{"id":6303,"date":"2010-03-19T14:14:31","date_gmt":"2010-03-19T14:14:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6303"},"modified":"2010-03-19T14:14:31","modified_gmt":"2010-03-19T14:14:31","slug":"brasil-favela-para-colorir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/03\/america-latina\/brasil-favela-para-colorir\/","title":{"rendered":"BRASIL: Favela para colorir"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 19\/03\/2010 &ndash; As favelas brasileiras t\u00eam uma cor que as uniformiza: o marrom-alaranjado de seus tijolos \u00e0 vista. Dois artistas pl\u00e1sticos holandeses querem pint\u00e1-las de todas as cores, uma aparente maquiagem que busca revelar a alma mais profunda destas comunidades pobres. <!--more--> Jeroen Koolhass, e Dre Urhahn come\u00e7aram pela Vila Cruzeiro, uma das favelas da zona norte do Rio de Janeiro, onde seus moradores convivem diariamente com a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A prova mais clara desta realidade \u00e9 o mural que a comunidade pintou gra\u00e7as \u00e0 iniciativa dos artistas. Este ilustra um menino empinando uma pipa com um buraco na cabe\u00e7a: n\u00e3o produto das pinceladas, mas das balas dos tiroteios que abundam quando pol\u00edcia e traficantes se enfrentam. \u201cEsse menino \u00e9 uma met\u00e1fora de todas as crian\u00e7as que vivem aqui. H\u00e1 alguns meses houve um tiroteio aqui e recebeu uma bala perdida. Todo mundo comentou sua morte. Muita loucura, n\u00e3o?\u201d, disse Urhahn.<\/p>\n<p>Urhahn, produtor de v\u00eddeos de 34 anos, e Koolhass, designer de importantes marcas internacionais, de 31 anos, poderiam viver em suas cidades: Amsterd\u00e3 e Roterd\u00e3. Mas decidiram alterar suas vidas para mergulhar em cheio na vida das favelas. Alguns meses por ano, Urhahn vive no alto da favela com uma fam\u00edlia que aluga um quarto, como todos, com tijolo aparente. \u201cQuando algu\u00e9m vive aqui, faz parte da comunidade. Mudou minha percep\u00e7\u00e3o sobre as pessoas e sobre mim mesmo\u201d, disse este produtor que n\u00e3o perde uma festa nem um churrasco neste bairro superpovoado.<\/p>\n<p>Koolhass, ilustrador da revista norte-americana New Yorker e da casa italiana de modas Prada, entre outros, sente-se feliz pela aceita\u00e7\u00e3o que tiveram entre as pessoas da comunidade, que n\u00e3o os recebeu como \u201cplayboyzinhos\u201d, isto \u00e9, jovens ricos. Sua motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 o amor \u00e0 arte, literalmente. O projeto \u201cFavela Painting\u201d busca, por meio dos murais, resgatar a \u201calma colorida\u201d destas comunidades, al\u00e9m das cores branca e preta com que normalmente se ilustra a viol\u00eancia e a pobreza.<\/p>\n<p>\u201cQueremos tamb\u00e9m divulgar as coisas boas que existem em uma favela, al\u00e9m de sua imagem de guerra e preconceito social\u201d, disse Koolhass. \u201cUma favela tem, como qualquer outro bairro, de qualquer parte do mundo, fam\u00edlias normais, pessoas com sonhos e que tamb\u00e9m querem um bom futuro para seus filhos\u201d, acrescentou. A primeira obra da Favela Painting foi o \u201cMenino empinando pipa\u201d, que ocupa tr\u00eas casas inteiras diante de um campo de futebol da comunidade.