{"id":5997,"date":"2010-01-06T12:54:14","date_gmt":"2010-01-06T12:54:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5997"},"modified":"2010-01-06T12:54:14","modified_gmt":"2010-01-06T12:54:14","slug":"direitos-tanzania-sinto-me-menos-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/01\/africa\/direitos-tanzania-sinto-me-menos-mulher\/","title":{"rendered":"DIREITOS-TANZ\u00c2NIA: Sinto-me menos mulher&#39;"},"content":{"rendered":"<p>MUSOMA, Tanz\u00e2nia, 06\/01\/2010 &ndash; Na esquina mais escura do quarto, entre o alarido das vozes de doze mulheres, est\u00e1 sentada Ghati Chacha*, que mal pode ser ouvida. D\u00e1 de mamar ao filho rec\u00e9m-nascido enquanto fala em voz baixa sobre como recusou a circuncis\u00e3o feminina. <!--more--> \u201cRecusei porque (o anterior) Presidente Mkapa tinha banido a circuncis\u00e3o na Tanz\u00e2nia,\u201d disse. No entanto, depois dessa decis\u00e3o, Chacha foi obrigada a casar com um homen de 80 anos porque, de acordo com o costume local Kurya, no distrito de Mara, no norte da Tanz\u00e2nia, deixara de ser mulher apropriada para um homem da sua idade. \u201cO meu pai obrigou-me a casar,\u201d contou. \u201cTentei recusar, mas o meu pai mandou-me sair de casa. S\u00f3 recebeu 12 vacas pelo meu casamento.\u201d \u00c9 \u00f3bvio que Chacha \u00e9 a \u00fanica no quarto que n\u00e3o foi circuncidada e a sua hist\u00f3ria \u00e9 interrompida enquando as outras mulheres no quarto gritam para serem ouvidas. \u201cOs homens jovens riem-se uns dos outros se casarem com mulheres que n\u00e3o estejam circuncidadas,\u201d disse Mondesta Mugaya, mulher de 65 anos que costumava fazer circuncis\u00f5es na vila de Kitarmanka, no distrito rural de Musoma. \u201cE as raparigas n\u00e3o circuncidadas ainda s\u00e3o consideradas crian\u00e7as,\u201d disse. \u201cNas cerim\u00f3nias tradicionais, n\u00e3o \u00e9 permitido \u00e0s mulheres que n\u00e3o est\u00e3o circuncidadas estarem presentes.\u201d \u201cDeixei de acreditar na circuncis\u00e3o das raparigas mas, sem ela, as raparigas s\u00e3o mais prom\u00edscuas.\u201d<\/p>\n<p>\tSinto-me menos mulher Bhoke Mwita tinha 18 anos quando foi circuncidada. &#8220;Primeiro marcaram a data, altura em que cerca de 100 raparigas s\u00e3o circuncidadas juntas. N\u00e3o conseguimos dormir no dia anterior quando estamos a ser preparadas. H\u00e1 muitas celebra\u00e7\u00f5es, batuques e comida. No dia do acontecimento, n\u00e3o podemos comer ou beber porque talvez venhamos a urinar ou fazer qualquer outra durante o processo. \u201cToda a gente canta, a tentar fazer-nos contentes. Chegamos ao local especial e as raparigas est\u00e3o sentadas em cima das kangas (o material de algod\u00e3o usado normalmente para fazer saias) e em fila. Toda a gente da comunidade est\u00e1 presente, homens, rapazes, mulheres e as crian\u00e7as. As mulheres mais velhas efectuam o pedit\u00f3rio do dinheiro na comunidade antes de come\u00e7arem. &#8220;Esper\u00e1mos a nossa vez. &#8220;Quando chegou \u00e0 minha vez foi muito doloroso e senti uma dor intensa, mas n\u00e3o podemos chorar. Se chorarmos, podemos ser espancadas e deixadas no local.\u201d \u201cSangrei muito e cai no ch\u00e3o, mas n\u00e3o chorei.\u201d \u201cDemora entre tr\u00eas a seis semanas para a ferida sarar, e depois da circuncis\u00e3o, somos consideradas verdadeiras mulheres, prontas a casar.\u201d \u201cDepois da circuncis\u00e3o, senti-me menos mulher,\u201d disse Mwita, \u201cporque o sistema fica alterado, e n\u00e3o me sentia mulher\u201d. \u201cSe as raparigas morrerem durante a circuncis\u00e3o, o que acontece muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o enterradas em casa. S\u00e3o atiradas para o mato e comidas pelas hienas. Isso \u00e9 considerada uma maldi\u00e7\u00e3o e um malef\u00edcio (n\u00e3o sobreviver \u00e0 circuncis\u00e3o) e, por isso, todos os seus pertences t\u00eam de ser retirados de casa para eliminar a maldi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>No gabinete da Mam\u00e3 Regina, na Diocese Cat\u00f3lica de Musoma, Bhoke Mwita* sorri. Est\u00e1 sentada numa cadeira de Madeira, balou\u00e7ando as pernas enquanto brinca com o telem\u00f3vel. Em 2004, ela e os dois filhos encontraram ref\u00fagio aqui.<\/p>\n<p>\u201cO meu marido morreu em 2003,\u201d diz, \u201ce eu devia ter sido herdada pelo irm\u00e3o do meu marido, mas recusei. Disse que precisava de tempo para pensar no assunto. Depois fugi.