{"id":6058,"date":"2010-01-20T16:11:16","date_gmt":"2010-01-20T16:11:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6058"},"modified":"2010-01-20T16:11:16","modified_gmt":"2010-01-20T16:11:16","slug":"mulheres-peru-as-violacoes-por-militares-julgamento-lento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/01\/america-latina\/mulheres-peru-as-violacoes-por-militares-julgamento-lento\/","title":{"rendered":"Mulheres-Peru: As viola\u00e7\u00f5es por militares, julgamento lento"},"content":{"rendered":"<p>Lima, 20\/01\/2010 &ndash; \u201cQuero justi\u00e7a, isso ser\u00e1 como uma paz\u201d, diz e repete Micaela, uma mulher de 40 anos da regi\u00e3o andina do Peru, v\u00edtima de viol\u00eancia sexual durante a guerra interna, 25 anos depois de ter sido violentada por v\u00e1rios militares em uma base e em sua casa. <!--more--> Micaela \u00e9 uma das poucas mulheres agredidas sexualmente que dominou o medo e acusa os militares da base de Manta, uma paup\u00e9rrima localidade da regi\u00e3o sul-andina de Huncavelica, que a violaram quando tinha 15 anos.               \u201cN\u00e3o posso negar que tenho um pouco de medo pelas repres\u00e1lias dos denunciados. N\u00e3o quero que prejudiquem minha fam\u00edlia\u201d, disse Micaela ao falar \u00e0 IPS. <\/p>\n<p>\u201cMas quando forem sentenciados, ent\u00e3o terei verdadeira tranquilidade, quando estiverem na pris\u00e3o pagando pelo que fizeram. Quando houver justi\u00e7a, ent\u00e3o terei paz\u201d, garante ap\u00f3s um quarto de s\u00e9culo de espera.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao testemunho de Micaela, um dos mais poderosos e devastadores entre os concedidos por um punhado de mulheres, em mar\u00e7o de 2009, um juiz abriu um processo contra dez membros do Ex\u00e9rcito das bases antiguerrilheiras das comunidades de Manta e Vilca. <\/p>\n<p>Os processados s\u00e3o acusados de violentar sete mulheres, entre elas Micaela.<\/p>\n<p>Precisamente por medo de repres\u00e1lias por parte dos militares que usaram a viol\u00eancia sexual como m\u00e9todo contrainsurgente durante a guerra interna (1980-2000), a testemunha pediu \u00e0 IPS para usar o nome fict\u00edcio de Micaela. <\/p>\n<p>Agora, vive em uma localidade do sul do pa\u00eds com seus filhos, e tem de viajar pelo menos oito horas para chegar a Lima cada vez que o juiz a cita para participar das dilig\u00eancias do caso. Quando contou sua experi\u00eancia \u00e0 IPS, havia chegado \u00e0 capital peruana para uma per\u00edcia psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 25 anos dos fatos, Micaela \u00e9 obrigada, por raz\u00f5es judiciais, a recordar as viola\u00e7\u00f5es em detalhes. Exigem que d\u00ea minuciosas descri\u00e7\u00f5es de cada abuso e que verifique a identidade dos agressores. <\/p>\n<p>Mas o que mais a afeta \u00e9 que o caso caminha desesperadamente lento e que os autores estejam impunes. <\/p>\n<p>A viagem, recordar tudo novamente, especialmente os rostos dos que a violentaram, tudo isso \u00e9 um sofrimento para Micaela, que contrai o rosto s\u00f3 de pensar, mas diz que aguenta por essa paz que espera que chegue com a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Em 2003, a Comiss\u00e3o da Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o (CVR) documentou 538 casos de viola\u00e7\u00e3o sexual no per\u00edodo da guerra interna, 527 mulheres e 11 homens, e em seu informe concluiu que os militares usaram a viol\u00eancia sexual como parte de uma estrat\u00e9gia contra a subvers\u00e3o.<\/p>\n<p> A CVR foi criada pelo governo provis\u00f3rio que substituiu o regime de Alberto Fujimori (1990-2000) ap\u00f3s sua fuga do pa\u00eds, para determinar as causas e os efeitos da guerra protagonizada pela guerrilha mao\u00edsta Sendero Luminoso e o guevarista Movimento Revolucion\u00e1rio Tupac Amaru diante das for\u00e7as do Estado.