{"id":6003,"date":"2010-01-07T14:11:07","date_gmt":"2010-01-07T14:11:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6003"},"modified":"2010-01-07T14:11:07","modified_gmt":"2010-01-07T14:11:07","slug":"africa-do-sul-licoes-dificeis-para-pequenos-negocios-na-costa-ocidental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/01\/africa\/africa-do-sul-licoes-dificeis-para-pequenos-negocios-na-costa-ocidental\/","title":{"rendered":"\u00c1FRICA DO SUL: Li\u00e7\u00f5es dif\u00edceis para pequenos neg\u00f3cios na costa ocidental"},"content":{"rendered":"<p>SALDANHA, \u00c1frica do Sul, 07\/01\/2010 &ndash; O som das m\u00e1quinas de costura enche a sala com um zumbido baixo e cont\u00ednuo. Um pequno n\u00famero de mulheres est\u00e1 sentado atr\u00e1s das m\u00e1quinas, com as cabe\u00e7as inclinadas, concentradas no seu trabalho. <!--more--> As costureiras pertencem a um projecto de desenvolvimento empresarial dirigido pelo Centro de Desenvolvimento Empresarial da Costa Ocidental (WCBDC) em Saldanha, que visa prestar apoio empresarial e garantir rendimentos est\u00e1veis a pessoas anteriormente desempregadas. <\/p>\n<p>\u201cEstou a trabalhar neste projecto de costura h\u00e1 tr\u00eas anos. Sinto que sou uma pessoa com sorte, porque muita gente n\u00e3o tem empregos nesta \u00e1rea,\u201d disse Antonia Kuzani, uma das costureiras. <\/p>\n<p>A t\u00edmida e af\u00e1vel costureira de 25 anos costumava trabalhar como mulher de limpeza, mas ficou desempregada durante tr\u00eas anos depois de ter sido despedida. <\/p>\n<p>&#8220;Durante muito tempo estive \u00e0 procura de um emprego e n\u00e3o encontrei nada porque h\u00e1 muito desemprego. Durante algum tempo, tentei arranjar dinheiro a vender rebu\u00e7ados na rua, mas n\u00e3o ganhava o suficiente para sobreviver,\u201d disse <\/p>\n<p>Ganha 215 d\u00f3lares por m\u00eas a trabalhar no projecto de costura que, afirma, \u00e9 apenas suficiente para pagar as despesas correntes e enviar o filho de nove anos \u00e0 escola. \u201cO meu sal\u00e1rio desaparece depois de pagar a renda, \u00e1gua, electricidade, alimenta\u00e7\u00e3o, roupa e propinas. S\u00f3 o transporte para o trabalho custa 280 randes (38 d\u00f3lares) por m\u00eas. Todo o dinheiro \u00e9 gasto nestas coisas b\u00e1sicas.\u201d<\/p>\n<p>Kuzani e as colegas trabalham por contrato destinado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de 1.000 camisas de trabalho por ano para o grupo mineiro sul africano Exxaro Sands. Tamb\u00e9m produzem centenas de sacos de lavandaria para a companhia Duferco Steel Processing. <\/p>\n<p>O seu neg\u00f3cio baseia-se no conceito de que os grandes produtores que possuem f\u00e1bricas na \u00e1rea da Ba\u00eda de Saldanha podem externalizar uma parte da sua cadeia de abastecimento, atrav\u00e9s do WCBDC, a pequenos neg\u00f3cios como o projecto de costura, ajudando-os desse modo a crescer. <\/p>\n<p>\u201cO centro de desenvolvimento empresarial apareceu quando as grandes companhias (que transferiram as suas opera\u00e7\u00f5es para a \u00e1rea da Ba\u00eda de Saldanha) viram uma lacuna no mercado dos pequenos fornecedores locais de quem obt\u00eam recursos. Precisavam de externalizar os projectos de produ\u00e7\u00e3o mais reduzidos e, ao mesmo tempo, queriam investir nestas comunidades,\u201d explicou a directora executiva do WCBDC, Abigail Murray. <\/p>\n<p>Diversas