{"id":6176,"date":"2010-02-22T11:41:53","date_gmt":"2010-02-22T11:41:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6176"},"modified":"2010-02-22T11:41:53","modified_gmt":"2010-02-22T11:41:53","slug":"cultura-o-idioma-materno-um-assunto-com-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/cultura-o-idioma-materno-um-assunto-com-genero\/","title":{"rendered":"CULTURA: O idioma materno, um assunto com g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 22\/02\/2010 &ndash; Para muitas estudiosas da l\u00edngua, o chamado a preservar o idioma materno e a institui\u00e7\u00e3o de um dia dedicado a isso n\u00e3o s\u00f3 implicam defender a diversidade cultural, como tamb\u00e9m favorecem a igualdade de g\u00eanero.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6176\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/69909.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6176\" class=\"size-medium wp-image-6176\" title=\"Uma m\u00e3e fala e brinca com seu pequeno filho. - Marcela Valente\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/69909.jpg\" alt=\"Uma m\u00e3e fala e brinca com seu pequeno filho. - Marcela Valente\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6176\" class=\"wp-caption-text\">Uma m\u00e3e fala e brinca com seu pequeno filho. - Marcela Valente\/IPS<\/p><\/div>  A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco) instituiu o dia 21de fevereiro como Dia Internacional do Idioma Materno, uma forma de defender a pluralidade lingu\u00edstica e evitar o desaparecimento das l\u00ednguas nativas.<\/p>\n<p>\u201cA l\u00edngua n\u00e3o se legitima em um espa\u00e7o privado \u2013 que \u00e9 o da transmiss\u00e3o da l\u00edngua materna \u2013 mas em um \u00e2mbito p\u00fablico, e esse espa\u00e7o de reconhecimento \u00e9 historicamente de homens\u201d, disse \u00e0 IPS a doutora em Filosofia Mar\u00eda Luisa Femen\u00edas, do Instituto de Estudos de G\u00eanero da Universidade de Buenos Aires (UBA).<\/p>\n<p>Para esta especialista, o que a m\u00e3e transmite \u201cn\u00e3o \u00e9 criado por ela. Ela \u00e9 mediadora, int\u00e9rprete\u201d da l\u00edngua que transfere aos filhos. Se essa transmiss\u00e3o ocorre em um entorno onde h\u00e1 outra l\u00edngua dominante, o idioma materno \u201cse empobrece, se reduz ao \u00e2mbito dom\u00e9stico e cristaliza\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA l\u00edngua se reduz, fica subvalorizada e \u00e9 vista como \u00fatil apenas para as quest\u00f5es di\u00e1rias, e perde capacidade de abstra\u00e7\u00e3o\u201d, alertou Femen\u00edas. \u201cIsto podemos ver muito bem em casais de pais procedentes de culturas e l\u00ednguas nativas diferentes\u201d, disse.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a criada por uma m\u00e3e de fala espanhola e pai de l\u00edngua inglesa, que vivem nos Estados Unidos ou Canad\u00e1, utilizar\u00e1 o idioma materno at\u00e9 certo ponto. E, na medida em que avan\u00e7ar em sua educa\u00e7\u00e3o, a l\u00edngua em que pode se instruir e obter boas qualifica\u00e7\u00f5es para maior inser\u00e7\u00e3o trabalhista ser\u00e1 o ingl\u00eas ou franc\u00eas.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre se uma m\u00e3e transmitir aos filhos o guarani, o catal\u00e3o, o sueco ou outras l\u00ednguas n\u00e3o hegem\u00f4nicas, acrescentou. Na medida em que a crian\u00e7a cresce e precisa ter acesso a um conhecimento mais complexo, dever\u00e1 avan\u00e7ar no dom\u00ednio da segunda l\u00edngua, que \u00e9 a dominante em seu contexto.<\/p>\n<p>\u201cNo sul dos Estados Unidos, h\u00e1 popula\u00e7\u00f5es rurais que ainda falam franc\u00eas, mas \u00e9 um franc\u00eas do s\u00e9culo XVII, que n\u00e3o est\u00e1 atualizado\u201d, disse, e, portanto, n\u00e3o seria suficiente para seus falantes poderem interpretar o mundo atual em toda sua complexidade, que cada vez mais exige o manejo de uma l\u00edngua franca ou veicular.