{"id":617,"date":"2005-05-20T00:00:00","date_gmt":"2005-05-20T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=617"},"modified":"2005-05-20T00:00:00","modified_gmt":"2005-05-20T00:00:00","slug":"povos-indgenas-racismo-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/05\/mundo\/povos-indgenas-racismo-ambiental\/","title":{"rendered":"Povos Ind&iacute;genas: Racismo ambiental"},"content":{"rendered":"<p>Arcata,  Calif&oacute;rnia, 20\/05\/2005 &ndash; Em todos os tempos e em todas as latitudes, os pobres e os discriminados por motivos raciais foram empurrados para as terras menos favorecidas e menos f&eacute;rteis, mais propensas a inunda&ccedil;&otilde;es e secas. Mas somente nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas ficou evidente como as ind&uacute;strias t&oacute;xicas se instalam de forma desproporcional nas vizinhan&ccedil;as desses grupos populacionais. O racismo ambiental &eacute; um fen&ocirc;meno estreitamente associado &agrave; globaliza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. A maioria das empresas multinacionais do Norte prefere se desfazer de seus dejetos nos pa&iacute;ses do Sul, onde a pobreza e a falta de emprego transformam o manejo do lixo t&oacute;xico em uma tr&aacute;gica necessidade.<br \/> <!--more--> <br \/> Tamb&eacute;m &eacute; n&iacute;tida a tend&ecirc;ncia das ind&uacute;strias contaminantes de se instalarem em pa&iacute;ses onde a m&atilde;o-de-obra &eacute; barata, como China e &Iacute;ndia. Com isso, n&atilde;o s&oacute; diminuem os custos trabalhistas, como tamb&eacute;m evitam as regulamenta&ccedil;&otilde;es ambientais que vigoram em seus pa&iacute;ses de origem e que tornariam seus produtos menos competitivos. A discrimina&ccedil;&atilde;o se reproduz em alguns pa&iacute;ses do Sul. Por exemplo, em sua precipitada investida rumo ao desenvolvimento econ&ocirc;mico, a China est&aacute; submetendo seus cidad&atilde;os mais pobres a grandes riscos ao manter em suas proximidades atividades manufatureiras sem considerar seus letais impactos no ar, na &aacute;gua e no solo que os cerca. Freq&uuml;entemente, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o fazem uma cobertura fugaz dos acidentes industriais distantes.<\/p>\n<p> O catastr&oacute;fico vazamento de produtos qu&iacute;micos letais em uma instala&ccedil;&atilde;o da Union Carbide em Bhopal, na &Iacute;ndia, h&aacute; duas d&eacute;cadas, causou mais de tr&ecirc;s mil mortes e 500 mil feridos. Foi o pior acidente industrial da hist&oacute;ria. Entretanto, enquanto o ataque ao World Trade Center em Nova York em setembro de 2001, que matou uma quantidade semelhante de pessoas que em Bhopal mas que deixou menos feridos, atraiu a aten&ccedil;&atilde;o mundial a ponto de se transformar em agenda global, a cidade indiana logo foi esquecida. Mesmo em uma na&ccedil;&atilde;o opulenta como os Estados Unidos, os p&oacute;los de pobreza atraem as ind&uacute;strias contaminantes. Os residentes pobres e na maioria brancos das comunidades &agrave; margem das usinas petroqu&iacute;micas gigantes no chamado &quot;Beco do C&acirc;ncer&quot; no Estado de Luisiana e em outros locais ao redor do pa&iacute;s, s&atilde;o afetados de forma desproporcional por causa da contamina&ccedil;&atilde;o do ar, do solo e da &aacute;gua e pelo envenenamento com pesticidas e chumbo.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil realizar estudos comprobat&oacute;rios das rela&ccedil;&otilde;es causa-efeito entre a contamina&ccedil;&atilde;o e as enfermidades. S&atilde;o necess&aacute;rias investiga&ccedil;&otilde;es caras e a longo prazo, que quase sempre os afetados n&atilde;o podem exigir. Em Diamond, na Luisiana, uma comunidade afro-americana situada junto ao rio Mississippi, ao longo do chamado Corredor Qu&iacute;mico, entre Nova Orleans e Baton Rouge, v&aacute;rias centenas de descendentes diretos de escravos vivem entre duas enormes refinarias qu&iacute;micas instaladas pela companhia Shell. Durante meio s&eacute;culo, eles subsistiram com um coquetel t&oacute;xico de ar contaminado, queima maci&ccedil;a de g&aacute;s e peri&oacute;dicos acidentes industriais. <\/p>\n<p> Os moradores de Diamond sofrem doen&ccedil;as que, segundo eles, s&atilde;o causadas por sua exposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s opera&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas da Shell: dores de cabe&ccedil;a, alergias, asma, problemas respirat&oacute;rios, afec&ccedil;&otilde;es na pele, al&eacute;m de numerosos casos de c&acirc;ncer que cobraram muitas vidas. Entretanto, na comunidade de Norco (que inclui oficialmente Diamond) 98% dos habitantes s&atilde;o brancos. As duas comunidades est&atilde;o separadas por uma &aacute;rea arborizada e por um abismo de cultura e experi&ecirc;ncia que as converte em mundos separados. Ao contr&aacute;rio dos moradores de Diamond, poucos dos quais podem conseguir trabalho na Shell, na comunidade branca de Norco prevalecem os empregados da empresa, que proporciona escolas, hospitais e outras formas de assist&ecirc;ncia a v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es de moradores.