{"id":6170,"date":"2010-02-19T12:10:26","date_gmt":"2010-02-19T12:10:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6170"},"modified":"2010-02-19T12:10:26","modified_gmt":"2010-02-19T12:10:26","slug":"mulheres-europa-cruzada-contra-mutilacao-genital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/mundo\/mulheres-europa-cruzada-contra-mutilacao-genital\/","title":{"rendered":"MULHERES-EUROPA: Cruzada contra mutila\u00e7\u00e3o genital"},"content":{"rendered":"<p>Viena, 19\/02\/2010 &ndash; As centenas de milhares de meninas e mulheres, que correm o risco de sofrer uma mutila\u00e7\u00e3o genital na Europa, levaram v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos a lan\u00e7ar uma campanha junto a governantes da regi\u00e3o contra o que qualificam de procedimento brutal e perigoso. <!--more--> A mutila\u00e7\u00e3o genital feminina (MGF) \u00e9 um termo gen\u00e9rico que compreende diferentes procedimentos como extirpa\u00e7\u00e3o total ou parcial dos genitais externos da mulher ou outro tipo de interven\u00e7\u00e3o em seus \u00f3rg\u00e3os sexuais sem justificativa m\u00e9dica. Trata-se de uma pr\u00e1tica condenada por v\u00e1rios governos, organiza\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e de direitos humanos do mundo.<\/p>\n<p>Os governos europeus aprovaram leis que pro\u00edbem o procedimento, mas os ativistas afirmam que, longe de ser erradicada, \u00e9 mantido em v\u00e1rias comunidades. \u201cPrecisamos agir. \u00c9 animador o compromisso pol\u00edtico, mas chegou a hora de tomar medidas no \u00e2mbito local e europeu\u201d, disse \u00e0 IPS Christine Loudes, que lidera a campanha encabe\u00e7ada pelo escrit\u00f3rio europeu da Anistia Internacional. Cerca de 140 milh\u00f5es de mulheres e meninas foram mutiladas no mundo, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). Al\u00e9m disso, estima-se que aproximadamente outras oito mil podem sofrer esse procedimento a cada dia.<\/p>\n<p>O tipo de procedimento praticado depende de fatores \u00e9tnicos e da localiza\u00e7\u00e3o das comunidades. Beb\u00eas com menos de um ano podem chegar a ser mutiladas, embora o comum seja isso acontecer com adolescentes de 15 anos. A abla\u00e7\u00e3o acontece no que os ativistas classificam de condi\u00e7\u00f5es \u201chorrorosas\u201d. Jovens aterrorizadas costumam ser dominadas por praticantes tradicionais que empregam objetos cortantes, como facas, l\u00e2minas de barbear ou peda\u00e7os de vidro, embora haja provas da interven\u00e7\u00e3o de profissionais m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>A OMS define quatro tipos de MGF. Primeiro a clitoridectomia, que \u00e9 a retirada parcial ou total do clit\u00f3ris (\u00f3rg\u00e3o pequeno, sens\u00edvel e er\u00e9til dos genitais femininos) e, em casos muito raros, apenas o prep\u00facio (dobra de pele que rodeia o clit\u00f3ris). Segundo, a incis\u00e3o, que \u00e9 o corte parcial ou total do clit\u00f3ris e dos l\u00e1bios menores, com ou sem incis\u00e3o dos grandes l\u00e1bios. Em terceiro, a infibula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o estreitamento da abertura vaginal para criar um selo por meio do corte e da recoloca\u00e7\u00e3o dos l\u00e1bios menores ou maiores, com ou sem redu\u00e7\u00e3o do clit\u00f3ris. Por fim, todos os demais procedimentos lesivos dos genitais externos com fins m\u00e9dicos, tais como perfura\u00e7\u00e3o, incis\u00e3o, raspagem ou cauteriza\u00e7\u00e3o da zona genital.