{"id":6299,"date":"2010-03-19T14:00:17","date_gmt":"2010-03-19T14:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6299"},"modified":"2010-03-19T14:00:17","modified_gmt":"2010-03-19T14:00:17","slug":"america-latina-as-afrodecendentes-nao-sao-vitimas-nem-perdedoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/03\/america-latina\/america-latina-as-afrodecendentes-nao-sao-vitimas-nem-perdedoras\/","title":{"rendered":"AM\u00c9RICA LATINA: As afrodecendentes n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas nem perdedoras"},"content":{"rendered":"<p>Havana, 19\/03\/2010 &ndash; Com 17 anos, Meybelin Bern\u00e1rdez tem claro seu projeto pessoal. \u201cQuando terminar meus estudos, voltarei para erguer minha comunidade\u201d, diz, sem pensar duas vezes, esta jovem gar\u00edfuna da costa de Honduras que estuda medicina em Cuba.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6299\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/71430.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6299\" class=\"size-medium wp-image-6299\" title=\"Meybelin Bern\u00e1rdez, ao lado da bandeira de seu pa\u00eds. - Patricia Grogg\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/71430.jpg\" alt=\"Meybelin Bern\u00e1rdez, ao lado da bandeira de seu pa\u00eds. - Patricia Grogg\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6299\" class=\"wp-caption-text\">Meybelin Bern\u00e1rdez, ao lado da bandeira de seu pa\u00eds. - Patricia Grogg\/IPS<\/p><\/div>  Empina o queixo e acrescenta: \u201cquero ser exemplo para as que vierem. As condi\u00e7\u00f5es em que vivemos s\u00e3o muito ruins, temos muito o que fazer pela nossa gente\u201d. Sua m\u00e3e, de pele t\u00e3o escura quanto a sua, lhe ensinou que o mais importante na vida \u00e9 se preparar, estudar.<\/p>\n<p>\u201cMas uma mo\u00e7a pobre e negra como eu n\u00e3o poderia sonhar em ser m\u00e9dica sem esta bolsa\u201d, disse \u00e0 IPS a jovem gar\u00edfuna, grupo \u00e9tnico que chegou ao continente no s\u00e9culo XVII vindo da Nig\u00e9ria e que atualmente conta com cerca de 600 mil integrantes, espalhados por Am\u00e9rica Central, Caribe, M\u00e9xico e Estados Unidos.<\/p>\n<p>Bern\u00e1rdez resumiu dessa forma uma realidade que envolve a maioria das mulheres e meninas afrodescendentes da Am\u00e9rica Latina, afetadas pela discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Entretanto, cada vez mais aumenta o n\u00famero das que se mostram pouco dispostas a continuar sendo v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, Rosmira Valencia, diretora da Rede de Mulheres Chocoanas, sabe muito bem que s\u00e3o elas que mais se preocupam com a educa\u00e7\u00e3o dos filhos, mesmo ao custo de muitos sacrif\u00edcios. \u201cNa atualidade, na Universidade de Choc\u00f3 h\u00e1 uma maioria de mulheres estudando, se capacitando, para que isto melhore\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O departamento de Choc\u00f3, com popula\u00e7\u00e3o eminentemente negra, localizado no noroeste do pa\u00eds na costa do Pac\u00edfico, \u00e9 um dos de maior riqueza natural da Col\u00f4mbia, mas tamb\u00e9m de maior pobreza.<\/p>\n<p>\u201cA for\u00e7a das mulheres \u00e9 grande, e estamos certas de conseguir vencer nosso grande desafio: incidir no desenvolvimento de nossa regi\u00e3o, acrescentar o sentido de pertin\u00eancia e continuar na busca de igualdade e respeito\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Em 2001, houve a Terceira Confer\u00eancia Mundial contra o Racismo, a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, a Xenofobia e as Formas Conexas de Intoler\u00e2ncia, realizada na cidade sul-africana de Durban, quando 170 Estados assumiram o compromisso de defender as mulheres v\u00edtimas de pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias por