{"id":650,"date":"2005-06-01T00:00:00","date_gmt":"2005-06-01T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=650"},"modified":"2005-06-01T00:00:00","modified_gmt":"2005-06-01T00:00:00","slug":"meio-ambiente-h-vida-depois-da-morte-da-constituio-europia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/meio-ambiente-h-vida-depois-da-morte-da-constituio-europia\/","title":{"rendered":"Meio Ambiente: H&aacute; vida depois da morte da Constitui&ccedil;&atilde;o Europ&eacute;ia?"},"content":{"rendered":"<p>Miami, 01\/06\/2005 &ndash; Por uma maioria de 54,87%, e participa&ccedil;&atilde;o de 70%, o eleitorado franc&ecirc;s rejeitou o projeto de Constitui&ccedil;&atilde;o Europ&eacute;ia. Considerando que a legisla&ccedil;&atilde;o exige que seja ratificada por todos e por cada um dos pa&iacute;ses-membros da UE, legalmente o projeto est&aacute; liquidado. Agora, resta somente analisar o que fazer daqui para frente n&atilde;o somente com a legisla&ccedil;&atilde;o vigente, mas com a pr&oacute;pria UE. Para dizer claramente: h&aacute; vida depois da morte da Constitui&ccedil;&atilde;o?<br \/> <!--more--> <br \/> H&aacute; um futuro para a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia. Entre outras raz&otilde;es, a UE desfruta de um s&oacute;lido legado do passado, e seu presente dura tanto quanto a etapa atual do processo de ratifica&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o. O bloco n&atilde;o foi criado ou morreu no domingo com o referendo franc&ecirc;s, nem tampouco com o holand&ecirc;s desta quarta-feira. Esta &eacute; a experi&ecirc;ncia de integra&ccedil;&atilde;o e coopera&ccedil;&atilde;o entre os Estados mais ambicioso da hist&oacute;ria, que merece respeito, an&aacute;lise ponderada e, sobretudo, esperan&ccedil;a. Deve ser encarada em diferentes n&iacute;veis e por setores: legal, pol&iacute;tico e sociol&oacute;gico.<\/p>\n<p> Primeiro, desde seu nascimento a UE &eacute; uma comunidade de direito. Como tal, deve respeitar o ordenamento atual que prev&ecirc; completar o processo de ratifica&ccedil;&atilde;o por meio de referendo ou processo parlamentar em todos e em cada um dos Estados-membro. Frear o exerc&iacute;cio em andamento, privando mais de uma dezena de pa&iacute;ses de poderem se expressar, &eacute; um ato de arrog&acirc;ncia que somente certos l&iacute;deres brit&acirc;nicos ou pol&iacute;ticos pusil&acirc;nimes s&atilde;o capazes de cometer. O projeto de Constitui&ccedil;&atilde;o, referendado por todos os governos &eacute; clar&iacute;ssimo: o processo de ratifica&ccedil;&atilde;o somente terminar&aacute; em outubro de 2006, quando todos os cidad&atilde;os (ou seus representantes parlamentares) tiverem tido a oportunidade de se expressar.<\/p>\n<p> Fazer o contr&aacute;rio (considerar o voto franc&ecirc;s ou o holand&ecirc;s como um plebiscito geral) &eacute; considerar orwellianamente que alguns cidad&atilde;os s&atilde;o mais iguais do que outros e que em Marselha ou Roterd&atilde; votam por Vars&oacute;via ou Praga. Este detalhe jur&iacute;dico n&atilde;o pode ser ignorado de maneira alguma, a n&atilde;o ser que se pretenda violar o ordenamento e se opte quase que por uma esp&eacute;cie de golpe de Estado, mascarado por uma decis&atilde;o do Conselho Europeu, &uacute;nico organismo capaz de enfrentar tal decis&atilde;o de deter o restante dos referendos ou das ratifica&ccedil;&otilde;es parlamentares.<\/p>\n<p> De todo modo, como unidade de direito, a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia ainda pode funcionar mediante a aplica&ccedil;&atilde;o do Tratado de Nice, e as regulamenta&ccedil;&otilde;es vigentes dos tratados anteriores. De fato, muitos dos aspectos continuariam v&aacute;lidos, com a Constitui&ccedil;&atilde;o aprovada at&eacute; 2009 e inclusive mais al&eacute;m. Portanto, havia e h&aacute; vida ap&oacute;s a Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Em segundo lugar, &eacute; certo que o terremoto causado pela rejei&ccedil;&atilde;o francesa e o poss&iacute;vel exerc&iacute;cio negativo na Holanda, tem algumas conseq&uuml;&ecirc;ncias pol&iacute;ticas, com not&aacute;veis repercuss&otilde;es legais no futuro, n&atilde;o somente para o processo da integra&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia, mas tamb&eacute;m potencialmente para redefinir a pr&oacute;pria natureza da UE. Pode-se considerar que o voto negativo de um pequeno pa&iacute;s como a Holanda tem rem&eacute;dio e uma poss&iacute;vel justificativa excepcional. Mas a bofetada &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil de encaixar fleumaticamente.