{"id":5832,"date":"2009-11-24T06:41:51","date_gmt":"2009-11-24T06:41:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5832"},"modified":"2009-11-24T06:41:51","modified_gmt":"2009-11-24T06:41:51","slug":"saude-quenia-dois-dolares-e-troco-o-suficiente-para-salvar-a-vida-de-uma-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/11\/africa\/saude-quenia-dois-dolares-e-troco-o-suficiente-para-salvar-a-vida-de-uma-mae\/","title":{"rendered":"SA\u00daDE-QU\u00c9NIA: Dois d\u00f3lares e troco: o suficiente para salvar a vida de uma m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<p>KISUMU, 24\/11\/2009 &ndash; Aos 14 anos, Zulekha Mumma teve o seu primeiro filho. Aos 21 anos, o nascimento do seu s\u00e9timo filho causou-lhe a morte. Morreu com uma hemorragia excessiva em casa, em Nyalenda, um bairro de lata nos arredores da cidade de Kisumu, no Qu\u00e9nia ocidental, localizada a 400 quil\u00f3metros de Nairobi. <!--more--> \u201cEra demasiado tarde para lev\u00e1-la ao hospital. Quando me apercebi que a sua condi\u00e7\u00e3o era grave, o sangue escorria-lhe pelo corpo como uma torneira e ela respirou o seu \u00faltimo f\u00f4lego,\u201d disse \u00e0 IPS Mama Apondi, parteira amadora tradicional que ajudou Mumma durante o parto, ainda muito perturbada com a mem\u00f3ria da morte de Mumma h\u00e1 dois anos. Nenhum dos filhos de Mumma nasceu num hospital onde existem cuidados de sa\u00fade especializados, uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 comum no Qu\u00e9nia, onde s\u00f3 40 por cento dos partos t\u00eam lugar nos hospitais. As restantes parturientes d\u00e3o \u00e0 luz em casa, com a ajuda de parteiras amadoras que n\u00e3o est\u00e3o preparadas para lidar com complica\u00e7\u00f5es decorrentes das gravidezes, o que contribui para a elevada taxa de mortalidade materna. As estat\u00edsticas oficiais indicam que a mortalidade materna se situa em 414 mortes por 100.000 nados-vivos. Dois ter\u00e7os destas mortes devem-se a hemorragias p\u00f3s-parto (grave perda de sangue durante a gravidez ou durante o parto), septicemia (infec\u00e7\u00e3o bacteriana), eclampsia (hipertens\u00e3o arterial durante a gravidez) ou ruptura do \u00fatero, que as parteiras amadaoras como Apondi n\u00e3o podem prever nem tratar. O custo de dar \u00e0 luz num hospital governamental varia entre 20 e 65 d\u00f3lares. Este factor obriga muitas mulheres pobres a procurarem os servi\u00e7os de parteiras amadoras tradicionais, que cobram cerca de 13 d\u00f3lares. Tamb\u00e9m podem aceitar pagamento sob a forma de um animal, como um bode. <\/p>\n<p>O programa de \u2018Sa\u00fade Reprodutiva \u2013 Solu\u00e7\u00e3o Baseada em Resultados (OBA)\u2019 \u00e9 uma tentativa para acabar com as mortes maternas, ao tornar mais acess\u00edveis os nascimentos em hospitais.<\/p>\n<p>Iniciado em 2008, o projecto permite que as mulheres pobres comprem um cup\u00e3o de maternidade segura por 200 xelins \u2013 equivalente a $2.50 \u2013 que lhes d\u00e1 direito a darem \u00e0 luz e a terem acesso a cuidados pr\u00e9 e p\u00f3s-parto em cl\u00ednicas reconhecidas oficialmente.<\/p>\n<p>Encetaram-se projectos piloto em cinco \u00e1reas, incluindo Kisumu, Kiambu e Kitui no oeste, centro e leste do Qu\u00e9nia, respectivamente, e nos bairros de lata de Korogocho e Viwandani, em Nairobi. Na primeira fase, que terminou em Outubro de 2008, houve uma enorme resposta de mulheres gr\u00e1vidas \u00e0 procura de tratamento especializado.<\/p>\n<p>Francis Kundu, funcion\u00e1rio respons\u00e1vel pelos programas da Ag\u00eancia de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional para a Popula\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento, que est\u00e1 a supervisionar a implementa\u00e7\u00e3o geral do projecto, afirmou que as institui\u00e7\u00f5es reconhecidas oficialmente registaram um aumento de 20 por cento no n\u00famero de mulheres \u00e0 procura de cuidados profissionais durante a gravidez. <\/p>\n<p>Na Cl\u00ednica Marie Stopes em Kisumu, um dos centros de sa\u00fade acreditados, o n\u00famero de nascimentos disparou de menos de 50 por m\u00eas para 150 depois da introdu\u00e7\u00e3o do sistema de cup\u00f5es. A cl\u00ednica privada \u2013 parte daquela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental internacional dedicada ao planeamento familiar \u2013 teve de contratar pessoal e construir uma nova enfermaria para fazer face ao aumento de pacientes. <\/p>\n<p>\u201cAs mulheres vinham de toda a parte, das aldeias mais remotas em Kisumu. Algumas nunca tinham entrado num hospital,\u201d disse o Dr. Charles Ochieng \u00e0 IPS. <\/p>\n<p>\u201cOs cup\u00f5es dignificam os pobres. As mulheres chegavam \u00e0 cl\u00ednica, algumas at\u00e9 descal\u00e7as, e diziam-nos, \u201cNunca sentimos isto antes, ent\u00e3o \u00e9 isto que signifca vir para um hospital?