{"id":6549,"date":"2010-05-12T07:54:09","date_gmt":"2010-05-12T07:54:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6549"},"modified":"2010-05-12T07:54:09","modified_gmt":"2010-05-12T07:54:09","slug":"serra-leoa-plano-ambicioso-para-a-saude-materna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/05\/africa\/serra-leoa-plano-ambicioso-para-a-saude-materna\/","title":{"rendered":"SERRA LEOA: Plano ambicioso para a sa\u00fade materna"},"content":{"rendered":"<p>FREETOWN, 12\/05\/2010 &ndash; Uma mulher sozinha: Josephine Bangali tira \u00e1gua do po\u00e7o para ferver no lume e poder esterilizar os seus instrumentos. <!--more--> A cl\u00ednica \u00e9 feita de lama. Num dos seus tr\u00eas quartos encontra-se uma cama inst\u00e1vel onde ela admite as pacientes; \u00e9 tamb\u00e9m o quarto onde Bangali trabalha como parteira. Ela depende de uma l\u00e2mpada de querosene \u00e0 noite, suplementada por uma lanterna quando tem meios para comprar pilhas. \u201cAs causas subjacentes \u00e0 mortalidade materno-infantil t\u00eam um grande impacto e s\u00e3o enormes,\u201d disse Bangali. \u201cSe o governo quer resolver estes problemas, necessita de come\u00e7ar pela base.\u201d E essa base est\u00e1 aqui na aldeia de Bellentin, onde Bangali \u00e9 a \u00fanica enfermeira que presta servi\u00e7os em 15 aldeias \u2013 com 3.000 pessoas \u2013 da tribo de Bumpeh, no distrito de Moyamba, no sul da Serra Leoa. Na altura das chuvas, a \u00e1gua escava profundos barrancos nas estradas. Bangali disse \u00e0 IPS que n\u00e3o h\u00e1 um fornecimento regular de medicamentos para satisfazer as necessidades das suas pacientes, especialmente mulheres gr\u00e1vidas e crian\u00e7as com menos de cinco anos. <\/p>\n<p>\t Cuidados demasiado dispendiosos? Patricia Kargbo, enfermeaira na Maternidade Christian Princess, principal centro hospitalar governamental em Freetown, um grande n\u00famero de mulheres recusa-se a ir para o hospital para dar \u00e0 luz \u2013 ou mesmo ir para as cl\u00ednicas durante a gravidez, preferindo em vez disso ir \u00e0s assistentes de parto tradicionais (APT). \u201cAlgumas mulheres preferem ser atendidas pelas assistentes de parto tradicionais \u2013 que n\u00e3o t\u00eam qualifica\u00e7\u00f5es e s\u00e3o, na sua maioria, parteiras analfabetas \u2013 durante o parto, e algumas vezes acabam por pagar mais por estas assistentes do que teriam gasto nas cl\u00ednicas ou hospitais. Em todos os casos onde h\u00e1 complica\u00e7\u00f5es, elas n\u00e3o as conseguem resolver e ent\u00e3o correm para os hospitais mas, na maior parte das vezes, \u00e9 demasiado tarde para se prestar ajuda\u201d disse Kargbo. \u201cTemos medo dos pre\u00e7os exigidos nos grandes hospitais,\u201d explicou Santho Sessay, que deu \u00e0 luz a quatro dos seus seis filhos em casa com a ajuda das APT. \u201cExigem que paguemos tudo e, se n\u00e3o pagamos, n\u00e3o somos atendidas, ao contr\u00e1rio do que acontece com as parteiras tradicionais. Elas ajudam-nos a ter os beb\u00e9s, mesmo que n\u00e3o tenhamos dinheiro nessa precisa altura.\u201d<\/p>\n<p>&#8220;Na maioria das vezes tenho de comprar os meus pr\u00f3prios medicamentos na cidade e vend\u00ea-los \u00e0s minhas pacientes com base na recupera\u00e7\u00e3o dos custos; por\u00e9m, na maior parte das vezes, elas n\u00e3o os conseguem pagar, e isso significa que eu n\u00e3o consigo recuperar o meu dinheiro. O governo s\u00f3 me entrega um subs\u00eddio de cerca de 150.000 leones (35 d\u00f3lares) por m\u00eas,\u201d disse Bangali. <\/p>\n<p>\u00c0s vezes acabam-se as luvas, e Bangali \u00e9 for\u00e7ada a cuidar das pacientes com as m\u00e3os descobertas, o que a coloca em risco numa zona onde poucas pessoas sabem o seu estatuto serol\u00f3gico. <\/p>\n<p>Quando tem pela frente um caso que precisa de ser enviado para o hospital de Moyamba, a 65 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, ela tem de andar a p\u00e9 at\u00e9 \u00e0 aldeia mais pr\u00f3xima, a 1.5 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, para conseguir ter acesso \u00e0 rede de telem\u00f3vel e chamar uma ambul\u00e2ncia. O ve\u00edculo leva muito tempo a chegar devido \u00e0 m\u00e1 qualidade das estradas; \u00e0s vezes, exige-se \u00e0 fam\u00edlia da paciente que pague o combust\u00edvel para que a ambul\u00e2ncia possa fazer a viagem de retorno.