{"id":6399,"date":"2010-04-12T16:10:17","date_gmt":"2010-04-12T16:10:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6399"},"modified":"2010-04-12T16:10:17","modified_gmt":"2010-04-12T16:10:17","slug":"ambiente-brasil-micro-e-macro-razoes-da-tragedia-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/04\/america-latina\/ambiente-brasil-micro-e-macro-razoes-da-tragedia-no-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"AMBIENTE-BRASIL: Micro e macro raz\u00f5es da trag\u00e9dia no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 12\/04\/2010 &ndash; Os habitantes da favela de Gurarapes, no Rio de Janeiro, n\u00e3o sabem que o temporal que os fez fugir de suas casas tem uma origem global: o aquecimento do planeta. <!--more--> Mas em seu pequeno mundo deste bairro pobre e de casas prec\u00e1rias em um dos morros da cidade, identificam claramente a origem local da trag\u00e9dia: o desvio artificial de um manancial que progressivamente causou a eros\u00e3o da encosta onde viviam. Desde seu meio acad\u00eamico, o ocean\u00f3grafo David Zee tem claras as duas raz\u00f5es. E as viveu na pr\u00f3pria carne.<\/p>\n<p>Pode explic\u00e1-lo com palavras de especialista, embora prefira usar outras mais comuns ao se referir ao isolamento for\u00e7ado, de quase tr\u00eas dias, em seu apartamento na Barra da Tijuca, bairro que ficou inundado pelo temporal que come\u00e7ou a atingir a cidade no dia 5. O que antes era considerado extraordin\u00e1rio, come\u00e7a a ser ordin\u00e1rio\u201d disse \u00e0 IPS este professor de Oceanografia F\u00edsica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estas cat\u00e1strofes provocadas por uma inclem\u00eancia de chuvas, que as autoridades estatais consideram a pior em quatro d\u00e9cadas, \u201cvieram para ficar\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Zee, que tamb\u00e9m coordena o curso de Mestrado em Meio Ambiente da Faculdade Veiga de Almeida, atribui a intensidade do temporal a um fen\u00f4meno vinculado a \u201cmudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais, que t\u00eam efeitos locais\u201d. Refere-se, entre outros, a uma atividade maior desde o final de 2009 do fen\u00f4meno clim\u00e1tico El Ni\u00f1o\/Oscila\u00e7\u00e3o do Sul, que se caracteriza por um aquecimento anormal na superf\u00edcie tropical do Oceano Pac\u00edfico. \u201cNo Rio de Janeiro sofremos um fen\u00f4meno clim\u00e1tico que tem uma causa global. A energia adicional de mais temperatura do mar se transforma em uma evapora\u00e7\u00e3o maior da \u00e1gua\u201d, o que, por sua vez, produz mais chuvas, explicou.<\/p>\n<p>Este fator global se agrava por outros de origem local, como a configura\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da cidade do Rio de Janeiro, constru\u00edda \u201centre a pedra dos morros e o mar\u201d. O Rio de Janeiro \u201c\u00e9 como o marisco, espremido entre o mar e uma faixa costeira estreita\u201d, disse Zee. \u201cComo dizemos, quem sofre \u00e9 o marisco\u201d, acrescentou. Para piorar as coisas, existe a deteriora\u00e7\u00e3o ambiental causada pela expans\u00e3o demogr\u00e1fica da cidade. O concreto domina a cobertura florestal, que antes retinha a \u00e1gua nos morros e agora a deixa passar. E em nada ajuda a eterna defici\u00eancia dos sistemas de drenagem e o ac\u00famulo de lixo nas encostas dos morros.<\/p>\n<p>Quando entra uma frente fria na regi\u00e3o, choca-se com essa grande \u201cmuralha\u201d costeira e, n\u00e3o tendo como \u201cescorrer\u201d, fica estacionada sobre a regi\u00e3o. Na Barra da Tijuca, bairro de classe m\u00e9dia e alta, a inunda\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceu por acaso, mas em raz\u00e3o de um explosivo desenvolvimento imobili\u00e1rio que n\u00e3o respeitou nem margens de rios nem de lagoas.