{"id":5754,"date":"2009-11-05T09:19:56","date_gmt":"2009-11-05T09:19:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5754"},"modified":"2009-11-05T09:19:56","modified_gmt":"2009-11-05T09:19:56","slug":"mocambique-ver-a-agua-desaparecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/africa\/mocambique-ver-a-agua-desaparecer\/","title":{"rendered":"MO\u00c7AMBIQUE: Ver a \u00e1gua desaparecer"},"content":{"rendered":"<p>MAPUTO, 05\/11\/2009 &ndash; A menos de 100 quil\u00f3metros da segunda maior barragem em \u00c1frica, as mulheres andam a p\u00e9 com os b\u00e9bes amarrados \u00e0s costas e baldes de \u00e1gua equilibrados na cabe\u00e7a. <!--more--> Caminham devagar, com corpos cansados. Quando a noite cai e a escurid\u00e3o chega \u00e0 areia vermelha da estrada poeirenta, elas desaparecem no escuro. <\/p>\n<p>&#8220;Fa\u00e7o isto desde que me casei e vim viver para aqui h\u00e0 10 anos. \u00c0s vezes tenho de esperar muitas horas na fila at\u00e9 ter acesso \u00e0 \u00e1gua. De dois em dois dias, saio de casa \u00e0s quatro horas da manh\u00e3 e s\u00f3 regresso para descansar quando o sol desaparece,\u201d explica Benedita Cadeado, de 32 anos, e m\u00e3e de tr\u00eas filhos. <\/p>\n<p>Cadeado anda perto de 20 quil\u00f3metros desde a sua pequena aldeia nos arredores do Songo at\u00e9 chegar ao lugar mais pr\u00f3ximo com \u00e1gua canalizada. E depois tem de calcorrear o caminho de regresso. <\/p>\n<p>&#8220;Tenho de levar a \u00e1gua em tr\u00eas baldes com vinte litros \u2013 o suficiente para as necessidades da minha fam\u00edlia durante dois dias. Isso obriga-me a subir e descer a montanha tr\u00eas vezes por dia. J\u00e1 estou habituada. Andamos em grupos e, assim, a dist\u00e2ncia na estrada da minha aldeia parece mais curta,\u201d acrescentou. <\/p>\n<p>Ao longo das mesma estrada, emergindo por entre a floresta verde que envolve as montanha mo\u00e7ambicanas atravessadas pelo rio Zambezi, est\u00e1 localizada a grandiosa barragem de Cahora Bassa, a segunda maior infra-estrutura h\u00eddrica e de electricidade de \u00c1frica. <\/p>\n<p>A barragem hidroel\u00e9ctrica situada no distrito de Cahora Bassa, na prov\u00edncia central de Tete, est\u00e1 perto da aldeia do Songo. <\/p>\n<p>Aqui existem casas com piscinas e jardins irrigados. Ao longo das estradas asfaltadas h\u00e1 restaurantes e esta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o, constru\u00eddos para proporcionar conforto aos residentes locais \u2013 a maior parte dos quais trabalha na barragem. <\/p>\n<p>A electricidade de Cahora Bassa n\u00e3o cobre todo o planalto da aldeia de Songo, ou at\u00e9 mesmo todo o distrito. E ainda tem de chegar a todos os distritos da prov\u00edncia de Tete. <\/p>\n<p>\u201cDisseram-nos que a barragem produz energia&#8230; pensei que a casa grande (barragem) s\u00f3 podia conter \u00e1gua. No ano passado, disseram que Cahora Bassa j\u00e1 n\u00e3o era dos portugueses mas que agora nos pertencia&#8230;e, por isso, ter\u00edamos finalmente electricidade em casa&#8230;ainda estou \u00e0 espera,\u201d explica Cadeado. <\/p>\n<p>Em Novembro de 2007, Mo\u00e7ambique assumiu o controlo total da barragem de Cahora Bassa das m\u00e3os de Portugal, terminando d\u00e9cadas de um processo negocial entre os dois pa\u00edses. <\/p>\n<p>Depois da independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique em 1975, os Portugueses entregaram o poder pol\u00edtico do pa\u00eds aos Mo\u00e7ambicanos, mas retiveram o controlo de 82 por cento da barragem. <\/p>\n<p>Contudo, dois anos depois de Cahora Bassa ter