<\/p>\n<p> Enquanto os moradores de Diamond denunciavam sintomas graves de contamina&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica, seus vizinhos de Norco afirmavam que seu estado de sa&uacute;de era melhor do que a m&eacute;dia nacional. As contrastantes percep&ccedil;&otilde;es das duas popula&ccedil;&otilde;es mostram as conseq&uuml;&ecirc;ncias da segrega&ccedil;&atilde;o institucionalizada. Em meados dos anos 90, os moradores negros de Diamond embarcaram em uma &aacute;rdua campanha para conseguir que a Shell comprasse suas terras a pre&ccedil;os que lhes permitisse iniciar a vida em outro lugar. Resistente a princ&iacute;pio, a companhia finalmente cedeu &agrave;s press&otilde;es de uma campanha magistralmente orquestrada por militantes ambientalistas em todo o pa&iacute;s, e tamb&eacute;m &agrave; a&ccedil;&atilde;o de especialistas legais e cientistas que rebateram com sucesso os argumentos da ind&uacute;stria e do governo.<\/p>\n<p> Ajudaram na campanha outros casos de luta ambientalista, como a not&oacute;ria repress&atilde;o da Shell contra a comunidade Ogoni, no delta do N&iacute;ger. Durante uma confer&ecirc;ncia internacional sobre mudan&ccedil;a clim&aacute;tica, a dirigente de base de Diamond, Margie Richard, apresentou a um funcion&aacute;rio da Shell uma amostra do coquetel t&oacute;xico de Diamond. Assombrado e comovido, Robert Kleiburg mobilizou rapidamente a alta dire&ccedil;&atilde;o da Shell para adotar a&ccedil;&otilde;es que impe&ccedil;am a repeti&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncia semelhante &agrave; da Nig&eacute;ria. Com o tempo, a aparentemente quixotesca reclama&ccedil;&atilde;o de uma indeniza&ccedil;&atilde;o por parte de Diamond n&atilde;o somente teve &ecirc;xito, como tamb&eacute;m se converteu em modelo para as campanhas pela justi&ccedil;a ambiental em outros pa&iacute;ses.<\/p>\n<p> Entre as muitas li&ccedil;&otilde;es desta experi&ecirc;ncia, se destaca de que o sucesso depende da coordena&ccedil;&atilde;o de diversas estrat&eacute;gias complementares: ativismo de base, experi&ecirc;ncia cient&iacute;fica e legal, obten&ccedil;&atilde;o de verbas de funda&ccedil;&otilde;es, participa&ccedil;&atilde;o de celebridades e pol&iacute;ticos e a mobiliza&ccedil;&atilde;o de diversas associa&ccedil;&otilde;es em n&iacute;veis local, nacional e internacional. E requer tamb&eacute;m presteza, tanto para erguer barricadas quanto para estender pontes no contexto de um entendimento compartilhado entre os aliados de que tais t&aacute;ticas, aparentemente contradit&oacute;rias, freq&uuml;entemente s&atilde;o essenciais. Assim como &eacute; decisivo permanecer fiel aos princ&iacute;pios originais, &eacute; fundamental se comunicar em n&iacute;vel humano com aqueles que &quot;do outro lado&quot; defende interesses diferentes dos nossos, mas igualmente respeit&aacute;veis. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) O jornalista Mark Sommer dirige o Mainstream Media Project e coordena o premiado programa de r&aacute;dio &quot;A world of possibilities&quot;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arcata,  Calif&oacute;rnia, 20\/05\/2005 &ndash; Em todos os tempos e em todas as latitudes, os pobres e os discriminados por motivos raciais foram empurrados para as terras menos favorecidas e menos f&eacute;rteis, mais propensas a inunda&ccedil;&otilde;es e secas. Mas somente nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas ficou evidente como as ind&uacute;strias t&oacute;xicas se instalam de forma desproporcional nas vizinhan&ccedil;as desses grupos populacionais. O racismo ambiental &eacute; um fen&ocirc;meno estreitamente associado &agrave; globaliza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. A maioria das empresas multinacionais do Norte prefere se desfazer de seus dejetos nos pa&iacute;ses do Sul, onde a pobreza e a falta de emprego transformam o manejo do lixo t&oacute;xico em uma tr&aacute;gica necessidade.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/05\/mundo\/povos-indgenas-racismo-ambiental\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":383,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-617","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/383"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=617"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/617\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}