{"id":6172,"date":"2010-02-22T11:28:35","date_gmt":"2010-02-22T11:28:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6172"},"modified":"2010-02-22T11:28:35","modified_gmt":"2010-02-22T11:28:35","slug":"brasil-carnaval-uma-revolucao-feminina-a-cada-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/brasil-carnaval-uma-revolucao-feminina-a-cada-ano\/","title":{"rendered":"BRASIL: Carnaval, uma revolu\u00e7\u00e3o feminina a cada ano"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 22\/02\/2010 &ndash; F\u00e1tima Oliveira, uma das poucas m\u00e9dicas negras do Brasil, sempre frequenta \u201co carnaval mais bonito\u201d, em Sabar\u00e1, cidade mineira de 130 mil habitantes, onde \u201cos homens se vestem de mulher\u201d em uma festa \u201cmuito familiar, do povo, sem turistas\u201d.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6172\" style=\"width: 143px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/69906.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6172\" class=\"size-medium wp-image-6172\" title=\"Uma mulher samba feliz no carnaval do Rio de Janeiro. - Dom\u00ednio p\u00fablico\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/69906.jpg\" alt=\"Uma mulher samba feliz no carnaval do Rio de Janeiro. - Dom\u00ednio p\u00fablico\" width=\"133\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6172\" class=\"wp-caption-text\">Uma mulher samba feliz no carnaval do Rio de Janeiro. - Dom\u00ednio p\u00fablico<\/p><\/div>  Os travestidos s\u00e3o comuns nos muitos e variados carnavais brasileiros. Mas \u00e9 maci\u00e7o em Sabar\u00e1, disse Oliveira, integrante do conselho da Rede de Sa\u00fade das Mulheres Latino-Americanas e do Caribe e que antes presidiu a Rede Nacional Feminista de Sa\u00fade e Direitos Sexuais e Reprodutivos.<\/p>\n<p>O carnaval brasileiro \u00e9 \u201cuma festa integral, libert\u00e1ria, de express\u00e3o corporal, de se desnudar do cotidiano para converter-se no que cada um gosta\u201d, e isso favorece as mulheres, especialmente as negras, protagonistas inclusive de um resgate est\u00e9tico como \u201crainhas\u201d e modelo de beleza, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>O carnaval tem origens pag\u00e3s anteriores ao cristianismo, com um car\u00e1ter subversivo, de dar volta ao mundo. O catolicismo o adotou para ajustar-se \u00e0 festa popular, mas dando-lhe o sentido de \u201cadeus aos prazeres da carne\u201d.<\/p>\n<p>O carnaval do Brasil \u00e9 considerado o mais importante dos realizados no mundo antes da quaresma, e se prolonga por mais de uma semana. As escolas de samba e as bandas ensaiam o ano todo para os desfiles que se multiplicam por todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>\u00c9 \u201cum momento, mas algo fica para o resto do ano\u201d, afirmou Oliveira.<\/p>\n<p>O carnaval \u00e9 \u201cuma invers\u00e3o do mundo\u201d para \u201ca alegria, a abund\u00e2ncia, a liberdade e, sobretudo, a igualdade de todos perante a sociedade\u201d, \u00e9 o \u201cfeminino em um universo social e cosmol\u00f3gico marcado pelos homens\u201d, segundo Roberto da Matta, reconhecido por dar a essa festa a dignidade de uma interpreta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Mas a festa serve apenas para \u201crevelar seu justo e exato oposto\u201d na realidade da vida, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>As mulheres desfrutam dessa invers\u00e3o da ordem que altera hierarquias\u201d, e sempre tiveram forte presen\u00e7a no carnaval, um lugar para o \u201cexerc\u00edcio do poder da sexualidade\u201d tamb\u00e9m dos homens, observou Sonia Correa, co-presidente do internacional Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sexualidade complexa<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es. \u201cO para\u00edso da sexualidade\u201d que surpreende os estrangeiros, especialmente os asi\u00e1ticos, pela maneira livre como os brasileiros \u201clidam com o corpo\u201d, tamb\u00e9m compreende discrimina\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, \u201ca domina\u00e7\u00e3o masculina\u201d e viol\u00eancias contra as mulheres e a inf\u00e2ncia, disse Correa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, \u00e9 crescente a presen\u00e7a ostensiva de transsexuais, que j\u00e1 superaram a fase de simples exibi\u00e7\u00e3o de suas op\u00e7\u00f5es e ganharam legitimidade para defender seus direitos no carnaval, e acabaram por politiz\u00e1-lo. Uma de suas demandas \u00e9 o direito a banheiros pr\u00f3prios, afirmou Correa.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, contou, um rep\u00f3rter de televis\u00e3o encantou-se com a beleza de uma jovem no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, e a seguiu para perguntar seu nome. \u201cWilson\u201d, foi a resposta.<\/p>\n<p>A festa \u201cmistura os desiguais\u201d, mas \u00e9 fruto de uma longa luta das comunidades negras, que criaram a forma atual do carnaval no Rio de Janeiro e em outras cidades. No in\u00edcio, h\u00e1 cerca de 80 anos, sofreram uma dura repress\u00e3o policial, recordou Correa \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Hoje, os negros continuam dominando a m\u00fasica e a bateria, o cora\u00e7\u00e3o da escola de samba.