<\/p>\n<p>A pipa est\u00e1 a v\u00e1rios metros de dist\u00e2ncia, como \u201cvoando\u201d sobre outra casa, na ladeira do morro que a circunda. Uma concep\u00e7\u00e3o visual al\u00e9m de um simples mural, urban\u00edstica. A segunda obra, criada pelo tatuador holand\u00eas Rob Admiraal, superou todos os limites, inclusive geogr\u00e1ficos, da comunidade. S\u00e3o dois mil metros de desenhos de enormes peixes coloridos, nadando em um rio azul, que atravessam o antes cinzento muro de conten\u00e7\u00e3o de deslizamentos, uma escadaria comunit\u00e1ria, uma viela e um pared\u00e3o de concreto.<\/p>\n<p>Alguns interpretam que os peixes nadando contra a corrente representam a luta na vida dos jovens da favela. \u201cMas \u00e9 uma ideia aberta, todo mundo pode pensar o que quiser. N\u00e3o \u00e9 uma imagem fixa, tamb\u00e9m estimula a imagina\u00e7\u00e3o\u201d, disse Urhahn. Toda a comunidade participou da obra, como a pequena Susane Souza, que se entusiasmou ao contar como tudo mudou \u00e0 sua volta. \u201cAntes aqui era s\u00f3 lama e mato. Todos participamos da obra e agora vem gente de todo canto fazer turismo para conhecer nossa favela\u201d, disse \u00e0 IPS se referindo aos visitantes de todo o mundo que os jovens holandeses trazem para conhecer a iniciativa.<\/p>\n<p>Parece um detalhe irris\u00f3rio, mas n\u00e3o para as crian\u00e7as que diariamente vivem o preconceito e a desconfian\u00e7a dos que n\u00e3o s\u00e3o favelados. Muitos na escola escondem onde moram, como conta Urhahn, ao explicar que assim tentam devolver-lhes o orgulho de sua comunidade. \u201cNunca dizemos que podemos mudar a vida inteira de um jovem, mas podemos tentar ajud\u00e1-lo a sonhar e pensar no que pode fazer na vida, que pode ter objetivos maiores e persegui-los\u201d, disse Koolhass, sem descontar a necessidade de outras iniciativas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e moradia, para citar apenas algumas.<\/p>\n<p>\u201cDizemos que o Favela Painting \u00e9 um projeto de arte, mas arte que tem um lado social\u201d, explicou o designer, que com seu colega quer levar o projeto a outros bairros pobres da Am\u00e9rica Latina. \u201cUm projeto de arte puro, com um objetivo social\u201d, descreveu Urhahn, que preferiu n\u00e3o rotular com um nome determinado. \u201cA pintura \u00e9 uma coisa visual, mas causa efeitos diferentes nos moradores. Isto \u00e9 importante para a filosofia do nosso projeto. Mostrar aos de fora outra imagem destas comunidades\u201d, disse. Koolhass tamb\u00e9m comparou os jovens das favelas com os de seu pa\u00eds, \u201ct\u00e3o fechados. Aqui h\u00e1 uma estrutura social muito forte. Garotos andando livremente pelas ruas, se comunicando com os outros\u201d, algo que gostaria de levar para a Holanda\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O projeto \u00e9 muito mais ambicioso. Os artistas buscam recurso financeiro e operacional, por exemplo, com f\u00e1bricas de tintas, para colorir v\u00e1rias casas&#8230; \u201cuma favela inteira\u201d. O objetivo \u00e9 primeiro reboc\u00e1-las, fazer obras para evitar vazamentos, e cobrir sua cor marrom-alaranjada com toda gama de cores do arco-\u00edris. \u201cAlgo que chame a aten\u00e7\u00e3o e se converta em uma esp\u00e9cie de monumento do Rio de Janeiro\u201d, disse Urhahn, que j\u00e1 gravou em uma favela um document\u00e1rio sobre o movimento musical hip hop. Um presente n\u00e3o do governo do Estado para seus habitantes, \u201cmas dos habitantes para a cidade\u201d, concluiu. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 19\/03\/2010 &ndash; As favelas brasileiras t\u00eam uma cor que as uniformiza: o marrom-alaranjado de seus tijolos \u00e0 vista. 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