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m se pode dizer que pouco mais da metade do 70% do eleitorado que votou n&atilde;o tem direito de deter o projeto constitucional. Pensando friamente, 54,87% dos eleitores franceses efetivos, apenas 15 milh&otilde;es (para n&atilde;o falar do min&uacute;sculo n&uacute;mero dos eleitores holandeses), se podem permitir o luxo de emendar os j&aacute; mais de 220 milh&otilde;es de europeus que aprovaram (em referendo ou pelo parlamento) o texto. &Eacute; absurdo e injusto, mas assim &eacute; a lei.<\/p>\n<p> Agora j&aacute; &eacute; tarde, mas em uma UE que segue no caminho de reduzir drasticamente as decis&otilde;es sujeitas &agrave; unanimidade &eacute; contradit&oacute;rio que n&atilde;o se contemple tomar passos t&atilde;o importantes mediante uma elei&ccedil;&atilde;o ou referendo global, sem barreiras nacionais. Considerados em bloco, os europeus aprovariam comodamente por maioria o texto. Esse detalhe est&aacute; intimamente relacionado com o debate entre o intergovernamental livre com&eacute;rcio e a verdadeira supranacionalidade integradora. <\/p>\n<p> Em n&iacute;vel sociol&oacute;gico, a an&aacute;lise &eacute; mais complexa e conv&eacute;m meditar seriamente n&atilde;o somente sobre o resultado do referendo, mas sobretudo no que est&aacute; intimamente ligado ao segundo n&iacute;vel. &Eacute; recomend&aacute;vel internacionalizar esta aparente ocorr&ecirc;ncia: o problema da democracia &eacute; o povo. Nem os cidad&atilde;os leram a Constitui&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o lhes interessa, nem est&atilde;o preparados para faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> As massas n&atilde;o l&ecirc;em an&aacute;lises de opini&atilde;o nem tratados filos&oacute;ficos. Tampouco l&ecirc;em as constitui&ccedil;&otilde;es de seus pr&oacute;prios pa&iacute;ses, nem os c&oacute;digos penais, ou comerciais, e devem diariamente procurar advogados e banqueiros. Por que ent&atilde;o este exerc&iacute;cio se deve fazer de forma diferente? Porque os respons&aacute;veis pol&iacute;ticos, em alguns casos emblem&aacute;ticos, como o franc&ecirc;s (e da&iacute; Chirac poder demitir), irresponsavelmente brincaram com fogo, escolheram um procedimento totalmente demag&oacute;gico e deixaram nas m&atilde;os dos eleitores uma decis&atilde;o diferente do objetivo original.<\/p>\n<p> O resultado &eacute; que o processo de ratifica&ccedil;&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o Europ&eacute;ia &eacute; considerado um plebiscito, contra ou a favor do governo de turno. Nunca &eacute; uma avalia&ccedil;&atilde;o de um texto, mal explicado e mal internalizado. &Eacute; o mesmo problema endemicamente sofrido pelas elei&ccedil;&otilde;es para o Parlamento Europeu, que somente acontecem como um castigo ou um apoio aos partidos nacionais.<\/p>\n<p> Entretanto, deve-se esperar o fim do processo, em novembro de 2006. Se pelo menos 20 (80% de 25) pa&iacute;ses ratificarem a Constitui&ccedil;&atilde;o, o Conselho Europeu decidir&aacute; quais alternativas existem. Entre elas, fora da vig&ecirc;ncia do ordenamento atual, destaca-se o resgate de alguns aspectos do texto em debate, sobretudo a presid&ecirc;ncia permanente da UE, ministro para Assuntos Exteriores, vota&ccedil;&atilde;o simplificada e o m&eacute;todo da coopera&ccedil;&atilde;o refor&ccedil;ada entre alguns membros que sirvam como motor para a integra&ccedil;&atilde;o futura.<\/p>\n<p> Mas haver&aacute; danos colaterais em raz&atilde;o do desastre franc&ecirc;s. Em primeiro lugar, o processo de amplia&ccedil;&atilde;o geral foi tocado. Cro&aacute;cia e alguns outros pa&iacute;ses, principalmente Turquia, dever&atilde;o esperar melhores dias. Em n&iacute;vel or&ccedil;ament&aacute;rio, haver&aacute; redu&ccedil;&otilde;es em ajuda interna e externa. Quanto ao exterior, a imagem da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia ser&aacute; afetada, mas tudo depender&aacute; de como vai se consolidar a trama institucional para que a UE, improvavelmente, deixe de liderar o mundo no tocante ao modelo de integra&ccedil;&atilde;o ou como ponto de refer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> (*) Joaqu&iacute;n Roy &eacute; catedr&aacute;tico Jean Monnet e diretor do Centro da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia da Universidade de Miami (hroy@miami.edu).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miami, 01\/06\/2005 &ndash; Por uma maioria de 54,87%, e participa&ccedil;&atilde;o de 70%, o eleitorado franc&ecirc;s rejeitou o projeto de Constitui&ccedil;&atilde;o Europ&eacute;ia. Considerando que a legisla&ccedil;&atilde;o exige que seja ratificada por todos e por cada um dos pa&iacute;ses-membros da UE, legalmente o projeto est&aacute; liquidado. Agora, resta somente analisar o que fazer daqui para frente n&atilde;o somente com a legisla&ccedil;&atilde;o vigente, mas com a pr&oacute;pria UE. 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