{"id":5974,"date":"2009-12-22T12:21:49","date_gmt":"2009-12-22T12:21:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5974"},"modified":"2009-12-22T12:21:49","modified_gmt":"2009-12-22T12:21:49","slug":"analise-desigualdades-fatais-no-imperio-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/12\/america-latina\/analise-desigualdades-fatais-no-imperio-da-ciencia\/","title":{"rendered":"AN\u00c1LISE: Desigualdades fatais no imp\u00e9rio da ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 22\/12\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  Possivelmente seja necess\u00e1ria uma cat\u00e1strofe de grande magnitude para que o mundo chegue a um acordo efetivo que evite um aquecimento global suicida.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5974\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/455_Mario_Osava_fabricio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5974\" class=\"size-medium wp-image-5974\" title=\" - Fabr\u00edcio Vanden Broeck\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/455_Mario_Osava_fabricio.jpg\" alt=\" - Fabr\u00edcio Vanden Broeck\" width=\"200\" height=\"167\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5974\" class=\"wp-caption-text\"> - Fabr\u00edcio Vanden Broeck<\/p><\/div>  \u201cO arquip\u00e9lago do Jap\u00e3o afundar\u00e1 dentro de um ano\u201d. O an\u00fancio oficial aconteceu ap\u00f3s uma violenta erup\u00e7\u00e3o do Monte Fuji, e depois os terremotos se multiplicaram por todo o pa\u00eds, desafiando o mundo a acolher 110 milh\u00f5es de pessoas em poucos meses. Uma furiosa batalha diplom\u00e1tica conseguiu uma solidariedade d\u00fabia para evacuar 65 milh\u00f5es de japoneses. Vinte milh\u00f5es afundaram com as ilhas, muitos deles voluntariamente, por amor \u00e0 p\u00e1tria ou para ceder lugar na fuga aos mais jovens. Os demais, sup\u00f5e-se, morreram antes, vitimas de tremores, tsunamis e outros cataclismas.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o relato de um romance publicada em 1973 no Jap\u00e3o, e traduzida na Fran\u00e7a quatro anos depois, \u201cO afundamento do Jap\u00e3o\u201d. O autor, Komatsu Sakyo, imagina a hecatombe a partir de fen\u00f4menos naturais poss\u00edveis, como intensifica\u00e7\u00e3o e altera\u00e7\u00e3o dos movimentos da crosta terrestre sob o Oceano Pac\u00edfico. Contudo, fora da fic\u00e7\u00e3o, o mundo vive inunda\u00e7\u00f5es cada dia mais frequentes e a imin\u00eancia de m\u00faltiplos afundamentos de na\u00e7\u00f5es insulares e cidades costeiras, todos fatos provocados pela a\u00e7\u00e3o do homem. O perigo vem do ar, mais do que do subsolo, mas com consequ\u00eancias igualmente tr\u00e1gicas, s\u00f3 que menos impactantes devido \u00e0 dispers\u00e3o geogr\u00e1fica e temporal.<\/p>\n<p>Possivelmente seja necess\u00e1ria uma cat\u00e1strofe da magnitude narrada por Sakyo para que o mundo chegue a um acordo efetivo que evite um aquecimento global suicida. Certas transforma\u00e7\u00f5es, especialmente contra a mar\u00e9 econ\u00f4mica, s\u00f3 se materializam depois de trag\u00e9dias ou rebeli\u00f5es excepcionais. A crise financeira do ano passado, por exemplo, foi insuficiente para promover mudan\u00e7as estruturais. A magnitude n\u00e3o se limita apenas \u00e0 quantidade de v\u00edtimas, mas \u00e0 extin\u00e7\u00e3o total de uma na\u00e7\u00e3o rica como o Jap\u00e3o, que era vista por muitos, nos anos 70, como desafiante da hegemonia econ\u00f4mica norte-americana. O livro tamb\u00e9m \u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 soberba nip\u00f4nica na reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>A probabilidade de os pa\u00edses tropicais, especialmente os pequenos e pobres, serem os que mais sofrer\u00e3o os efeitos do aquecimento global, n\u00e3o tem a mesma capacidade de estimular uma coopera\u00e7\u00e3o que pareceria natural neste caso, por se tratar de uma amea\u00e7a que afeta a todos. A crise clim\u00e1tica real\u00e7a as m\u00faltiplas dimens\u00f5es das disparidades entre na\u00e7\u00f5es, dificultando as negocia\u00e7\u00f5es. Os principais temas, as metas obrigat\u00f3rias de emiss\u00f5es e financiamento, dividem o mundo entre ricos e os demais, com uma classe m\u00e9dia de na\u00e7\u00f5es cuja pretens\u00e3o, de continuar revistando as fileiras dos pobres, \u00e9 recha\u00e7ada pelos ricos.