revertido a favor de Mo\u00e7ambique, as pessoas no sul, na aldeia do Songo, ainda n\u00e3o t\u00eam acesso a electricidade. Em vez disso, dependem de pain\u00e9is solares, velas ou candeeiros de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>S\u00e3o obrigadas a ver a vizinha \u00c1frica do Sul comprar aquilo que devia ser a sua electricidade. A electricidade \u00e9 transferida ao longo de mais de 1.000 quil\u00f3metros, enquanto que a menos de 100 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, as pessoas n\u00e3o t\u00eam electricidade. <\/p>\n<p>A \u00e1gua canalizada proveniente da barragem s\u00f3 cobre uma pequena \u00e1rea em seu redor. A maioria da popula\u00e7\u00e3o de Songo usa a \u00e1gua do rio como fonte de \u00e1gua pot\u00e1vel e de lavagem. <\/p>\n<p>Aqui, como acontece na maior parte do distrito de Tete em redor do rio Zambezi, a popula\u00e7\u00e3o depende da pesca e da agricultura. Ambos estes meios de sobreviv\u00eancia s\u00e3o afectados quando o Zambezi transborda as suas margens todos os anos. <\/p>\n<p>Saindo-se de Songo, a 60 quil\u00f3metros do rio, encontra-se a aldeia de Changara, que vai assistir \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um outro grande projecto hidroel\u00e9ctrico em 2011, a barragem de Mphanda Nkuwa. <\/p>\n<p>Prev\u00ea-se que a barragem de Mphanda Nkuwa ocupe uma \u00e1rea de 100 metros quadrados e acredita-se que ela poder\u00e1 representar uma solu\u00e7\u00e3o para a actual falta de electricidade em certas partes da \u00c1frica Austral. <\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s (a regi\u00e3o) temos conhecido interrup\u00e7\u00f5es de energia. Uma barragem como Mphanda Nkuwa em Mo\u00e7ambique vai ajudar a melhorar a distribui\u00e7\u00e3o de electricidade na regi\u00e3o,\u201d disse Phera Ramoeli, do Secretariado dos Recursos H\u00eddricos da SADC. <\/p>\n<p>A nova barragem vai produzir 1.350 megawatts de energia. Mo\u00e7ambique consome perto de 900 megawatts \u2013 o suficiente para iluminar 400.000 casas. A barragem de Cahora Bassa, tamb\u00e9m localizada no rio Zambezi, j\u00e1 produz mais de 2.000 megawatts de electricidade, a maioria da qual \u00e9 enviada para a Eskom, na \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>Ramoeli disse que a barragem de Mphanda Nkuwa ir\u00e1 ajudar a evitar cheias e apoiar o desenvolvimento das \u00e1reas circundantes ao rio Zambezi. <\/p>\n<p>\u201cPode ver-se a quantidade de \u00e1gua que passa pelas quedas de Vit\u00f3ria. Precisamos de encontrar uma forma de usar aquela \u00e1gua para benef\u00edcio dos habitantes locais. A \u00e1gua, se for bem gerida, pode aumentar o desenvolvimento das pessoas que vivem na \u00e1rea do Zambezi,\u201d explicou Ramoeli. <\/p>\n<p>No entanto, os activistas do meio ambiente mo\u00e7ambicanos est\u00e3o contra a constru\u00e7\u00e3o da barragem, que acreditam apenar ir\u00e1 piorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o de Changara e de outras aldeias por todo o Zambezi. <\/p>\n<p>\u201cA constru\u00e7\u00e3o da barragem de Mphanda Nkuwa vai obrigar ao reassentamento de mais de 1.400 pequenos agricultores que receberam pouqu\u00edssimas informa\u00e7\u00f5es sobre a sua situa\u00e7\u00e3o futura,\u201d disse um grupo ambientalista, a Justi\u00e7a Ambiental. <\/p>\n<p>O grupo sustenta que Mo\u00e7ambique j\u00e1 tem barragens suficientes e que, se estas forem bem geridas, podem trazer benef\u00edcios consider\u00e1veis para a popula\u00e7\u00e3o que, de acordo com o grupo, at\u00e9 agora beneficiou muito pouco da barragem de Cahora Bassa. <\/p>\n<p>\u201cA constru\u00e7\u00e3o vai causar flutua\u00e7\u00f5es no n\u00edvel do rio Zambezi, j\u00e1 afectado pela barragem de Cahora Bassa, prejudicando a actividade piscat\u00f3ria, o tr\u00e1fico fluvial e a agricultura na bacia do Zambezi, e tornando a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel a calamidades como a seca, as cheias e a fome,\u201d sustenta a Justi\u00e7a Ambiental.