<\/p>\n<p>As comunidades que a praticam alegam que \u00e9 para proteger as meninas de desejos sexuais il\u00edcitos ou porque os genitais femininos s\u00e3o anti-higi\u00eanicos. Em algumas sociedades, as mulheres que n\u00e3o foram mutiladas s\u00e3o consideradas impuras e proibidas de manipular alimentos e \u00e1gua. Por\u00e9m, organiza\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas afirmam que a MGF n\u00e3o tem beneficio m\u00e9dico algum e acarreta v\u00e1rios riscos. No curto prazo, pode causar grande perda de sangue, dor cr\u00f4nica, infec\u00e7\u00f5es e at\u00e9 a morte devido \u00e0 como\u00e7\u00e3o, \u00e0 hemorragia ou \u00e0 septicemia. No longo prazo, as consequ\u00eancias s\u00e3o infec\u00e7\u00f5es, \u00falceras genitais, danos no sistema reprodutivo e problemas psicol\u00f3gicos como transtorno por estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>Um estudo feito pela OMS em seis pa\u00edses africanos mostra que as mulheres mutiladas t\u00eam significativamente mais riscos de sofrer complica\u00e7\u00f5es durante o parto. A pr\u00e1tica tamb\u00e9m tem consequ\u00eancias negativas nos rec\u00e9m-nascidos. Entre um e dois beb\u00eas em cada cem partos morrem devido \u00e0 MGF, segundo a OMS. H\u00e1 muita documenta\u00e7\u00e3o sobre o procedimento na \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio, e em algumas comunidades da Am\u00e9rica do Sul e da Central, o que faz pensar que a MGF limita-se \u00e0s regi\u00f5es mais pobres e menos desenvolvidas do mundo, afirmam ativistas pelos direitos humanos. Contudo, a imigra\u00e7\u00e3o propagou a pr\u00e1tica na Europa.<\/p>\n<p>A Anistia Internacional e a OMS informam que h\u00e1 mais de 500 mil mulheres mutiladas neste continente e cerca de 180 mil por ano correm o risco da mutila\u00e7\u00e3o. A ex-top model somaliana Waris Darie, mutilada quando crian\u00e7a, tem sua pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o contra a MGF em Viena. \u201cA pr\u00e1tica floresce de forma ilegal em v\u00e1rias comunidades da Europa, apesar de estar proibida\u201d, disse Darie. \u201cA abla\u00e7\u00e3o \u00e9 tabu em muitos pa\u00edses. Na Europa \u00e9 praticada por comunidades de imigrantes origin\u00e1rios da \u00c1frica ou \u00c1sia. A estimativa de 500 mil v\u00edtimas existentes na Europa se baseia em casos africanos, mas o procedimento tamb\u00e9m \u00e9 praticado em muitas na\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas, no Iraque e Ir\u00e3 (comum entre os curdos), de onde procedem muitos dos refugiados que chegam a este continente\u201d, disse Darie.<\/p>\n<p>\u201cSabemos que muitos pais aproveitam as f\u00e9rias escolares e levam suas filhas para serem operadas em seus pa\u00edses de origem\u201d, acrescentou Darie. Os procedimentos feitos na Europa \u201cs\u00e3o praticados de forma ilegal e \u00e9 imposs\u00edvel ter n\u00fameros precisos. H\u00e1 casos de m\u00e9dicos envolvidos, mas normalmente s\u00e3o praticantes africanos que costumam vir especialmente para realizar a abla\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. A dimens\u00e3o real do problema deste continente pode ser muito maior do que sugerem as estat\u00edsticas, afirma a OMS.<\/p>\n<p>\u201cForam feitos estudos em pequena escala na Europa, e muito do que sabemos a respeito s\u00e3o suposi\u00e7\u00f5es e estimativas\u201d, reconheceu Elise Johansen, porta-voz da OMS sobre MGF. