{"id":6092,"date":"2010-02-03T12:01:30","date_gmt":"2010-02-03T12:01:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6092"},"modified":"2010-02-03T12:01:30","modified_gmt":"2010-02-03T12:01:30","slug":"forum-social-mundial-machista-mas-aberto-e-estimulante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/forum-social-mundial-machista-mas-aberto-e-estimulante\/","title":{"rendered":"F\u00d3RUM SOCIAL MUNDIAL: Machista, mas aberto e estimulante"},"content":{"rendered":"<p>Porto Alegre, 03\/02\/2010 &ndash; O F\u00f3rum Social Mundial (FSM) \u201cmudou nossas vidas\u201d, embora continue sendo \u201cmachista\u201d e os homens dominem sua organiza\u00e7\u00e3o e a maioria dos paineis, resumiu Nalu Farias, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6092\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/68957.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6092\" class=\"size-medium wp-image-6092\" title=\"Mulheres e homens compartilham uma marcha no F\u00f3rum Social Mundial. - Verena Glass\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/68957.jpg\" alt=\"Mulheres e homens compartilham uma marcha no F\u00f3rum Social Mundial. - Verena Glass\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6092\" class=\"wp-caption-text\">Mulheres e homens compartilham uma marcha no F\u00f3rum Social Mundial. - Verena Glass<\/p><\/div>  H\u00e1 apenas uma mulher entre sete homens no comit\u00ea brasileiro que organizou os primeiros encontros do FSM em Porto Alegre, onde h\u00e1 dez anos nasceu este espa\u00e7o de encontro das organiza\u00e7\u00f5es sociais de todo o mundo.<\/p>\n<p>As personalidades mundiais que ampliaram sua celebridade nos sucessivos f\u00f3runs comp\u00f5em uma lista com um desequil\u00edbrio semelhante.<\/p>\n<p>Quando o FSM comemora sua primeira d\u00e9cada na mesma cidade que lhe deu origem, houve maioria feminina apenas em uma das dez mesas-redondas realizadas ao longo da semana passada, a de sustentabilidade.<\/p>\n<p>Ainda assim, as ativistas presentes em Porto Alegre enaltecem o processo iniciado em 2001, porque lhes permitiu articular alian\u00e7as internacionais e a\u00e7\u00f5es comuns, ampliar a repercuss\u00e3o de suas demandas e suas pr\u00f3prias vis\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cGanhamos capacidade de articula\u00e7\u00e3o\u201d, e o di\u00e1logo com outros movimentos e organiza\u00e7\u00f5es sociais \u201cnos obrigou a melhorar nossas formula\u00e7\u00f5es e o discurso feminista. Tivemos que nos apropriar de temas econ\u00f4micos, ambientais e outras quest\u00f5es sociais\u201d, admitiu Farias.<\/p>\n<p>O FSM \u00e9 um espa\u00e7o de aprendizagem para todos, ao reunir em um s\u00f3 espa\u00e7o uma inimagin\u00e1vel diversidade mundial de movimentos, lutas, etnias, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais e grupos dos mais diferentes matizes.<\/p>\n<p>Sua metodologia \u201c\u00e9 uma abordagem de g\u00eanero\u201d, disse Raffaella Bollini, da Associa\u00e7\u00e3o Recreativa e Cultural Italiana, que atua em centros comunit\u00e1rios. Al\u00e9m de acolher a diversidade, o FSM rompe com o pensamento de esquerda que vislumbra apenas mudan\u00e7as pela tomada do poder, \u201cn\u00e3o compartilha e busca derrotar, n\u00e3o incluir\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Sua din\u00e2mica n\u00e3o \u00e9 a do poder de l\u00edderes, mas de facilitadores \u201cpara servir, n\u00e3o comandar\u201d, a favor da inclus\u00e3o \u201ccontra a viol\u00eancia e a imposi\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou. Isso \u00e9 o mais importante no F\u00f3rum, n\u00e3o o conte\u00fado que poderia ser discutido tamb\u00e9m em outros \u00e2mbitos, concluiu.<\/p>\n<p>O FSM abriu ao feminismo um campo in\u00e9dito para levar sua voz, inserir suas demandas em uma a\u00e7\u00e3o mais global e \u201ccontaminar\u201d outros movimentos e ativistas com suas ideias, segundo C\u00e2ndido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>\u201cA contamina\u00e7\u00e3o foi m\u00fatua, muitos aprenderam e se enriqueceram conosco, e n\u00f3s aprendemos com outros movimentos, sobretudo porque a teoria feminista \u00e9 porosa, est\u00e1 em permanente mudan\u00e7a\u201d, disse L\u00edlian Celiberti, da Articula\u00e7\u00e3o Feminista Marcosul, com sede no Uruguai.<\/p>\n<p>Essa caracter\u00edstica da corrente feminista contrasta com outras que, \u201cmesmo sendo alternativas, t\u00eam voca\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica, como a economia\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Celiberti prop\u00f4s que o di\u00e1logo m\u00faltiplo e horizontal, propiciado pelo FSM, se contraponha \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o do conhecimento, uma tend\u00eancia da especializa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se freia \u201capenas com a vontade\u201d de alguns. \u201c\u00c9 necess\u00e1ria uma inst\u00e2ncia ampla como o F\u00f3rum\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 \u201cpensar globalmente em intera\u00e7\u00e3o com outros, como as ind\u00edgenas e camponesas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Outro ganho de todos foi \u201cromper estere\u00f3tipos\u201d, que geram danos e distor\u00e7\u00f5es. Os progressos nesse processo foram grandes, \u201choje os di\u00e1logos no FSM s\u00e3o mais complexos\u201d, comemorou a ativista uruguaia, unida por la\u00e7os dram\u00e1ticos com Porto Alegre.