{"id":6163,"date":"2010-02-18T12:42:46","date_gmt":"2010-02-18T12:42:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6163"},"modified":"2010-02-18T12:42:46","modified_gmt":"2010-02-18T12:42:46","slug":"forum-social-mundial-o-que-mudou-e-o-que-falta-mudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/forum-social-mundial-o-que-mudou-e-o-que-falta-mudar\/","title":{"rendered":"F\u00d3RUM SOCIAL MUNDIAL: O que mudou e o que falta mudar"},"content":{"rendered":"<p>Porto Alegre, 18\/02\/2010 &ndash; No F\u00f3rum Social Mundial (FSM) deste ano, o maior espa\u00e7o para os que se op\u00f5em ao capitalismo, ganharam protagonismo os sindicatos e as cosmovis\u00f5es n\u00e3o ocidentais, diz nesta entrevista o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6163\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/69744.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6163\" class=\"size-medium wp-image-6163\" title=\"Boaventura de Sousa Santos no calor de Porto Alegre - Antonio Martins\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/69744.jpg\" alt=\"Boaventura de Sousa Santos no calor de Porto Alegre - Antonio Martins\/IPS\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6163\" class=\"wp-caption-text\">Boaventura de Sousa Santos no calor de Porto Alegre - Antonio Martins\/IPS<\/p><\/div>  O sindicalismo \u2013 a seu ver \u2013 ocupa um novo lugar, n\u00e3o hegem\u00f4nico e em di\u00e1logo com outros movimentos. O professor da Universidade de Coimbra destaca o valor da incorpora\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocidentais, mas alerta para o risco de virar moda a ideia ind\u00edgena do \u201cbem viver\u201d.<\/p>\n<p>Uma das tens\u00f5es que subsistem no FSM se refere \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre movimentos sociais, partidos e institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Sousa prop\u00f5e a discuss\u00e3o das tr\u00eas formas de democracia, a representativa, a participativa e a comunit\u00e1ria. A longa jornada do FSM 2010 se estender\u00e1 por todo o ano, desdobrando-se em quase 40 f\u00f3runs em 22 pa\u00edses. A abertura foi no final de janeiro, com dois grandes encontros, um em Porto Alegre e outro em Salvador, que reuniram cerca de 30 mil pessoas.<\/p>\n<p>IPS: Como avalia a abertura do FSM 2010?<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos: Os progressos ocorreram nas \u00e1reas em que nosso pensamento ainda n\u00e3o est\u00e1 bem articulado: a mudan\u00e7a de civiliza\u00e7\u00e3o, a crise do capitalismo, os novos bens p\u00fablicos e a import\u00e2ncia das ideias e cosmovis\u00f5es n\u00e3o ocidentais. O encontro de Porto Alegre revelou, ainda, o novo papel do movimento sindical e o protagonismo dos jovens.<\/p>\n<p>IPS: A que se refere quando cita a crescente presen\u00e7a dos sindicatos?<\/p>\n<p>BSS: Nos primeiros encontros do FSM, a participa\u00e7\u00e3o dos sindicatos era muito limitada. O sindicalismo ainda se via como o grande movimento social e considerava que suas bandeiras e lutas eram as mais importantes. Na concep\u00e7\u00e3o que prevalecia na \u00e9poca, tudo o mais era folcl\u00f3rico e as organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores corriam risco de perder for\u00e7a e energia, caso se misturassem com certas \u201cextravag\u00e2ncias\u201d. O sindicalismo sofreu mais do que todos os outros movimentos na \u00faltima d\u00e9cada. Na Europa, em pa\u00edses do Sul como a \u00cdndia \u2013 inclusive em Estados governados por comunistas, como Kerala e Bengala Ocidental \u2013 foi registrada uma acentuada queda nos postos de trabalho e a desarticula\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias. Mas, ao longo dessa d\u00e9cada, aconteceu uma evolu\u00e7\u00e3o not\u00e1vel. O movimento sindical percebeu a pujan\u00e7a do FSM e foi aderindo cada vez mais a ele. E um detalhe: ingressa sem nenhuma inten\u00e7\u00e3o de se apropriar de bandeiras nem de dominar o espa\u00e7o. Quer dialogar de igual para igual. Vemos o que no Brasil \u00e9 chamado de nascimento de um \u201csindicalismo dos movimentos sociais\u201d, que implica incidir em outros temas ligados aos trabalhadores, como moradia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Para quem trabalha, s\u00e3o temas t\u00e3o importantes quanto o que ocorre dentro das f\u00e1bricas. Esta mudan\u00e7a \u00e9 percebida tanto no FSM como em outros espa\u00e7os pol\u00edticos. Constato esses novos ares nos semin\u00e1rios realizados por iniciativa da Universidade Popular dos Movimentos Sociais. Normalmente, os sindicalistas chegam muito convencidos de seu protagonismo, e com dificuldades para reconhecer a import\u00e2ncia de outros atores. Por\u00e9m, isso dura pouco. Em seguida, percebem que as lutas travadas contra a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua pelas mineradoras, para evitar que as monoculturas inviabilizem a pequena produ\u00e7\u00e3o camponesa, ou para garantir o direito ao saneamento, s\u00e3o parte da mesma l\u00f3gica de resist\u00eancia ao capitalismo.<\/p>\n<p>IPS: H\u00e1 novidades do ponto de vista da teoria da emancipa\u00e7\u00e3o social?