{"id":6410,"date":"2010-04-13T15:21:00","date_gmt":"2010-04-13T15:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6410"},"modified":"2010-04-13T15:21:00","modified_gmt":"2010-04-13T15:21:00","slug":"mulheres-argentina-as-invisiveis-do-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/04\/america-latina\/mulheres-argentina-as-invisiveis-do-campo\/","title":{"rendered":"MULHERES-ARGENTINA: As invis\u00edveis do campo"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 13\/04\/2010 &ndash; \u201cNunca havia trabalhado, e agora fa\u00e7o quilos de fruta desidratada para vender. Me ensinaram a secar p\u00eassego, tomate, piment\u00e3o, uvas, e eu, por conta pr\u00f3pria, testei com mel\u00e3o e p\u00eara, que ficaram espetaculares\u201d, contou \u00e0 IPS a produtora rural argentina Susana Robledo.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6410\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/72737.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6410\" class=\"size-medium wp-image-6410\" title=\"Uma produtora rural argentina em pleno trabalho invis\u00edvel. - Cortesia da Estudos e Projetos Associa\u00e7\u00e3o Civil\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/72737.jpg\" alt=\"Uma produtora rural argentina em pleno trabalho invis\u00edvel. - Cortesia da Estudos e Projetos Associa\u00e7\u00e3o Civil\" width=\"150\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6410\" class=\"wp-caption-text\">Uma produtora rural argentina em pleno trabalho invis\u00edvel. - Cortesia da Estudos e Projetos Associa\u00e7\u00e3o Civil<\/p><\/div>  Robledo \u00e9 uma das mais de 200 mulheres que participaram do Programa Mulheres Empreendedoras, coordenado pela organiza\u00e7\u00e3o Estudos e Projetos Associa\u00e7\u00e3o Civil nas localidades de El Colorado, na prov\u00edncia de Formosa, e de Lujan de Cuyo, na prov\u00edncia de Mendoza, onde ela reside.<\/p>\n<p>Antes, o excedente de fruta apodrecia. Agora que conhece as diferentes t\u00e9cnicas de desidrata\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e os segredos da comercializa\u00e7\u00e3o, Robledo guarda quilos de diferentes variedades no congelador e os vende em diferentes feiras que acontecem nessa regi\u00e3o de Mendoza, onde reinam vinhedos e adegas.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o busca desenvolver a capacidade empreendedora das mulheres rurais para favorecer sua autonomia econ\u00f4mica. E para isso trabalha nos direitos das mulheres \u00e0 posse da terra, no acesso ao cr\u00e9dito, no direito a decidir sobre a quantidade de filhos ou denunciar a viol\u00eancia machista.<\/p>\n<p>\u201cQuando o contexto de direitos \u00e9 facilitado, as mulheres se apropriam e os exigem\u201d, afirmou \u00e0 IPS Liliana Seiras, diretora do projeto. \u201cEntramos pelo lado da produ\u00e7\u00e3o, mas vemos sempre qu\u00e3o profundo \u00e9 o tema dos direitos, para que aos poucos elas possam ir tendo poder\u201d, explicou.<\/p>\n<p>A \u00fanica reprova\u00e7\u00e3o que as mulheres fazem \u00e0s capacitadoras \u00e9 \u201cpor que n\u00e3o vieram antes?\u201d, tal como disse Paulina Gil, uma das mulheres de El Colorado, de mais de 70 anos.<\/p>\n<p>\u201cNosso trabalho antes nada valia. Os homens brincavam conosco, nos batiam, nos mandavam embora de casa com os filhos e traziam outra mulher\u201d, denunciou.<\/p>\n<p>O testemunho, recolhido em um v\u00eddeo da organiza\u00e7\u00e3o, revela a viol\u00eancia, a falta de direitos e oportunidades destas mulheres, tudo aumentado pelo isolamento geogr\u00e1fico e tamb\u00e9m pelo isolamento delas entre si, um fen\u00f4meno que o programa buscou mudar ao promover sua associa\u00e7\u00e3o, inclusive para empreendimentos conjuntos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de detalhes, a situa\u00e7\u00e3o das mulheres rurais na Argentina n\u00e3o difere do resto dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, onde constituem quase a metade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO), na