{"id":5706,"date":"2009-10-23T16:30:49","date_gmt":"2009-10-23T16:30:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5706"},"modified":"2009-10-23T16:30:49","modified_gmt":"2009-10-23T16:30:49","slug":"mudanca-climatica-aumenta-a-onda-de-refugiados-ambientais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/mundo\/mudanca-climatica-aumenta-a-onda-de-refugiados-ambientais\/","title":{"rendered":"MUDAN\u00c7A CLIM\u00c1TICA: Aumenta a onda de refugiados ambientais"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 23\/10\/2009 &ndash; A civiliza\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI est\u00e1 encurralada entre o avan\u00e7o dos desertos e a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. <!--more--> Se considerarmos a superf\u00edcie de terras biologicamente produtivas habit\u00e1veis por comunidades humanas, a Terra est\u00e1 encolhendo. O aumento da densidade demogr\u00e1fica, antes causada apenas pelo crescimento da popula\u00e7\u00e3o, agora tamb\u00e9m \u00e9 alimentado pelo implac\u00e1vel avan\u00e7o dos desertos, e logo poder\u00e1 ser afetado pelo aumento previsto do n\u00edvel do mar. Na medida em que a extra\u00e7\u00e3o excessiva esgota as reservas aqu\u00edferas, milh\u00f5es mais se veem for\u00e7ados a se reassentar em busca de \u00e1gua.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o do deserto na \u00c1frica subsaariana, principalmente nos pa\u00edses do Sahel, causa o deslocamento de milh\u00f5es de pessoas, obrigando-as a seguirem para o sul ou emigrarem para a \u00c1frica do norte. J\u00e1 em 2006, uma confer\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre desertifica\u00e7\u00e3o realizada em T\u00fanis estimou que para 2020 at\u00e9 60 milh\u00f5es de pessoas poder\u00e3o emigrar da \u00c1frica subsaariana para a \u00c1frica setentrional e a Europa. Este fluxo est\u00e1 em curso h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p>Em meados de outubro de 2003, as autoridades da It\u00e1lia descobriram um barco que se dirigia a esse pa\u00eds transportando refugiados procedentes da \u00c1frica. A embarca\u00e7\u00e3o esteve \u00e0 deriva mais de duas semanas, ficou sem combust\u00edvel, alimentos e \u00e1gua. Muitos dos passageiros morreram. No come\u00e7o, os cad\u00e1veres foram jogados na \u00e1gua. Mas, ap\u00f3s algum tempo, os sobreviventes ficaram sem for\u00e7as para levantar os corpos. Deste modo, vivos e mortos compartilharam o bote. Um socorrista descreveu o que viu como \u201cuma cena do inferno de Dante\u201d Alighieri.<\/p>\n<p>Acredita-se que os refugiados eram somalianos embarcados na L\u00edbia. Mas os sobreviventes n\u00e3o revelaram seu pa\u00eds de origem para n\u00e3o serem enviados de volta. Ignora-se se eram refugiados pol\u00edticos, econ\u00f4micos ou ambientais. Estados falidos como a Som\u00e1lia expuls\u00e3o sua popula\u00e7\u00e3o por causa desses tr\u00eas fatores. Ali h\u00e1 um desastre ecol\u00f3gico, com excesso de popula\u00e7\u00e3o, excesso de pastoreio e, como consequ\u00eancia, uma desertifica\u00e7\u00e3o que destr\u00f3i sua economia pastoril. Talvez o maior fluxo de emigrantes somalianos se dirija para o I\u00eamen, outro Estado falido. Estima-se que em2008 foram 50 mil os migrantes e solicitantes de asilo que chegaram a esse pa\u00eds, 70% mais do que em 2007.