<\/p>\n<p>Em 1978, foi sequestrada na capital ga\u00facha, por policiais brasileiros em cumplicidade com militares uruguaios, e provavelmente n\u00e3o perdeu a vida porque alguns jornalistas descobriram o caso, que era parte da Opera\u00e7\u00e3o Condor, a coopera\u00e7\u00e3o repressiva e ilegal de pa\u00edses sul-americanos, na \u00e9poca todos sob ditaduras.<\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os feministas proporcionados pelo FSM, Celiberti cr\u00edtica a \u201chierarquiza\u00e7\u00e3o\u201d das lutas no processo de discuss\u00e3o, que coloca em posi\u00e7\u00e3o \u201csecund\u00e1ria\u201d as quest\u00f5es de g\u00eanero, diante das que s\u00e3o consideradas \u201curgentes, priorit\u00e1rias\u201d, como pobreza, desemprego ou imperialismo.<\/p>\n<p>\u00c9 estimulada a economia da gratuidade e do cuidado, sem levar em conta que apresentam \u201cenormes custos para a mulher\u201d, cujo trabalho mais generalizado, de garantir a reprodu\u00e7\u00e3o da vida e o cuidado com a inf\u00e2ncia, os idosos e enfermos, \u00e9 gratuito, afirmou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u201cno F\u00f3rum sente-se\u201d barreiras ao debate mais aberto de quest\u00f5es como o patriarcado. Quando se trata de protestar contra as guerras participam todos e todas, mas \u201ca viol\u00eancia contra as mulheres\u201d \u00e9 uma luta espec\u00edfica somente delas, lamentou.<\/p>\n<p>A Marcha Mundial das Mulheres, que assumiu o car\u00e1ter de movimento em outubro de 2000, ap\u00f3s sete meses de mobiliza\u00e7\u00f5es, se distingue de outras vertentes feministas por sua op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de esquerda, sua estrat\u00e9gia de auto-organiza\u00e7\u00e3o e alian\u00e7a com outros movimentos mistos.<\/p>\n<p>\u201cRenovou o feminismo\u201d, assegurou Farias, ao promover amplas mobiliza\u00e7\u00f5es, inclusive dentro do FSM, cujos organizadores inicialmente se opunham a marchas e atos p\u00fablicos como parte do processo de debates.<\/p>\n<p>\u201cPrivilegiamos o movimento social, atuamos e pensamos\u201d, destacou, recha\u00e7ando uma divis\u00e3o no feminismo entre \u201ca\u00e7\u00e3o de umas e pensamentos de outras\u201d. Criticou tamb\u00e9m as que \u201caboliram as classes\u201d, por pretender uma luta separada pela igualdade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>As articula\u00e7\u00f5es no FSM e em outros encontros levaram a Marcha a uma aproxima\u00e7\u00e3o mais estreita com a Via Camponesa, na qual a luta pela soberania alimentar tem grande import\u00e2ncia, e com a Amigos da Terra Internacional, focada na quest\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e0s vezes recebe cr\u00edticas por priorizar essas alian\u00e7as em detrimento de outros grupos feministas.<\/p>\n<p>A Marcha tem representa\u00e7\u00e3o em 70 pa\u00edses. No Brasil, uma das na\u00e7\u00f5es onde criou ra\u00edzes mais profundas, conta com comit\u00eas em 20 de seus 27 Estados.<\/p>\n<p>Sua \u00eanfase nas lutas sociais e pol\u00edticas incorpora as demandas claramente feministas, com a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto, mas foca no direito das mulheres \u00e0 \u201cautonomia de seu corpo\u201d e n\u00e3o em posi\u00e7\u00f5es defensivas, como em outras organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m prop\u00f5e que as mulheres devem levar adiante mobiliza\u00e7\u00f5es de massa, n\u00e3o se limitando apenas a pressionar os parlamentos e outros poderes do Estado, para, assim, acumular for\u00e7as na sociedade, explicou Farias.<\/p>\n<p>O FSM possibilitou ao movimento organizado da mulher se fortalecer e se ampliar no di\u00e1logo com outros movimentos e correntes de pensamento, ganhar maior repercuss\u00e3o, estabelecer novas alian\u00e7as e desenvolver a\u00e7\u00f5es conjuntas, reconhece a dirigente.<\/p>\n<p>Diante do \u201cmachismo\u201d refletido na organiza\u00e7\u00e3o, nos temas e no direito \u00e0 voz dentro do FSM, a Marcha Mundial conseguiu desde o in\u00edcio conquistar espa\u00e7os por meio de suas mobiliza\u00e7\u00f5es, atos e paineis de iniciativa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Tudo isso para defender um \u201cfeminismo cr\u00edtico, com vis\u00e3o de classe, claramente anticapitalista e contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o do corpo\u201d, concluiu Farias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Alegre, 03\/02\/2010 &ndash; O F\u00f3rum Social Mundial (FSM) \u201cmudou nossas vidas\u201d, embora continue sendo \u201cmachista\u201d e os homens dominem sua organiza\u00e7\u00e3o e a maioria dos paineis, resumiu Nalu Farias, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/forum-social-mundial-machista-mas-aberto-e-estimulante\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,4],"tags":[21,24],"class_list":["post-6092","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-mundo","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6092","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6092"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6092\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}