{"id":5707,"date":"2009-10-23T16:33:18","date_gmt":"2009-10-23T16:33:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5707"},"modified":"2009-10-23T16:33:18","modified_gmt":"2009-10-23T16:33:18","slug":"ambiente-eua-lago-michigan-sofre-a-mudanca-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/ambiente\/ambiente-eua-lago-michigan-sofre-a-mudanca-climatica\/","title":{"rendered":"AMBIENTE-EUA: Lago Michigan sofre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p>Milwaukee, EUA, 23\/10\/2009 &ndash; O estado do tempo era ideal para nadar nas \u00e1guas do lago Michigan neste ver\u00e3o. Mas, por muitos dias, as gaivotas foram os \u00fanicos seres vivos que habitaram a praia, arrancando mexilh\u00f5es-zebra de uma lama verde e grossa que o cobria totalmente. <!--more--> A forma\u00e7\u00e3o deste raro tapete se deveu \u00e0 Cladophora, alga nativa que nos \u00faltimos anos sofreu uma metamorfose, passando de uma esp\u00e9cie de comportamento d\u00f3cil a um monstro verde que contamina \u00e1gua pot\u00e1vel e praias, e que causa obstru\u00e7\u00e3o de encanamentos de insumo industrial no lago Michigan, um dos cinco Grandes Lagos, localizados entre EUA e Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Os cientistas ainda n\u00e3o descobriram a raz\u00e3o do crescimento excessivo da Chladophora. O lago est\u00e1 t\u00e3o pressionado do ponto de vista ambiental que qualquer um, ou todos, de uma s\u00e9rie de fatores pode ser a causa, afirmam. \u201c\u00c9 f\u00e1cil ver o que ocorre. \u00c9 dif\u00edcil compreender o motivo\u201d, disse \u00e0 IPS J. Val Klump, diretor do Instituto de Tecnologia Aqu\u00e1tica e Pesquisas Ambientais de Wisconsin (conhecido pela sigla em ingl\u00eas Water, que tamb\u00e9m significa \u00e1gua) dos Grandes Lagos.<\/p>\n<p>Os principais suspeitos s\u00e3o a mudan\u00e7a clim\u00e1tica (que elevou a temperatura do lago e baixou os n\u00edveis da \u00e1gua) e as mudan\u00e7as generalizadas no ecossistema lacustre, criados pelos invasores mexilh\u00f5es-zebra e mexilh\u00f5es \u201cquagga\u201d, milh\u00f5es dos quais agora cobrem o fundo do lago. \u201cEstes sistemas s\u00e3o muito sens\u00edveis \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d, disse Klump. Esta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a Cladophora, cujo crescimento \u00e9 estimulado pelo f\u00f3sforo e por outros nutrientes, se transforma em uma planta inc\u00f4moda. Tamb\u00e9m cresceu excessivamente nos anos 60 e 70, at\u00e9 que deixou de se jogar no lago o excedente de f\u00f3sforo, produto derivado da ind\u00fastria e das casas. Com o f\u00f3sforo sob controle, a Cladophora tamb\u00e9m ficou controlada, at\u00e9 cinco anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u201cAlgo mudou\u201d, disse \u00e0 IPS Paul Horvatin, diretor de controles da federal Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Grandes Lagos, \u00e0 bordo do barco de pesquisas Lake Guardian no lago Michigan. O governo de Barack Obama se comprometeu a dar US$ 500 milh\u00f5es ao longo de 10 anos para recuperar os Grandes Lagos, e parte da primeira cota de US$ 475 milh\u00f5es ser\u00e1 usada para investigar as esp\u00e9cies invasoras, disse Horvatin. Os cinco Grandes Lagos ocupam 244 mil quil\u00f4metros quadrados, que se estendem pelos Estados Unidos e o Canad\u00e1, a apenas 2.400 quil\u00f4metros da plataforma gelada polar.<\/p>\n<p>Os lagos permitem a passagem de embarca\u00e7\u00f5es para o oceano Atl\u00e2ntico, e mant\u00eam algumas das mais ricas reservas pesqueiras comerciais do mundo. Al\u00e9m disso, cerca de 40 milh\u00f5es de pessoas recebem \u00e1gua pot\u00e1vel dos Grandes Lagos. Ao mesmo tempo, os lagos est\u00e3o contaminados com produtos qu\u00edmicos e metais pesados, particularmente os sedimentos do fundo, ap\u00f3s s\u00e9culos deindustrializa\u00e7\u00e3o. Oslagos s\u00e3o sistemas fechados e conservam os contaminantes. Estima-se que 43 ba\u00edas dos Grandes Lagos s\u00e3o lix\u00f5es altamente t\u00f3xicos. \u201cA boa noticia \u00e9 que estamos vendo uma redu\u00e7\u00e3o dos compostos qu\u00edmicos bifenilos policlorados e diclorodifeniltricloroetanos. A m\u00e1 \u00e9 que n\u00e3o diminu\u00edram o suficiente\u201d, disse Horvatin.<\/p>\n<p>Inclusive hoje, grandes quantidades de esgoto fluem de \u00e1reas urbanas como Milwaukee para o lago Michigan, por causa de drenagens sobrecarregadas durante chuvas muito fortes. Em um dia normal, 30% dos l\u00edquidos lan\u00e7ados desde Milwaukee d\u00e3o positivo nas an\u00e1lises de contamina\u00e7\u00e3o com fezes humanas, disse Klump. O lan\u00e7amento de esgoto nos lagos aumenta, na medida em que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica faz com que haja mais dias de chuvas fortes no Meio Oeste, segundo o Instituto Nelson da Universidade de Wisconsin.