<\/p>\n<p>Segundo um estudo feito por diversos linguistas para o \u201cAtlas das l\u00ednguas em perigo no mundo\u201d, da Unesco, quase metade das cerca de 6.700 l\u00ednguas que existem corre risco de desaparecer em maior ou menor prazo, com a amea\u00e7a que isso representa para a diversidade do patrim\u00f4nio cultural mundial.<\/p>\n<p>Por isso, a Unesco estabeleceu o Dia Internacional desde 1999, para chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre esta quest\u00e3o e promover pol\u00edticas p\u00fablicas que detenham a extin\u00e7\u00e3o de mais l\u00ednguas.<\/p>\n<p>O Atlas diz que h\u00e1 l\u00ednguas extintas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, outras que s\u00e3o faladas apenas por anci\u00e3os. H\u00e1 centenas de l\u00ednguas em \u201cperigo\u201d ou em \u201cs\u00e9rio perigo\u201d, segundo os casos, e ainda as \u201cvulner\u00e1veis\u201d, relacionadas com as migra\u00e7\u00f5es internacionais, que s\u00e3o as faladas pelas crian\u00e7as apenas no \u00e2mbito familiar.<\/p>\n<p>Julia \u00e9 argentina, tem nove anos e h\u00e1 seis vive na cidade de Vancouver, no Canad\u00e1. Seus pais, argentinos, emigraram com ela e outros dois filhos mais velhos em 2003, e disseram \u00e0 IPS que, mesmo em casa, onde todos falam espanhol, a pequena apela para o ingl\u00eas quando n\u00e3o encontra a palavra adequada no espanhol.<\/p>\n<p>A menina pensa em ingl\u00eas e traduz, conta seu pai, Gustavo Rapaport. \u201cQuando atende o telefone diz \u201cit\u2019s me, Julita\u201d, em lugar de \u201csoy yo, Julita\u201d, porque em ingl\u00eas se usa \u201cit\u2019s me\u201d. \u201cmas isso acontece aqui o tempo todo com os latinos. Os mexicanos \u201cparqueiam a traca\u201d (parking de truck \u2013 estacionar o caminh\u00e3o), ironizou.<\/p>\n<p>Rapaport tamb\u00e9m mencionou que o sistema operacional dos computadores e as aplica\u00e7\u00f5es e o teclado est\u00e3o em ingl\u00eas, onde as vogais acentuadas n\u00e3o existem. \u201cNas crian\u00e7as vai se degradando muito tamb\u00e9m a ortografia em espanhol. Falam bem, mas escrevem com muitos erros\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para algumas especialistas, n\u00e3o \u00e9 totalmente claro que este fen\u00f4meno implique um retrocesso para a mulher-m\u00e3e, que \u00e9 a que transmite a l\u00edngua.<\/p>\n<p>\u201cPode ser que a l\u00edngua materna, em alguns contextos, n\u00e3o sirva para conseguir melhor trabalho, mas h\u00e1 uma dimens\u00e3o vital, simb\u00f3lica, que se transmite com a l\u00edngua, e que n\u00e3o se empobrece\u201d, disse e fil\u00f3sofa Marta Herrera, outra estudiosa da linguagem na UBA.<\/p>\n<p>Herrara \u00e9 uma especialista na obra da fil\u00f3sofa feminista italiana Luisa Muraro, autora de \u201cA ordem simb\u00f3lica da m\u00e3e\u201d. Neste livro, ela diz que a m\u00e3e, ou quem cumpre esta fun\u00e7\u00e3o, d\u00e1 a vida e a palavra, e que a ordem que d\u00e1 certeza e ref\u00fagio, o que regra o comportamento, \u00e9 transmitido pela m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u201cDa m\u00e3e recebemos a vida e a palavra, juntas, e a ordem simb\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 feita pelo poder nem pela lei, apenas pela l\u00edngua\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Suas teorias questionam a filosofia tradicional e a psican\u00e1lise, que se apoiam na ideia de que a m\u00e3e e o rec\u00e9m-nascido mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o natural baseada no desejo, mas que \u00e9 o pai, a lei ou a cultura que p\u00f5em racionalidade nesse v\u00ednculo, resumiu \u00e0 IPS Elsa Drucaroff, professora de Letras da UBA.