{"id":6364,"date":"2010-04-05T14:43:55","date_gmt":"2010-04-05T14:43:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6364"},"modified":"2010-04-05T14:43:55","modified_gmt":"2010-04-05T14:43:55","slug":"alimentacao-bolivia-pobres-gordos-e-mal-nutridos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/04\/america-latina\/alimentacao-bolivia-pobres-gordos-e-mal-nutridos\/","title":{"rendered":"ALIMENTA\u00c7\u00c3O-BOL\u00cdVIA: Pobres, gordos e mal nutridos"},"content":{"rendered":"<p>Buenos, Aires, 05\/04\/2010 &ndash; Fruta? Apenas banana. Verdura? Cebola, se estiver picada em um cozido. Carne? N\u00e3o, porque engasgam e apenas aceitam salsichas. <!--more--> Carina Ram\u00edrez diz que seus filhos \u201cs\u00e3o raros\u201d. Consomem nada al\u00e9m de p\u00e3o, macarr\u00e3o, doces&#8230; Por isso, est\u00e3o quadrados (gordos)\u201d, afirma. A mulher que respondeu \u00e0 pergunta da IPS \u00e9 m\u00e3e de cinco filhos menores de 13 anos. Arrecada a vende roupa usada em Buenos Aires. Seu ex-marido recebe seguro-desemprego que destina, em parte, para comprar alimentos. Para ela, a farinha e o leite s\u00e3o fundamentais. \u201cSe falta leite fico louca, porque as crian\u00e7as bebem a toda hora\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Ram\u00edrez acrescenta que seus filhos n\u00e3o comem quase nenhuma fruta, nem verdura ou carne magra, que sabe serem alimentos mais nutritivos e menos cal\u00f3ricos. Acredita que isso acontece porque seus filhos \u201cs\u00e3o raros\u201d. Contudo, para os especialistas o fen\u00f4meno, em geral, se explica pela falta de acesso familiar a uma dieta rica, variada e equilibrada. A Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade (OPS) alerta que a obesidade e as doen\u00e7as cr\u00f4nicas a ela associadas, como diabetes tipo 2, hipertens\u00e3o arterial, doen\u00e7as coron\u00e1rias, alguns tipos de c\u00e2ncer e osteoporose, aumentam rapidamente na regi\u00e3o e afetam predominantemente os mais pobres.<\/p>\n<p>Ouvida pela IPS, a doutora Cecilia Albala, do Instituto de Nutri\u00e7\u00e3o e Tecnologia dos Alimentos da Universidade do Chile, disse que, entre todos os fatores de risco das doen\u00e7as cr\u00f4nicas, \u201ca obesidade \u00e9 a que mais cresceu na regi\u00e3o, e hoje \u00e9 a principal enfermidade nutricional em pa\u00edses latino-americanos\u201d. A obesidade e a m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o eram \u201cproblemas tradicionalmente considerados extremos opostos, mas agora s\u00e3o colocados como diferentes formas de desnutri\u00e7\u00e3o\u201d, explicou. Albala afirmou que h\u00e1 uma \u201cinadequada nutri\u00e7\u00e3o pr\u00e9-natal, p\u00f3s-natal e infantil\u201d, seguida por \u201cexposi\u00e7\u00e3o a dietas ricas em gorduras, de alta densidade energ\u00e9tica e pobres em micronutrientes\u201d.<\/p>\n<p>A OPS situa este assunto como novo desafio para a sa\u00fade p\u00fablica na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, onde 53 milh\u00f5es de seus 561 milh\u00f5es de habitantes s\u00e3o obesos, afirma Abala. Ela tamb\u00e9m diz que os pre\u00e7os dos alimentos est\u00e3o ligados ao maior consumo de produtos ricos em gorduras saturadas, a\u00e7\u00facares e sal, bem como com poucos micronutrientes. O problema n\u00e3o \u00e9 de disponibilidade, mas de acesso aos alimentos, disse a antrop\u00f3loga argentina Patricia Aguirre, autora do trabalho \u201cRicos magros e gordos pobres\u201d (2004) e \u201cEstrat\u00e9gias de consumo: o que comem os argentinos que comem\u201d (2005).