{"id":5780,"date":"2009-11-11T13:02:52","date_gmt":"2009-11-11T13:02:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5780"},"modified":"2009-11-11T13:02:52","modified_gmt":"2009-11-11T13:02:52","slug":"mulheres-colombia-terra-e-dignidade-se-recuperam-juntas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/america-latina\/mulheres-colombia-terra-e-dignidade-se-recuperam-juntas\/","title":{"rendered":"MULHERES-COL\u00d4MBIA: terra e dignidade se recuperam juntas"},"content":{"rendered":"<p>Natagaima, Col\u00f4mbia, 11\/11\/2009 &ndash; Mulheres camponesas e ind\u00edgenas colombianas no sul do departamento de Tolima d\u00e3o uma ajuda \u00e0 in\u00f3spita terra que as rodeia para recuperar, ao mesmo tempo, seu ecossistema e sua dignidade, em um esfor\u00e7o conjunto que mudou seu entorno e suas vidas.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5780\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/ClaudinaLoaiza_HeldaMartinezIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5780\" class=\"size-medium wp-image-5780\" title=\" - Helda Mart\u00ednez\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/ClaudinaLoaiza_HeldaMartinezIPS1.jpg\" alt=\" - Helda Mart\u00ednez\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5780\" class=\"wp-caption-text\"> - Helda Mart\u00ednez\/IPS<\/p><\/div>  M\u00e3os de Mulher \u00e9 o nome da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que desde 2001 opera em Natagaima, uma localidade situada 114 quil\u00f4metros ao sul de Ibagu\u00e9, capital do departamento, e onde 900 mulheres da comunidade pijao cultivam a terra usando sementes amig\u00e1veis com o ecossistema e sem aplicar agroqu\u00edmicos.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 nove anos, a terra ao redor da minha propriedade era amarelada. Via-se apenas uma ou outra arvorezinha solit\u00e1ria\u201d, recordou \u00e0 IPS Claudina Loaiza, que participa do projeto desde seu in\u00edcio.<\/p>\n<p>O projeto se desenvolve em 56 veredas (vilas rurais), municipalidades e reservas ind\u00edgenas pijaos que formam seis munic\u00edpios, com sede em Natagaima, 225 quil\u00f4metros a sudoeste de Bogot\u00e1.<\/p>\n<p>A chamada regi\u00e3o pijao \u00e9 o habitat ao qual se viu reduzido este povo amer\u00edndio que antes se espalhava por diferentes \u00e1reas do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, o compartilha com moradores brancos e mesti\u00e7os e, de fato, apenas parte das camponesas do projeto \u00e9 de ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u00c9 um territ\u00f3rio que faz divisa com um vizinho invasor, o deserto de La Tatacoa, onde alguma vez houve uma grande floresta tropical, que M\u00e3os de Mulher colabora para regenerar com variadas a\u00e7\u00f5es, a fim de deter o avan\u00e7o do deserto e faz\u00ea-lo retroceder.<\/p>\n<p>\u201cQuando me afastei do pai dos meus filhos, por causa de seus v\u00edcios de beberr\u00e3o e mulherengo, comecei minha horta caseira que me deu for\u00e7a\u201d, assegura Loaiza com brilho nos olhos enquanto apresenta sua filha e uma sobrinha, que tamb\u00e9m trabalham na consolida\u00e7\u00e3o dos cultivos.<\/p>\n<p>\u201cSou das que preferem estar sozinhas do que mal acompanhadas de um homem\u201d, continuou Loaiza antes de descrever como cercou sua horta de um hectare com 144 metros com arame.<\/p>\n<p>\u201cSentia, e continuo sentindo, muito orgulho porque plant\u00e1vamos feij\u00e3o, mel\u00e3o, banana, mandioca, milho, verduras&#8230; de tudo&#8230; e sem usar veneno, s\u00f3 o adubo que preparamos para fertilizar e recuperar a terra\u201d, explicou.<\/p>\n<p>\u201cNo ver\u00e3o (\u00e9poca seca no tr\u00f3pico) racion\u00e1vamos a \u00e1gua e reg\u00e1vamos aos poucos, assim conseguimos belos mel\u00f5es\u201d, disse, antes de se definir e pedir para ser definida como camponesa ind\u00edgena. E continuou com vivacidade detalhando como, por exemplo, aprendeu a usar fezes de gado como adubo e a folha de mandioca e da bananeira para manter a umidade.