<\/p>\n<p>Os homossexuais conquistaram reconhecimento como m\u00e3o-de-obra art\u00edstica e ocupam lugares de destaque nas escolas de samba, e a conviv\u00eancia nesse meio \u00e9 positiva, mas n\u00e3o \u00e9 assim no Estado da Bahia, onde o carnaval \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Ali n\u00e3o diminui a viol\u00eancia homof\u00f3bica, destacou Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga organiza\u00e7\u00e3o homossexual da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>No Brasil, mais de tr\u00eas mil homossexuais e travestis foram assassinados desde 1980, segundo dados do monitoramento do GGB, que assegura que o pa\u00eds \u00e9 campe\u00e3o mundial desses crimes. Em seu \u00faltimo informe, que vai de 1980 a 2008, somavam 2.998, e a m\u00e9dia aumenta. Em 2008, foram 190 assassinatos, 55% a mais do que em 2007.<\/p>\n<p>No carnaval de rua e maci\u00e7o de Salvador aparecem v\u00e1rios grupos de homens vestidos de mulher e \u201cassumindo seu lado feminino\u201d, mas \u201ccontraditoriamente, s\u00e3o homof\u00f3bicos\u201d, disse Mott. Se travestem com a inten\u00e7\u00e3o de ridicularizar e \u201crefor\u00e7am seu antagonismo sexual para o resto do ano\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Muitos aproveitam a permissividade do carnaval para \u201cdescarregar seus \u00f3dios\u201d em um momento em que o ambiente de libera\u00e7\u00e3o e o consumo de \u00e1lcool aumentam a vulnerabilidade de uns e a agressividade de outros.<\/p>\n<p>Os trios el\u00e9tricos, que animam as multid\u00f5es de Salvador, contam com muitos cantores e m\u00fasicos gays ou l\u00e9sbicas, mas que n\u00e3o assumem publicamente sua condi\u00e7\u00e3o, lamentou.<\/p>\n<p>Para reduzir a homofobia, as paradas gay, como a de S\u00e3o Paulo que re\u00fane tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas, s\u00e3o mais efetivas do que o carnaval, comparou Mott. Ali, os LGBT (l\u00e9sbicas, gays, bissexuais e transg\u00eaneros) s\u00e3o protagonistas, ganham visibilidade e convivem com muitos heterossexuais, com efeitos socializadores, explicou.<\/p>\n<p>Rompendo amarras<\/p>\n<p>\u201cO carnaval \u00e9 para a mulher o que o futebol \u00e9 para os homens\u201d, diz Maria Bal\u00e9, psic\u00f3loga de S\u00e3o Paulo que preferiu se dedicar a fazer fotos e bolos, porque rejeita \u201cconstruir novos egos para quem apenas quer compr\u00e1-los falsificados\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se de \u201cum meio para se livrar das amarras\u201d que as sociedades foram acumulando em suas hist\u00f3rias, ao \u201cadestrar\u201d os seres humanos para sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, com regras, limita\u00e7\u00f5es e repress\u00f5es que se rompem em certos momentos para restabelecer a natureza humana profunda, \u201canimal, no bom sentido\u201d, explicou.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um retorno fugaz da natureza irreprim\u00edvel, da pot\u00eancia criadora, do exerc\u00edcio de liberdade\u201d humana, importante para ampliar o espa\u00e7o da vida sem repress\u00e3o, acrescentou. Esse \u00e9 tamb\u00e9m o papel das artes, de outras express\u00f5es culturais e dos esportes.<\/p>\n<p>Para as mulheres o beneficio \u00e9 mais evidente porque t\u00eam \u201cmais amarras das quais se libertar\u201d, e, por isso, as filhas s\u00e3o as que mais t\u00eam de lutar com suas fam\u00edlias para poderem participar da festa, destacou.<\/p>\n<p>O carnaval \u00e9 uma \u201cfesta feminina, tamb\u00e9m por acolher todo o mundo, uterinamente\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Sobre a mercantiliza\u00e7\u00e3o do corpo, cada vez mais desnudo nos espet\u00e1culos do carnaval, disse que \u201cmais obsceno s\u00e3o os desfiles de moda, que valorizam a roupa que se usa, em um exerc\u00edcio do poder material\u201d no qual as mulheres s\u00e3o usadas \u201ccomo cabides\u201d.<\/p>\n<p>Oliveira recha\u00e7a a cr\u00edtica moralista \u00e0 nudez, \u201cuma tradi\u00e7\u00e3o cultural brasileira\u201d. O carnaval \u201cdesnuda a hipocrisia\u201d, e sem esta festa anual \u201ca mulher seria mais discriminada\u201d na vida cotidiana, disse Bal\u00e9.<\/p>\n<p>Carnavais como os do Rio e S\u00e3o Paulo derivaram em um espet\u00e1culo comercial, com os desfiles das escolas de samba em locais pr\u00f3prios. Isso se justifica porque ganharam \u201cstatus de \u00f3pera de rua, uma evolu\u00e7\u00e3o que exige um local adequado\u201d, argumentou.<\/p>\n<p>Bal\u00e9 recorda que foi em um desfile do Rio, nos anos 80, onde pela primeira vez uma mulher negra, conhecida simplesmente pelo nome de Pinah, apareceu com uma exuberante fantasia feminina no alto de um carro aleg\u00f3rico, celebrando a beleza negra de forma in\u00e9dita.<\/p>\n<p>Agora, multiplicam-se as atrizes e modelos negras no mundo da televis\u00e3o e da moda. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 22\/02\/2010 &ndash; F\u00e1tima Oliveira, uma das poucas m\u00e9dicas negras do Brasil, sempre frequenta \u201co carnaval mais bonito\u201d, em Sabar\u00e1, cidade mineira de 130 mil habitantes, onde \u201cos homens se vestem de mulher\u201d em uma festa \u201cmuito familiar, do povo, sem turistas\u201d. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/brasil-carnaval-uma-revolucao-feminina-a-cada-ano\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[19,24],"class_list":["post-6172","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-arte-y-cultura","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6172"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6172\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}