{"id":6214,"date":"2010-03-02T12:03:54","date_gmt":"2010-03-02T12:03:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6214"},"modified":"2010-03-02T12:03:54","modified_gmt":"2010-03-02T12:03:54","slug":"mulheres-mais-educadas-do-que-eles-mas-nao-mais-iguais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/03\/america-latina\/mulheres-mais-educadas-do-que-eles-mas-nao-mais-iguais\/","title":{"rendered":"MULHERES: Mais educadas do que eles, mas n\u00e3o mais iguais"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 02\/03\/2010 &ndash; A escolaridade feminina avan\u00e7ou em todo o mundo, e em muitos pa\u00edses as meninas e as mo\u00e7as estudam mais e melhor do que os homens h\u00e1 d\u00e9cadas. Mas isso est\u00e1 longe de se traduzir em equidade no trabalho, na pol\u00edtica e nas rela\u00e7\u00f5es sociais.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6214\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/70364.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6214\" class=\"size-medium wp-image-6214\" title=\"Alunas e alunos em uma escola de Quibd\u00f3, capital de Choc\u00f3, Col\u00f4mbia. - Jes\u00fas Abad Colorado\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/70364.jpg\" alt=\"Alunas e alunos em uma escola de Quibd\u00f3, capital de Choc\u00f3, Col\u00f4mbia. - Jes\u00fas Abad Colorado\/IPS\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6214\" class=\"wp-caption-text\">Alunas e alunos em uma escola de Quibd\u00f3, capital de Choc\u00f3, Col\u00f4mbia. - Jes\u00fas Abad Colorado\/IPS<\/p><\/div>  No Brasil, por exemplo, 53,3% dos que entraram na universidade em 2007 eram mulheres. Essa propor\u00e7\u00e3o quase sempre foi superior a 55% nos \u00faltimos 15 anos. E a participa\u00e7\u00e3o aumenta em mais de cinco pontos percentuais entre os que concluem cada curso, o que confirma que elas s\u00e3o melhores estudantes.<\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o maioria em todos os n\u00edveis de ensino e sua escolaridade supera em mais de um ano a masculina. Por\u00e9m, seus sal\u00e1rios s\u00e3o 30% inferiores aos dos homens na mesma fun\u00e7\u00e3o, e elas ocupam apenas 56 das 594 cadeiras do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Nas Filipinas, onde h\u00e1 muito as mulheres alfabetizadas s\u00e3o mais do que os homens, 17,8% delas se graduam na universidade, contra 8,2% dos homens, segundo a Comiss\u00e3o Nacional sobre o Papel da Mulher.<\/p>\n<p>Mas as filipinas se concentram em carreiras como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, e ficam fora das de engenharia e direito, \u00e1reas dominadas em mais de 80% por homens.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na \u00c1frica do Sul elas s\u00e3o maioria nas universidades, embora n\u00e3o em carreiras de tradi\u00e7\u00e3o masculina, como engenharia. E tampouco ocupam posteriormente muitos cargos de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Chile, as mulheres tamb\u00e9m superam os homens em educa\u00e7\u00e3o, segundo o governamental \u00cdndice de Iniquidade Territorial de G\u00eanero 2009, que considera o analfabetismo, anos de escolaridade e cobertura do ensino b\u00e1sico e m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as chilenas perdem em participa\u00e7\u00e3o trabalhista, com 42%, e seu n\u00edvel salarial \u00e9 30% inferior ao de seus colegas homens.<\/p>\n<p>\u201cA educa\u00e7\u00e3o sozinha n\u00e3o faz milagres\u201d, pois mudar valores \u00e9 mais complexo e \u201cenquanto n\u00e3o houver creches para todas as fam\u00edlias, n\u00e3o haver\u00e1 mudan\u00e7as estruturais na participa\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho\u201d, disse Fulvia Rosemberg, pesquisadora da brasileira Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas, ao lan\u00e7ar um olhar sobre a desigualdade de oportunidades entre os g\u00eaneros.<\/p>\n<p>O Brasil vale como exemplo. Apenas 18% dos meninos de zero a tr\u00eas anos frequentam creches, disse ao TerraViva. Al\u00e9m disso, em geral as escolas recebem as crian\u00e7as por apenas meio per\u00edodo, impondo tripla jornada de trabalho \u00e0s mulheres, privando-as de \u201ccondi\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis\u201d \u00e0s dos homens, afirmou a tamb\u00e9m professora da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A isso se soma o mesmo ensino. O curr\u00edculo, os livros e a forma de educar reproduzem preconceitos que desvalorizam o papel feminino, o confinam no lar, a trabalhos e carreiras pouco valorizadas, acrescentou. Na universidade, a maioria das mulheres escolhe as ci\u00eancias humanas e os homens as \u00e1reas de exatas e tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A escolaridade feminina progrediu rapidamente, mas as mudan\u00e7as culturais s\u00e3o lentas e as institucionais ainda mais, disse Moema Viezzer, soci\u00f3loga fundadora da Rede de Educa\u00e7\u00e3o Popular entre Mulheres da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, cuja campanha por uma educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o sexista acontece, h\u00e1 29 anos, todo dia 21 de junho.