{"id":6041,"date":"2010-01-15T12:31:19","date_gmt":"2010-01-15T12:31:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6041"},"modified":"2010-01-15T12:31:19","modified_gmt":"2010-01-15T12:31:19","slug":"sociedade-cuba-racismo-um-tema-inconcluso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/01\/america-latina\/sociedade-cuba-racismo-um-tema-inconcluso\/","title":{"rendered":"SOCIEDADE-CUBA: Racismo, um tema inconcluso"},"content":{"rendered":"<p>Havana, 15\/01\/2010 &ndash; O racismo \u00e9 um caso pendente na sociedade cubana.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6041\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Esteban_Morales1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6041\" class=\"size-medium wp-image-6041\" title=\"Esteban Morales - Patricia Grogg\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Esteban_Morales1.jpg\" alt=\"Esteban Morales - Patricia Grogg\/IPS\" width=\"200\" height=\"142\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6041\" class=\"wp-caption-text\">Esteban Morales - Patricia Grogg\/IPS<\/p><\/div>  \u201c\u00c9 preciso admitir que o problema existe, conhecer seu impacto no projeto social que defendemos e atac\u00e1-lo a fundo\u201d, disse Esteban Morales, economista, especialista em pol\u00edtica e autor de artigos e ensaios sobre o tema. Como pesquisador do Centro de Estudos Hemisf\u00e9ricos e sobre os Estados Unidos (Cehseu), vinculado \u00e0 Universidade de Havana, conhece com profundidade esse pa\u00eds, onde cerca de 60 intelectuais, alguns de reconhecido prest\u00edgio, acusaram o governo de Ra\u00fal Castro de perseguir e molestar as pessoas por causa da cor de sua pele.<\/p>\n<p>Para Morales, essas acusa\u00e7\u00f5es \u201cdesconhecem\u201d a realidade de seu pa\u00eds e \u201cest\u00e3o baseados nas mesmas campanhas que os governos norte-americanos fazem historicamente contra a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. N\u00f3s falamos de racismos e dizemos que \u00e9 preciso aperfei\u00e7oar os direitos civis, democr\u00e1ticos, mas n\u00e3o apenas para os negros, mas para toda a sociedade. Nessa luta temos como aliados a mais alta lideran\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>IPS \u2013 Em que falhou o projeto social da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana que n\u00e3o conseguiu eliminar as desvantagens da popula\u00e7\u00e3o negra?<\/p>\n<p>Esteban Morales \u2013 Apesar da radicaliza\u00e7\u00e3o do processo iniciado em 1959, os projetos sociais, durante anos, n\u00e3o levaram em conta a cor. Com a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o dentro da pol\u00edtica social toda pessoa foi tratada igualmente e n\u00e3o se diferenciou o negro, coisa que se deveria ter feito porque a cor da pele em Cuba \u00e9 uma forte vari\u00e1vel de diferencia\u00e7\u00e3o social. O branco chegou por vontade pr\u00f3pria, como colonizador, com um projeto de vida que n\u00e3o poucas vezes realizou. O negro foi trazido for\u00e7ado, e convertido em escravo. S\u00e3o pontos de partida diferentes, que n\u00e3o podem ser esquecidos e pesam at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Mesmo quando todos elevaram seu n\u00edvel e os negros conseguiram uma posi\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel neste meio s\u00e9culo, as profundas diferen\u00e7as n\u00e3o desapareceram totalmente. Quando chegou o per\u00edodo especial (crise dos anos 90), nos demos conta de que aqueles que mais sofriam a crise eram exatamente os negros, mais longe de poderem forjar para si um projeto de vida. Mesmo na Cuba atual n\u00e3o \u00e9 o mesmo ser pobre e branco do que ser pobre e negro.