\u201d disse Ochieng. <\/p>\n<p>Gra\u00e7as a um cup\u00e3o, Gladys Owino conseguiu dar \u00e0 luz o seu quarto filho, em Julho do ano passado, no Hospital Geral Provincial de Nova Nyanza, em Kisumo. <\/p>\n<p>\u201cFiquei muito contente por ter sido admitida aos servi\u00e7os de maternidade e p\u00f3s-parto num hospital t\u00e3o grande, e por ser tratada por especialistas m\u00e9dicos. Os meus partos anteriores foram acompanhados por uma parteira amadora tradicional e um deles foi t\u00e3o complicado que quase perdi a vida,\u201d disse. <\/p>\n<p>Um parto natural na cl\u00ednica Marie Stopes custa 100 d\u00f3lares, e uma cesariana custa $455. O custo dos partos nos hospitais governamentias varia entre 20 e 65 d\u00f3lares para partos naturais e cesarianas, respectivamente. <\/p>\n<p>A pobreza \u2013 46 por cento dos quenianos s\u00e3o classificados como pobres \u2013 tem sido a raz\u00e3o principal que leva mulheres como Owino a n\u00e3o irem para institui\u00e7\u00f5es governamentais mais baratas. <\/p>\n<p>Outras raz\u00f5es para a reduzida presen\u00e7a de pacientes s\u00e3o a m\u00e1 qualidade dos servi\u00e7os e as atitudes agressivas dos trabalhadores de sa\u00fade contra as pacientes, especialmente em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O sistema de cup\u00f5es est\u00e1 a transformar esta situa\u00e7\u00e3o, visto que se baseia no reembolso \u2013 quanto mais clientes uma institui\u00e7\u00e3o recebe, mais dinheiro ganha. O pessoal respons\u00e1vel pela sa\u00fade p\u00fablica foi motivado para mudar a sua atitude com o objectivo de atrair mais dinheiro para melhorar os servi\u00e7os. <\/p>\n<p>No fim do m\u00eas, cada prestador de servi\u00e7os reconhecido apresenta os seus pedidos de reembolso pelos servi\u00e7os prestados, que s\u00e3o ent\u00e3o processados e reembolsados pela PriceWaterhouseCoopers, a ag\u00eancia que administra os cup\u00f5es. <\/p>\n<p>Isto resultou numa maior concorr\u00eancia entre institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablicas e privadas. <\/p>\n<p>\u201cO programa exigiu melhores servi\u00e7os e melhores padr\u00f5es de presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade. Se n\u00e3o houver qualidade, n\u00e3o pode haver clientes,\u201d disse \u00e0 IPS Kigen Bartilol, director adjunto da Divis\u00e3o Para a Sa\u00fade Reprodutiva, que faz parte do Departamento de Sa\u00fade Familiar, no Minist\u00e9rio de Sa\u00fade e Higiene P\u00fablicas. <\/p>\n<p>\u201cA maior parte das institui\u00e7\u00f5es foi for\u00e7ada a alterar a sua atitude para conquistar clientes. Se n\u00e3o houver mudan\u00e7as, n\u00e3o se conseguem clientes e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 pagamento.\u201d<\/p>\n<p>\u201cFoi um \u00eaxito muito grande, especialmente em rela\u00e7\u00e3o a clientes \u00e0 procura de servi\u00e7os de maternidade seguros. Devido \u00e0 concorr\u00eancia, os hospitais p\u00fablicos melhoraram os seus servi\u00e7os e registou-se um aumento do n\u00famero de mulheres gr\u00e1vidas procurando dar \u00e0 luz nos hospitais e de ter acesso a servi\u00e7os p\u00f3s-parto,\u201d referiu.<\/p>\n<p>O in\u00edcio da segunda fase do projecto, que vai alargar o programa dos cup\u00f5es a outras partes do pa\u00eds, est\u00e1 planeado para Julho. Por\u00e9m, est\u00e3o a surgir preocupa\u00e7\u00f5es sobre a forma como as autoridades quenianas v\u00e3o manter o projecto se o governo alem\u00e3o, que tem concedido a maior parte dos fundos, decidir abandon\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O projecto piloto teve um custo total de 9.2 milh\u00f5es de d\u00f3lares. De acordo com Josephine Kibaru, directora do Departamento de Sa\u00fade Familiar, o governo est\u00e1 actualmente em vias de concluir um estudo para apurar quanto \u00e9 que a cobertura nacional vai custar. <\/p>\n<p>\u201cT\u00ednhamos pedido 100 milh\u00f5es de Ksh (cerca de 1.3 milh\u00f5es de d\u00f3lares) para este programa e, se n\u00e3o recebermos o montante total, ent\u00e3o tudo o que for entregue poder\u00e1 aumentar com o tempo,\u201d observou Kibaru. <\/p>\n<p>Houve um aumento do financiamento destinado \u00e0 sa\u00fade no \u00faltimo or\u00e7amento queniano, apresentado no dia 11 de Junho mas, na altura da sua publica\u00e7\u00e3o, os funcion\u00e1rios ainda estavam \u00e0 espera de detalhes espec\u00edficos sobre a forma como o dinheiro iria ser gasto, para terem a certeza que o futuro do programa dos cup\u00f5es estava assegurado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KISUMU, 24\/11\/2009 &ndash; Aos 14 anos, Zulekha Mumma teve o seu primeiro filho. Aos 21 anos, o nascimento do seu s\u00e9timo filho causou-lhe a morte. 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