<\/p>\n<p>Longe dali, em Guararapes, um grupo de mulheres n\u00e3o precisa de conhecimentos especializados para explicar aos gritos suas pr\u00f3prias causas \u201clocais\u201d da trag\u00e9dia. Seu desespero \u00e9 compreens\u00edvel. Ap\u00f3s uma vida de sacrif\u00edcios, construindo tijolo por tijolo sua casa, de ali criar os filhos e enterrar seus pa\u00eds, agora t\u00eam de abandonar tudo porque o risco de desmoronamento aumenta. Asseguram que tudo come\u00e7ou quando foi desviado um manancial que era sua fonte natural de \u00e1gua para um projeto privado no alto do morro.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, uma infiltra\u00e7\u00e3o foi drenando progressivamente o terreno, disse \u00e0 IPS Jurema de Moraes. \u201cTivemos que abandonar nossas casas porque tudo vinha pra cima da gente. N\u00e3o temos luz, n\u00e3o temos \u00e1gua, o perigo \u00e9 grande e nem sabemos onde iremos viver\u201d, refor\u00e7ou Elizabethe da Silva, outra dos 500 moradores de Guararapes. O desvio do manancial, que antes flu\u00eda claro e abundante e satisfazia a sede de toda a comunidade, provocou uma cat\u00e1strofe adicional.<\/p>\n<p>O volume incomum das chuvas, que em um dia superou o previsto para todo o m\u00eas, derrubou a caixa de \u00e1gua comunit\u00e1ria, que caiu sobre uma casa e matou as tr\u00eas pequenas filhas de uma mulher que conseguiu sobreviver. \u201cJ\u00e1 morreram tr\u00eas meninas, dormimos \u00e0 intemp\u00e9rie, mas negam tudo porque este \u00e9 um lugar tur\u00edstico\u201d, disse Elizabethe numa refer\u00eancia ao fato de pelo morro passar o bondinho que leva ao Cristo Redentor. \u201cA natureza n\u00e3o pode ser culpada porque sabe o que faz\u201d, disse, por sua vez, Waldemar Santana. \u201cMas o homem sim\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Muito longe de Guararapes, em Niter\u00f3i, outra trag\u00e9dia tamb\u00e9m teve sua mistura de causas locais e globais. Ocorreu no Morro do Bumba, com a destrui\u00e7\u00e3o completa de um bairro erguido sobre um antigo aterro sanit\u00e1rio e que, inclusive, recebeu melhorias de sucessivos governos. Com o vendaval, as casas rolaram encosta abaixo, em uma enxurrada de cimento, tijolos e corpos de seus moradores, que sepultou as casas constru\u00eddas mais abaixo. As equipes de resgate se afundam nos restos emergidos do velho lix\u00e3o, que fez aflorar restos de sacos pl\u00e1sticos e res\u00edduos em meio a um cheiro nauseabundo. O secret\u00e1rio da Sa\u00fade do Estado do Rio de Janeiro, Sergio Cort\u00e9s, reconheceu irritado que este era o lugar menos apropriado para um assentamento.<\/p>\n<p>Em 2007, a Universidade Federal Fluminense (UFF) antecipou que em Niter\u00f3i existiam 143 \u00e1reas prop\u00edcias a deslizamentos. \u201cConsiderando a quantidade de assentamentos irregulares que temos em nossa cidade, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 trasladar as fam\u00edlias que est\u00e3o em \u00e1reas de risco e promover a urbaniza\u00e7\u00e3o e regulariza\u00e7\u00e3o da propriedade da terra das demais\u201d, disse \u00e0 IPS Regina Beienestein, especialista em Urbanismo da UFF. A Universidade aponta, entre outras causas do desastre atual, o desmatamento dos morros, onde, em geral, pessoas pobres constroem suas casas. \u00c9 uma contribui\u00e7\u00e3o brasileira ao aquecimento global e teve um efeito espiral sobre a pr\u00f3pria trag\u00e9dia. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 12\/04\/2010 &ndash; Os habitantes da favela de Gurarapes, no Rio de Janeiro, n\u00e3o sabem que o temporal que os fez fugir de suas casas tem uma origem global: o aquecimento do planeta. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/04\/america-latina\/ambiente-brasil-micro-e-macro-razoes-da-tragedia-no-rio-de-janeiro\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2],"tags":[],"class_list":["post-6399","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6399","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6399"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6399\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}