{"id":5774,"date":"2009-11-10T13:49:14","date_gmt":"2009-11-10T13:49:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5774"},"modified":"2009-11-10T13:49:14","modified_gmt":"2009-11-10T13:49:14","slug":"paraguai-lideranca-de-mulheres-indigenas-um-valor-em-alta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/america-latina\/paraguai-lideranca-de-mulheres-indigenas-um-valor-em-alta\/","title":{"rendered":"PARAGUAI: Lideran\u00e7a de mulheres ind\u00edgenas, um valor em alta"},"content":{"rendered":"<p>Assun\u00e7\u00e3o, 10\/11\/2009 &ndash; Animam-se, organizam-se e ganham espa\u00e7os. No Paraguai, a lideran\u00e7a das mulheres ind\u00edgenas cresce dentro de suas comunidades e ganha novo protagonismo nacional, por sua luta pelos direitos de seus povos e contra a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5774\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/mujeres_indigenas_cortesiaONG_Tierraviva1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5774\" class=\"size-medium wp-image-5774\" title=\"Estela Maris \u00c1lvarez - Cortes\u00eda Tierraviva\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/mujeres_indigenas_cortesiaONG_Tierraviva1.jpg\" alt=\"Estela Maris \u00c1lvarez - Cortes\u00eda Tierraviva\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5774\" class=\"wp-caption-text\">Estela Maris \u00c1lvarez - Cortes\u00eda Tierraviva<\/p><\/div>  Estela Maris Alvarez \u00e9 uma das mulheres que decidiram enfrentar os obst\u00e1culos, os maus-tratos e as discrimina\u00e7\u00f5es, dentro e fora de sua comunidade. \u201cPara conseguir ser respeitada como l\u00edder agora, sofri muito antes\u201d, confessou \u00e0 IPS. Alvarez pertence \u00e0 etnia enxet, assentada no Chaco paraguaio, e vive na comunidade La Herencia, 340 quil\u00f4metros a noroeste da capital, no ocidente do pa\u00eds. \u00c9 uma comunidade formada por seis aldeias, onde residem 610 fam\u00edlias e cerca de 1.800 pessoas, sendo 600 mulheres adultas, boa parte chefes de fam\u00edlia. Alvarez, de 40 anos, separada e com dois filhos para cuidar, exerce a medicina natural h\u00e1 10 anos. \u00c9 auxiliar de enfermagem e atende os casos de sa\u00fade que se apresentam pr\u00f3ximos a ela. \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil uma mulher tomar decis\u00f5es em um povoado ind\u00edgena\u201d, disse, ao recordar que quando j\u00e1 se perfilava como dirigente n\u00e3o era convidada para as grandes reuni\u00f5es dos caciques, \u201cmas, mesmo assim, eu ia\u201d. Para a trabalhadora social L\u00edvia Ruiz, que fez pesquisas nas comunidades do baixo Chaco como a de La Herencia, a lideran\u00e7a das mulheres ind\u00edgenas come\u00e7ou a ser vis\u00edvel a partir da maior presen\u00e7a nos espa\u00e7os externos de suas respectivas comunidades. \u201cDentro das comunidades, a lideran\u00e7a feminina para realizar a\u00e7\u00f5es que t\u00eam a ver com seu povo \u00e9 muito alta, mas os caciques continuam sendo, em sua grande maioria, homens\u201d, disse a integrante da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Tierraviva, que atende os direitos ind\u00edgenas paraguaios, especialmente das localidades do Chaco. Inclusive o governamental Instituto Nacional do Ind\u00edgena (Indi) restringe aos homens o reconhecimento de lideran\u00e7as, denunciou Alvarez, \u201cquando deveria ajudar a fortalecer a participa\u00e7\u00e3o das mulheres\u201d. \u201cQuando as mulheres ind\u00edgenas reclamam junto ao Indi a favor de nossos direitos ou por problemas concretos que nos afetam, nos respondem que n\u00e3o somos caciques, e n\u00e3o nos atendem\u201d, ressaltou. A realidade subjacente nos povoados ind\u00edgenas do Chaco \u00e9 a exist\u00eancia de caciques com atitudes muito autorit\u00e1rias e violentas, destacou Alvarez. \u201cJulgam-se no direito de decidir sobre a vida da comunidade, pelo fato de serem caciques\u201d, resumiu. Dentro dessa conduta patriarcal, a viol\u00eancia contra as mulheres se mant\u00e9m como uma situa\u00e7\u00e3o recorrente e aceita nas comunidades ind\u00edgenas. \u201cS\u00e3o pr\u00e1ticas que geram discrimina\u00e7\u00e3o, que por mais que fa\u00e7am parte da cultura das comunidades devem ser erradicadas\u201d, destacou. Como l\u00edder comunit\u00e1ria, sua postura n\u00e3o deixa d\u00favidas. \u201cOs direitos das mulheres ind\u00edgenas devem ser defendidos at\u00e9 mesmo acima dos interesses das comunidades\u201d, porque, al\u00e9m disso, a seu ver, \u00e9 falso que se deva optar entre eles. Alvarez recordou o homic\u00eddio de duas nativas m`bya guarani em meados de outubro, em um assentamento do departamento de San Pedro, o de maior \u00edndice de pobreza do pa\u00eds. Ambas foram torturadas at\u00e9 a morte em sua comunidade por serem consideradas bruxas, e em raz\u00e3o desse crime est\u00e3o presos o cacique local e mais tr\u00eas implicados no caso. \u201cN\u00f3s mulheres precisamos nos unir, porque somente n\u00f3s poderemos lutar para acabar com essas pr\u00e1ticas dentro de nossas comunidades\u201d e que um