{"id":5765,"date":"2009-11-10T07:30:00","date_gmt":"2009-11-10T07:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5765"},"modified":"2009-11-10T07:30:00","modified_gmt":"2009-11-10T07:30:00","slug":"zambia-pescar-em-auas-agitadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/africa\/zambia-pescar-em-auas-agitadas\/","title":{"rendered":"Z\u00c2MBIA: Pescar em \u00e1uas agitadas"},"content":{"rendered":"<p>LUSAKA, 10\/11\/2009 &ndash; Em duas d\u00e9cadas de pesca no Zambeze, Darius Wamulume nunca viu nada assim. Apresentando les\u00f5es profundas e tecidos decompostos, o peixe que apanhou recentemente \u00e9 muito pouco apetitoso e o seu consumo \u00e9 duvidoso. <!--more--> &#8220;A primeira vez que vi este peixe at\u00e9 tive medo de tocar nele; nunca tinha visto peixe a apodrecer equanto ainda estava vivo na \u00e1gua. Tive medo da sua apar\u00eancia e rezei para que fosse a \u00faltima vez que via tal coisa.\u201d <\/p>\n<p>N\u00e3o foi.<\/p>\n<p>Wamalume n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico pescador a apanhar peixe contaminado. Mais de 700.000 pessoas dependem do Zambeze para seu sustento. As comunidades piscat\u00f3rias ao longo do rio assistiram ao esgotamento das popula\u00e7\u00f5es de peixes ao longo dos anos devido a m\u00e9todos de pesca errados, mas o aparecimento de uma doen\u00e7a mortal causada por um fungo, o s\u00edndroma ulceroso epizo\u00f3tico (SUE), \u00e9 uma nova amea\u00e7a para a vida ao longo deste rio com 2.700 quil\u00f3metros. <\/p>\n<p>Wamalume, pai de dez filhos, ganhava perto de 20 d\u00f3lares num bom dia antes do SUE aparecer na Z\u00e2mbia, em 2008. Num pa\u00eds onde mais de 70 por cento da popula\u00e7\u00e3o vive com menos de um d\u00f3lar por dia, era rico. <\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mudou este ano. Com as popula\u00e7\u00f5es de peixes a diminuirem, a contamina\u00e7\u00e3o levou-o a n\u00e3o ganhar o suficiente para enviar quatro filhos para a escola secund\u00e1ria. Mandou os tr\u00eas filhos mais novos para casa de familiares para que estes tomassem conta deles. Pela primeira vez na vida, a fam\u00edlia \u201caprendeu o que era a fome\u201d,<\/p>\n<p>\u201cPrimeiro, notei que tinha de ir mais longe e mais fundo na \u00e1gua para apanhar peixe. Os peixes come\u00e7aram a ficar mais pequenos; compreendi que o excesso de pesca e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o a causa desta situa\u00e7\u00e3o, mas esta (doen\u00e7a) \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>S\u00edndroma ulceroso epizo\u00f3tico <\/p>\n<p>Acredita-se que o SUE \u00e9 causado por \u00e1guas mais quentes devido a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Foi visto pela primeira vez na Nam\u00edbia em 2006 e, desde ent\u00e3o, tem estado a infiltrar-se na bacia do rio Zambeze, matando os peixes e amea\u00e7ando dizimar 20 variedades de peixe, incluindo a tilapia, alimento b\u00e1sico na Z\u00e2mbia. A doen\u00e7a tamb\u00e9m constitui uma amea\u00e7a noutros sete pa\u00edses da SADC que partilham a mesma bacia, como Angola, Nam\u00edbia, Botswana, Zimbabwe, Tanz\u00e2nia, Malawi e Mo\u00e7ambique. <\/p>\n<p>A Z\u00e2mbia, onde est\u00e3o localizados dois ter\u00e7os da bacia do rio Zambeze, \u00e9 o pa\u00eds mais afectado pelo SUE. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO) j\u00e1 avisou que milh\u00f5es de pessoas que vivem no vale do rio Zambeze se encontram em risco de inseguran\u00e7a alimentar, visto que o peixe n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 a \u00fanica fonte de rendimento em muitos distritos rurais, mas tamb\u00e9m a fonte proteica mais barata.