{"id":5758,"date":"2009-11-05T15:59:23","date_gmt":"2009-11-05T15:59:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5758"},"modified":"2009-11-05T15:59:23","modified_gmt":"2009-11-05T15:59:23","slug":"japao-quando-o-trabalho-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/economia\/japao-quando-o-trabalho-mata\/","title":{"rendered":"JAP\u00c3O: Quando o trabalho mata"},"content":{"rendered":"<p>T\u00f3quio, 05\/11\/2009 &ndash; Kenji Hamada desabou certa manh\u00e3 sobre a mesa da empresa onde trabalhava. Seus companheiros pensavam que dormia, mas, duas horas depois, ao verem que n\u00e3o se levantava, descobriram que estava morto. <!--more--> Hamada faleceu de parada card\u00edaca aos 42 anos. A causa da morte: excesso de trabalho. Em um pa\u00eds conhecido pela press\u00e3o que sofrem os trabalhadores, o de Hamada est\u00e1 longe de ser um caso isolado. De fato, desde que este problema veio \u00e0 luz nos anos 60 e disparou o alarme, milhares de pessoas morreram por essa causa, chamada de \u201ckaroshi\u201d em japon\u00eas.<\/p>\n<p>Cerca de 800 pessoas, entre as quais a vi\u00fava de Hamada, reuniram-se no m\u00eas passado no Templo Espiritual Mikoromo Takao, em T\u00f3quio, para uma homenagem a milhares de trabalhadores que morreram devido a patologias diretamente vinculadas com a atividade trabalhista. \u201cKenji trabalhava t\u00e3o duro\u201d, contou sua vi\u00fava, Akiko. \u201cEstava muito estressado e trabalhava durante o dia e de noite\u201d, acrescentou. O ambiente profissional da companhia de seguros onde trabalhava, segundo ela, era \u201ct\u00e3o competitivo que nunca tinha uma folga\u201d. Hamada trabalhava uma m\u00e9dia de 75 horas durante a semana e gastava outras quatro para se deslocar de casa para a empresa e vice-versa.<\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es de estresse no trabalho ficam mais vis\u00edveis no contexto da crise econ\u00f4mica e financeira mundial que come\u00e7ou em 2008 nos Estados Unidos, segundo o advogado Hiroshi Kawahito, que d\u00e1 assist\u00eancia legal a familiares de vitimas de karoshi. A necessidade de aumentar as exporta\u00e7\u00f5es e a redu\u00e7\u00e3o de postos de trabalho exerce imensa press\u00e3o sobre os empregados, ressaltou Kawahito.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o econ\u00f4mica obrigou muitas empresas a reduzirem o n\u00famero de empregados, e menos pessoas devem realizar mais tarefas, o que s\u00f3 agravou a incid\u00eancia de \u201ckaroshi\u201d, segundo Weston Konishi, membro da Funda\u00e7\u00e3o Mansfield, com sede em Washington. O advogado teme que o fen\u00f4meno ganhe uma nova forma: o suic\u00eddio. \u201cIsto \u00e9 algo novo\u201d, afirmou. \u201cH\u00e1 20 anos, as paradas card\u00edacas ou as apoplexias eram express\u00f5es do karoshi\u201d, destacou.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia de Planejamento Econ\u00f4mica estimou em 1994 que cerca de mil pessoas morreram devido a patologias trabalhistas, isto \u00e9, 5% dos mortos por doen\u00e7as cardiovasculares com idades entre 25 e 59 anos. A grande mudan\u00e7a agora \u00e9 que os empregados tiram suas vidas, insistiu Kawahito. Dos mais de 30 mil suic\u00eddios registrados no ano passado, segundo dados oficiais, acredita-se que 10 mil estivessem relacionados com o estresse no trabalho. \u201cOs trabalhadores sofrem cada vez mais estresse, o que deriva em problemas psicol\u00f3gicos como depress\u00e3o, e alguns acabam se matando\u201d, explicou o advogado.