<\/p>\n<p>\u201cCom a enxada confirm\u00e1vamos que a terra estava \u00famida onde jog\u00e1vamos adubo org\u00e2nico. Alegrava-nos e surpreendia. Comprov\u00e1vamos tamb\u00e9m que onde havia lixo, mesmo quando chovia, a terra se mantinha seca\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Loaiza \u00e9 apenas um exemplo do entusiasmo que sentem muitas das integrantes da M\u00e3os de Mulher pelas mudan\u00e7as que causaram na terra e em sua produ\u00e7\u00e3o, em um processo do qual no total at\u00e9 agora participaram 1.100 camponesas.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s das mulheres h\u00e1 um homem<\/p>\n<p>Em Natagaima, tamb\u00e9m mora Javier M\u00fanera, gestor e coordenador da M\u00e3os de Mulher, um economista que prefere ser reconhecido como ativista da seca. M\u00fanera chegou \u00e0 regi\u00e3o para desenvolver um aqueduto em Coyaima, em uma \u00e9poca de seca devido ao fen\u00f4meno El Nino, em 1998.<\/p>\n<p>Contava com recursos da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Am\u00e9rica Espanha, Solidariedade e Coopera\u00e7\u00e3o (Aesco), dirigida por Yolanda Villavicencio, colombo-equatoriana com ancestrais na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Villavicencio sabia da falta de \u00e1gua pot\u00e1vel em sua regi\u00e3o, por isso lutou por recursos para a constru\u00e7\u00e3o de um aqueduto, gra\u00e7as ao qual conseguiu a cidadania espanhola em 1994. Desde 2008 \u00e9 deputada pela regional Assembl\u00e9ia de Madri, na Espanha.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o de Villavicencio e a a\u00e7\u00e3o de M\u00fanera tornaram poss\u00edvel o aqueduto com economia em materiais equivalente a US$ 10.500 no c\u00e2mbio atual, que \u201cse converteram em di\u00e1rias para 400 fam\u00edlias\u201d, recordou o ativista \u00e0 IPS. Aquele projeto foi a semente que germinou pela M\u00e3os de Mulher, que partiu do reconhecimento da import\u00e2ncia de deter a eros\u00e3o desde La Tatacoa, no limite de Tolima e no departamento sulino de Huila.<\/p>\n<p>\u201cUm deserto constru\u00eddo por seres humanos. Nos \u00faltimos cinco mil anos foi floresta seca tropical, com \u00e1rvores de at\u00e9 15 metros de altura\u201d, explicou M\u00fanera. \u201cN\u00e3o h\u00e1 deserto em La Tatacoa. \u00c9 uma zona xerof\u00edtica muito seca e em acelerado processo de eros\u00e3o com grandes sistemas de fossos\u201d, insistiu.<\/p>\n<p>De fato, ap\u00f3s a conquista espanhola, foram formadas na regi\u00e3o fazendas de gado da ordem cat\u00f3lica dos jesu\u00edtas. \u201cNada mais depredador do que a pecu\u00e1ria, empurrando os colonos selva adentro\u201d, afirmou M\u00fanera, que antes trabalhou na quest\u00e3o no departamento amaz\u00f4nico de Caquet\u00e1, no sudeste do pa\u00eds. Por essa raz\u00e3o, ele insiste em demonstrar o perigo da regi\u00e3o imediatamente pr\u00f3xima a La Tatacoa, com extens\u00e3o total de 330 quil\u00f4metros quadrados e crescimento anual de 1,5%.<\/p>\n<p>Enquanto o fen\u00f4meno avan\u00e7a, M\u00fanera sonha com dia em que se conseguir\u00e1 \u201cter de volta a floresta em troca desta \u00e1rea desertificada\u201d e o tamanho de seu desejo o faz sentir que o obtido em quase uma d\u00e9cada de esfor\u00e7o \u00e9 pouco. \u201cSemeamos cerca de 600 mil \u00e1rvores, mas, junto com o ambientalista Mario Mej\u00eda calculamos que s\u00e3o necess\u00e1rios 16 milh\u00f5es para deter o avan\u00e7o do deserto desde o sul de Natagaima, at\u00e9 Guamo na parte norte, passando Coyaima, Ortega, sul de Chaparral, oeste de Alpujarra, Dolores, Prado e Purificaci\u00f3n\u201d, descreveu M\u00fanera.<\/p>\n<p>Mas em Natagaima esses n\u00fameros n\u00e3o relativizam o compromisso das mulheres, para as quais vale mais o conhecimento adquirido e as melhorias concretas em seu entorno e em suas vidas. No dia em que a IPS acompanhou as atividades de uma dezena delas, n\u00e3o pararam de trocar conceitos e dados sobre agricultura e ecologias.<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o faltam problemas. As hortas oscilam entre um, meio ou um quarto de hectare, o que representa grandes esfor\u00e7os em pequenas \u00e1reas, enquanto o governo est\u00e1 praticamente ausente da iniciativa at\u00e9 agora e n\u00e3o h\u00e1 sinais de que isso se modificar\u00e1.