<\/p>\n<p>Foram necess\u00e1rias d\u00e9cadas de luta do movimento antes da admiss\u00e3o de mulheres no governo e no Supremo Tribunal brasileiro. A VI Confer\u00eancia Mundial sobre a Mulher, de 1995, em Pequim, representou \u201cum salto quantitativo\u201d, ao impulsionar pol\u00edticas p\u00fablicas, com o Estado assumindo programas antes limitados a organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, disse Viezzer.<\/p>\n<p>Desde ontem e at\u00e9 o dia 12 deste m\u00eas acontece, na sede da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Nova York, a confer\u00eancia da Comiss\u00e3o da Condi\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica e Social da Mulher, para avaliar o cumprimento dos compromissos assumidos h\u00e1 15 anos. O acesso das mulheres a todos os n\u00edveis educacionais foi uma das 12 prioridades da Plataforma de A\u00e7\u00e3o de Pequim.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de um ensino com enfoque de g\u00eanero adequado, s\u00e3o necess\u00e1rias muitas a\u00e7\u00f5es afirmativas e uma educa\u00e7\u00e3o popular para a igualdade de g\u00eanero, defendeu Viezzer.<\/p>\n<p>A melhor escolaridade feminina se imp\u00f5e onde conta o esfor\u00e7o pessoal e a capacidade, mas n\u00e3o quando entram em jogo rela\u00e7\u00f5es, negocia\u00e7\u00f5es, a promo\u00e7\u00e3o por recomenda\u00e7\u00e3o de chefes, disse Schuma Schumacher, coordenadora da n\u00e3o governamental Rede de Desenvolvimento Humano do Brasil.<\/p>\n<p>Um quadro pior na \u00c1frica<\/p>\n<p>No plano mundial, a porcentagem de meninas sem instru\u00e7\u00e3o caiu de 58% para 54% entre 1999 e 2007, segundo o Informe de Acompanhamento da Educa\u00e7\u00e3o para Todos no Mundo 2010. Isto \u00e9, o acesso feminino no ensino prim\u00e1rio continua abaixo do masculino.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica subsaariana havia 89 meninas para cada cem meninos na escola prim\u00e1ria em 2006, segundo o Informe dos Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior no ensino secund\u00e1rio, onde as adolescentes caem para 80 para cada cem. No conjunto do ensino, elas constituem 55% das exclu\u00eddas.<\/p>\n<p>A realidade subsaariana, de muita pobreza, fome, guerras e epidemia de s\u00edndrome da defici\u00eancia imunol\u00f3gica adquirida (aids), trava a escolaridade e fomenta a deser\u00e7\u00e3o escolar, especialmente de meninas, disse a sul-africana Muleya Mwananyanda, coordenadora da Semana de A\u00e7\u00e3o da Campanha Mundial pela Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estima-se que 12 milh\u00f5es de meninas nunca ir\u00e3o \u00e0 escola, contra sete milh\u00f5es de meninos. As atitudes est\u00e3o mudando lentamente nessa parte do mundo. Ainda se v\u00ea \u201ccom suspeita a educa\u00e7\u00e3o feminina, sobretudo nas comunidades onde o modelo patriarcal corre risco de se desbaratar\u201d, disse Mwananyanda.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 raz\u00f5es para otimismo, se considerarmos o efeito multiplicador. \u201cUma mulher me disse assim \u2018educar uma menina \u00e9 educar uma aldeia inteira\u2019, pois as mulheres instru\u00eddas enviar\u00e3o suas filhas para a escola\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Dezessete dos 41 pa\u00edses subsaarianos estudados no informe da Educa\u00e7\u00e3o para Todos alcan\u00e7aram a igualdade de meninas e meninos na escola prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>Exce\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Essa regi\u00e3o africana vai contra a corrente da tend\u00eancia mundial. Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe havia 107 meninas para cem meninos na escola secund\u00e1ria em 2006, enquanto na \u00c1sia oriental e no sudeste asi\u00e1tico a propor\u00e7\u00e3o era de 101 e 102 para cem, respectivamente, superando inclusive a paridade das regi\u00f5es do Norte industrial.<\/p>\n<p>Entretanto, no segundo maior pa\u00eds latino-americano, o M\u00e9xico, perderam for\u00e7a as pol\u00edticas educacionais com perspectiva de g\u00eanero, impulsionadas a partir de Pequim.