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil conhecer a verdadeira dimens\u00e3o do problema da mutila\u00e7\u00e3o, porque poucas pessoas admitem t\u00ea-la realizado por ser ilegal. A situa\u00e7\u00e3o pode ser muito pior do que pensamos\u201d, acrescentou. H\u00e1 leis proibindo de forma espec\u00edfica a MGF em alguns pa\u00edses europeus, como \u00c1ustria, B\u00e9lgica, Chipre, Dinamarca, Espanha, Gr\u00e3-Bretanha, It\u00e1lia, Noruega e Su\u00e9cia. Tamb\u00e9m \u00e9 ilegal na Fran\u00e7a, onde mais de 30 casos de mutila\u00e7\u00e3o foram punidos com penas de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas as leis n\u00e3o s\u00e3o totalmente efetivas, segundo as organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias. As dificuldades para detectar o problema e a falta de den\u00fancias, bem como a falta de provas suficientes para iniciar um julgamento, impedem que as meninas em perigo sejam protegidas. Al\u00e9m disso, essas organiza\u00e7\u00f5es denunciam a falta de clareza legal em mat\u00e9ria de asilo para as mulheres que fogem de seus pa\u00edses para evitar a mutila\u00e7\u00e3o. \u201cA MGF \u00e9 motivo de asilo, segundo as diretrizes da Uni\u00e3o Europeia (UE), mas nem todos os pa\u00edses do bloco a inclu\u00edram em suas legisla\u00e7\u00f5es, e algumas mulheres n\u00e3o recebem a prote\u00e7\u00e3o que deveriam ter\u201d, disse \u00e0 IPS Prerna Humple, porta-voz da campanha da Anistia, lan\u00e7ada com outras 12 organiza\u00e7\u00f5es, para cobrar os governantes a adotarem mais medidas para deter essa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A campanha \u201cEND FNG\u201d (Acabe com a MGF) inclui atividades em Lisboa, Viena, Nicosia, Bruxelas e Londres neste m\u00eas e no pr\u00f3ximo. A iniciativa pretende pressionar os funcion\u00e1rios da UE a tomarem medidas para proteger as mulheres e as meninas, inclu\u00edda assist\u00eancia m\u00e9dica para as mutiladas, melhores mecanismos de prote\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia e pautas de asilo claras para as pessoas que podem ser v\u00edtimas da MGF em seus pa\u00edses. Tamb\u00e9m engloba a melhoria da coleta de dados sobre a preval\u00eancia do problema na Europa e a inclus\u00e3o do tema na agenda para o di\u00e1logo da Uni\u00e3o Europeia com as na\u00e7\u00f5es onde a pr\u00e1tica prevalece.<\/p>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias tamb\u00e9m querem que os governos lancem urgentemente campanhas de informa\u00e7\u00e3o, por ser a melhor forma para contribuir com o fim da MGF. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio tratar o assunto de forma sistem\u00e1tica e reiterada nas comunidades que a praticam\u201d, insistiu Johansen, da OMS. \u201cEst\u00e1 provado que \u00e9 a forma mais efetiva de reduzir a MGF. \u00c9 preciso educar e informar as pessoas que a realizam. J\u00e1 se faz na \u00c1frica, mas falta algo semelhante na Europa. \u00c9 responsabilidade do governo implementar uma campanha desse tipo\u201d, ressaltou. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viena, 19\/02\/2010 &ndash; As centenas de milhares de meninas e mulheres, que correm o risco de sofrer uma mutila\u00e7\u00e3o genital na Europa, levaram v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos a lan\u00e7ar uma campanha junto a governantes da regi\u00e3o contra o que qualificam de procedimento brutal e perigoso. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/mundo\/mulheres-europa-cruzada-contra-mutilacao-genital\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":175,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,4,11,7],"tags":[18,21,24],"class_list":["post-6170","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-mundo","category-politica","category-saude","tag-europa","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/175"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6170"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6170\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}