{"id":5732,"date":"2009-10-29T15:55:27","date_gmt":"2009-10-29T15:55:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5732"},"modified":"2009-10-29T15:55:27","modified_gmt":"2009-10-29T15:55:27","slug":"mocambique-o-fardo-das-mulheres-em-busca-de-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/mocambique-o-fardo-das-mulheres-em-busca-de-agua\/","title":{"rendered":"MO\u00c7AMBIQUE: O fardo das mulheres em busca de \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p>Maputo, 29\/10\/2009 &ndash; A menos de cem quil\u00f4metros da segunda maior represa da \u00c1frica, v\u00e1rias mulheres caminham com seus beb\u00eas presos \u00e0s costas e levando baldes de \u00e1gua sobre suas cabe\u00e7as. <!--more--> Avan\u00e7am lentamente, cansadas, e enquanto cai a noite desaparecem na escurid\u00e3o que tinge as vermelhas areias do deserto. \u201cFa\u00e7o este caminho desde que me casei e vim viver aqui, h\u00e1 10 anos. \u00c0s vezes tenho de enfrentar fila durante horas para conseguir \u00e1gua. A cada dois dias saio de casa \u00e0s quatro da manh\u00e3 e s\u00f3 volto a descansar quando o sol j\u00e1 se p\u00f4s\u201d, conta Benedita Cadeado, de 32 anos e m\u00e3e de tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p>Benedita caminha cerca de 20 quil\u00f4metros desde sua pequena aldeia nas proximidades de Songo para chegar ao lugar mais perto com uma torneira p\u00fablica. E depois regressa tamb\u00e9m caminhando. \u201cSempre transporte \u00e1gua com tr\u00eas recipientes de 20 litros, suficientes para abastecer minha fam\u00edlia por dois dias. Isso me obriga a descer e subir a montanha tr\u00eas vezes ao dia. J\u00e1 estou acostumada. Nos movimentamos em grupos, para a que a dist\u00e2ncia da estrada at\u00e9 minha aldeia pare\u00e7a mais curta\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Ao longo dessa mesma estrada, em meio \u00e0 floresta que envolve as montanhas de Mo\u00e7ambique atravessadas pelo rio Zambezi, se estende a majestosa Cahora Bassa. \u00c9 a segunda maior central hidrel\u00e9trica da \u00c1frica. A represa situada no distrito de mesmo nome, na prov\u00edncia de Tete, tem seus escrit\u00f3rios centrais na aldeia de Songo. Ali h\u00e1 casas com piscinas e jardins bem irrigados. Os restaurantes e os postos de combust\u00edveis se localizam ao longo de estradas asfaltadas, constru\u00eddas especialmente para dar conforte aos residentes que trabalham na represa.<\/p>\n<p>A eletricidade de Cahora Basse n\u00e3o atende toda a bacia onde fica a aldeia de Songo, e nem mesmo todo o distrito. \u201cNos disseram que produzia energia. Pensei que essa casa grande (a represa) s\u00f3 podia guardar \u00e1gua. No ano passado nos disseram que Cahora Bassa j\u00e1 n\u00e3o pertencia aos portugueses e que agora era nossa. E que por isso, finalmente, ter\u00edamos eletricidade em casa. Ainda estou esperando\u201d, contou Benedita. Em novembro de 2007, Mo\u00e7ambique assumiu o controle total da represa das m\u00e3os de Portugal, ap\u00f3s d\u00e9cadas de negocia\u00e7\u00e3o. Desde a independ\u00eancia do pa\u00eds africano em 1075, os portugueses retinham 82% do controle da usina.<\/p>\n<p>Entretanto, os moradores de Songo ainda n\u00e3o t\u00eam eletricidade. Dependem de pain\u00e9is solares, velas ou lamparinas a \u00f3leo. Ao mesmo tempo, veem como a vizinha \u00c1frica do Sul compra o que deveria ser sua eletricidade. Essa energia \u00e9 transferida ao longo de mais de mil quil\u00f4metros, enquanto a menos de cem quil\u00f4metros da central a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem luz. A \u00e1gua da represa cobre apenas uma \u00e1rea muito pequena \u00e0 sua volta. A maior parte da popula\u00e7\u00e3o de Songo usa o rio como fonte de \u00e1gua para beber e lavar.<\/p>\n<p>Na aldeia, como na maioria dos distritos em volta do rio Zambezi, a popula\u00e7\u00e3o depende da pesca e da agricultura. Esses dois meios de sobreviv\u00eancia s\u00e3o afetados quando o rio transborda, o que ocorre anualmente. Saindo de Songo, cerca de 60 quil\u00f4metros corrente abaixo, a aldeia de Changara assistir\u00e1 em 2011 a constru\u00e7\u00e3o de outra importante hidrel\u00e9trica, a de Mphanda Nkuwa. Prev\u00ea-se que essa represa ser\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para atual escassez de energia em parte da regi\u00e3o da \u00c1frica austral.