motivos raciais e de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Nessa confer\u00eancia a advert\u00eancia foi a de que o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o racial se manifestam de forma diferenciada para as mulheres e as meninas e podem ser fatores que levam \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es de vida, \u00e0 pobreza, viol\u00eancia, \u00e0s formas m\u00faltiplas de discrimina\u00e7\u00e3o e \u00e0 limita\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o de seus direitos humanos, sociais e pol\u00edtico-econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, foi reconhecida a necessidade de se integrar uma perspectiva de g\u00eanero nas pol\u00edticas, estrat\u00e9gias e programas de a\u00e7\u00e3o para enfrentar essas pr\u00e1ticas, bem como a pertin\u00eancia de elaborar um enfoque mais coerente e sistem\u00e1tico destinado a avaliar e vigiar a discrimina\u00e7\u00e3o racial contra as mulheres.<\/p>\n<p>Nove anos depois, pouco ou nada mudou para a popula\u00e7\u00e3o feminina afrodescendente da regi\u00e3o, segundo l\u00edderes consultadas pela IPS em v\u00e1rios pa\u00edses, por ocasi\u00e3o do Dia Internacional da Elimina\u00e7\u00e3o da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, celebrado em 21 de mar\u00e7o por iniciativa da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>Nesse dia, em 1960, houve o massacre de Sharpeville, na \u00c1frica do Sul, quando a pol\u00edcia disparou contra uma manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica contra normas do apartheid (segrega\u00e7\u00e3o racial oficial). Morreram 69 pessoas e 200 ficaram feridas, mas a matan\u00e7a representou o in\u00edcio do isolamento internacional do regime segregacionista, at\u00e9 seu desmantelamento 30 anos depois.<\/p>\n<p>\u201cA Constitui\u00e7\u00e3o (colombiana) de 1991 fez com que come\u00e7\u00e1ssemos a ser vistas como parte de uma sociedade. Mas continuamos bastante invis\u00edveis, mesmo depois de Durban 2001\u201d, disse Valencia.<\/p>\n<p>Dados da nicaraguense Dorotea Wilson, coordenadora da n\u00e3o governamental Rede de Mulheres Afrolatino-americanas, Afrocaribenhas e da Di\u00e1spora, indicam que 80% dos mais de 150 milh\u00f5es de afrodescendentes da regi\u00e3o continuam vivendo em estado de pobreza e sem oportunidades de supera\u00e7\u00e3o por motivos \u00e9tnico-raciais.<\/p>\n<p>Desse n\u00famero, 75 milh\u00f5es s\u00e3o mulheres que continuam submetidas a deslocamentos for\u00e7ados, emigra\u00e7\u00f5es ilegais, criminaliza\u00e7\u00e3o de jovens e genoc\u00eddio encoberto sob acusa\u00e7\u00f5es de delinqu\u00eancia, disse Wilson.<\/p>\n<p>A Rede que coordena tem presen\u00e7a em 24 pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA vida n\u00e3o mudou para as pessoas negras da Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas para superar isso, a explora\u00e7\u00e3o humana contra n\u00f3s continua vigente, continuam nos negando o direito \u00e0 terra, aos cr\u00e9ditos, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o especial, \u00e0 sa\u00fade. Enfim, pouco mudou\u201d, insistiu.<\/p>\n<p>Como exemplo, a dirigente citou o caso da Nicar\u00e1gua, onde, segundo dados oficiais, a maior taxa de mortalidade materna ocorre nas duas regi\u00f5es caribenhas com maioria de popula\u00e7\u00e3o feminina ind\u00edgena e afrodescendente, com taxas de at\u00e9 373 mulheres mortas para cada cem mil nascidos vivos.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade informou que em 2009 a taxa m\u00e9dia nicaraguense de mortalidade materna \u00e9 de 63 para cada cem mil nascidos vivos, mas informes de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, como a Human Rights Watch, as elevam para 170 m\u00e3es mortas para 100 mil nascidos vivos.