{"id":6060,"date":"2010-01-20T16:25:35","date_gmt":"2010-01-20T16:25:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6060"},"modified":"2010-01-20T16:25:35","modified_gmt":"2010-01-20T16:25:35","slug":"haiti-viver-na-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/01\/direitos-humanos\/haiti-viver-na-rua\/","title":{"rendered":"Haiti: Viver na rua"},"content":{"rendered":"<p>Porto Pr\u00edncipe, 20\/01\/2010 &ndash; O sol apenas se p\u00f5e no Haiti e os moradores da rua Berne j\u00e1 preparam suas camas improvisadas, dispostas cuidadosamente em um lado da rua, longe dos muros inseguros. Os homens levantam barricadas, deixando espa\u00e7o suficiente para passagem de um ve\u00edculo. Logo compartilham tudo o que t\u00eam: pasta de arroz com arenque defumado. Pouco depois, as m\u00e3es colocam seus filhos para dormir enquanto ouvem as not\u00edcias em r\u00e1dios que funcionam com bateria e, aos poucos, o grupo come\u00e7a a dormir. <!--more--> \u201cAs ruas se converteram em nosso lar, como os cachorros de rua que costum\u00e1vamos perseguir com paus e pedras\u201d, diz Herold Joseph, que nasceu e se criou neste velho enclave de classe m\u00e9dia. Joseph morava em uma casa com teto de lata, que agora est\u00e1 mais prec\u00e1ria do que nunca, como quase todas as outras da rua Berne, uma das ruas afetadas pelo terremoto de sete graus na escala Richter, que destruiu quase totalmente Porto Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>J\u00e1 foram recuperados 50 mil cad\u00e1veres, mas estima-se que os mortos passem de cem mil. A mis\u00e9ria \u00e9 descomunal. Calcula-se que tr\u00eas milh\u00f5es de haitianos perderam totalmente suas casas e outras moradias est\u00e3o muito inseguras para que as pessoas retornem a elas, o que transforma esta cidade em um abrigo gigante de pessoas sem teto. O cen\u00e1rio da rua Berne \u00e9 semelhante ao registrado em cada bairro desta capital rodeada por suaves montanhas.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios aspectos, os moradores da rua Berne est\u00e3o em melhor situa\u00e7\u00e3o do que muitos outros que, n\u00e3o encontrando amigos nos quais se amparar, buscam abrigo nos p\u00e1tios de pr\u00e9dios governamentais, como o escrit\u00f3rio do primeiro-ministro e a Rede de Televis\u00e3o Nacional, conhecida pela sigla em franc\u00eas TNH. Precisamente a TNH faz uma cobertura ao vivo do que ocorre em seu pr\u00f3prio p\u00e1tio, para aonde v\u00e1rias pessoas levaram colch\u00f5es ou farrapos para terem onde dormir.<\/p>\n<p>\u201cA nossa tem sido a melhor cobertura de televis\u00e3o\u201d, disse Pradel Henriques, diretor geral da emissora. \u201cDeve-se lembrar que o resto do pa\u00eds, particularmente a \u00e1rea que fica ao norte de Porto Pr\u00edncipe, tem eletricidade, e somos o \u00fanico canal que cobre toda a na\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou. Henriques est\u00e1 preocupado pela possibilidade de n\u00e3o poder continuar realizando esse trabalho por falta de equipamentos e porque alguns est\u00e3o estragando e, al\u00e9m disso, est\u00e1 ficando sem fitas.