<\/p>\n<p>O grupo ambientalista afirma tamb\u00e9m que a comunidade local deve ser informada sobre os riscos da constru\u00e7\u00e3o de uma barragem numa zona propensa a terramotos. A barragem de Mphanda Nkuwa vai ser constru\u00edda no centro de Mo\u00e7ambique, perto do distrito de Machaze, na prov\u00edncia de Manica, epicentro do terramoto que ocorreu em 2006 e que registou 7.5 na escala de Ritcher.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o pode haver desenvolvimento sem impactos negativos,\u201d explicou Ramoeli do Secretariado dos Recursos H\u00eddricos da SADC, cujo mandato consiste em garantir uma distribui\u00e7\u00e3o justa dos recursos h\u00eddricos na regi\u00e3o da \u00c1frica Austral. <\/p>\n<p>\u201cNeste momento, n\u00f3s (a SADC) estamos realizar projectos juntamente com os nossos engenheiros, estudando a melhor forma de minimizar os impactos negativos no meio ambiente local. Esses projectos levam em linha de conta todos os grupos, pol\u00edtica, ci\u00eancia, sociedade&#8230;Temos de tomar em considera\u00e7\u00e3o todos os aspectos que envolvem o meio ambiente e o desenvolvimento,\u201d acrescentou aquele especialista da SADC.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da barragem de Mphanda Nkuwa tornou-se uma das prioridades do governo mo\u00e7ambicano.<\/p>\n<p>Num relat\u00f3rio de Dezembro de 2008, o Minist\u00e9rio da Energia de Mo\u00e7ambique descreveu a barragem \u201ccomo um dos mais importantes projectos para a produ\u00e7\u00e3o e fornecimento de electricidade para a regi\u00e3o da \u00c1frica Austral.\u201d<\/p>\n<p>O Ministro da Energia, Salvador Namburete, sublinhou o empenho do governo na constru\u00e7\u00e3o da barragem. Afirmou tamb\u00e9m que \u201co projecto iria seguir as recomenda\u00e7\u00f5es dos estudos de impacte ambiental.\u201d <\/p>\n<p>Os resultados do estudo de impacte ambiental preliminar referente \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da barragem de Mphanda Nkuwa foram entregues ao governo no in\u00edcio de Setembro. <\/p>\n<p>O documento, que ainda n\u00e3o foi tornado p\u00fablico, dever\u00e1 indicar se existem ou n\u00e3o barreiras \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o do projecto e apresentar recomenda\u00e7\u00f5es sobre aspectos de engenharia ou do meio ambiente que se devem ter em considera\u00e7\u00e3o durante o processo de constru\u00e7\u00e3o, cuja conclus\u00e3o est\u00e1 prevista at\u00e9 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAPUTO, 05\/11\/2009 &ndash; A menos de 100 quil\u00f3metros da segunda maior barragem em \u00c1frica, as mulheres andam a p\u00e9 com os b\u00e9bes amarrados \u00e0s costas e baldes de \u00e1gua equilibrados na cabe\u00e7a. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/africa\/mocambique-ver-a-agua-desaparecer\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":217,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5754","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/217"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5754"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5754\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}