<\/p>\n<p>Na hora dos resultados que transcendem a produ\u00e7\u00e3o, M\u00fanera recordou com nostalgia Aracelly Botache, uma das pioneiras do projeto e uma l\u00edder nata, j\u00e1 falecida, que pouco depois de come\u00e7ar a funcionar a semeadura lhe disse convencida: \u201cAqui o clima mudou\u201d. E estava certa, a planta\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores diminuiu a temperatura, em uma regi\u00e3o onde oscila entre 30 e 40 graus cent\u00edgrados.<\/p>\n<p>Aos avan\u00e7os para o meio ambiente soma-se a autoafirma\u00e7\u00e3o feminina. \u201cTemas duros\u201d, disse M\u00fanera, enquanto citava casos como o de \u201cuma senhora que nos contou como o marido lhe batia todos os s\u00e1bados depois de tomar chicha\u201d, uma bebida de milho fermentado de origem ind\u00edgena.<\/p>\n<p>\u201cDisse-nos que quando o homem tomava o primeiro gole, ela j\u00e1 sentia a dor do golpe que receberia mais tarde. At\u00e9 que um dia, j\u00e1 sendo s\u00f3cia da M\u00e3os de Mulher, pensou: quem poder\u00e1 mais, o b\u00eabado ou eu, s\u00f3bria\u201d, disse M\u00fanera.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, o enfrentou, e foi o suficiente. \u00c9 a autoafirma\u00e7\u00e3o que conseguem as mulheres que se atrevem a sair a campo, trabalhar por elas mesmas, saberem-se autossuficientes\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>M\u00e3os de Mulher funciona atualmente com recursos das ag\u00eancias internacionais de coopera\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica na Irlanda e na Inglaterra e Gales, Tr\u00f3caire e Cafod, respectivamente.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia encontra apoios pontuais em institui\u00e7\u00f5es estatais, com a Corpora\u00e7\u00e3o Aut\u00f4noma de Tolima, Corpora\u00e7\u00e3o de Pesquisa Agropecu\u00e1ria ou a universidade regional. O apoio limita-se a \u201cum interc\u00e2mbio de saberes: eles fornecem o acad\u00eamico e n\u00f3s a experi\u00eancia, a viv\u00eancia das pessoas\u201d, disse M\u00fanera.<\/p>\n<p>Dentro do projeto, acontecem paineis a cada 15 dias, em m\u00e9dia, onde se utiliza e discute material audiovisual relacionado com composi\u00e7\u00e3o de solos, ciclos da \u00e1gua, nitrog\u00eanio, f\u00f3sforo, carbono, agroecoelogia ou educa\u00e7\u00e3o ambiental, entre muitos outros. \u00c9 uma capacita\u00e7\u00e3o que motiva as camponesas a sonharem como o que disse \u00e0 IPS Elcy Lozano, com cinco anos de participa\u00e7\u00e3o na M\u00e3os de Mulher.<\/p>\n<p>\u201cMudar a consci\u00eancia das pessoas. Pensarmos em construir, n\u00e3o em destruir. Esse \u00e9 meu desejo di\u00e1rio. Porque a pecu\u00e1ria cria desertos e os desertos v\u00e3o aumentando e isso nos afeta muit\u00edssimo. Precisamos que n\u00e3o avance mais, e que, pelo contr\u00e1rio, possamos reviver a regi\u00e3o\u201d, disse enf\u00e1tica.<\/p>\n<p>A queixa se concentrou no quase inexistente apoio do governo, que nem mesmo recolhe o lixo com regularidade. \u201cEnt\u00e3o, se queimamos \u00e9 ruim, mas se vai acumulando acaba nos rios\u201d, lamentou, antes de dizer, com um sorriso: \u201cMas, nem pensar em nos rendermos, n\u00e3o h\u00e1 nada como olhar \u00e0 nossa volta e lembrar de como est\u00e1vamos antes\u201d. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natagaima, Col\u00f4mbia, 11\/11\/2009 &ndash; Mulheres camponesas e ind\u00edgenas colombianas no sul do departamento de Tolima d\u00e3o uma ajuda \u00e0 in\u00f3spita terra que as rodeia para recuperar, ao mesmo tempo, seu ecossistema e sua dignidade, em um esfor\u00e7o conjunto que mudou seu entorno e suas vidas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/america-latina\/mulheres-colombia-terra-e-dignidade-se-recuperam-juntas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":88,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2],"tags":[21,24],"class_list":["post-5780","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5780","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/88"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5780"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5780\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5780"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5780"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5780"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}