{"id":6135,"date":"2010-02-10T13:59:25","date_gmt":"2010-02-10T13:59:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6135"},"modified":"2010-02-10T13:59:25","modified_gmt":"2010-02-10T13:59:25","slug":"paquistao-parteiras-comunitarias-contra-a-mortalidade-materna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/direitos-humanos\/paquistao-parteiras-comunitarias-contra-a-mortalidade-materna\/","title":{"rendered":"PAQUIST\u00c3O: Parteiras comunit\u00e1rias contra a mortalidade materna"},"content":{"rendered":"<p>Carachi, Paquist\u00e3o, 10\/02\/2010 &ndash; Quando a paquistanesa Kanwal Gul, de 25 anos, estava para dar \u00e0 lua seu primeiro filho, h\u00e1 um ano, assegurou-se de que a parteira tradicional soubesse exatamente o que deveria fazer. <!--more--> \u201cColoque as luvas\u201d, ordenou-lhe. Gul tamb\u00e9m se preocupou para que houvesse um len\u00e7ol de pl\u00e1stico onde ela ia parir e que a parteira tivesse o estojo com o material necess\u00e1rio. Gul vive na aldeia Mahmud Tahee, no distrito de Matiari da prov\u00edncia de Sindi, 230 quil\u00f4metros ao norte desta cidade portu\u00e1ria do Paquist\u00e3o, onde exerce a tarefa de parteira comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Obteve o t\u00edtulo de parteira em 2004, e h\u00e1 tr\u00eas anos se especializou em cuidados comunit\u00e1rios em um curso oferecido pelo Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef), dentro de um projeto-piloto que desenvolveu em Sind, entre novembro de 2006 e dezembro de 2007. \u201cTodas aprendemos a ajudar nos partos em hospitais. Mas a capacita\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria nos preparou para trabalhar em aldeias onde as instala\u00e7\u00f5es s\u00e3o b\u00e1sicas e inclusive n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dios\u201d, disse Afshan Keerio, que \u00e9 parteira em seu povoado do distrito de Sanghar, tamb\u00e9m em Sind.<\/p>\n<p>Por outro lado, as parteiras tradicionais n\u00e3o t\u00eam nenhuma forma\u00e7\u00e3o. Aprenderam o of\u00edcio, muito comum nas aldeias rurais, com suas m\u00e3es e sogras, mas n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00f5es precisas da anatomia feminina. Durante sua gravidez, Gul continuou trabalhando como parteira comunit\u00e1ria e fazendo os exames pr\u00e9-natais mensais, para garantir que estava tudo bem e que poderia ter o filho em casa. Um ano depois, m\u00e3e e filha est\u00e3o muito saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Gul dirige um centro de partos, que segue em qualidade a um centro de sa\u00fade b\u00e1sica de sua pobre aldeia, e que construiu com apoio do Unicef e de sua comunidade. Conta com uma maca e um suporte para soro. No pequeno quintal h\u00e1 uma latrina e fora do recinto uma bomba manual de \u00e1gua, fornecida pelo Unicef. O conselheiro da aldeia, Qadir Dino, reconheceu que a mortalidade materna diminuiu gra\u00e7as ao trabalho de Gul. \u201cMorrem menos m\u00e3es durante o parto\u201d, afirmou, sem dar n\u00fameros.<\/p>\n<p>\u201cAntes, quando havia complica\u00e7\u00e3o no parto, costum\u00e1vamos levar rapidamente a gr\u00e1vida at\u00e9 um hospital das grandes cidades vizinhas de Hala e Bhit Shah\u201d, contou Dino. O transporte era um problema, por ser muito caro. \u201cE se cheg\u00e1vamos ao hospital, n\u00e3o t\u00ednhamos garantias de sermos atendidos porque somos pobres e sem instru\u00e7\u00e3o. Vamos aqui e ali e mesmo depois de pagar n\u00e3o consegu\u00edamos tratamento de qualidade\u201d, disse Dino. \u201cPelo menos no centro de parto sabemos que, se houver complica\u00e7\u00e3o, Gul poder\u00e1 atender ou podemos nos dirigir a um hospital onde, com um bilhete dela, esperar atendimento para nossos pacientes\u201d, contou Shah Khatoon, m\u00e3e de quatro filhos.<\/p>\n<p>O projeto de maternidade do Unicef contribui para criar um sistema para que as parteiras comunit\u00e1rias enviem pacientes aos m\u00e9dicos dos hospitais. As parteiras diplomadas foram ganhando respeito e confian\u00e7a nas aldeias e as tradicionais tiveram de aceitar a leve perda de import\u00e2ncia de seu papel, frequentemente de m\u00e1 vontade. Mas ainda h\u00e1 muitas aldeias que dependem das parteiras tradicionais e \u00e9 preciso reconhecer a import\u00e2ncia das diplomadas.<\/p>\n<p>Gul contou que as parteiras tradicionais n\u00e3o dizem nada \u201cna cara\u201d, mas fazem sentir que \u201cperderam seu trabalho\u201d. Cerca de 500 rec\u00e9m-nascidos morrem por dia no Paquist\u00e3o antes do primeiro m\u00eas de vida, segundo o Estado Mundial da Inf\u00e2ncia 2009, elaborado pelo Unicef. A cada quatro minutos morre pelo menos um rec\u00e9m-nascido. Este pa\u00eds est\u00e1 em oitavo lugar entre os que t\u00eam os \u00edndices mais altos desse indicador. A mortalidade materna no campo e nas cidades, entre 2006 e 2007, chegou a 276 mortes para cada 100 mil nascidos vivos, segundo a Pesquisa Demogr\u00e1fica e de Sa\u00fade do Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>O indicador varia de 175, em \u00e1reas urbanas, a 319 nas rurais, onde reside a maioria dos 167 milh\u00f5es de habitantes desta na\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica. O Paquist\u00e3o espera reduzir o \u00edndice para 140 at\u00e9 2015, quando vence o prazo para cumprir os oito Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio, acordo assumido nas Na\u00e7\u00f5es Unidas por 189 chefes de Estado e de governo durante a C\u00fapula do Mil\u00eanio, de 2000. Entre essas metas est\u00e1 reduzir pela metade as pessoas com fome no mundo, educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria universal, igualdade de g\u00eanero, reduzir a mortalidade infantil em dois ter\u00e7os e a materna em tr\u00eas quartos, entre 1990 e 2015.