<\/p>\n<p>O sector das pescas contribui 3.8 por cento para a economia nacional, sendo o quarto maior empregador na Z\u00e2mbia, depois dos sectores da explora\u00e7\u00e3o mineira, agricultura e recursos florestais. <\/p>\n<p>De acordo com um relat\u00f3rio recente sobre o sector das pescas publicado pelo Centro Jesu\u00edta para Pesquisa Teol\u00f3gica (JCTR), a procura de peixe h\u00e1 muito que ultrapassou a oferta. A produ\u00e7\u00e3o anual de peixe entre 2000 e 2007 variou entre 80.000 e 85.000 toneladas m\u00e9tricas, muito abaixo da procura anual nacional, estimada em 120.000 toneladas m\u00e9tricas por ano. <\/p>\n<p>O relat\u00f3rio afirma que o impacto devastador do SUE vai aumentar ainda mais o fosso entre a oferta e procura e pede uma interven\u00e7\u00e3o urgente por parte do governo. <\/p>\n<p>Resposta limitada<\/p>\n<p>O progn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 bom. Em primeiro lugar, a pesquisa \u00e9 dificultada pela pequena dota\u00e7\u00e3o or\u00e7amental concedida \u00e0 ind\u00fastria da pesca. Funcion\u00e1rios do departamento de pescas afirmam que, apesar dos seus repetidos e urgentes pedidos de financiamento adequado, isso n\u00e3o tem acontecido. As dota\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas ao departamento de pescas foram reduzidas de 1.9 milh\u00f5es de d\u00f3lares em 2008 para 851.000 d\u00f3lares em 2009. <\/p>\n<p>\u201cA ind\u00fastria pesqueira, apesar do seu enorme potencial para superar a pobreza e fome, \u00e9 infelizmente ignorada. Nunca h\u00e1 dinheiro suficiente para fazer aplicar pol\u00edticas e legisla\u00e7\u00e3o destinadas \u00e0 protec\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es de peixes, nem vai existir dinheiro para mitigar os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas,\u201d afirmou Peter Mhango, funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Agricultura que se reformou recentemente, e que agora opera um barco de pesca no rio Zambeze, na prov\u00edncia do Noroeste da Z\u00e2mbia. <\/p>\n<p>Isaac Phiri, professor no campo da pecu\u00e1ria e Secret\u00e1rio Permanente no Minist\u00e9rio das Pescas, tem not\u00edcias ainda mais deprimentes. Diz que controlar o SUE em \u00e1guas naturais, como os rios, \u00e9 quase imposs\u00edvel. <\/p>\n<p>\u201cTent\u00e1mos fazer experi\u00eancias com tratamentos, mas mesmo se encontarmos o tratamento apropriado para este problema, como \u00e9 que vamos aplic\u00e1-lo nesta massa de \u00e1gua t\u00e3o grande? Se se tratassem de opera\u00e7\u00f5es de piscicultura, seria mais simples minimizar ou impedir o seu alastramento porque, nesse caso, poderia reduzir-se o volume de \u00e1gua e melhorar a sua qualidade, mas aqui estamos a falar da bacia do Zambeze.\u201d <\/p>\n<p>Acrescentou que o SUE \u00e9 sazonal, ocorrendo normalmente na \u00e9poca das chuvas e, portanto, os pescadores devem preparar-se para uma nova ronda desta epidemia. Os cientistas n\u00e3o conseguiram definir exactamente o que causa o fungo nas \u00e1guas. Quando o primeiro surto surgiu, pensou-se que o SUE se formava no tempo frio, altura em que o peixe se desloca para \u00e1guas mais profundas, onde existe menos oxig\u00e9nio.<\/p>\n<p>\u201cMas isto \u00e9 especula\u00e7\u00e3o; pensamos agora que \u00e9 resultado do aquecimento global, mas ainda temos de verificar se \u00e9 assim. Se nem sequer conseguimos identificar a causa, como \u00e9 que podemos contar com um tratamento?