<\/p>\n<p>Wilson considera que h\u00e1 alguns avan\u00e7os quanto \u00e0 visibilidade do movimento pelos direitos dos afrodescendentes e em manter o tema na agenda dos Estados, mas eles obedecem fundamentalmente o trabalho de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e, em particular, do movimento feminista e dos ativistas pelos direitos humanos.<\/p>\n<p>Para a ensa\u00edsta, cr\u00edtica de arte e narradora cubana In\u00eas Mar\u00eda Martiatu, vale destacar o terreno conquistado pelas mulheres negras da regi\u00e3o em mat\u00e9ria de organiza\u00e7\u00e3o, em cujo contexto concentra sua luta \u201cpela inser\u00e7\u00e3o na sociedade, e conseguir sua independ\u00eancia econ\u00f4mica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA mulher afrolatino-americana sempre se rebelou contra a escravid\u00e3o, foi guerreira e participou das lutas pela independ\u00eancia, n\u00e3o ficou no papel de v\u00edtima. O que acontece \u00e9 que a hist\u00f3ria foi escrita por outros e s\u00f3 agora \u00e9 que vai sendo conhecida pouco a pouco\u201d, disse a intelectual afrocubana.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, em Cuba a mulher afrodescendente aproveitou a oportunidade oferecida pela Revolu\u00e7\u00e3o e est\u00e1 nos setores da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, ci\u00eancia, cultura, embora n\u00e3o escapem da discrimina\u00e7\u00e3o pelo cor da pele. Apenas o fen\u00f4meno se manifesta de maneira \u201cmais sutil\u201d do que em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u201cPor muitos anos, foi mantido um discurso oficial que dizia n\u00e3o existir racismo nem discrimina\u00e7\u00e3o racial. Agora, admite-se que as mulheres negras perderam tempo\u201d, afirmou a intelectual cubana.<\/p>\n<p>\u201cA realidade \u00e9 que existem preconceitos, racismo e discrimina\u00e7\u00e3o, e estas s\u00e3o categorias das ci\u00eancias sociais. Manifestam-se inclusive dentro da fam\u00edlia, seja branca ou negra\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o racial \u00e9 atualmente objeto de debate dentro da sociedade da ilha caribenha, mas Martiatu e outras intelectuais cubanas concordam que falta o enfoque de g\u00eanero. \u201cResta muito caminho pela frente. Embora a solu\u00e7\u00e3o esteja na educa\u00e7\u00e3o e em um forte trabalho cultural, esta vir\u00e1 em longu\u00edssimo prazo\u201d, destacou.<\/p>\n<p>Martiatu expressou sua confian\u00e7a nas novas gera\u00e7\u00f5es. \u201cO racismo n\u00e3o se resolve com socialismo ou capitalismo, \u00e9 algo mais complexo e profundo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u201cAlgumas estudiosas e estudiosos, que trabalham com estas quest\u00f5es, conseguiram coloc\u00e1-las em debate, na contracorrente de opini\u00f5es partid\u00e1rias de adiar a discuss\u00e3o e a an\u00e1lise\u201d, assegurou. IPS\/Envolverde<\/p>\n<p>* Com contribui\u00e7\u00f5es de Helda Martinez (Bogot\u00e1) e Jos\u00e9 Ad\u00e1n Silva (Man\u00e1gua).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, 19\/03\/2010 &ndash; Com 17 anos, Meybelin Bern\u00e1rdez tem claro seu projeto pessoal. \u201cQuando terminar meus estudos, voltarei para erguer minha comunidade\u201d, diz, sem pensar duas vezes, esta jovem gar\u00edfuna da costa de Honduras que estuda medicina em Cuba. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/03\/america-latina\/america-latina-as-afrodecendentes-nao-sao-vitimas-nem-perdedoras\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":171,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[21,24],"class_list":["post-6299","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/171"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6299"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6299\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}