<\/p>\n<p>E durante os primeiros tr\u00eas meses de 2009, o fluxo migrat\u00f3rio foi at\u00e9 30% superior ao de igual per\u00edodo do ano passado. Estes n\u00fameros simplesmente se somam \u00e0s press\u00f5es j\u00e1 insustent\u00e1veis sobre a terra e os recursos h\u00eddricos do I\u00eamen, acelerando seu declive. No dia 30 de abril de 2006, um homem que pescava nas \u00e1guas de Barbados descobriu um bote \u00e0 deriva com os cad\u00e1veres de 11 homens jovens \u201cPraticamente mumificados\u201d pelo sol e pelo sal do oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Ao aproximar-se o fim, um passageiro deixou um bilhete entre os corpos: \u201cGostaria de enviar dinheiro para minha fam\u00edlia em Basada (Senegal). Por favor, me perdoem e adeus\u201d. Aparentemente, seu autor integrava um grupo de 52 pessoas que partiram desse pa\u00eds africano \u00e0s v\u00e9speras do Natal em um bote com destino \u00e0s ilhas Can\u00e1rias, ponto usado como trampolim para a Europa. Devem ter viajado cerca de 3.200 quil\u00f4metros. A travessia terminou no mar do Caribe. Este barco n\u00e3o foi o \u00fanico, durante o primeiro fim de semana de setembro de 2006, a pol\u00edcia interceptou botes da Maurit\u00e2nia com quase 1.200 pessoas a bordo.<\/p>\n<p>Para muitos moradores de pa\u00edses da Am\u00e9rica Central, inclu\u00eddos Honduras, Guatemala, Nicar\u00e1gua e El Salvador, o M\u00e9xico costuma ser a porta de entrada para os Estados Unidos. Em 2008, as autoridades mexicanas de imigra\u00e7\u00e3o registraram 39 mil deten\u00e7\u00f5es e 89 mil deporta\u00e7\u00f5es. Na cidade de Tapachula, na fronteira entre Guatemala e M\u00e9xico, homens jovens em busca de trabalho esperam ao longo das vias f\u00e9rreas um lento trem de carga que atravessa a cidade em sua rota para o norte. Alguns conseguem subir, outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>O abrigo Jes\u00fas, o Bom Pastor abriga 25 amputados que perderam o equil\u00edbrio e ca\u00edram sob um trem quando tentavam abord\u00e1-lo. Para esses jovens, \u201ceste \u00e9 o fim de seu sonho americano\u201d, disse a diretora do abrigo, Olga S\u00e1nchez Martinez. Outra volunt\u00e1ria dessa institui\u00e7\u00e3o, Flor Maria Rigoni, qualificou os emigrantes que tentam subir nos tr\u00eas de \u201ckamikazes da pobreza\u201d. Hoje \u00e9 comum encontrar cad\u00e1veres nos litorais de It\u00e1lia, Espanha e Turquia. S\u00e3o cad\u00e1veres de migrantes desesperados.<\/p>\n<p>A cada dia, muitos mexicanos arriscam a vida no deserto do Arizona, tentando conseguir trabalho nos Estados Unidos. Em m\u00e9dia, cerca de cem mil, ou mais, abandonam anualmente suas \u00e1reas rurais, onde aram terras muito pequenas ou muito afetadas pela eros\u00e3o para que possam obter seu sustento. Dirigem-se a cidades mexicanas ou tentam cruzar ilegalmente a fronteira para os Estados Unidos. Muitos dos que tentam atravessar o deserto do Arizona morrem sob o sol abrasador. Desde 2001, a cada ano s\u00e3o encontrados, em m\u00e9dia, 200 cad\u00e1veres ao longo da fronteira do Estado do Arizona.<\/p>\n<p>Com a vasta maioria dos 2,4 bilh\u00f5es de pessoas que se somar\u00e3o ao mundo at\u00e9 2050 nascendo em pa\u00edses onde os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos j\u00e1 est\u00e3o diminuindo, \u00e9 prov\u00e1vel que os refugiados h\u00eddricos se tornem um fen\u00f4meno comum. Ser\u00e3o encontrados mais comumente em regi\u00f5es \u00e1ridas e semi-\u00e1ridas, cuja popula\u00e7\u00e3o esgota o fornecimento de \u00e1gua e afunda na pobreza hidrol\u00f3gica. As aldeias do noroeste da \u00cdndia s\u00e3o abandonadas na medida em que esses len\u00e7\u00f3is de \u00e1gua se esgotam e a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tem como se abastecer. Milh\u00f5es de moradores do norte e do ocidente da China e de certas \u00e1reas do M\u00e9xico podem ter de se deslocar devido \u00e0 falta desse l\u00edquido.