<\/p>\n<p>\u00c9 essa desigualdade que dificulta todas as negocia\u00e7\u00f5es multilaterais, sejam comerciais, financeiras, de patentes ou sanit\u00e1rias. Todas s\u00e3o oportunidades para que os pa\u00edses em desenvolvimento reduzam a brecha e obtenham mais ajuda para o desenvolvimento, agora com o inquestion\u00e1vel argumento do ac\u00famulo hist\u00f3rico de gases-estufa na atmosfera, pelos pa\u00edses industrializados. Por\u00e9m, os blocos constru\u00eddos em outros f\u00f3runs carecem de consist\u00eancia na quest\u00e3o clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>O Brasil, por exemplo, \u00e9 constantemente pressionado pelos ambientalistas a se dissociar do Grupo dos 77, a coaliz\u00e3o de mais de 130 na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento, para contribuir com um acordo e recuperar a lideran\u00e7a que teve na negocia\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o Marco das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica, de 1992, e do Protocolo de Kyoto, de 1997. Por suas facilidades espec\u00edficas para reduzir emiss\u00f5es de gases-estufa \u2013 acabar com o desmatamento e aumentar a energia limpa que j\u00e1 desenvolve em abund\u00e2ncia \u2013, o Brasil poderia assumir metas ambiciosas em seu pr\u00f3prio beneficio, afirmam os ecologistas.<\/p>\n<p>A China, associada ao G-77, tornou-se um corpo estranho, ao ficar ombro a ombro com os Estados Unidos em volume de emiss\u00e3o de gases, construir uma central termoel\u00e9trica movida a carv\u00e3o por semana e dispor de mais de US$ 2 bilh\u00f5es em reservas. Assusta imaginar seus 1,3 bilh\u00e3o de habitantes em uma marcha acelerada para a industrializa\u00e7\u00e3o e o consumo que hoje se reconhece como n\u00e3o sustent\u00e1vel. \u00c9 muito diferente a posi\u00e7\u00e3o objetiva de pa\u00edses ricos em combust\u00edveis f\u00f3sseis e dos dependentes do petr\u00f3leo importado. Latitudes e altitudes, a abund\u00e2ncia de florestas, a amea\u00e7a da desertifica\u00e7\u00e3o ou a depend\u00eancia de geleiras, s\u00e3o muitos os aspectos que marcam diferen\u00e7as diante da mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os numerosos Estados insulares lutam pela sobreviv\u00eancia e por isso, junto com os africanos amea\u00e7ados pela desertifica\u00e7\u00e3o e perdas agr\u00edcolas fatais, reclamam um limite de 1,5 grau para o aquecimento global neste s\u00e9culo. Passar esse n\u00edvel pode representar a morte ou o deslocamento de povos inteiros. Entretanto, que for\u00e7a t\u00eam essas na\u00e7\u00f5es para enfrentar o limite de dois graus adotado para frear o aumento da temperatura? Aqui n\u00e3o se trata de imposi\u00e7\u00f5es das na\u00e7\u00f5es ricas nem de uma luta de classes entre Estados. Estudos e avalia\u00e7\u00f5es cient\u00edficas est\u00e3o ditando os objetivos a serem cumpridos. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica consagrou um novo poder absoluto, o da ci\u00eancia, cujas conclus\u00f5es passam a determinar a vida de todos.<\/p>\n<p>Alguns milhares de cientistas que participaram dos informes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC) concordaram que dois graus de aquecimento at\u00e9 2100 s\u00e3o o limite poss\u00edvel e toler\u00e1vel. Al\u00e9m disso, seria o caos. Os c\u00e9ticos n\u00e3o contam. S\u00e3o marginais e, em muitos casos, suspeitos de defender interesses do setor dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, ou contrariados pela tentativa de evitar o grande desastre clim\u00e1tico. Surgiram manifesta\u00e7\u00f5es contra essa decis\u00e3o dos pesquisadores do clima, reclamando maior participa\u00e7\u00e3o da sociedade nas decis\u00f5es, com sugest\u00f5es inclusive de realiza\u00e7\u00e3o de referendos. Por\u00e9m, esse \u00e9 um campo onde as premissas est\u00e3o fora do jogo \u201cdemocr\u00e1tico\u201d. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 um dado, n\u00e3o um problema.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica s\u00f3 pode decidir como manejar o fen\u00f4meno. Question\u00e1-lo ou modificar seus dados \u00e9 compet\u00eancia exclusiva dos cientistas. Esta nova dimens\u00e3o do que muitos chamam de \u201cera do conhecimento\u201d ditar\u00e1 regras em muitas atividades, exigindo efici\u00eancia energ\u00e9tica, e for\u00e7ando mudan\u00e7as de consumo e de h\u00e1bitos, como j\u00e1 ocorre no campo da sa\u00fade com o tabaco, por exemplo.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 22\/12\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  Possivelmente seja necess\u00e1ria uma cat\u00e1strofe de grande magnitude para que o mundo chegue a um acordo efetivo que evite um aquecimento global suicida. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/12\/america-latina\/analise-desigualdades-fatais-no-imperio-da-ciencia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,4,11],"tags":[],"class_list":["post-5974","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5974"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5974\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}