{"id":6,"date":"2005-01-18T00:00:00","date_gmt":"2005-01-18T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6"},"modified":"2005-01-18T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-18T00:00:00","slug":"colunistas-a-confissao-do-torturador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/colunistas-a-confissao-do-torturador\/","title":{"rendered":"Colunistas: A confiss\u00e3o do torturador"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 18\/01\/2005 &ndash; N\u00e3o vale nada, ou vale pouco, a confiss\u00e3o do torturado. Desde os tempos da Santa Inquisi\u00e7\u00e3o, sabe-se que n\u00e3o s\u00e3o veross\u00edmeis, ou pouco o s\u00e3o, as informa\u00e7\u00f5es e as confiss\u00f5es arrancadas sob tortura, pela simples raz\u00e3o de que a dor converte qualquer um em grande novelista.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6\" style=\"width: 120px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/17731.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6\" class=\"size-medium wp-image-6\" title=\" - \" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/17731.jpg\" alt=\" - \" width=\"110\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6\" class=\"wp-caption-text\"> - <\/p><\/div>  Por outro lado, o sistema de poder confessa sua verdadeira identidade atrav\u00e9s das torturas que inflige. Nas c\u00e2maras de tortura, os que mandam tiram a m\u00e1scara.<\/p>\n<p>Assim acontece no Iraque, por exemplo. Para apoderar-se do Iraque, pesar dos iraquianos e contra os iraquianos, as tropas de ocupa\u00e7\u00e3o agem com realismo: prejudicam a democracia e a liberdade e praticam a tortura e o crime. Quem quer o fim, quer os meios. Ou, por acaso, algu\u00e9m acredita que existe outra maneira de roubar um pa\u00eds?<\/p>\n<p>O resto \u00e9 puro teatro: as cerim\u00f4nias, as declara\u00e7\u00f5es, os discursos, as promessas e a transfer\u00eancia da soberania, que passa dos Estados Unidos para os Estados Unidos. Acontece que o poder n\u00e3o diz o que diz. Por exemplo: quando diz &quot;terrorismo no Iraque&quot;, em muitos casos deveria dizer: &quot;resist\u00eancia nacional contra a ocupa\u00e7\u00e3o estrangeira&quot;.<\/p>\n<p>                        **** Quando foram divulgadas as fotos e estourou o esc\u00e2ndalo, as c\u00fapulas do poder pol\u00edtico e militar cantaram em coro os salmos da autoabsolvi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>S\u00e3o casos isolados;<\/p>\n<p>S\u00e3o casos patol\u00f3gicos;<\/p>\n<p>S\u00e3o algumas ma\u00e7\u00e3s podres;<\/p>\n<p>S\u00e3o perversos que desonram o uniforme.<\/p>\n<p>Como de costume, o assassino jogou a culpa no punhal. Mas, esses soldados ou policiais que enlouquecem o prisioneiro aplicando-lhe choques el\u00e9tricos, ou afundando sua cabe\u00e7a na merda, ou partindo o \u00e2nus, n\u00e3o passam de instrumentos: funcion\u00e1rios que ganham o sal\u00e1rio cumprindo sua tarefa em hor\u00e1rio de expediente de escrit\u00f3rio. Alguns trabalham sem se esfor\u00e7ar e outros com dedica\u00e7\u00e3o, com essas entusiastas senhoritas fotografadas enquanto humilhavam seus torturados iraquianos e os exibiam com trof\u00e9us de ca\u00e7a. Mas, todos, os ap\u00e1ticos e fervorosos, s\u00e3o burocratas da dor que agem a servi\u00e7o de uma gigantesca m\u00e1quina de moer carne humana. Loucos? Perversos? Pode ser, mas o perfil patol\u00f3gico n\u00e3o absolve o poder imperial que necessita da tortura para assegurar e ampliar seus dom\u00ednios, porque esse poder est\u00e1 muito mais louco e \u00e9 muito mais perverso do que os instrumentos que utiliza. E nada tem de anormal em um poder cruelmente injusto utilizar m\u00e9todos cru\u00e9is para perpertuar-se.<\/p>\n<p>                        **** Tampouco nada tem de anormal que esses m\u00e9todos atrozes n\u00e3o sejam chamados por seu nome. A Europa sabe que onde manda o capit\u00e3o n\u00e3o manda o marinheiro. A declara\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia contra as torturas no Iraque n\u00e3o mencionou a palavra tortura. Essa desagrad\u00e1vel express\u00e3o foi substitu\u00edda pela palavra &quot;abusos&quot;. Bush e Blair falaram de &quot;erros&quot;. Os jornalistas da CNN e de outros meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa n\u00e3o puderam utilizar a palavra. Proibida.<\/p>\n<p>Anos antes, para que os prisioneiros palestinos fossem legalmente triturados, a Suprema Corte de Israel havia autorizado &quot;as press\u00f5es f\u00edsicas moderadas&quot;. Os cursos de torturas que h\u00e1 muito tempo recebem os oficiais latino-americanos na Escola das Am\u00e9ricas s\u00e3o chamados de &quot;t\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rios&quot;. Em meu pa\u00eds, o Uruguai, que foi campe\u00e3o mundial na mat\u00e9ria durante os anos da ditadura militar, as torturas eram chamadas, e ainda o s\u00e3o, de &quot;constrangimentos ilegais&quot;.