<\/p>\n<p>\u201cEm sociedades de mercado, a seguran\u00e7a alimentar n\u00e3o depende da disponibilidade, mas do poder de compra\u201d, disse Aguirre \u00e0 IPS. \u201cOs alimentos s\u00e3o escolhidos pelo pre\u00e7o\u201d e os energ\u00e9ticos s\u00e3o mais baratos do que os nutrientes, ressaltou. Por isso, o problema da desnutri\u00e7\u00e3o t\u00edpica, que se reflete em meninos e meninas de \u201cpele e osso\u201d, vai dando lugar \u00e0 obesidade e \u00e0 m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o, alertou.<\/p>\n<p>O nutricionista argentino Sergio Britos concorda. \u201cAinda se acredita que a crian\u00e7a com sa\u00fade \u00e9 gordinha e a de baixo peso \u00e9 que comove, mas, na realidade, ambos podem estar mal nutridos se a dieta \u00e0 qual t\u00eam acesso possui excesso de hidratos de carbono, gorduras e a\u00e7\u00facares e um grande d\u00e9ficit de micronutrientes\u201d, explicou \u00e0 IPS. \u201cA alimenta\u00e7\u00e3o dos mais pobres n\u00e3o \u00e9, necessariamente, escassa em quantidade, mas \u00e9 ruim em qualidade\u201d, acrescentou Britos, da Escola de Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade de Buenos Aires.<\/p>\n<p>Britos disse que a \u00faltima Pesquisa Nacional de Nutri\u00e7\u00e3o na Argentina reflete essas tend\u00eancias. Com baixo peso aparecem 3,8% das crian\u00e7as entre seis meses e cinco anos que foram estudadas, e 6,6% delas s\u00e3o obesas. Al\u00e9m disso, foi registrado um d\u00e9ficit de nutrientes, a ponto de 16% destas crian\u00e7as apresentarem anemia (falta de ferro). No caso das gr\u00e1vidas, essa car\u00eancia chega a 30,5%.<\/p>\n<p>Considerando a Am\u00e9rica Latina e o Caribe em sua totalidade, a OPS diz que a anemia afeta 16 milh\u00f5es de menores de cinco anos e 32 milh\u00f5es na faixa de cinco a 14 anos. J\u00e1 \u00e0s gr\u00e1vidas com baixos n\u00edveis de ferro somam cinco milh\u00f5es. H\u00e1 tamb\u00e9m car\u00eancias de iodo e vitaminas A e B12, que levam a doen\u00e7as cr\u00f4nicas. \u201cOs obesos pobres escondem sua m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o com batatas e macarr\u00e3o\u201d, diz Aguirre.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o as novas formas da fome. Os pobres n\u00e3o comem o que querem nem o que conhecem, mas o que podem\u201d, e entre suas possibilidades raramente est\u00e1 consumir carne magra, l\u00e1cteos em quantidade, frutas ou verduras, acrescentou. \u201cNa cesta dos pobres comprovamos a import\u00e2ncia que tem o pre\u00e7o na hora de escolher alimentos\u201d, acrescentou. Abundam macarr\u00e3o e carne gorda e quase n\u00e3o h\u00e1 frutas e verduras, caras e que rendem pouco. S\u00e3o as estrat\u00e9gias que as fam\u00edlias desenvolvem para poderem comer, afirma.<\/p>\n<p>H\u00e1 30 anos, ricos e pobres comiam parecido, mas desde ent\u00e3o abriu-se uma brecha, alerta o especialista. Fam\u00edlias com mais recursos t\u00eam acesso a 250 alimentos, enquanto entre os pobres a compra se restringe a 22 produtos. \u201cS\u00e3o dietas pobres em c\u00e1lcio, ferro, vitaminas e minerais\u201d, assegurou. Esse desequil\u00edbrio se reflete em corpos \u201cmais grossos e baixos. N\u00e3o \u00e9 desnutri\u00e7\u00e3o aguda t\u00edpica, mas desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica com obesidade. Na Am\u00e9rica Latina, a obesidade ocorre em grupos com menor n\u00edvel socioecon\u00f4mico, fortemente associados \u00e0 baixa renda\u201d, e \u00e9 muito mais comum ainda entre mulheres pobres, ressaltou. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos, Aires, 05\/04\/2010 &ndash; Fruta? Apenas banana. Verdura? Cebola, se estiver picada em um cozido. Carne? 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