<\/p>\n<p>Um avan\u00e7o em matr\u00edcula e presen\u00e7a escolar produziu uma \u201cequipara\u00e7\u00e3o de matr\u00edcula entre homens e mulheres\u201d e aten\u00e7\u00e3o para os temas de educa\u00e7\u00e3o profissional, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos, disse ao TerraViva Clara Jusidman, presidente da n\u00e3o governamental Iniciativa Cidad\u00e3 e Desenvolvimento Social.<\/p>\n<p>Entretanto, desde 2000, quando chegou ao poder o conservador Partido A\u00e7\u00e3o Nacional, primeiro com Vicente Fox e desde 2006 com Felipe Calder\u00f3n, a educa\u00e7\u00e3o retomou os antigos valores e estere\u00f3tipos nos papeis dos homens e das mulheres.<\/p>\n<p>Ainda em pleno s\u00e9culo XXI, \u201ch\u00e1 Estados mexicanos governados por conservadores que n\u00e3o permitem livros com texto contendo informa\u00e7\u00e3o sobre educa\u00e7\u00e3o sexual e direitos reprodutivos\u201d, disse Jusidman.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o machista dada por mulheres<\/p>\n<p>Em todo o mundo as educadoras s\u00e3o maioria. Mas isso n\u00e3o evita que o ensino tenha um car\u00e1ter sexista, pr\u00f3-masculino e discriminador dif\u00edcil de corrigir, segundo as mulheres organizadas.<\/p>\n<p>O machismo sobressai nos livros did\u00e1ticos, onde personagens femininas, minorit\u00e1rias e secund\u00e1rias, aparecem mais no contexto familiar, em trabalhos dom\u00e9sticos, como seres passivos e servis, contrastando com os masculinos ativos, aut\u00f4nomos e criativos.<\/p>\n<p>As autoridades educacionais das Filipinas ofereceram treinamento em g\u00eanero para autores e editores de livros escolares, quando um Comit\u00ea das Na\u00e7\u00f5es Unidas condenou, em 1997, os estere\u00f3tipos em textos e materiais de instru\u00e7\u00e3o que refor\u00e7am a imagem de subordina\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>Mas essas iniciativas ficaram na fase-piloto, e faltam pol\u00edticas para integrar a igualdade de g\u00eanero aos programas educacionais desde o jardim da inf\u00e2ncia, disse a professora Aurora de Deus, diretora do Instituto de Mulheres e G\u00eanero, de Manila.<\/p>\n<p>\u201dO lugar da mulher \u00e9 a cozinha\u201d soa muito antigo, mas \u00e9 um preconceito que persiste na sociedade como um dos fatores que faz \u201co mundo do poder e do dom\u00ednio ser quase essencialmente masculino\u201d, disse a brasileira Vera Vieira, da Rede Mulher de Educa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o vis\u00f5es reafirmadas pelos livros infantis.<\/p>\n<p>No Chile, os textos escolares t\u00eam enfoque de g\u00eanero desde 2008. \u201cHouve uma interven\u00e7\u00e3o na linguagem, tornando vis\u00edveis \u2018meninas\u2019 e \u2018meninos\u2019, e as imagens, evitando figuras estereotipadas como mulheres fazendo trabalho dom\u00e9stico\u201d, e assim resgatando a contribui\u00e7\u00e3o feminina para o desenvolvimento do pa\u00eds, explicou Juana Aguirre, respons\u00e1vel de g\u00eanero do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reforma curricular de 2009 incorporou a dimens\u00e3o de g\u00eanero em cinco \u00e1reas, como matem\u00e1tica e linguagem, al\u00e9m de estrat\u00e9gias para corrigir o \u201ccurr\u00edculo oculto\u201d nas rela\u00e7\u00f5es entre educadores e alunos, acrescentou.<\/p>\n<p>No Brasil, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o adotou, em 1996, uma avalia\u00e7\u00e3o dos mais de cem milh\u00f5es de livros did\u00e1ticos que compra e distribui anualmente nas escolas, vedando os que expressam \u201cpreconceitos de origem, ra\u00e7a, sexo, cor, idade ou qualquer outra forma de discrimina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Fulvia Rosemberg, da Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas, duvida dos crit\u00e9rios aplicados por avaliadores especializados em suas disciplinas, mas n\u00e3o em \u201csexismo e racismo discursivo\u201d. Al\u00e9m do mais, o Minist\u00e9rio condena \u201cpreconceitos\u201d, n\u00e3o \u201cestere\u00f3tipos\u201d.<\/p>\n<p>O ensino discriminador n\u00e3o impede, por\u00e9m, que as meninas e mulheres tenham melhor desempenho do que os homens, colocando em xeque as an\u00e1lises sobre os efeitos do sexismo nos livros, acrescentou. IPS\/Envolverde<\/p>\n<p>* Com as colabora\u00e7\u00f5es de Nastasya Tay (Johannesburgo), Kara Santos (Manila), Emilio Godoy (M\u00e9xico) e Daniela Estrada (Santiago).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 02\/03\/2010 &ndash; A escolaridade feminina avan\u00e7ou em todo o mundo, e em muitos pa\u00edses as meninas e as mo\u00e7as estudam mais e melhor do que os homens h\u00e1 d\u00e9cadas. 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