caso assim n\u00e3o se repita, disse a dirigente enxet. Alvarez arrancou com perseveran\u00e7a o direito de reuni\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das mulheres em sua comunidade e a faculdade de participar e opinar nas assembl\u00e9ias de La Herencia. Ao mesmo tempo, saem de seu entorno para trocar experi\u00eancias e criar redes com mulheres de outros povoados origin\u00e1rios, com situa\u00e7\u00f5es similares. La Herencia, como boa parte das comunidades ind\u00edgenas paraguaias, vive da agricultura de subsist\u00eancia e do trabalho assalariado nas fazendas da regi\u00e3o, onde os homens conseguem US$ 100 mensais como pe\u00f5es, e as mulheres menos da metade no servi\u00e7o dom\u00e9stico. As mulheres tamb\u00e9m conseguem algum dinheiro com seu trabalho de artesanato, al\u00e9m de cuidarem da casa e trabalhar na terra da fam\u00edlia. Atualmente, a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no Paraguai chega a 108. 308 pessoas, das quais 49,1% s\u00e3o mulheres. Os habitantes origin\u00e1rios representam cerca de 2% do total nacional, em um pa\u00eds majoritariamente mesti\u00e7o e onde o guarani, l\u00edngua ancestral, \u00e9 de uso generalizado.<\/p>\n<p>Ruim na comunidade, pior fora dela<\/p>\n<p>A discrimina\u00e7\u00e3o que as mulheres sofrem dentro das comunidades indig\u00eancias n\u00e3o diminui fora de seus territ\u00f3rios ancestrais. Pelo contr\u00e1rio, se refor\u00e7a e amplia quando convivem com o resto da sociedade paraguaia. \u201cFora de nossas comunidades sofremos rejei\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Estado nos discrimina\u201d, denunciou Alvarez. De fato, a origem \u00e9tnica determina uma das formas de desigualdade no pa\u00eds, que se traduz em aspectos essenciais que segregam os povos ind\u00edgenas, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, emprego e moradia digna, segundo o informe \u201cEquidade para o desenvolvimento\u201d, publicado em 2008 pelo Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento. Alguns exemplos s\u00e3o dados pela Pesquisa Domiciliar Ind\u00edgena 2008. nos lares da popula\u00e7\u00e3o originaria, apenas 1,4% t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, 38,9% dos ind\u00edgenas com mais de 15 anos s\u00e3o analfabetos e apenas quatro em cada 10 conclu\u00edram o segundo ano do ensino b\u00e1sico. No caso de Alvarez, apesar de h\u00e1 11 anos ser volunt\u00e1ria na \u00e1rea da sa\u00fade comunit\u00e1ria, seu trabalho n\u00e3o \u00e9 reconhecido pelas institui\u00e7\u00f5es governamentais do setor. \u201cAs mulheres ind\u00edgenas sofrem dupla discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e9 cotidiano\u201d, afirmou. \u201cQuero que nossa voz seja ouvida, que o Estado e a sociedade nos respeitem pelo que somos, que nos d\u00eaem nosso lugar\u201d, disse Alvarez, que integra a Comiss\u00e3o Povos e Comunidades Ind\u00edgenas do Chaco Parabguaio CPI \u2013 Chaco Py, como uma das refer\u00eancias comunit\u00e1rias. Ruiz destacou que as ind\u00edgenas se organizam de forma crescente em associa\u00e7\u00f5es locais ou redes, que lhes permitem maior protagonismo. Uma dessas entidades \u00e9 a Coordenadora Nacional de Organiza\u00e7\u00f5es de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Ind\u00edgenas, que em abril realizou um encontro nacional de mulheres ind\u00edgenas. Essa reuni\u00e3o serviu de trampolim para um novo reconhecimento e respeito para o tecido de associa\u00e7\u00f5es nascidas para defender seus direitos. \u201cAs mulheres ind\u00edgenas ainda lutam para sobreviver e suas reclama\u00e7\u00f5es objetivam isso, os aspectos b\u00e1sicos de subsist\u00eancia\u201d, disse Ruiz, reconhecendo que a luta pelos espa\u00e7os de igualdade de g\u00eanero \u00e9 incipiente. Nas atividades que desenvolve dentro de sua comunidade, Alvarez trabalha especialmente com mulheres e jovens e se sente animada porque \u201cagora vejo os frutos do sacrifico dos \u00faltimos seis anos\u201d. Um desses frutos \u00e9 o tratamento que recebe dos demais membros de sua comunidade, bem como o reconhecimento dos direitos femininos fundamentais. La Herencia, asseguro, deu passos que n\u00e3o s\u00e3o freq\u00fcentes em outras aldeias. \u201cPosso dizer que os homens agora nos respeitam, mas, n\u00e3o foi f\u00e1cil conseguir isso e \u00e9 muito dif\u00edcil manter\u201d, ressaltou. Considerou fundamental que os esfor\u00e7os sejam colocados no acompanhamento e na capacita\u00e7\u00e3o das mulheres ind\u00edgenas, como paineis de planejamento familiar e alternativas trabalhistas, para enfrentar as necessidades que afetam as comunidades. Para Alvarez, \u201ca esperan\u00e7a j\u00e1 chegou\u201d, embora falta tanto por fazer. \u201cHoje me sinto orgulhosa quando vejo que as mulheres da minha comunidade j\u00e1 n\u00e3o sofrem o que sofri\u201d. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assun\u00e7\u00e3o, 10\/11\/2009 &ndash; Animam-se, organizam-se e ganham espa\u00e7os. 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