<\/p>\n<p>\u201cAinda sofremos muitos apag\u00f5es. Uma represa como a de Mpanda Nkuwa em Mo\u00e7ambique ajudar\u00e1 a melhorar a distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade na regi\u00e3o\u201d, disse Phera Ramoeli, da Secretaria de \u00c1gua da Comunidade de Desenvolvimento da \u00c1frica austral (SADC), cujo mandato \u00e9 garantir uma distribui\u00e7\u00e3o justa dos recursos h\u00eddricos em toda a regi\u00e3o. A nova usina produzir\u00e1 1.350 megawatts. Mo\u00e7ambique consome cerca de 900 MW, suficientes para levar luz a 400 mil fam\u00edlias. A represa de Cahora Bassa, tamb\u00e9m no rio Zambezi, j\u00e1 gera mais de dois mil MW, principalmente fornecidos pela firma Eskom na \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>Ramoeli disse que Mphanda Nkuwa ajudar\u00e1 a prevenir inunda\u00e7\u00f5es e promover\u00e1 o desenvolvimento em \u00e1reas vizinhas ao rio. \u201cPode-se ver quanto \u00e1gua flui nas cataratas de Victoria. Precisamos encontrar maneiras de usar essa \u00e1gua em beneficio da popula\u00e7\u00e3o local. Se for bem administrada, pode impulsionar o desenvolvimento das pessoas que vivem na \u00e1rea do Zambezi\u201d, explicou Ramoeli. Mas, ambientalistas mo\u00e7ambicanos s\u00e3o contra a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica, dizendo que isto somente vai piorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o de Changara e outras aldeias do outro lado do Zambezi.<\/p>\n<p> \u201cA constru\u00e7\u00e3o da represa de Mpanda Nkuwa obrigar\u00e1 o reassentamento de mais de 1.400 pequenos agricultores aos quais foi informado muito pouco sobre sua situa\u00e7\u00e3o futura\u201d, disse a organiza\u00e7\u00e3o Justi\u00e7a Ambiental. Os ativistas afirmam que este pa\u00eds j\u00e1 tem represas suficientes que, se forem bem manejadas, podem representar ganhos consider\u00e1veis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 agora marginalizada dos benef\u00edcios da usina de Cahora Bassa. \u201cA constru\u00e7\u00e3o causar\u00e1 varia\u00e7\u00f5es no n\u00edvel do rio Zambezi, j\u00e1 afetado pela represa de Cahora Bassa, prejudicando a atividade pesqueira, o tr\u00e1fico fluvial e a agricultura na bacia, deixando a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel a desastres como secas, inunda\u00e7\u00f5es e fome\u2019, alertou Justi\u00e7a Ambiental.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m prop\u00f4s que a comunidade seja informada sobre os riscos da constru\u00e7\u00e3o de uma hidrel\u00e9trica em \u00e1rea de terremotos. A represa de Mphanda Nkuwa ser\u00e1 erguida no centro do pa\u00eds, perto do distrito de Machaze, na prov\u00edncia de Manica. Este lugar foi o epicentro de um terremoto de 7,5 graus na escala Richter em 2006. mas, \u201cn\u00e3o se pode fazer nenhuma obra sem impactos negativos\u201d, afirmou Ramoeli.<\/p>\n<p>Na SADC \u201cestamos realizando projetos com nossos engenheiros para minimizar os impactos negativos no meio ambiente local. Estes planos consideram todos os grupos da pol\u00edtica, da ci\u00eancia, da sociedade. Temos de considerar todos os aspectos que envolvem o meio ambiente e o desenvolvimento\u201d, acrescentou. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maputo, 29\/10\/2009 &ndash; A menos de cem quil\u00f4metros da segunda maior represa da \u00c1frica, v\u00e1rias mulheres caminham com seus beb\u00eas presos \u00e0s costas e levando baldes de \u00e1gua sobre suas cabe\u00e7as. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/10\/africa\/mocambique-o-fardo-das-mulheres-em-busca-de-agua\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":217,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,8,5],"tags":[21],"class_list":["post-5732","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-ambiente","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/217"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5732"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5732\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}