<\/p>\n<p>Segundo a Anistia Internacional, a venda de aparelhos de tortura no mundo \u00e9 um brilhante neg\u00f3cio para algumas empresas privadas dos Estados Unidos, da Alemanha, de Taiwan, da Fran\u00e7a e de outros pa\u00edses, mas esses produtos industriais s\u00e3o &quot;meios de autodefesa&quot; ou &quot;material de controle da delinq\u00fc\u00eancia&quot;.<\/p>\n<p>                        ****<\/p>\n<p>Por outro lado, a palavra tortura foi mencionada, com todas suas letras, pelos pesquisadores que entrevistaram a popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos em 2001, pouco depois da queda das torres de Nova York. E quase a metade da popula\u00e7\u00e3o, 45%, respondeu que a tortura n\u00e3o lhe parecia ruim &quot;se aplicada aos terroristas que se negam a contar o que sabem&quot;.<\/p>\n<p>Entretanto, seis anos antes, a ningu\u00e9m teria ocorrido torturar o terrorista Timothy McVeigh quando se negou a dar os nomes de seus c\u00famplices. A bomba que McVeigh colocou em Oklahoma matou 168 pessoas, incluindo mulheres e crian\u00e7as, mas ele era branco, n\u00e3o mu\u00e7ulmano e havia sido condecorado na primeira guerra do Iraque, onde aprendeu a cozinhar pur\u00ea de gente.<\/p>\n<p>                        **** Contra o terrorismo vale tudo. Assim, proclamou o presidente Bush, em mil ocasi\u00f5es; e foi repetido como eco por Blair. Ambos continuam brindando pelo \u00eaxito de suas cruzadas. Continuam dizendo: &quot;O mundo agora \u00e9 um lugar muito mais seguro&quot;, enquanto o mundo explode e a cada dia a viol\u00eancia gera mais viol\u00eancia, e mais e mais.<\/p>\n<p>                        **** Guant\u00e2namo \u00e9 o s\u00edmbolo do mundo que nos espera. Seiscentos suspeitos, alguns menores de idade, definham nesse campo de concentra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o t\u00eam nenhum direito. Nenhuma lei os ampara. N\u00e3o t\u00eam advogados, nem processos, nem condena\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m sabe nada deles, eles n\u00e3o sabem nada de ningu\u00e9m. Sobrevivem em uma base naval que os Estados Unidos usurparam de Cuba. Sup\u00f5e-se que sejam terroristas. Se s\u00e3o ou n\u00e3o \u00e9 um detalhe que n\u00e3o tem a menor import\u00e2ncia. Foi ali que o general Ricardo S\u00e1nchez treinou 32 formas de tortura, chamadas &quot;t\u00e1ticas de press\u00e3o e intimida\u00e7\u00e3o&quot;, que depois implantou nas pris\u00f5es do Iraque. <\/p>\n<p>                        **** Desde a queda das torres de Nova York, a tortura vem recebendo numerosos elogios. Desencadeou-se um bombardeio de opini\u00f5es jur\u00eddicas e jornal\u00edsticas, abertas ou veladamente, favor\u00e1veis a este m\u00e9todo institucional de viol\u00eancia, embora nunca, ou quase nunca, d\u00eaem-lhe o nome que tem. Estas apologias da inf\u00e2mia, que prov\u00eam do poder, ou de fontes pr\u00f3ximas, sustentam que a tortura \u00e9 leg\u00edtima para defender a popula\u00e7\u00e3o desamparada diante das amea\u00e7as que se aproximam, porque h\u00e1 meios de luta de moralidade duvidosa que resultam inevit\u00e1veis contra os inescrupulosos assassinos que praticam o terrorismo e o promovem e que jamais dizem a verdade.<\/p>\n<p>Mas, se assim fosse, a quem haveria de torturar? Quem s\u00e3o os homens que mais mentem neste s\u00e9culo vinte e um? Quem s\u00e3o os que mais inocentem matam, sem nenhum escr\u00fapulo, em suas guerras terroristas do Afeganist\u00e3o e do Iraque&quot;quem s\u00e3o os que mais contribuem para a multiplica\u00e7\u00e3o do terrorismo no mundo?<\/p>\n<p>                        **** Agora, abundam os surpresos e indignados, mas, a tortura n\u00e3o foi utilizada por erro nem por casualidade contra a popula\u00e7\u00e3o iraquiana. As tropas de ocupa\u00e7\u00e3o a utilizaram com era costume, por ordens muito superiores, sabendo o que faziam e para que o faziam. Para que? N\u00e3o h\u00e1 nenhuma prova de que a tortura j\u00e1 tenha servido alguma vez para evitar um \u00fanico atentado terrorista. No caso do Iraque, nem mesmo foi \u00fatil para capturar alguns dos foragidos importantes. O maior deles, Saddam Hussein, n\u00e3o caiu gra\u00e7as \u00e0 tortura, mas gra\u00e7as ao dinheiro que comprou um alcag\u00fcete.<\/p>\n<p>A tortura arranca informa\u00e7\u00f5es de escassa utilidade e confiss\u00f5es de improv\u00e1vel veracidade. E, entretanto, \u00e9 eficaz. Por isso foi e continua sendo aplicada: o que \u00e9 eficaz \u00e9 bom, segundo os valores que regem o mundo. A tortura \u00e9 eficaz para castigar heresias e humilhar dignidades, e, sobretudo, \u00e9 eficaz para semear o medo. Bem o sabiam os monges da Santa Inquisi\u00e7\u00e3o e bem o sabem os chefes guerreiros das aventuras imperiais de nosso tempo: o poder n\u00e3o emprega a tortura para proteger a popula\u00e7\u00e3o, mas para aterroriz\u00e1-la. Ser\u00e1 t\u00e3o eficaz quanto o poder acredita que \u00e9?<\/p>\n<p> (*) Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de &quot;As veias abertas da Am\u00e9rica Latina&quot; e &quot;Mem\u00f3rias do fogo&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 18\/01\/2005 &ndash; N\u00e3o vale nada, ou vale pouco, a confiss\u00e3o do torturado. 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