<\/p>\n<p>Aproximadamente 39% dos partos do Paquist\u00e3o contam com aten\u00e7\u00e3o de pessoal capacitado, segundo a Pesquisa Demogr\u00e1fica e de Sa\u00fade, e 60% s\u00e3o atendidos por pessoas sem nenhum treinamento ou por parteiras tradicionais, o que aumenta o risco de mortes maternas e a mortalidade e morbidade do rec\u00e9m-nascido. Apenas um em cada tr\u00eas partos \u00e9 atendido em centros de sa\u00fade. \u201cA \u00fanica e mais importante interven\u00e7\u00e3o para conseguir uma maternidade segura \u00e9 garantir que uma pessoa capacitada esteja em todos os nascimentos e que haja algum meio de transporte para casos de emerg\u00eancia\u201d, segundo o Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA).<\/p>\n<p>Shershah Syed, destacado ginecologista de Carachi, reconhecido por ser um defensor dos direitos da mulher, n\u00e3o tem esperan\u00e7as de que os m\u00e9dicos reduzam a mortalidade materna no Paquist\u00e3o. \u201cOs m\u00e9dicos, e em especial as mulheres, nunca trabalhar\u00e3o nas \u00e1reas com altos \u00edndices de mortalidade materna. Apenas uma parteira da \u00e1rea pode trabalhar ali e dar assist\u00eancia obst\u00e9trica b\u00e1sica\u201d, disse. Farid Midhet, diretor de Pesquisas M\u00e9dicas da Faculdade de Medicina da Universidade de Qassim, na Ar\u00e1bia Saudita, responsabiliza os ministros da Sa\u00fade e do Bem-Estar do Paquist\u00e3o por sua falta de vis\u00e3o e por n\u00e3o promoverem a forma\u00e7\u00e3o de parteiras como uma profiss\u00e3o \u00e0 parte, em lugar de associada \u00e0 enfermagem.<\/p>\n<p>Atualmente, a lei de enfermagem est\u00e1 em discuss\u00e3o. Al\u00e9m disso, s\u00e3o feitos cursos r\u00e1pidos para formar professores de parteiras, testar um novo programa de forma\u00e7\u00e3o de parteiras comunit\u00e1rias e fortalecer os centros de sa\u00fade para que sejam capazes de dar apoio a elas. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade lan\u00e7ou, em 2008, um plano nacional de capacita\u00e7\u00e3o de parteiras comunit\u00e1rias de cinco anos, dentro do programa de sa\u00fade materna, neonatal e infantil, destinado a formar cerca de 12 mil profissionais e distribu\u00ed-las nas \u00e1reas mais pobres do pa\u00eds. Os cursos contam com 6.263 alunas e 1.230 j\u00e1 o completaram.<\/p>\n<p>O plano \u201cnos d\u00e1 esperan\u00e7a de que, com as parteiras diplomadas, chegaremos a cumprir os objetivos 4 e 5 at\u00e9 2015\u201d, disse Nabila Zaka, especialista em sa\u00fade materna e infantil do Unicef, referindo-se \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de mortes infantil e materna. Por\u00e9m, \u201c\u00e9 preciso fazer mais, especialmente quanto aos aspectos pr\u00e1ticos da capacita\u00e7\u00e3o, que deve ser refor\u00e7ada\u201d, afirmou Imtiaz Kamal, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Obstetr\u00edcia do Paquist\u00e3o, que inclui parteiras e obstetras. \u201cH\u00e1 uma necessidade urgente de contar com mecanismos de regula\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica obst\u00e9trica para proteger parteiras e pacientes\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m preocupa Kamal o fato de \u201cuma maioria de parteiras receber diploma apenas por seu bom rendimento te\u00f3rico\u201d, disse. Inclusive, \u201co Paquist\u00e3o carece de um programa para formar professores de parto. Os de enfermagem capacitam as parteiras\u201d, acrescentou. Mas esse problema j\u00e1 est\u00e1 sendo resolvido, disse Zaka, do Unicef. Por exemplo, j\u00e1 foram identificadas parteiras em comunidades onde existem possibilidades de ficarem trabalhando e est\u00e3o sendo capacitadas nos centros de sa\u00fade locais. \u201cEssas parteiras comunit\u00e1rias ficar\u00e3o registradas e seguir\u00e3o as normas do Conselho de Enfermagem do Paquist\u00e3o e far\u00e3o seu trabalho sob supervis\u00e3o das autoridades sanit\u00e1rias de seu distrito\u201d, explicou. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carachi, Paquist\u00e3o, 10\/02\/2010 &ndash; Quando a paquistanesa Kanwal Gul, de 25 anos, estava para dar \u00e0 lua seu primeiro filho, h\u00e1 um ano, assegurou-se de que a parteira tradicional soubesse exatamente o que deveria fazer. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/direitos-humanos\/paquistao-parteiras-comunitarias-contra-a-mortalidade-materna\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":215,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,6,7],"tags":[17,21,24],"class_list":["post-6135","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-direitos-humanos","category-saude","tag-asia-e-pacifico","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6135","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/215"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6135"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6135\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}