<\/p>\n<p>IPS \u2013 Mas, o governo declarou resolvida a quest\u00e3o do racismo em 1962.<\/p>\n<p>EM \u2013 Foi um erro de idealismo e voluntarismo, pressionado pelas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas desses anos. A partir desse momento abriu-se um longo per\u00edodo de sil\u00eancio sobre o caso, justificado em que falar dessas diferen\u00e7as era fazer o jogo do inimigo. Quem insistia era considerado racista e divisionista. A quest\u00e3o ressurgiu com for\u00e7a no per\u00edodo especial, eu diria, com a virul\u00eancia pr\u00f3pria de algo que, dado como resolvido, de fato n\u00e3o est\u00e1.  IPS \u2013 Em mais de uma ocasi\u00e3o se disse que neste pa\u00eds educa-se as pessoas \u201cpara serem brancas\u201d. Acha justo considerar este tipo de contradi\u00e7\u00e3o uma forma \u201cinstitucionalizada\u201d de racismo?<\/p>\n<p>EM \u2013 \u00c9 uma certa forma institucionalizada, mas n\u00e3o por uma dire\u00e7\u00e3o ou de modo consciente, mas derivada de falhas e erros no processo educacional, no ensino da historia, na representatividade social em nosso livros. Por n\u00e3o tratar a fundo o problema na escola, as conseq\u00fc\u00eancias da escravid\u00e3o chegam at\u00e9 hoje. Estes problemas n\u00e3o t\u00eam a ver com a institui\u00e7\u00e3o, mas com aspectos e problemas da vida social, com imperfei\u00e7\u00f5es de nossa sociedade.<\/p>\n<p>Em Cuba ainda falta consci\u00eancia racial. Para o branco isso n\u00e3o \u00e9 importante, porque sempre esteve no poder, mas o negro deve ter consci\u00eancia racial para lutar contra o racismo e por seu lugar na sociedade. A discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno que permanece na mente das pessoas, na fam\u00edlia, nas rela\u00e7\u00f5es pessoais, \u00e0s vezes em alguns grupos institucionalizados e isso n\u00e3o se resolve facilmente.<\/p>\n<p>IPS \u2013 Qual \u00e9 sua proposta para solucionar estas car\u00eancias no campo da educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>EM \u2013 A \u00fanica maneira de resolver isto \u00e9 com uma vigil\u00e2ncia r\u00edgida das oportunidades iguais para todos no emprego, sobretudo na nova economia, isto \u00e9, no turismo, empresas mistas com capital estrangeiro, na educa\u00e7\u00e3o e um forte trabalho cultural. Na realidade, n\u00e3o dever\u00edamos educar para nenhuma cor, mas o que ocorre na pr\u00e1tica \u00e9 que nossos estudantes se educam, em geral, pensando que \u00e9 melhor ser branco e que \u00e9 uma desvantagem ser negro.<\/p>\n<p>Temos de resolver problemas de ocidentalismo em nossa educa\u00e7\u00e3o, aprofundar no ensino da hist\u00f3ria, \u00c1frica, \u00c1sia, Oriente M\u00e9dio, na representatividade racial em nossa bibliografia. Devemos levar o debate da discrimina\u00e7\u00e3o racial \u00e0 escola, para que quando o jovem v\u00e1 para a rua e ou\u00e7a uma express\u00e3o racista esteja em condi\u00e7\u00f5es de se defender.<\/p>\n<p>IPS \u2013 O que prop\u00f5e em termos sociais?<\/p>\n<p>EM \u2013 O \u201ctodos somos iguais\u201d tamb\u00e9m foi um slogan da demagogia republicana. A igualdade \u00e9 o projeto, o desejo, enquanto a desigualdade e a diferen\u00e7a \u00e9 aquilo com que topamos todos os dias. \u00c9 preciso partir das desigualdades, que existem em nossa sociedade, apesar de se lutar para resolv\u00ea-las at\u00e9 ao pr\u00f3prio limite do igualitarismo. S\u00e3o uma heran\u00e7a e, ao mesmo tempo, um fen\u00f4meno que se pode reproduzir como resultado de disfuncionalidades de nosso modelo social, que deve ser aperfei\u00e7oado. Apenas entendo a fundo as diferen\u00e7as e trabalhando sobre elas se poder\u00e1 chegar \u00e0 igualdade verdadeira.