<\/p>\n<p>O Meio Oeste est\u00e1 esquentando em geral, com dias de calor mais extremo no ver\u00e3o, invernos mais quentes, com menos neve e menos gelo nos Grandes Lagos. Segundo o Instituto Water, agora os invernos em Wisconsin \u2013 que limita com o Lago Michigan \u2013 s\u00e3o 16 graus mais quentes do que antes de 1980. em 2030, a quantidade de neve primaveril ter\u00e1 ca\u00eddo pela metade, e o lago poder\u00e1 ficar sem gelo durante boa parte do inverno, segundo modelos do Escrit\u00f3rio Nacional de Administra\u00e7\u00e3o Oce\u00e2nica e Atmosf\u00e9rica.<\/p>\n<p>A \u00e1gua do Michigan j\u00e1 est\u00e1 58 cent\u00edmetros abaixo do normal, perto de seu menor n\u00edvel, devido \u00e0 evapora\u00e7\u00e3o causada pelo calor estival, segundo o Instituto Nelson. O lago Superior costuma ter uma cobertura gelada de 60% de sua superf\u00edcie durante a maior parte do inverno, mas atualmente esse gelo ocupa 20%, disse Klump,. \u201cO importante \u00e9 que at\u00e9 meados do final do s\u00e9culo estaremos em uma zona clim\u00e1tica diferente\u201d, acrescentou. O clima do Meio Oeste ser\u00e1 como o do Estado de Arkansas, no sul, ressaltou.<\/p>\n<p>Para o zo\u00f3logo Brina Shuter, do Minist\u00e9rio de Recursos Naturais da prov\u00edncia canadense de Ont\u00e1rio, estas mudan\u00e7as podem fazer com que peixes de \u00e1gua fria, com salm\u00e3o, truta de lago e truta de rio, se mudem para o norte, e que sejam substitu\u00eddos por peixes de \u00e1gua quente com carpa e bagre. Atualmente, a aut\u00f3ctone borboleta azul de Karner, esp\u00e9cie amea\u00e7ada que prospera no habitat natural do Parque Nacional Dunas de Indiana, no extremo sul do lago Michigan, est\u00e1 com problemas, segundo a Uni\u00e3o de Cientistas Comprometidos. A neve isola os ovos da borboleta nos invernos g\u00e9lidos, mas agora sobrevivem menos porque h\u00e1 menos neve.<\/p>\n<p>A temperatura, o n\u00edvel da \u00e1gua e outras mudan\u00e7as no lago Michigan criaram o habitat perfeito para que novas esp\u00e9cies como a totora h\u00edbrida substituam as juncas que rodeiam Green Bay, uma das reservas pesqueiras mais ricas do mundo, segundo o Instituto Water. Os mexilh\u00f5es-zebra quagg, origin\u00e1rios da R\u00fassia e da Ucr\u00e2nia, abundam no lago Michigan, a ponto de nos \u00faltimos 19 anos terem alterado drasticamente esse ecossistema. Os mexilh\u00f5es s\u00e3o agressivos comedores de filtros, e nos \u00faltimos cinco anos sua atividade mudou as \u00e1guas tipicamente barrentas e ricas em pl\u00e2ncton, clareando-as. Agora a luz penetra no lago, chegando a zonas que nunca atingira antes.<\/p>\n<p>Os mergulhadores se encantam com esta mudan\u00e7a, como a Cladophora, cujo crescimento \u00e9 estimulado pela luz. Enquanto filtram, os mexilh\u00f5es liberam altas quantidades de f\u00f3sforo, o que tamb\u00e9m pode estar ajudando no crescimento da Cladophora. A variedade quagga libera ainda mais f\u00f3sforo, na medida em que aumenta a temperatura, com vem ocorrendo no lago Michigan, disse Harvey Bootsma, cientista do Instituto Water. O pl\u00e2ncton \u00e9 uma rica fonte de alimento para muitos peixes nativos. Como os mexilh\u00f5es consomem grandes quantidades do mesmo, \u201cos peixes est\u00e3o afinando\u201d, disse Bootsma.<\/p>\n<p>Qualquer um que esteja perto de uma praia obstru\u00edda pela Cladophora pode dizer que h\u00e1 algo errado com o lago Michigan. Quando as algas se decomp\u00f5em \u201cfedem como um chiqueiro\u201d, segundo Bootsma. E isso n\u00e3o \u00e9 tudo. A quantidade de algas mortas na praia amea\u00e7a a qualidade da \u00e1gua. A corrente as arrasta e com elas chegam os mexilh\u00f5es-zebra. Gaivotas e outras aves passeiam sobre as algas, comendo os mexilh\u00f5es e depositando mat\u00e9ria fecal com altas concentra\u00e7\u00f5es de bact\u00e9rias t\u00f3xicas Escherichia coli. Todo esse caos apodrece sob o sol e cheira mal, e as bact\u00e9rias contaminam a \u00e1gua, explicou Bootsma.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros tamb\u00e9m sofrem. Em 2007, mais de 17 mil deles morreram de botulismo, causado por um bacilo que habitualmente vive em pequenas quantidades na areia do lago, sem causar danos, mas que os mexilh\u00f5es concentram, disse Horvatin. Ele e outros pesquisadores esperam encontrar respostas logo. \u201cTentamos olhar toda a cadeia alimentar e ver como modificou com o tempo\u201d, disse. IPS\/Envolverde <\/p>\n<p>* Este artigo \u00e9 parte de uma s\u00e9rie produzida pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jornalistas Ambientais para a Alian\u00e7a de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (www.complusalliance.org).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Milwaukee, EUA, 23\/10\/2009 &ndash; O estado do tempo era ideal para nadar nas \u00e1guas do lago Michigan neste ver\u00e3o. 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