que agora se aproxima a fome. No passado, a maior parte dos agricultores no Malawi vendia o seu algod\u00e3o at\u00e9 Julho. Com a aproxima\u00e7\u00e3o das chuvas, os agricultores de Chingale receiam que todas as suas culturas fiquem estragadas. <\/p>\n<p>\u201cEstamos num beco sem sa\u00edda, porque nem sequer temos os recursos para transportar o nosso algod\u00e3o at\u00e9 aos compradores. Se as primeiras chuvas chegarem no pr\u00f3ximo m\u00eas, toda esta cultura de algod\u00e3o vai aprodrecer aqui, e os nossos esfor\u00e7os ser\u00e3o em v\u00e3o. Se a situa\u00e7\u00e3o se mantiver, n\u00e3o vai demorar muito para que comecemos a falar de mortes causadas pela fome,\u201d afirmou Davison Mbayisa, um dos 42 membros de um clube de agricultores de algod\u00e3o, e pai de sete filhos. <\/p>\n<p>O clube, que beneficiou do subs\u00eddio destinado a insumos agr\u00edcolas na \u00faltima esta\u00e7\u00e3o, colheu oito toneladas, mas ainda precisa de as vender. Um outro clube numa aldeia vizinha colheu sete toneladas e, tal como acontece com o clube em Chingale, ainda n\u00e3o vendeu a sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida que se aproxima a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, o nosso desespero aumenta, porque a \u00e9poca das chuvas \u00e9 dif\u00edcil. Exige muito, incluindo alimentos e insumos agr\u00edcolas,\u201d disse o chefe de uma aldeia na zona, que \u00e9 membro de um clube com 64 agricultores. <\/p>\n<p>Oa agricultores desejam agora que o governo tivesse aceitado o pre\u00e7o mais baixo oferecido pelos compradores. <\/p>\n<p>\u201cSabemos que o governo queria proteger-nos e permitir que tiv\u00e9ssemos lucro com o nosso algod\u00e3o, mas agora n\u00e3o temos alternativa. Gostar\u00edamos que aqueles que podem comprar o nosso algod\u00e3o a pre\u00e7o mais baixo venham comprar o nosso produto, porque sen\u00e3o vamos morrer de fome,\u201d disse Ida Salijeni. <\/p>\n<p>A fome chega a Chingale de forma mais dura durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, porque o acesso \u00e0 zona \u00e9 dif\u00edcil, mesmo com cami\u00f5es; as actividades que rendem dinheiro diminuem devido \u00e0 m\u00e1 condi\u00e7\u00e3o da estrada que liga a \u00e1rea \u00e0s principais cidades de Blantyre e Zomba. <\/p>\n<p>Grant Nyongolo (28 anos) anda de bicicleta durante quatro horas, duas vezes por semana, para chegar a Bantyre, onde compra milho, que depois vende na sua terra de origem. Mas, depois das chuvas come\u00e7arem, este neg\u00f3cio p\u00e1ra; os rios a transbordar de \u00e1gua e o dif\u00edcil terreno impedem Nyongolo de continuar a utilizar este caminho. <\/p>\n<p>Nyongolo vive numa aldeia a apenas uma hora de dist\u00e2ncia do entreposto da Admarc, a companhia paraestatal cerel\u00edfera do Malawi, mas o entreposto n\u00e3o tem milho durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, porque \u00e9 bastante dif\u00edcil os cami\u00f5es provenientes dos armaz\u00e9ns desta companhia paraestatal chegarem a esta \u00e1rea. <\/p>\n<p>\u201cAqui enfrentamos a fome todos os anos porque, na altura em que mais precisamos de alimentos, o entreposto n\u00e3o tem nada. Depois das pessoas venderem o seu algod\u00e3o, compram milho antecipadamente e preparam-se para a esta\u00e7\u00e3o das chuvas. Agora que as vendas de algod\u00e3o pioraram, n\u00e3o sei o que vai acontecer \u00e0s pessoas nesta \u00e1rea,\u201d disse Nyongolo, que \u00e9 pai de dois filhos.<\/p>\n<p>A chefe de uma aldeia pr\u00f3xima partilha a sua preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas v\u00e3o morrer aqui. Se n\u00e3o fosse o programa de alimenta\u00e7\u00e3o escolar (que oferece papa de aveia \u00e0s crian\u00e7as na escola), as coisas agora seriam terr\u00edveis para algumas das crian\u00e7as na aldeia,\u201d disse. <\/p>\n<p>Falando com a IPS sobre o impasse da venda de algod\u00e3o, a Vice-Secret\u00e1ria da Agricultura, Erica Maganga, referiu-se a uma anterior declara\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9ri, dizendo que o governo tinha licenciado alguns compradores que estavam preparados para comprar o algod\u00e3o a 54 c\u00eantimos por quilo, afirmando tamb\u00e9m que os agricultores iriam vender a sua produ\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o \u201cbrevemente\u201d.