companhias de grande dimens\u00e3o \u2013 incluindo a Exxaro, a Duferco Steel, a Autoridade Portu\u00e1ria Nacional Transnet e a ArcelorMittal \u2013 juntaram-se em 1998 para criar uma iniciativa de responsabilidade social das empresas, cuja inten\u00e7\u00e3o era a redu\u00e7\u00e3o da elevada taxa de desemprego na regi\u00e3o da Ba\u00eda de Saldanha. O resultado foi o WCBDC e um banco de dados com os nomes de pequenos fornecedores. <\/p>\n<p>O projecto de costura foi uma das primeiras iniciativas orientadas para o desenvolvimento de pequenos neg\u00f3cios encetada pelo WCBDC em Junho de 2001. O censo desse ano registou a taxa de desemprego nas duas principais cidades daquela municipalidade, Saldanha e Vredenburg, como cifrando-se nos 27 e 28 por cento, respectivamente. <\/p>\n<p>O projecto de costura ainda tem de se tornar num neg\u00f3cio sustent\u00e1vel e proporciona trabalho apenas para quatro pessoas. \u201cPrecisamos de mais encomendas e de mais clientes se quisermos que o neg\u00f3cio aumente e tamb\u00e9m ganhar mais dinheiro,\u201d disse Kuzani.<\/p>\n<p>A sua colega, Nondumiso Ntoyakhe, uma robusta trabalhadora de 29 anos que antes era trabalhadora rural sazonal \u2013 desempregada durante a maior parte dos meses do ano \u2013 concorda. \u201cO projecto de costura representa uma grande melhoria nas nossas vidas, mas o rendimento ainda n\u00e3o \u00e9 o suficiente.\u201d <\/p>\n<p>O projecto iniciou-se com uma injec\u00e7\u00e3o financeira de 7.600 d\u00f3lares proveniente do Grupo Anglo-American \u2013 ao qual pertence a Exxaro Sands \u2013, da Shell e do Minist\u00e9rio do Trabalho sul africano. Vinte e quatro mulheres desempregadas locais receberam forma\u00e7\u00e3o em costura t\u00e9cnica e gest\u00e3o de empresas. <\/p>\n<p>\u201cA maior parte delas est\u00e1 a fazer outras coisas, a trabalhar noutros s\u00edtios ou ent\u00e3o arranjaram o seu pr\u00f3prio pequeno neg\u00f3cio. S\u00f3 um reduzido n\u00famero de mulheres \u00e9 que continua a trabalhar no projecto,\u201d disse Murray. <\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os do centro para promover o desenvolvimento de pequenas empresas, a maioria dos neg\u00f3cios em arranque tem dificuldade em estabelecer opera\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis. \u201cNeste momento, o projecto de costura, por exemplo, est\u00e1 a perder dinheiro. \u00c9 subsidiado pelo WCBDC. Infelizmente, \u00e9 o que acontece a toda a gente. O dinheiro nunca \u00e9 suficiente e o desemprego \u00e9 um enorme problema em toda a regi\u00e3o,\u201d afirmou. <\/p>\n<p>\u201cMuitas das grandes empresas n\u00e3o usam os fornecedores que constam no nosso banco de dados (com cerca de 10 pequenas empresas), porque t\u00eam necessidades que n\u00e3o podem ser preenchidas por pequenas companhias,\u201d explicou Murray. \u201cAs grandes firmas tomam decis\u00f5es de neg\u00f3cios bastante rigorosas. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para falhan\u00e7os ou simplesmente boa vontade.