<\/p>\n<p>\u201cMuraro afirma que a m\u00e3e cria pontes entre as palavras e as coisas, e, assim, com a l\u00edngua transmite certeza. Essa transmiss\u00e3o n\u00e3o se perde, ainda que perca autoridade, porque at\u00e9 o mais c\u00e9tico dos fil\u00f3sofos acredita que faz sentido pensar, e essa confian\u00e7a vem da m\u00e3e\u201d, destacou.<\/p>\n<p>O que acontece, disse Drucaroff, \u00e9 que, \u201cmesmo quando a tarefa de ensinar ou transmitir o idioma esteve sempre destinada \u00e0s mulheres, a filosofia e depois a psican\u00e1lise de forma mais sofisticada tendem a afirmar que a m\u00e3e \u00e9 apenas a terra que o homem cultiva\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como se a m\u00e3e criasse sem pensar, mas a m\u00e3e pensa, n\u00e3o \u00e9 puro desejo. Muraro questiona a ideia de que para pensar precisamos da for\u00e7a masculina, porque n\u00e3o h\u00e1, na verdade, modo algum de pensar que n\u00e3o seja por meio da l\u00edngua que ela nos transmite\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Para Drucaroff, esta quest\u00e3o independe de as m\u00e3es transmitirem uma vis\u00e3o patriarcal do mundo. O que resgata \u00e9 que, na teoria de Muraro, a m\u00e3e n\u00e3o se limita a dar \u00e0 luz, mas transmite s\u00edmbolos, uma linguagem, e isso \u00e9 muito mais do que um v\u00ednculo da natureza.<\/p>\n<p>Da medicina chegam tamb\u00e9m descobertas que garantem o papel materno na aprendizagem da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Um estudo feito na Alemanha, divulgado em outubro, concluiu que os fetos ouvem de perto o idioma de suas m\u00e3es, no \u00faltimo trimestre da gesta\u00e7\u00e3o, porque ao nascerem choram com padr\u00f5es que reproduzem a entoa\u00e7\u00e3o materna. A base para a aprendizagem do idioma chega, inclusive, antes do nascimento, disseram os pesquisadores.<\/p>\n<p>Como resultado, os beb\u00eas choram com entona\u00e7\u00e3o em franc\u00eas, alem\u00e3o, espanhol ou qualquer outro idioma materno, o que confirma que a voz materna e o maior est\u00edmulo para o feto e o rec\u00e9m-nascido, analisa Janet DiPietro, decana associada em pesquisa da Escola de Sa\u00fade P\u00fablica Bloomberg da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O mais espetacular da descoberta \u00e9 que neonascidos humanos captam elementos do que ser\u00e1 seu idioma materno antes de nascer e que preferem as pautas sonoras da m\u00e3e a qualquer outra, explicou uma das autoras do estudo, Kathleen Wermke, da alem\u00e3 Universidade de W\u00fcrzburg.<\/p>\n<p>Essa prefer\u00eancia \u00e9 porque \u201cpercebem o conte\u00fado emocional das mensagens que a m\u00e3e envia com sua entona\u00e7\u00e3o\u201d e os beb\u00eas est\u00e3o \u201cmuito motivados\u201d a imit\u00e1-la para atra\u00ed-la. \u00c9, de fato, o \u00fanico aspecto da linguagem que conseguem imitar com tr\u00eas dias ap\u00f3s nascerem, concluiu o estudo. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 22\/02\/2010 &ndash; Para muitas estudiosas da l\u00edngua, o chamado a preservar o idioma materno e a institui\u00e7\u00e3o de um dia dedicado a isso n\u00e3o s\u00f3 implicam defender a diversidade cultural, como tamb\u00e9m favorecem a igualdade de g\u00eanero. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/02\/america-latina\/cultura-o-idioma-materno-um-assunto-com-genero\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,4],"tags":[19,21,24],"class_list":["post-6176","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-mundo","tag-arte-y-cultura","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6176","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6176\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}