<\/p>\n<p>O \u201ckaroshi\u201d remonta ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o Jap\u00e3o se prop\u00f4s conseguir uma r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o e em menos de 20 anos se converteu na segunda economia do mundo. Os japoneses se esfor\u00e7aram tanto que no final da d\u00e9cada de 60 trabalhavam 12 horas por dia, ou mais, o que na \u00e9poca era considerado normal. O primeiro caso de karoshi foi registrado em 1969, quando um homem casado, de 29 anos, morreu vitima de apoplexia, ap\u00f3s trabalhar mais de 40 dias sem descanso no departamento de distribui\u00e7\u00e3o do maior jornal do pa\u00eds, segundo o site Japan-101.<\/p>\n<p>Pesquisa feita no ano passado pela Rengo, a confedera\u00e7\u00e3o sindical japonesa, indica que 53% dos entrevistados sofriam cada vez mais estresse. Muitos disseram que o excesso de trabalho os irritava e em alguns causava problemas f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos. Os japoneses continuam trabalhando muitas horas, t\u00eam c\u00f3digos trabalhistas r\u00edgidos, estruturas hier\u00e1rquicas r\u00edgidas, n\u00e3o dormem muito nem dedicam tempo ao lazer, disse Kawahito \u00e0 IPS. Precisam mudar seu estilo de vida, insistiu, o que se v\u00ea com mais assiduidade nas gera\u00e7\u00f5es mais jovens, segundo o advogado. Os jovens n\u00e3o levam as coisas t\u00e3o a s\u00e9rio e parecem menos inclinados a morrer vitimas de patologias trabalhistas. Parecem gozar a vida, acrescentou. Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 estudos que mostram qual grupo et\u00e1rio tem maior tend\u00eancia ao karoshi.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio do Trabalho, da Sa\u00fade e do Bem-estar reconhece que h\u00e1 doen\u00e7as causadas pelo estresse do trabalho. Em 1999, a pasta criou uma norma para determinar a responsabilidade das empresas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as profissionais de seus empregados, que inclui desde enfermidades card\u00edacas e cerebrais at\u00e9 estresse. O padr\u00e3o a que se refere esta \u00faltima foi revisado este ano. Mas isso n\u00e3o basta para reverter a incid\u00eancia das mortes causadas pelo excesso de trabalho. \u201cO governo somente v\u00ea uma parte do problema\u201d, disse Kawahito. \u201cNa verdade, apenas mil suic\u00eddios foram atribu\u00eddos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, quando a quantidade real girou em torno dos 10 mil\u201d no ano passado, acrescentou.<\/p>\n<p>V\u00e1rios advogados, m\u00e9dicos e outros especialistas criaram em 1988 uma linha telef\u00f4nica gratuita para ajudar pessoas que sofrem de alguma doen\u00e7a profissional e as que perderam familiares por essa causa. O servi\u00e7o recebeu oito mil chamadas desde sua funda\u00e7\u00e3o. O karoshi \u00e9 um dos problemas que os japoneses n\u00e3o querem enfrentar porque tem a ver com quest\u00f5es que s\u00e3o tabu, como o estresse, a cultura opressiva do ambiente de trabalho, que praticamente impede os empregados de dizerem a um superior quando se sentem esgotados pela atividade, disse Konishi, da Funda\u00e7\u00e3o Mansfield.<\/p>\n<p>\u201cAs conven\u00e7\u00f5es sociais do Jap\u00e3o impedem que o assunto receba a aten\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria\u201d, disse Konishi \u00e0 IPS. Com todo o conhecimento t\u00e9cnico acumulado, este pa\u00eds n\u00e3o consegue se beneficiar dele, em especial no ambiente de trabalho. \u201cAinda se faz muita coisa no papel e n\u00e3o no computador\u201d, afirmou. Al\u00e9m disso, a assist\u00eancia psicol\u00f3gica, que pode ser de grande utilidade para os trabalhadores submetidos a grandes press\u00f5es, \u00e9 uma pr\u00e1tica incipiente no Jap\u00e3o, acrescentou. Em alguns casos, pode n\u00e3o ser necess\u00e1rio um tratamento prolongado e complexo, bastando apenas criar um espa\u00e7o para o trabalhador liberar a ang\u00fastia reprimida. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00f3quio, 05\/11\/2009 &ndash; Kenji Hamada desabou certa manh\u00e3 sobre a mesa da empresa onde trabalhava. 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