<\/p>\n<p>O presidente Alejandro Toledo (2001-2006) ampliou suas atribui\u00e7\u00f5es, entre elas a de poder recomendar medidas para julgar as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e reparar as v\u00edtimas da viol\u00eancia, em um trabalho conclu\u00eddo em 2003.<\/p>\n<p> Por\u00e9m, ainda n\u00e3o h\u00e1 castigo para os respons\u00e1veis e at\u00e9 agora s\u00f3 h\u00e1 dois casos nos tribunais. Um deles sobre o abuso sexual maci\u00e7o em Manta e Vilca, no qual est\u00e1 Micaela.<\/p>\n<p>Micaela fala<\/p>\n<p>Entre l\u00e1grimas incontidas quando recorda, Micaela contou \u00e0 IPS o que aconteceu quando tinha 15 anos e os militares diziam procurar um irm\u00e3o acusado de subversivo e que n\u00e3o estava na localidade.<\/p>\n<p>\u201cNo dia 14 de mar\u00e7o de 1985, um capit\u00e3o do ex\u00e9rcito, rec\u00e9m-chegado ao quartel de Manta, ordenou a tr\u00eas soldados que me levassem at\u00e9 ele. Ali me perguntou por meu irm\u00e3o, eu dizia que n\u00e3o sabia. Ordenou que ficasse nua, eu chorava. Me mostrou o p\u00eanis. \u201cGosta disso?, me dizia. Eu chorava. <\/p>\n<p>Chupou meus seios e disse para me vestir. Cheguei chorando de susto em minha casa, n\u00e3o contei nada. N\u00e3o queria que meu pai fosse denunciado pelos militares porque seguramente ele iria reclamar.<\/p>\n<p>\u201cNo final de julho daquele ano, uma tarde cuidava de meus animais que pastavam. Apareceu um soldado dizendo \u2018o suboficial Ruti te chama\u2019, e me amea\u00e7ou com a arma. Me levou at\u00e9 o quarto do suboficial. Este me disse para sentar e perguntou sobre meu irm\u00e3o. N\u00e3o sei, eu disse. Como n\u00e3o sabes?, disse ele. <\/p>\n<p>Havia outros soldados. O suboficial pediu para me trazerem bebida. Me for\u00e7aram a tomar. Havia mais duas mo\u00e7as, uma gr\u00e1vida e a noiva de Ruti, de uns 15 anos. Me obrigaram a beber e perdi os sentidos. Despertei por volta das quatro da madrugada e um soldado me disse &#39;levante e v\u00e1 embora&#39;.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tinha cal\u00e7as. Minhas partes do\u00edam. \u2018n\u00e3o sabe o que te fizeram, todos os soldados passaram por voc\u00ea\u2019, disse o soldado. Sa\u00ed chorando. Pelo caminho fui seguida por um soldado b\u00eabado que entrou pela janela de casa e me violentou na minha cama. Chorei e peguei uma faca, queria me matar, mas algu\u00e9m dizia para n\u00e3o fazer isso.\u201d<\/p>\n<p>As mulheres agredidas s\u00e3o 75% de l\u00edngua qu\u00e9chua, 83% de origem rural e a grande maioria tinha entre 10 e 19 anos quando foram violentadas, disse \u00e0 IPS Diana Portal Farf\u00e1n, a advogada do caso das v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es sexuais. <\/p>\n<p>\u201cQuer dizer que a viol\u00eancia sexual durante a guerra interna teve um impacto diferenciado por raz\u00f5es de g\u00eanero, idade, etnia e classe social. A viol\u00eancia se concentrou em mulheres andinas, camponesas, pobres e em idade reprodutiva\u201d, explicou a ativista do n\u00e3o governamental Estudo para a Defesa dos Direitos da Mulher (Demus).<\/p>\n<p>Diana acrescentou que, apesar da gravidade dos fatos, o Estado n\u00e3o cumpre as recomenda\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o da Verdade para esclarecer os casos e punir os autores.<\/p>\n<p> \u201cNo geral, o Estado peruano n\u00e3o atende eficazmente estes casos\u201d, disse. <\/p>\n<p>\u201cUma evid\u00eancia da falta de vontade pol\u00edtica, compromisso e responsabilidade do governo \u00e9 o fechamento do Conselho de Repara\u00e7\u00f5es das V\u00edtimas da Viol\u00eancia, o que afeta o processo de registro das v\u00edtimas em geral e das mulheres em particular\u201d, afirmou a advogada do Demus.<\/p>\n<p>Diana garantiu que este \u00e9 apenas um exemplo das raz\u00f5es que levam a considerar que \u201ca balan\u00e7a da justi\u00e7a e da repara\u00e7\u00e3o \u00e9 negativa no caso de viola\u00e7\u00f5es sexuais durante a guerra interna\u201d. <\/p>\n<p>De acordo com o estatal Registro \u00danico de V\u00edtimas, foram inscritas 532 pessoas alegando terem sofrido abuso sexual durante o conflito interno. Os principais autores foram os militares que atuaram nas chamadas \u201czonas de emerg\u00eancia\u201d, \u00e1reas sob controle das for\u00e7as do Estado.