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o dos desertos encurrala as popula\u00e7\u00f5es em expans\u00e3o em uma \u00e1rea geogr\u00e1fica menor do que nunca. Nos anos 30, as tempestades de areia deslocaram tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas nos Estados Unidos. Agora, o deserto que avan\u00e7a nas prov\u00edncias chinesas afetadas por um fen\u00f4meno semelhante pode expulsar dezenas de milh\u00f5es. A \u00c1frica tamb\u00e9m sofre este problema. O deserto do Saara empurra as popula\u00e7\u00f5es de Marrocos, T\u00fanis e Arg\u00e9lia para o norte, em dire\u00e7\u00e3o ao mar Mediterr\u00e2neo. Em um esfor\u00e7o desesperado para adaptar a agricultura \u00e0 seca e \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o, o Marrocos reestrutura o setor com base em estudos geogr\u00e1ficos, substituindo os cultivos de cereais por vinhas e hortas que usam menos \u00e1gua.<\/p>\n<p>No Ir\u00e3, as aldeias despovoadas por culpa do avan\u00e7o dos desertos ou pela falta de \u00e1gua j\u00e1 s\u00e3o milhares. Nas proximidades de Damavand, pequeno povoado a uma hora de carro de Teer\u00e3, 88 aldeias foram abandonadas. E na medida em que o deserto se apodera do territ\u00f3rio da Nig\u00e9ria, os produtores agropecu\u00e1rios se veem obrigados a se mudar, apertados em uma \u00e1rea cada vez menor de terra produtiva. Os refugiados devido \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o costumam acabar em cidades, e muitos em assentamentos ilegais. Outros emigram.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, os desertos se expandem e obrigam as pessoas a se instalar no Brasil e no M\u00e9xico. O fen\u00f4meno no Brasil afeta 66 milh\u00f5es de hectares de terras, em boa parte concentradas no noroeste do pa\u00eds. No M\u00e9xico, com uma cota muito maior de terras \u00e1ridas e semi-\u00e1ridas, a degrada\u00e7\u00e3o da terra agr\u00edcola agora se estende a 59 milh\u00f5es de hectares. A expans\u00e3o do deserto e a escassez de \u00e1gua causam o deslocamento de milh\u00f5es de pessoas, mas a eleva\u00e7\u00e3o dos mares promete expulsar muitas mais no futuro, devido \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mundial em cidades costeiras e em deltas de rios onde se cultiva arroz.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros podem chegar a centenas de milh\u00f5es, oferecendo outra poderosa raz\u00e3o para estabilizar tanto o clima quanto a popula\u00e7\u00e3o. No final, a d\u00favida que desperta a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar \u00e9 se os governos s\u00e3o suficientemente fortes para suportar a press\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica de reassentar contingentes de popula\u00e7\u00e3o na medida em que os pa\u00edses sofrem fortes perdas de casas e f\u00e1bricas no litoral. A op\u00e7\u00e3o parece simples: reverter estes problemas ou deixar-se superar por eles. IPS\/Envolverde<\/p>\n<p>* Lester R. Brown \u00e9 fundador do Earth Policy Institute. Este artigo \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o do Capitulo 2 de seu livro \u201cPlan B 4.0: Mobilizing to save civilization\u201d (Plano B 4.0: Mobilizando-se para salvar a civiliza\u00e7\u00e3o), Nova York: W.W. Norton &#038; Company 2009, desn\u00edvel no site www.earthpolicy.org\/index.php?\/books\/pb.<\/p>\n<p> (Envolverde\/IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 23\/10\/2009 &ndash; A civiliza\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI est\u00e1 encurralada entre o avan\u00e7o dos desertos e a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/mundo\/mudanca-climatica-aumenta-a-onda-de-refugiados-ambientais\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1240,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,4],"tags":[],"class_list":["post-5706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1240"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5706\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}