<\/p>\n<p>IPS \u2013 Considera necess\u00e1ria uma pol\u00edtica espec\u00edfica para a popula\u00e7\u00e3o negra?<\/p>\n<p>EM \u2013 Em Cuba h\u00e1 uma certa pol\u00edtica de a\u00e7\u00e3o afirmativa, embora n\u00e3o a chamemos assim. A partir de pesquisas da situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, os problemas das crian\u00e7as, os incapacitados, os diferentes grupos sociais, chegamos, na pr\u00e1tica, a fazer a\u00e7\u00f5es afirmativas, porque assim conectamos com as pessoas historicamente menos beneficiadas, mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>H\u00e1 fen\u00f4menos a depurar e que somente se pode fazer em separado, a habita\u00e7\u00e3o, o emprego, a sa\u00fade. Em tudo \u00e9 preciso levar em conta a cor quanto maior \u00e9 a mostra (dos estudos), mais se v\u00ea que os negros est\u00e3o abaixo, os mesti\u00e7os geralmente no meio e os brancos acima.<\/p>\n<p>IPS \u2013 Por que n\u00e3o h\u00e1 um debate mais profundo, com express\u00e3o na imprensa da ilha, sobre este assunto reconhecido por todos?<\/p>\n<p>EM \u2013 O debate est\u00e1 ganhando for\u00e7a no \u00e2mbito intelectual e comunit\u00e1rio, bem como nas casas de cultura, mas, tamb\u00e9m tem de ir aos \u00f3rg\u00e3os do Estado, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edtica, de massas e sociais do pa\u00eds. Isso \u00e9 o que reclamamos, porque mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o cubana de 11,2 milh\u00f5es n\u00e3o \u00e9 branca (entre negros e mesti\u00e7os), segundo nossos estudos.<\/p>\n<p>IPS \u2013 Acredita que tamb\u00e9m deve fazer parte da agenda pol\u00edtica?<\/p>\n<p>EM \u2013 Naturalmente que sim. O fato de o presidente Castro ter mencionado a quest\u00e3o em seu discurso diante do parlamento no dia 20 de setembro faz pensar que o assunto poder\u00e1 estar na agenda do pr\u00f3ximo VI Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC). E se assim n\u00e3o for, creio que deveria estar.<\/p>\n<p>Alem disso, h\u00e1 duas comiss\u00f5es que estudam o problema desde diferentes \u00f3ticas. Uma na Biblioteca Nacional e outra na Uni\u00e3o Nacional de Escritores e Artistas (Uneac). O parlamento tamb\u00e9m deveria ter uma comiss\u00e3o para esse assunto. Se a Assembleia nacional trata de assunto religioso, da mulher, da juventude, por que tamb\u00e9m n\u00e3o trata da quest\u00e3o racial, que considera estar no mesmo n\u00edvel e ser menos atendida?<\/p>\n<p>IPS \u2013 H\u00e1 risco de o debate se interromper pelo medo de que possa criar divis\u00f5es internas ou ser manipulado contra a Revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>EM \u2013 Pelo contr\u00e1rio, o que realmente \u00e9 utilizado nas campanhas do inimigo \u00e9 nosso atraso em tratar do tema e o que pode nos dividir n\u00e3o \u00e9 debat\u00ea-lo. O que nos afeta politicamente do ponto de vista da imagem externa e interna \u00e9 ter um discurso que n\u00e3o corresponda \u00e0 realidade, porque h\u00e1 pouco diz\u00edamos que n\u00e3o havia problemas raciais em Cuba. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, 15\/01\/2010 &ndash; O racismo \u00e9 um caso pendente na sociedade cubana. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/01\/america-latina\/sociedade-cuba-racismo-um-tema-inconcluso\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":171,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,11],"tags":[14],"class_list":["post-6041","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-politica","tag-america-do-norte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/171"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6041"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6041\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}