<\/p>\n<p>O n\u00e3o governamental Instituto de Defesa Legal informou que um obst\u00e1culo para esclarecer os fatos \u00e9 que muitos autores das viola\u00e7\u00f5es sexuais n\u00e3o est\u00e3o plenamente identificados porque durante o per\u00edodo de guerra usavam sobrenomes. <\/p>\n<p>O juiz do caso enviou of\u00edcio ao Minist\u00e9rio da Defesa para que, por seu interm\u00e9dio, o Ex\u00e9rcito envie a rela\u00e7\u00e3o dos militares que cumpriram servi\u00e7o nas bases de Manta e Vilca. No entanto, at\u00e9 agora a resposta \u00e9 negativa. Algo previs\u00edvel para os ativistas pelos direitos humanos.<\/p>\n<p>Durante o governo de Toledo as autoridades judiciais receberam informa\u00e7\u00e3o sobre depredadores de direitos humanos. Mas a equipe de seu sucessor, Alan Garc\u00eda, se nega a dar aos ju\u00edzes a identidade dos militares, alegando n\u00e3o existirem dados arquivados. Garc\u00eda j\u00e1 havia governado o pa\u00eds entre 1985 e 1990. <\/p>\n<p>O Poder Judici\u00e1rio teve de recorrer aos exames de DNA aplicados aos militares acusados, bem como \u00e0s vitimas e seus filhos.<\/p>\n<p>Micaela fala novamernte<\/p>\n<p>Micaela teve duas crian\u00e7as em consequ\u00eancia das agress\u00f5es sexuais. Sem parar de chorar, lembra.<\/p>\n<p>\u201cEm agosto de 1985, fui com minha tia \u00e0 base (de Manta) para pegar autoriza\u00e7\u00e3o para viajar. Est\u00e1vamos esperando quando apareceram quatro soldados com suas armas e nos disseram para entrar. Eu n\u00e3o queria e um me empurrou com sua arma. Ali estava o suboficial Ruti com outros soldados, parecia que tinham bebido. Tiraram a roupa da minha tia, bateram em sua cabe\u00e7a e a violentaram.<\/p>\n<p>\u201cCortaram minha roupa com uma faca e tamb\u00e9m me violentaram. &#39;terruca (terrorista) de merda!\u2019, gritavam para mim. Depois trouxeram bebida e nos fizeram dan\u00e7ar. Em seguida um soldado nos levou cada uma para um quarto. Vi que do meu lado havia 20 soldados, e com minha tia tamb\u00e9m. Comecei a chorar.<\/p>\n<p>\u201cEm meados de outubro um tal \u00c1lvaro entrou em minha casa for\u00e7ando minha porta e abusou de mim. Pouco depois minha tia e eu fomos novamente violentadas. Dessa vez, fiquei gr\u00e1vida&#8221;.  &#8220;Na comunidade me olhavam torto ao saberem que estava gr\u00e1vida. As pessoas falavam mal de mim, meu pai tamb\u00e9m me criticou. Em julho de 1986, nasceu minha filha. Quando ela estava com dois anos, um soldado chamado de \u201cDr\u00e1cula\u201d entrou em minha casa e me violentou. <\/p>\n<p>Minha filha estava ali. Fiquei gr\u00e1vida e meu pai me p\u00f4s para fora de casa. Quis abortar, me matar, mas n\u00e3o consegui e nasceu minha segunda filha.\u201d<\/p>\n<p>Micaela se consome em tristeza. Recordar \u00e9 doloroso para ela. Mas reconhece que seu depoimento \u00e9 fundamental para que os denunciados sejam punidos. Eles foram plenamente identificados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima, 20\/01\/2010 &ndash; \u201cQuero justi\u00e7a, isso ser\u00e1 como uma paz\u201d, diz e repete Micaela, uma mulher de 40 anos da regi\u00e3o andina do Peru, v\u00edtima de viol\u00eancia sexual durante a guerra interna, 25 anos depois de ter sido violentada por v\u00e1rios militares em uma base e em sua casa. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/01\/america-latina\/mulheres-peru-as-violacoes-por-militares-julgamento-lento\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[24],"class_list":["post-6058","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6058"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6058\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}