{"id":6090,"date":"2010-02-03T11:58:00","date_gmt":"2010-02-03T11:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6090"},"modified":"2010-02-03T11:58:00","modified_gmt":"2010-02-03T11:58:00","slug":"mulheres-cuba-tecer-outra-ordem-das-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/mulheres-cuba-tecer-outra-ordem-das-coisas\/","title":{"rendered":"MULHERES-CUBA: Tecer outra ordem das coisas"},"content":{"rendered":"<p>Havana, 03\/02\/2010 &ndash; Andrea Del Sol come\u00e7ou a ser chamada por uma vizinha de \u201cLa Perseverante\u201d e assim ficou. Desde 1998, ela e um pequeno grupo de mulheres de Alamar, na periferia da capital cubana, puseram suas energias em um prop\u00f3sito comum: \u201cmudar a ordem das coisas\u201d.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6090\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/68954.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6090\" class=\"size-medium wp-image-6090\" title=\"Mulheres da oficina de Alamar preparam juntas uma bandeira. - Jos\u00e9 Luis Ba\u00f1os \/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/68954.jpg\" alt=\"Mulheres da oficina de Alamar preparam juntas uma bandeira. - Jos\u00e9 Luis Ba\u00f1os \/IPS\" width=\"200\" height=\"136\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6090\" class=\"wp-caption-text\">Mulheres da oficina de Alamar preparam juntas uma bandeira. - Jos\u00e9 Luis Ba\u00f1os \/IPS<\/p><\/div>  As preocupa\u00e7\u00f5es eram muitas, como a necessidade de ter um espa\u00e7o para compartilhar, criar uma biblioteca e promover o saneamento ambiental. Por\u00e9m, qualquer urg\u00eancia parecia f\u00e1cil de enfrentar comparada \u00e0 viol\u00eancia cotidiana e de g\u00eanero que se respira nesta cidade dormit\u00f3rio por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEm minha regi\u00e3o vivem pessoas de mais de 57 munic\u00edpios do pa\u00eds. Cada uma trouxe seus costumes, suas ra\u00edzes, sua religi\u00e3o, e este \u00e9 um dos elementos a considerar quando s\u00e3o geradas situa\u00e7\u00f5es de conflito\u201d, contou \u00e0 IPS Del Sol, que h\u00e1 20 anos reside em Alamar Este, uma das principais \u00e1reas do muito extenso bairro.<\/p>\n<p>\u201cVivemos desde a viol\u00eancia extrema da agress\u00e3o f\u00edsica at\u00e9 a mais disfar\u00e7ada no interior da fam\u00edlia. \u00c9 a mulher maltratada, o pai que bota o filho na rua e aquele que o tem em casa e n\u00e3o lhe d\u00e1 a devida aten\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m, cada vez com maior frequ\u00eancia, vivemos a viol\u00eancia na rua\u201d, disse.<\/p>\n<p>Fileiras de edif\u00edcios quase iguais, j\u00e1 maltratados pelo salitre que chega do mar, se sucedem em quil\u00f4metros e quil\u00f4metros. Apenas os servi\u00e7os b\u00e1sicos de sa\u00fade, algumas unidades comerciais e muito escassas institui\u00e7\u00f5es culturais, esportivas ou recreativas, s\u00e3o uma realidade do que se poderia considerar um projeto nunca acabado.<\/p>\n<p>O bairro onde vive Del Sol se estende por mais de nove quil\u00f4metros quadrados e tem uma popula\u00e7\u00e3o aproximada de 38 mil habitantes. O n\u00famero n\u00e3o inclui uma quantidade importante de residentes que chegam das prov\u00edncias, ou outras regi\u00f5es da cidade, e n\u00e3o se inscrevem nos registros de endere\u00e7o.<\/p>\n<p>Procedente da cidade de Santa Cruz do Sul, 570 quil\u00f4metros a leste de Havana, e formada em Ci\u00eancias Pedag\u00f3gicas na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Del Sol \u00e9 a especialista principal da Oficina de Transforma\u00e7\u00e3o Integral do Bairro (TTIB) de Alamar Este, uma inst\u00e2ncia subordinada administrativamente ao governo municipal.<\/p>\n<p>Surgidos em 1988 por sugest\u00e3o do ent\u00e3o presidente Fidel Castro, os TTIB funcionam em 20 bairros da capital cubana, que mostram diferentes graus de vulnerabilidade, com a finalidade de promover a transforma\u00e7\u00e3o f\u00edsica, social e ambiental das comunidades, com a participa\u00e7\u00e3o ativa dos moradores.<\/p>\n<p>O fio de Ariadna<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou no por\u00e3o de um pr\u00e9dio. Duas tecel\u00e3s decidiram compartilhar sua arte com algumas vizinhas do bairro. O grupo foi crescendo espontaneamente e, quando o TTIB teve espa\u00e7o pr\u00f3prio, elas se mudaram para a casa onde funcionam atualmente. Assim surgiu o projeto conhecido desde ent\u00e3o como \u201cO fio de Ariadna\u201d.<\/p>\n<p>Se na mitologia grega o fio de Ariadna ajudou Teseu a encontrar a sa\u00edda do labirinto depois de matar o minotauro, em Alamar Este o grupo de tecel\u00e3s se converteu no cora\u00e7\u00e3o de uma ideia que foi enriquecida com retalhos, macram\u00e9, papel mach\u00e9, bonecaria e pintura.