<\/p>\n<p>BSS: Est\u00e1 se ampliando o consenso de que n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o apenas entre capital e trabalho, mas tamb\u00e9m entre capital e natureza. N\u00e3o s\u00f3 o trabalho \u00e9 convertido em fator de produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a natureza \u00e9 transformada em um recurso que se pode destruir sem nenhuma considera\u00e7\u00e3o pela sustentabilidade, nem no longo prazo, por nosso direito a estabelecer outra rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Outro \u00eaxito \u00e9 a import\u00e2ncia da luta pela paz. Meses depois do primeiro FSM, foram cometidos os ataques de 11 de setembro de 2001 contra as Torres G\u00eameas e teve in\u00edcio a \u201cguerra sem fim\u201d contra o terrorismo, por parte do governo de George W. Bush. O F\u00f3rum se converteu em um espa\u00e7o importante para essa bandeira, presente em atividades vinculadas \u00e0 Palestina e ao Iraque, e \u00e0s tentativas de estabelecer di\u00e1logos entre civiliza\u00e7\u00f5es, como alternativa para o \u201cchoque\u201d previsto por centenas de te\u00f3ricos.<\/p>\n<p>IPS: Nesse contexto est\u00e1 inclu\u00edda a quest\u00e3o das cosmovis\u00f5es n\u00e3o ocidentais?<\/p>\n<p>BSS: Sim. At\u00e9 o final da d\u00e9cada, o FSM assumiu como tema o protagonismo ind\u00edgena em muitas partes da Am\u00e9rica do Sul. Era algo j\u00e1 expresso em processos pol\u00edticos do Equador e da Bol\u00edvia, que resultaram nas vit\u00f3rias dos presidentes Rafael Correa e Evo Morales, respectivamente. As ideias deste novo sujeito incorporam ao debate o conceito do \u201cbem viver\u201d, como alternativa ao desenvolvimento infinito que rompe as rela\u00e7\u00f5es entre homem, mulher e natureza. Al\u00e9m disso, ficou claro que as cosmovis\u00f5es ind\u00edgenas da Am\u00e9rica n\u00e3o s\u00e3o apenas uma contribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para o FSM. Fazem parte de um conjunto vasto de pensamentos n\u00e3o coloniais originados na \u00c1frica, na \u00cdndia, na China, como o confucionismo. Embora seja costume fazer com que passem invis\u00edveis no Ocidente, revelam que a esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o vive segundo as regras do lucro infinito, da competi\u00e7\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o do outro, mas segundo regras de conviv\u00eancia social que se apoiam em outra rela\u00e7\u00e3o com a natureza e os bens p\u00fablicos. Nisto vejo um perigo de banaliza\u00e7\u00e3o. Muitos assumem novos conceitos como o \u201cbem viver\u201d como uma moda, sem saber o que expressam exatamente. No \u201cbem viver\u201d h\u00e1 uma dimens\u00e3o profunda de espiritualidade e religiosidade. O pensamento ocidental n\u00e3o \u00e9 capaz de incorporar facilmente estes elementos. A religi\u00e3o foi colocada no \u00e2mbito do privado e transformada em uma op\u00e7\u00e3o sem v\u00ednculos com a vida pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural dos povos. Segundo essa l\u00f3gica, h\u00e1 quem fale orgulhosamente de \u201cbem viver\u201d e se deleite comendo hamb\u00farguer elaborado com componentes que viajam quatro mil quil\u00f4metros antes de chegar ao p\u00e3o. \u00c9 impressionante como se bebe \u00e1gua engarrafada nos FSM. E ningu\u00e9m pensa no abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel gratuita, s\u00edmbolo dos servi\u00e7os p\u00fablicos que devem ser restaurados.<\/p>\n<p>IPS: Em qual aspecto o debate sobre as rela\u00e7\u00f5es entre movimentos, partidos e pol\u00edtica institucional poderia tornar o FSM mais efetivo?<\/p>\n<p>BSS: O FSM teve um grande papel na redefini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da \u00faltima d\u00e9cada. Em um momento de crise do sistema partid\u00e1rio, os f\u00f3runs afirmaram, com raz\u00e3o, que os partidos j\u00e1 n\u00e3o exerciam o monop\u00f3lio da representa\u00e7\u00e3o. Os movimentos e as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil s\u00e3o cada vez mais importantes para a constru\u00e7\u00e3o de um futuro coletivo. Mas, tamb\u00e9m, e em raz\u00e3o disto, alguns partidos novos ou j\u00e1 existentes passaram a reconhecer o fim desse monop\u00f3lio: o governante Movimento ao Socialismo (MAS) da Bol\u00edvia, a Alian\u00e7a Pa\u00eds, do Equador, e algumas for\u00e7as na Europa. Est\u00e3o presentes nas lutas sociais, aliam-se com os movimentos, buscam novas rela\u00e7\u00f5es. Como responder a esta nova realidade? Voltamos \u00e0 velha ideia de que os movimentos s\u00e3o tem\u00e1ticos e os partidos s\u00e3o gerais? Tentamos articular as v\u00e1rias formas de democracia? Procuramos combinar uma vis\u00e3o sobre as democracias representativa, participativa e comunit\u00e1ria com os diferentes atores de cada esfera, e como criar sinergias entre diversas formas de a\u00e7\u00e3o para a transforma\u00e7\u00e3o social? O FSM deveria ser um espa\u00e7o para esse debate. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Alegre, 18\/02\/2010 &ndash; No F\u00f3rum Social Mundial (FSM) deste ano, o maior espa\u00e7o para os que se op\u00f5em ao capitalismo, ganharam protagonismo os sindicatos e as cosmovis\u00f5es n\u00e3o ocidentais, diz nesta entrevista o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/forum-social-mundial-o-que-mudou-e-o-que-falta-mudar\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1203,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,4,11],"tags":[],"class_list":["post-6163","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1203"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6163"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6163\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}