{"id":5962,"date":"2009-12-18T11:57:19","date_gmt":"2009-12-18T11:57:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5962"},"modified":"2009-12-18T11:57:19","modified_gmt":"2009-12-18T11:57:19","slug":"mudanca-climatica-comer-carne-significa-assar-o-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/12\/mundo\/mudanca-climatica-comer-carne-significa-assar-o-planeta\/","title":{"rendered":"MUDAN\u00c7A CLIM\u00c1TICA: Comer carne significa assar o planeta"},"content":{"rendered":"<p>Roma, 18\/12\/2009 &ndash; Por muito tempo, alguns afirmaram que n\u00e3o se devia comer carne porque pressupunha \u201cassassinar\u201d animais <!--more--> Agora podem argumentar que isso tamb\u00e9m mata o planeta, devido \u00e0 enorme contribui\u00e7\u00e3o do gado com as emiss\u00f5es de gases que provocam o efeito estufa. O setor pecu\u00e1rio gera cerca de 18% das emiss\u00f5es contaminantes, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO), mais do que a produzida pela queima de combust\u00edveis de nossos autom\u00f3veis e dos avi\u00f5es que nos levam de um continente a outro.<\/p>\n<p>\u201cO vegetarianismo \u00e9 o melhor e mais efetivo que algu\u00e9m pode fazer pelo meio ambiente\u201d, disse um leitor berlinense em um f\u00f3rum do site do jornal The New York Times, sobre como as pessoas podem combater a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. S\u00e3o v\u00e1rias as maneiras como a enorme demanda por carne da humanidade gera emiss\u00f5es. A produ\u00e7\u00e3o mundial quase duplicou desde 1961, chegando a 282 milh\u00f5es de toneladas em 2009, e espera-se que duplique at\u00e9 2050, segundo a FAO.<\/p>\n<p>\u00c9 um importante vetor de desmatamento, j\u00e1 que s\u00e3o cortadas \u00e1rvores para criar novos pastos e terra ar\u00e1vel, o que faz com que seja liberado di\u00f3xido de carbono armazenado nas \u00e1rvores cortadas ou queimadas. Este processo tamb\u00e9m tem enorme impacto sobre a biodiversidade. O gado representa 37% do metano induzido pelos seres humanos. Trata-se de um g\u00e1s com potencial de aquecimento global 23 vezes superior ao do di\u00f3xido de carbono, principalmente pelas flatul\u00eancias e arrotos dos animais.<\/p>\n<p>Esses animais tamb\u00e9m geram 65% do \u00f3xido nitroso da humanidade, cujo potencial de aquecimento global \u00e9 296 vezes o do di\u00f3xido de carbono, em particular a partir dos excrementos, disse a FAO em seu informe \u201cA grande sombra do gado\u201d, de 2006. Tamb\u00e9m se deve ter em conta a pegada ecol\u00f3gica de produzir os alimentos consumidos pelos animais, bem como o carbono queimado para fazer funcionar as fazendas industriais, os matadouros e as unidades de processamento, bem como para refrigerar a carne.<\/p>\n<p>Se tudo isso n\u00e3o fosse suficiente, o gado tamb\u00e9m causa uma degrada\u00e7\u00e3o generalizada do solo e da \u00e1gua. Os principais agentes contaminantes incluem dejetos animais, antibi\u00f3ticos e horm\u00f4nios, produtos qu\u00edmicos derivados de curtumes e os fertilizantes e pesticidas usados nos cultivos que servem de alimento. Estes s\u00e3o os fatores que uma vez levaram Yvo de Boer, secret\u00e1rio-executivo da Conven\u00e7\u00e3o Marco das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica \u2013 cuja 15\u00aa confer\u00eancia termina hoje em Copenhague \u2013 a dizer que \u201ca melhor solu\u00e7\u00e3o seria que todos nos torn\u00e1ssemos vegetarianos\u201d.<\/p>\n<p>Rajendra Pachuri, presidente do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC), e Lord Stern of Brentford, professor da Escola de Economia de Londres, figuram entre os nomes eminentes em expressar sentimentos semelhantes. Mas, muitos consideram que este ponto de vista \u00e9 muito simplista, entre eles a pr\u00f3pria ind\u00fastria da carne. \u201cPenso que se pode coincidir com a declara\u00e7\u00e3o comam menos carne, mas a mensagem que \u00e0s vezes \u00e9 transmitida diz deixem de comer carne, e essa \u00e9 uma mensagem enganosa e alarmista\u201d, disse \u00e0 IPS Giuseppe Luca Capodieci, da Uni\u00e3o Europeia do Com\u00e9rcio do Gado e da Carne.<\/p>\n<p>De fato, \u00e9 um assunto complicado. Para come\u00e7ar, a pegada ecol\u00f3gica de meio quilo de carne varia de caso para caso. A de vaca possui a maior, e a de frango a menor. Importa como s\u00e3o produzidas: comer um peda\u00e7o de frango de um estabelecimento tradicional \u00e9 muito menos problem\u00e1tico do que se servir de uma bisteca de carne bovina procedente de uma fazenda industrial. E n\u00e3o se deve esquecer que os gr\u00e3os e as verduras podem ter enormes pegadas ecol\u00f3gicas, se ao serem cultivadas for usado herbicidas e pesticidas elaborados com petr\u00f3leo, em solo empapado de fertilizantes contendo nitrog\u00eanio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o setor pecu\u00e1rio pode ajudar a mitigar as emiss\u00f5es, bem como as terras de pastoreio bem manejadas e os sistemas de pastagens rotativas em entornos naturais podem agir como sumidouros de carbono, seq\u00fcestrando esse g\u00e1s nos solos em lugar de liber\u00e1-los na atmosfera. Tampouco se deve ignorar a import\u00e2ncia social do setor. Este emprega 1,3 bilh\u00e3o de pessoas e d\u00e1 sustento a um bilh\u00e3o de pobres do mundo, especialmente da \u00c1frica e \u00c1sia, segundo o informe da FAO. Como a cria\u00e7\u00e3o de animais n\u00e3o exige uma educa\u00e7\u00e3o formal ou grande capital, e comumente tamb\u00e9m n\u00e3o requer t\u00edtulos de propriedade da terra, frequentemente \u00e9 a \u00fanica atividade econ\u00f4mica acess\u00edvel para os pobres nas na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento.<\/p>\n<p>As reservas animais de cria\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m podem ser uma fonte de alimentos e renda que permita a sobreviv\u00eancia dos pequenos agricultores quando as secas e outros eventos clim\u00e1ticos extremos afetam seus cultivos. Depois h\u00e1 a quest\u00e3o nutricional e o debate a respeito de os on\u00edvoros seres humanos poderem alguma vez ter uma dieta verdadeiramente balanceada sem carne. E embora pare\u00e7a claro que o consumo excessivo de carne no mundo industrializado contribui com as doen\u00e7as card\u00edacas e o aumento da obesidade, incorporar mais carne, leite e ovos \u00e0s dietas de muitos pobres dos pa\u00edses em desenvolvimento seria bom para reduzir as defici\u00eancias de prote\u00ednas e vitaminas.<\/p>\n<p>Ou seja, o problema maior pode ser a desigualdade do consumo, mais do que a ingest\u00e3o de carne por si s\u00f3. Em 2008, a produ\u00e7\u00e3o de carne por pessoa foi de 81,9 quilos nos pa\u00edses ricos, contra 31,1 quilos nos pobres, diz a FAO. Inclusive deixando de lado essas considera\u00e7\u00f5es, alguns ambientalistas acreditam que de todo modo seria um erro por o vegetarianismo nas alturas como respostas aos males do planeta.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 infeliz o fato de alguns ambientalistas terem se aferrado \u00e0 ideia do vegetarianismo, porque pelo menos na cultura ocidental, onde se d\u00e1 tanta import\u00e2ncia \u00e0 liberdade individual, uma proibi\u00e7\u00e3o total n\u00e3o funciona t\u00e3o bem como redirigir, simplesmente, as normas alimentares para controlar a propor\u00e7\u00e3o\u201d, disse \u00e0 IPS Erik Assadourian, pesquisador do Worldwatch Institute, com sede em Washington.<\/p>\n<p>Assadourian afirma que reduzir o consumo de carne no mundo industrial, sem necessariamente elimin\u00e1-la, permitiria produzir a carne que se come de modo amig\u00e1vel com o clima, com animais pastando em lugar de comerem gr\u00e3os em fazendas industriais, por exemplo. Muitos especialistas concordam, embora a propor\u00e7\u00e3o a ser diminu\u00edda continue sendo discut\u00edvel.<\/p>\n<p>Um informe publicit\u00e1rio de novembro da revista m\u00e9dica brit\u00e2nica The Lance sugeria reduzir o consumo em um ter\u00e7o. Assadourian acredita que se deveria ir mais longe e adotar uma dieta baixa em carne, que alguns chamam de \u201cflexitarianismo\u201d. \u00c0 noite, \u201cno jantar nos deram massa com um pouco de toucinho para lhe dar sabor e uma grande por\u00e7\u00e3o de carne su\u00edna no prato seguinte\u201d, recordou. \u201cO uso moderado da carne no primeiro prato \u00e9 o que considero um bom modelo, no qual se incorpora a carne mas apenas para lhe dar gosto. O segundo seria melhor reservar para ocasi\u00f5es especiais, como Natal e Dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o debate nunca se resolva totalmente. Mas alguns acreditam que o principal \u00e9 divulgar o assunto, com a ajuda de iniciativas como a de Pachauri e do ex-Beatle Paul McCArtney, com a campanha \u201cMenos carne=Menos aquecimento\u201d, para que a popula\u00e7\u00e3o seja mais consciente do impacto de suas escolhas. \u201cGostar\u00edamos que todos fossem vegetarianos, mas somos realistas e sabemos que isso n\u00e3o acontecer\u00e1 da noite para o dia. O importante \u00e9 estarmos falando do v\u00ednculo entre a carne e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. H\u00e1 um ano as pessoas n\u00e3o faziam isso\u201d, disse \u00e0 IPS Su Taylor, da brit\u00e2nica Sociedade Vegetariana. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roma, 18\/12\/2009 &ndash; Por muito tempo, alguns afirmaram que n\u00e3o se devia comer carne porque pressupunha \u201cassassinar\u201d animais <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/12\/mundo\/mudanca-climatica-comer-carne-significa-assar-o-planeta\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":640,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,4],"tags":[18,21],"class_list":["post-5962","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-mundo","tag-europa","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/640"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5962\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}