\u201d <\/p>\n<p>Foi a Mam\u00e3 Regina Andrew que, n\u00e3o muito depois de ter iniciado uma campanha contra a MGF (Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina) na diocese, encontrou Mwita na sua aldeia a pedir ajuda. Como assistente do programa Mulheres em Desenvolvimento (WID), a Mam\u00e3 Regina ajudou 36 raparigas a escaparem \u00e0 MGF, e outras 90 mulheres a escaparem de problemas como abuso dom\u00e9stico e casamentos for\u00e7ados. <\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma das maiores cerim\u00f3nias na tradi\u00e7\u00e3o Kurya,\u201d referiu a Mam\u00e3 Regina. \u201cPerto de 95 por cento das raparigas ainda continuam a ser circuncidadas no Distrito de Tarime. <\/p>\n<p>&#8220;A lei est\u00e1 contra a MGF, mas n\u00e3o sabemos como \u00e9 que o governo est\u00e1 a lidar com esta quest\u00e3o,\u201d acrescentou. <\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o foi proibida em 1998, mas est\u00e1 profundamente enraizada e, de acordo com a diocese, s\u00f3 nos \u00faltimos dez anos \u00e9 que as percep\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a mudar. <\/p>\n<p>A Mam\u00e3 Regina e algumas Irm\u00e3s visitam as aldeias regularmente para organizarem reuni\u00f5es e eventos p\u00fablicos; tamb\u00e9m iniciam grupos de trabalho para prestar informa\u00e7\u00f5es sobre os direitos das mulheres e crian\u00e7as, especialmente sobre os efeitos da MGF. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 uma tarefa fac\u00edl porque as mulheres n\u00e3o s\u00e3o vistas da mesma maneira que os homens, n\u00e3o sendo vistas como t\u00e3o importantes. As mulheres fazem uma grande parte do trabalho de casa, nas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, tratam dos filhos, mas s\u00e3o os homens que beneficiam,\u201d disse.<\/p>\n<p>\u201cAs raparigas s\u00e3o vistas como algo que gera rendimento para a fam\u00edlia,\u201d disse a Mam\u00e3 Regina. \u201cOs pais n\u00e3o ve\u00eam motivo algum para mandar as raparigas para a escola, porque n\u00e3o recebem um dote quando a rapariga se casa. Pensam que pode empobrecer mais a fam\u00edlia.\u201d <\/p>\n<p>A Mam\u00e3 Regina acredita que a MGF vai levar muitos anos a desaparecer entre os Kurya. \u201c\u00c9 uma esp\u00e9cie de religi\u00e3o,\u201d disse. <\/p>\n<p>\u201cInici\u00e1mos o grande campo de refugiadas da MGF logo fora da cidade, neste s\u00edtio, como um local onde as raparigas podem receber aconselhamento e para onde podem fugir quando escapam das suas comunidades,\u201d acrescentou. <\/p>\n<p>\u201cQuando as raparigas regressam \u00e0s suas comunidades dizem \u201cObrigada por esta tradi\u00e7\u00e3o, porque fugi, e agora tenho conhecimentos. As fam\u00edlias ve\u00eam que elas falam com confian\u00e7a, sem receio, e isto ajuda-as a perceber a import\u00e2ncia de suspender a MGF. <\/p>\n<p>\u201cAcredito que vai levar algum tempo para que esta situa\u00e7\u00e3o mude, mas um dia destes ser\u00e1 uma vergonha ser circuncidada.\u201d <\/p>\n<p>De acordo com a Mam\u00e3 Regina, quando Mwita chegou \u00e0 diocese, estava muito magra, nervosa e falava muito baixo. Agora, afirma a Mam\u00e3 Regina, adquiriu muita confian\u00e7a, for\u00e7a e peso, e est\u00e1 a completar a escola secund\u00e1ria. <\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do programa WID, a pr\u00f3pria Mwita orienta agora programas de micro-financiamento dirigidos \u00e0s mulheres nas aldeias, o que lhes permite iniciarem empreendimentos como a lavoura, padarias e lojas de roupas. Ela tamb\u00e9m fala em f\u00f3runs p\u00fablicos e informa outras pessoas sobre os efeitos da MGF. <\/p>\n<p>\u201cQuando regresso \u00e0 minha aldeia,\u201d disse Mwita, \u201cas pessoas respeitam-me, e t\u00eam cuidado com aquilo que me dizem. Mas isto \u00e9 como que trazer valores ocidentais para aqui, e estou consciente da diferen\u00e7a.\u201d <\/p>\n<p>\u201cAgora a vida \u00e9 diferente para mim, \u00e9 melhor estar aqui (na cidade) e n\u00e3o na aldeia. Agora sinto-me forte, n\u00e3o tenho medo, e posso lutar pelos meus direitos.\u201d <\/p>\n<p>*N\u00e3o \u00e9 o seu nome verdadeiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MUSOMA, Tanz\u00e2nia, 06\/01\/2010 &ndash; Na esquina mais escura do quarto, entre o alarido das vozes de doze mulheres, est\u00e1 sentada Ghati Chacha*, que mal pode ser ouvida. 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