<\/p>\n<p>Relativamente \u00e0 amea\u00e7a de fome, Maganga disse que o seu Minist\u00e9rio lidava apenas com a produ\u00e7\u00e3o, e encaminhou a IPS para o Departamento de Preven\u00e7\u00e3o e Gest\u00e3o de Cat\u00e1strofes, sob a al\u00e7ada do gabinete presidencial e do governo. <\/p>\n<p>Mas a Secret\u00e1ria desse Departamento, Lillian Ng&#39;oma, afirmou que o seu gabinete n\u00e3o registara qualquer pedido de ajuda proveniente da \u00e1rea de Chingale. <\/p>\n<p>\u201cTenho uma lista das zonas que vamos contactar para proporcionar ajuda, mas essa aldeia n\u00e3o faz parte da lista, e o Departamento nada pode fazer sobre esse assunto. Primeiro recebemos um parecer de um comit\u00e9 que avalia a situa\u00e7\u00e3o alimentar depois da \u00e9poca das colheitas. Sem o parecer do comit\u00e9, n\u00e3o podemos fazer nada,\u201d afirmou. <\/p>\n<p>Falando durante uma entrevista, o presidente do Sindicato dos Agricultores do Malawi, Prince Kapondamgaga, apontou a liga\u00e7\u00e3o entre culturas de rendimento e seguran\u00e7a alimentar. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se consegue (seguran\u00e7a alimentar) s\u00f3 com o facto de haver alimentos em casa. Tamb\u00e9m se consegue atrav\u00e9s de finan\u00e7as, e \u00e9 por isso que as culturas de rendimento fazem parte da seguran\u00e7a alimentar. A situa\u00e7\u00e3o ideal seria ter alimentos e dinheiro,\u201d disse Kapondamgaga. <\/p>\n<p>Acrescentou que n\u00e3o era justo que os agricultores que enfrentam dificuldades para vender o seu algod\u00e3o descrevam o Malawi como um pa\u00eds com inseguran\u00e7a alimentar, <\/p>\n<p>\u201cNo geral, o Malawi tem excesso de alimentos, embora possamos queixar-nos da entrega tardia de ajuda alimentar \u00e0s zonas onde ela \u00e9 necess\u00e1ria,\u201d explicou.<\/p>\n<p>Antes das elei\u00e7\u00f5es gerais em Maio, o Ministro das Finan\u00e7as emitiu um relat\u00f3rio afirmando que o aumento geral da produ\u00e7\u00e3o, na sequ\u00eancia das reformas agr\u00edcolas introduzidas pelo governo de Mutharika, queria dizer que os Malawianos \u2013 especialmente os que vivem nas zonas rurais \u2013 tinham conseguido aumentar o seu rendimento. <\/p>\n<p>Na sua anal\u00edse, o relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio disse que, nos \u00faltimos cinco anos, a pobreza tinha baixado 25 por cento. Quando o governo de Mutharika chegou ao poder em 2004, 52 por cento dos Malawianos viviam abaixo do limiar da pobreza, com um d\u00f3lar por dia. Segundo o relat\u00f3rio, em Dezembro de 2008, s\u00f3 40 por cento continuavam a viver abaixo do limiar da pobreza.<\/p>\n<p>Em reac\u00e7\u00e3o a este relat\u00f3rio, o governo anunciou que n\u00e3o iria incluir as culturas de rendimento, como o algod\u00e3o, na lista dos benefici\u00e1rios do subs\u00eddio destinados a insumos agr\u00edcolas nesta esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao apresentar o or\u00e7amento para 2009\/10, o Ministro das Finan\u00e7as disse que o pre\u00e7o mundial dos fertilizantes tinha baixado e que, portanto, os agricultores de culturas de rendimento tinham meios para comprar esses insumos. Mas, em resposta, alguns pequenos produtores de algod\u00e3o dizem que n\u00e3o v\u00e3o cultivar algod\u00e3o no pr\u00f3ximo ano, porque os pre\u00e7os dos insumos s\u00e3o demasiado elevados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BLANTYRE, 13\/10\/2009 &ndash; Num pa\u00eds onde as colheitas de milho excedent\u00e1rias enchem os armaz\u00e9ns nacionais at\u00e9 ao limite, Ida e Montfort Salijeni, agricultores, e os seus quatro filhos come\u00e7aram a a comer tub\u00e9rculos selvagens. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/malawi-colheitas-excedentarias-mas-estamos-a-passar-fome-agricultores\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":38,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5647","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/38"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5647"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5647\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}