\u201d <\/p>\n<p>O objectivo da iniciativa WCBDC \u00e9 criar pequenos neg\u00f3cios e apoi\u00e1-los sob a forma de assist\u00eancia professional e forma\u00e7\u00e3o mas, em \u00faltima an\u00e1lise, espera-se que funcionem e sejam lucrativos por si pr\u00f3prios. Quando isto se torna demasiado dif\u00edcil, as pessoas tentam manter os neg\u00f3cios em funcionamento a partir de casa com uma s\u00f3 pessoa ou ent\u00e3o procuram emprego numa companhia maior noutras partes da prov\u00edncia. <\/p>\n<p>Ntoyakhe acredita que n\u00e3o \u00e9 suficiente esperar que as grandes companhias criem emprego \u2013 o governo tamb\u00e9m precisa de mostrar um maior empenho em reduzir o desemprego na regi\u00e3o. \u201cO governo precisa de investir mais dinheiro nas empresas aqui. Muita gente n\u00e3o est\u00e1 a trabalhar. Muitas companhias fecharam. Se existissem mais empregos, tudo estaria melhor,\u201d referiu. <\/p>\n<p>Considera que a pobreza aumentou dramaticamente nos \u00faltimos cinco a dez anos na municipalidade da Ba\u00eda de Saldanha. \u201cAs pessoas t\u00eam dificuldades. Muitas passam fome. N\u00e3o t\u00eam comida. N\u00e3o t\u00eam esperan\u00e7a nem oportunidades e, por isso, h\u00e1 muitas drogas, \u00e1lcool e crime, especialmente entre os jovens,\u201d disse Ntoyakhe. <\/p>\n<p>\u201cAs pessoas s\u00e3o obrigadas a cometer crimes porque n\u00e3o h\u00e1 dinheiro.\u201d <\/p>\n<p>Nos primeiros anos da sua exist\u00eancia, o centro de desenvolvimento empresarial recebeu apoio financeiro do Minist\u00e9rio do Trabalho sul africano, mas esse financiamento terminou h\u00e1 cinco anos. Murray acredita que o per\u00edodo de financiamento foi demasiado curto para se alcan\u00e7ar a sustentabilidade a longo prazo. <\/p>\n<p>\u201cExistia uma grande vontade por parte do governo para apoiar o desenvolvimento de pequenos neg\u00f3cios, mas disseram-nos que nos dev\u00edamos afastar da depend\u00eancia e iniciar projectos que gerassem rendimentos e empregos genu\u00ednos,\u201d disse Murray. <\/p>\n<p>\u201cMas estamos com dificuldade para o fazer, porque n\u00e3o conseguimos os contratos que esper\u00e1vamos e muitas pessoas com boas ideias empresariais n\u00e3o conseguem ter acesso a financiamento.\u201d <\/p>\n<p>Embora os minist\u00e9rios e ag\u00eancias governamentais continuem a ser o maior potencial comprador na \u00c1frica do Sul, poucas pequenas empresas conseguem concorrer com \u00eaxito a esses contratos. <\/p>\n<p>\u201cO processo \u00e9 demasiado burocr\u00e1tico para que uma pequena companhia consiga meter o p\u00e9 na porta. O governo n\u00e3o envida suficientes esfor\u00e7os para utilizar as pequenas companhias,\u201d queixou-se Murray. <\/p>\n<p>Calcula que menos de metade dos neg\u00f3cios que o WCBDC ajudou a estabelecer ainda sobrevive, mas continua a ter esperan\u00e7a. \u201cExistem alguns neg\u00f3cios que inici\u00e1mos que ultrapassaram o centro devido ao seu crescimento. Tornaram-se suficientemente grandes para passarem a apoiar a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de pequenos neg\u00f3cios\u201d. <\/p>\n<p>Aponta que esses neg\u00f3cios foram bem sucedidos devido ao seu trabalho \u00e1rduo, ao facto de n\u00e3o terem desistido, e de terem tido a sorte de conseguirem assegurar um dos poucos contratos ou ofertas existentes aos pequenos fornecedores na \u00e1rea. <\/p>\n<p>Murray espera que, se o WCBDC conseguir desenvolver esta parte da sua estrat\u00e9gia, eventualmente ser\u00e1 bem sucedido e far\u00e1 uma diferen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SALDANHA, \u00c1frica do Sul, 07\/01\/2010 &ndash; O som das m\u00e1quinas de costura enche a sala com um zumbido baixo e cont\u00ednuo. 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