<\/p>\n<p>Uma d\u00e9cada depois, mais de cem mulheres passam a cada ano pelos cursos da oficina, a casa acolhe a Universidade do Idoso na regi\u00e3o, um projeto para pessoas com mais de 60 anos, trabalha com a popula\u00e7\u00e3o infantil na rede ambiental Mapa Verde e preparou mais de 200 moradores em pain\u00e9is de lideran\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas aprendem o que \u00e9 participa\u00e7\u00e3o genu\u00edna e vivem a oportunidade de se envolver com sua realidade, assumir compromissos e tomar decis\u00f5es\u201d, disse a l\u00edder comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Foi assim, quase como uma consequ\u00eancia l\u00f3gica, que no ano passado assumiram a m\u00e1xima responsabilidade na confec\u00e7\u00e3o de uma manta coletiva contra a viol\u00eancia de g\u00eanero. Coordenada pelo n\u00e3o governamental Grupo de Reflex\u00e3o e Solidariedade Oscar Arnulfo Romero (OAR), o trabalho incluiu pessoas de quatro oficinas da capital de Cuba.<\/p>\n<p>A tela de cinco metros de comprimento por um de largura, concebido pelo designer Jos\u00e9 Angel Lamas, mostra uma bandeira cubana coberta de flores, um sol com um homem e uma mulher no centro e um jardim em volta de tudo. Cada oficina se responsabilizou por fazer alguma parte e tudo foi unido em Alamar Este.<\/p>\n<p>Para Ventura Gonz\u00e1lez, o artista que pintou o jardim na manta, sua elabora\u00e7\u00e3o foi uma oportunidade \u00fanica para artes\u00e3os e artistas unirem-se em uma obra comum. \u201cLa Perseverante\u201d Del Sol, no entanto, destaca o clima de solidariedade que surgiu em torno da obra e o trabalho com pessoas que chegaram do \u201coutro extremo da cidade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEra algo que se devia tocar com as m\u00e3os. Aprendemos a nos aliar por algo positivo e, durante os meses que durou o trabalho, vieram pessoas volunt\u00e1rias de muitos lugares oferecer suas ideias e colaborar com o que fosse necess\u00e1rio. A manta nos fortaleceu\u201d, ressaltou a l\u00edder.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7as a partir da comunidade<\/p>\n<p>Integrante, desde 2006, do programa de atividades organizado em Cuba em torno do 25 de novembro, Dia Internacional de Combate \u00e0 Viol\u00eancia contra as Mulheres, Alamar Este \u00e9 apenas uma das oficinas da cidade que h\u00e1 anos participam de um projeto de sensibiliza\u00e7\u00e3o da OAR em rela\u00e7\u00e3o ao problema da viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n<p>\u201cDesnaturalizar a viol\u00eancia come\u00e7a por cada um de n\u00f3s, dos homens e mulheres implicados no problema. A comunidade tem um papel importante porque nela est\u00e3o as pessoas que querem fazer coisas a favor da n\u00e3o viol\u00eancia\u201d, disse \u00e0 IPS Gabriel Coderch, coordenador geral da OAR.<\/p>\n<p>Com a mesma confian\u00e7a na contribui\u00e7\u00e3o de cada pessoa na promo\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as sociais, a equipe da oficina de Alamar Este definiu a viol\u00eancia de g\u00eanero como uma de suas linhas estrat\u00e9gicas de trabalho e, de oficina em oficina, compreendeu que n\u00e3o bastava trabalhar com as mulheres maltratadas, com os homens e as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Assim tem sido com as institui\u00e7\u00f5es e, sobretudo, com o sistema educacional. \u201cTrabalhamos com professores jovens e tamb\u00e9m com professores de muita experi\u00eancia porque compreendemos que \u00e9 preciso come\u00e7ar com as brincadeiras infantis. As crian\u00e7as t\u00eam de aprender a brincar sem viol\u00eancia\u201d, disse Del Sol.<\/p>\n<p>\u201cQuando come\u00e7amos, pens\u00e1vamos que a mulher estando presente j\u00e1 seria suficiente. Com o tempo descobrimos que sem os homens n\u00e3o faz\u00edamos nada, que este projeto precisava pens\u00e1-los e t\u00ea-los juntos. E depois entendemos que t\u00ednhamos de criar espa\u00e7os para determinados grupos mas tamb\u00e9m intergera\u00e7\u00f5es\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Quanto mais trabalha na promo\u00e7\u00e3o da n\u00e3o viol\u00eancia, Andrea del Sol tem a sensa\u00e7\u00e3o de que lhe resta muito mais por fazer: \u201c\u00e9 como uma miss\u00e3o para toda a vida\u201d, confessou. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, 03\/02\/2010 &ndash; Andrea Del Sol come\u00e7ou a ser chamada por uma vizinha de \u201cLa Perseverante\u201d e assim ficou. 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