<\/p>\n<p>Contudo, ao contr\u00e1rio do que ocorre na rua Berne, estes moradores s\u00e3o permanentes nesses abrigos improvisados, sem outro lugar para ir durante o dia. Este \u00e9 seu lar. Como os poucos hospitais que ainda funcionam est\u00e3o saturados de cad\u00e1veres, estas esplanadas de pr\u00e9dios p\u00fablicos se converteram em improvisados centros de sa\u00fade. M\u00e9dicos haitianos e estrangeiros fazem partos, principalmente prematuros, induzidos pela como\u00e7\u00e3o sofrida pelas m\u00e3es. Os m\u00e9dicos suturam feridas e preparam gesso para as fraturas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito triste\u201d, disse Fernando G\u00f3mez, m\u00e9dico dominicano que pediu ajuda a Henriques para levar at\u00e9 a fronteira dominicana uma gr\u00e1vida que estava no p\u00e1tio da TV, a fim de submeter-se a uma cesariana. \u201cEstamos contentes em poder ajudar nossos vizinhos nesta trag\u00e9dia\u201d, disse G\u00f3mez. O m\u00e9dico contou que trabalha quase sem parar, indo de escrit\u00f3rios do governo a centros de sa\u00fade para tratar dos feridos. \u201cFazemos o melhor que podemos\u201d, diz, com certa resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora tenha sido um desastre natural, os problemas pol\u00edticos e a pobreza tiveram um papel importante na dimens\u00e3o da calamidade. Nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, Porto Pr\u00edncipe, antes uma buc\u00f3lica cidade onde havia grande n\u00famero de profissionais, se converteu em uma favela gigante, com constru\u00e7\u00f5es irregulares e bairros improvisados. A degrada\u00e7\u00e3o come\u00e7ou no in\u00edcio dos anos 60, quando o ditador Fran\u00e7ois \u201cPapa Doc\u201d Duvalier (1964-1971) passou a levar muitos camponeses para a capital, a fim de que o saudassem diante dos dignat\u00e1rios estrangeiros que visitavam o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas o sinistro Duvalier s\u00f3 deu passagem de ida, e os camponeses tiveram de ficar, abandonando suas terras. Assim, foram criados bairros como o tristemente c\u00e9lebre Cit\u00e9 Soleil. Uma vez ali, os camponeses ergueram barracos de lata, usando cimento mal misturado e sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o com redes de eletricidade e saneamento. Com o passar dos anos, a popula\u00e7\u00e3o de Porto Pr\u00edncipe, cidade constru\u00edda para abrigar 200 mil habitantes, saltou para quase dois milh\u00f5es. Este n\u00famero \u00e9 uma estimativa, j\u00e1 que em quase tr\u00eas d\u00e9cadas n\u00e3o foi realizado nenhum censo.<\/p>\n<p>\u201cDigo isto h\u00e1 anos. Mas n\u00e3o tenho \u2018pedigri\u2019 adequado, ent\u00e3o n\u00e3o me levam a s\u00e9rio\u201d, queixou-se o ge\u00f3logo Mathurin. Entrevistado na R\u00e1dio Signa FM, Mathurin disse que um estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, havia previsto o terremoto uma semana antes de o Haiti ser atingido. Tamb\u00e9m afirmou que, de certa maneira, o Haiti tem sorte, j\u00e1 que, na realidade, foram dois os sismos que o afetaram, mas suas rotas se cruzaram, limitando o impacto. \u201cTivemos sorte de receber as r\u00e9plicas em lugar dos outros terremotos que se seguiriam\u201d, disse.<\/p>\n<p>Quando amanhece, os moradores recolhem suas camas improvisadas e as levam para os quintais, liberando as ruas. Se lavam, escovam os dentes e tentam viver uma vida normal. Ao ser perguntado quanto tempo vai viver nas ruas, Joseph responde \u201cmuito tempo\u201d. Ele e outros homens saem como se fossem para o trabalho. Por\u00e9m, sua tarefa \u00e9 observar os escombros. Isto \u00e9, o que resta de sua amada cidade. IPS\/Envolverde<\/p>\n<p>* Especial para a IPS do The Haitian Times.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Pr\u00edncipe, 20\/01\/2010 &ndash; O sol apenas se p\u00f5e no Haiti e os moradores da rua Berne j\u00e1 preparam suas camas improvisadas, dispostas cuidadosamente em um lado da rua, longe dos muros inseguros. Os homens levantam barricadas, deixando espa\u00e7o suficiente para passagem de um ve\u00edculo. Logo compartilham tudo o que t\u00eam: pasta de arroz com arenque defumado. 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