\u201d<\/p>\n<p>Quando o SUE apareceu em 2007, Ben van der Waal, um bi\u00f3logo marinho do Projecto de Gest\u00e3o Integrada dos Recursos Piscat\u00f3rios do rio Zambeze \/ Chobe, afirmou que a elimina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a era imposs\u00edvel \u201cagora que estava num ambiente natural.\u201d <\/p>\n<p>Avisou que iria levar muitos anos para que houvesse uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a e que, entretanto, as perdas de peixe seriam \u201ccolossais\u201d, avan\u00e7ando o exemplo da \u00c1sia, onde decorreram cerca de 20 anos antes do surto baixar para n\u00edveis end\u00e9micos.<\/p>\n<p>Reduzir o impacto<\/p>\n<p>Phiri explica que os peritos da regi\u00e3o da SADC est\u00e3o a tentar formular programas de monitoria da doen\u00e7a e mitigar o seu impacto, em conformidade com os protocolos da SADC sobre \u00e1guas partilhadas. <\/p>\n<p>\u201cEstamos a trabalhar com os nossos colegas na Namibia e pa\u00edses vizinhos afectados pelo SUE no sentido de encontrar solu\u00e7\u00f5es ou pelo menos mitigar o impacto.\u201d <\/p>\n<p>Uma investigadora no campo da veterin\u00e1ria, Martha Ngumbo, afirma que existem outras raz\u00f5es para uma ind\u00fastria das pescas em decl\u00ednio. <\/p>\n<p>\u201cO SUE constitui apenas um dos (problemas). Temos problemas mais graces como excesso de pesca, m\u00e1s praticas, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a impossibilidade de fazer aplicar a legisla\u00e7\u00e3o que controla as pescas. Precisamos de mudar de foco. Vamos esperar que a doen\u00e7a desapare\u00e7a e, entretanto, temos de encontrar formas alternativas de pescar.\u201d<\/p>\n<p>Ela explicou que 15 milh\u00f5es de hectares na Zambia est\u00e3o cobertos por lagos, rios, p\u00e2ntanos e riachos, e que o pa\u00eds \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 45 por cento de todos os recursos hidr\u00edcos da SADC.<\/p>\n<p>Com um recurso natural t\u00e3o grande, Ngumbo sugere que se deve aumentar o investimento na aquacultura, refor\u00e7ando a infra-estrutura de marketing de forma a satisfazer a procura de peixe a n\u00edvel local, e melhorando as capacidades t\u00e9cnicas dos pescadores que usam met\u00f3dos de pesca artesanais, especialmente em \u00e1reas como aquacultura e constru\u00e7\u00e3o de reservat\u00f3rios para peixe. \u201cA Z\u00e2mbia tem o potencial para se tornar um enorme exportador de peixe. Temos de desenvolver esta capacidade.\u201d<\/p>\n<p>Wamalume afirma que os pescadores como ele deviam ter acesso a empr\u00e9stimos, subs\u00eddios ou cr\u00e9dito, permitindo-lhes construir reservat\u00f3rios de peixe e sobreviver durante os per\u00edodos de proibi\u00e7\u00e3o da pesca que se prev\u00ea que ocorram no futuro. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o posso esperar at\u00e9 que se encontre um solu\u00e7\u00e3o para esta doen\u00e7a. Preciso de comer agora, os meus filhos precisam de ser educados agora.\u201d<\/p>\n<p>*Esta artigo faz parte de uma s\u00e9rie de reportagens sobre desenvolvimento sustent\u00e1vel feitas pela IPS \u2013 Inter Press Service e IFEJ \u2013 Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jornalistas do Meio Ambiente, para a Alian\u00e7a de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (www.complusalliance.org).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LUSAKA, 10\/11\/2009 &ndash; Em duas d\u00e9cadas de pesca no Zambeze, Darius Wamulume nunca viu nada assim. 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