regi\u00e3o h\u00e1 24 milh\u00f5es de produtoras invis\u00edveis, mas essa invisibilidade \u00e9 mais acentuada no campo, onde elas trabalham no mesmo lugar onde fazem as tarefas dom\u00e9sticas e de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A engenheira agr\u00f4noma Cristina Biaggi, autora de \u201cEstudos de Mulheres Rurais na Argentina\u201d, disse \u00e0 IPS que devido a raz\u00f5es culturais, que as leva considerarem a si pr\u00f3prias como ajudantes de seus maridos, \u201co trabalho das mulheres no campo est\u00e1 invis\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Os dados oficiais mostram que apenas 21% das mulheres rurais argentinas se consideram \u201cocupadas\u201d e 10% \u201cdesocupadas\u201d. Os 70% restantes n\u00e3o t\u00eam um trabalho remunerado nem buscam. Assim, aparecem nas estat\u00edsticas como \u201c\u2018inativas\u2019, embora trabalhem de sol a sol.<\/p>\n<p>\u201cA categoria inativas tem um vi\u00e9s de oculta\u00e7\u00e3o. \u00c9 inadequada para captar o trabalho feito pelas mulheres rurais\u201d, disse Biaggi, assegurando que a forma como elas experimentam seu trabalho contribui para esse subregistro.<\/p>\n<p>Mulheres como Robledo, que diz \u201cnunca\u201d ter trabalhado, n\u00e3o s\u00f3 atendem as tarefas dom\u00e9sticas e a cria\u00e7\u00e3o dos filhos. Ajudam na semeadura, colheita, retirada do mato, cria\u00e7\u00e3o de pequenos animais, na fazenda, na ordenha e na produ\u00e7\u00e3o de artesanato.<\/p>\n<p>Assim fez Robledo, de 55 anos e com dois filhos, um j\u00e1 casado, embora ainda explique que n\u00e3o se considera produtora rural, apesar de ser isso junto com seu marido na pequena ch\u00e1cara que possuem.<\/p>\n<p>Em El Colorado, as mulheres se conscientizaram de suas capacidades a partir do abandono. \u201c\u00c9 incr\u00edvel ali a quantidade de mulheres que ficaram sozinhas com os filhos\u201d, revelou Seiras.<\/p>\n<p>Quando o governo provincial deixou de subsidiar o cultivo de algod\u00e3o, os homens partiram da cidade e a maioria n\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>As mulheres ficaram encarregadas do sustento da fam\u00edlia, sem renda e sem a posse da terra, uma car\u00eancia que as impede, por exemplo, de obter cr\u00e9dito. Por isso, o programa de capacita\u00e7\u00e3o para empreendedoras teve tanto sucesso ali.<\/p>\n<p>\u201cA primeira coisa que fizemos foi um silo e uma debulhadora de cereal para guardar excedentes que sirvam de alimentos para os animais\u201d, contou Seiras. Com pequenas mudan\u00e7as e a capacita\u00e7\u00e3o para a melhoria da produ\u00e7\u00e3o, as mulheres chegaram \u00e0s feiras livres onde agora vendem seus produtos.<\/p>\n<p>Mas foi necess\u00e1rio primeiro trabalhar a baixa autoestima e o desconhecimento de seus direitos, insistiu Seiras.<\/p>\n<p>Em Mendoza, a primeira atividade da Estudos e Projetos foi convocar as participantes uma vez por semana para uma sess\u00e3o de manicure e cabeleireiro. \u201cEnsinamos a arrumar o cabelo, preparar cremes \u00e0 base de mel, leite ou pepino\u201d, contou.<\/p>\n<p>\u201cDepois de um m\u00eas de \u2018sal\u00e3o de beleza\u2019 foi como ter adubado um campo, melhoraram a autoestima e come\u00e7aram a capacita\u00e7\u00e3o\u201d, recordou a coordenadora.<\/p>\n<p>As mulheres treinam em diversas especialidades, at\u00e9 encontrarem a que melhor se adapta \u00e0s suas oportunidades e capacidades. Entre elas, desidrata\u00e7\u00e3o de frutas, tecido, secagem de ervas arom\u00e1ticas, massa para pizza e salsichas.<\/p>\n<p>Muitas procedem da Bol\u00edvia, de onde chegaram como tempor\u00e1rias para colher alho ou cebola, e ficaram. Mas vivem em condi\u00e7\u00f5es de grande submiss\u00e3o, disse Seiras, que apenas come\u00e7am a se dar conta. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 13\/04\/2010 &ndash; \u201cNunca havia trabalhado, e agora fa\u00e7o quilos de fruta desidratada para vender. 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