<\/p>\n<p>De acordo com o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano das Na\u00e7\u00f5es Unidas, uma em cada oito mulheres na Serra Leoa arrisca-se a falecer durante a gravidez ou parto. Uma em cada 12 crian\u00e7as morrem antes do seu primeiro anivers\u00e1rio. Estes s\u00e3o alguns dos \u00edndices de mortalidade materno-infantil mais elevados em todo o mundo. <\/p>\n<p>Durante o 49\u00b0 anivers\u00e1rio da independ\u00eancia da Serra Leoa da Inglaterra, o governo anunciou que iria ampliar os cuidados m\u00e9dicos gratuitos a todas as gr\u00e1vidas, mulheres lactantes e crian\u00e7as com menos de cinco anos. <\/p>\n<p>O plano contempla a presta\u00e7\u00e3o de cuidados a 230.000 mulheres gr\u00e1vidas e perto de um milh\u00e3o de crian\u00e7as. <\/p>\n<p>Cerca de 71 milh\u00f5es de d\u00f3lares foram afectados a este projecto pelos parceiros a favor do desenvolvimento \u2013 como a Ajuda Irlandesa, o Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Popula\u00e7\u00e3o, a UNICEF, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade e o Banco Mundial. <\/p>\n<p>Abass Kamara, funcion\u00e1rio respons\u00e1vel pela informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Minist\u00e9rio Nacional da Sa\u00fade, disse que o ambicioso programa ainda apresenta uma lacuna em termos de financiamento de pouco mais de 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>E no entanto&#8230; \u00e9 suficientemente ambicioso?<\/p>\n<p>Brima Sheriff, o director da Amnistia Internacional na Serra Leoa, afirma que, para se resolver o problema da mortalidade materno-infantil, \u00e9 necess\u00e1rio alargar as actividades relevantes. <\/p>\n<p>\u201cApesar destes enormes recursos injectados no sistema de sa\u00fade gratuito, o governo devia concentrar-se em melhorar as condi\u00e7\u00f5es das estradas. Podemos comprar muitas ambul\u00e2ncias mas, se as estradas n\u00e3o forem acess\u00edveis, as ambul\u00e2ncias n\u00e3o servem para nada,\u201d disse \u00e0 IPS. \u201cE as mulheres e crian\u00e7as continuar\u00e3o a morrer porque n\u00e3o conseguem ter acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade gratuitos.\u201d <\/p>\n<p>No seu relat\u00f3rio de 2009 intitulado \u201cSem acesso: o custo da sa\u00fade materna na Serra Leoa\u201d, a Amnistia Internacional afirma que os elevados n\u00edveis de mortalidade materna se devem a diversos factores, incluindo a falta de acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade gra\u00e7as aos elevados custos (e receio desses custos), \u00e0 m\u00e1 qualidade das redes de acompanhamento, \u00e0 falta de pessoal m\u00e9dico com forma\u00e7\u00e3o adequada e \u00e0 quantidade insuficiente de medicamentos e equipamento m\u00e9dico. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o relat\u00f3rio cita \u201ca discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres e factores sociais que contribuem para o enfraquecimento do direito das mulheres a servi\u00e7os de sa\u00fade e a falta de responsabiliza\u00e7\u00e3o a v\u00e1rios n\u00edveis no sistema de cuidados de sa\u00fade com vista a assegurar disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e qualidade dos servi\u00e7os de sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cJulgo que vamos come\u00e7ar a ver um impacto consider\u00e1vel na capital, mas a lacuna a n\u00edvel da implementa\u00e7\u00e3o dos cuidados de sa\u00fade gratuitos ir\u00e1 alargar-se nos distritos, aldeias e vilas se o governo n\u00e3o providenciar estradas, energia el\u00e9ctrica e \u00e1gua a todas as zonas do pa\u00eds de forma progressiva,\u201d disse Sheriff. <\/p>\n<p>A quest\u00e3o do pessoal formado \u00e9 bastante grave. O porta-voz do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Kamara, disse \u00e0 IPS que s\u00f3 existem 825 enfermeiros registados no pa\u00eds; entretanto, o pa\u00eds precisa de outros 1.175. Tamb\u00e9m revelou que apenas existem cinco ginecologistas \/ obstetras \u2013 havendo s\u00f3 75 m\u00e9dicos na sua totalidade \u2013 nos servi\u00e7os governamentais em todo o pa\u00eds. <\/p>\n<p>\u201cO governo n\u00e3o consegue recrutar estes professionais devido \u00e0 estrutura de baixos ordenados,\u201d disse Kamara. <\/p>\n<p>\u201cImaginem: um m\u00e9dico qualificado estava a receber menos de 400 d\u00f3lares americanos por m\u00eas,\u201d contou Sulaiman Conteh, m\u00e9dico no Hospital de Connaught, o maior em Freetown. \u201cRealmente \u00e9 uma insignific\u00e2ncia e muitos dos nossos colegas n\u00e3o podem trabalhar no pa\u00eds por essas reduzidas quantias; por isso, est\u00e3o a abandonar o pa\u00eds em direc\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses africanos e \u00e0 Europa.\u201d <\/p>\n<p>Contudo, uma greve que teve lugar recentemente deu os seus resultados. O governo aumentou a despesa com os sal\u00e1rios do sector da sa\u00fade para 125 milh\u00f5es de dol\u00e1res por ano, o que representa seis por cento do total das receitas dom\u00e9sticas arrecadadas. <\/p>\n<p>Os benef\u00edcios da nova aten\u00e7\u00e3o centrada nas necessidades de sa\u00fade do pa\u00eds est\u00e3o a come\u00e7ar a ser sentidos em lugares como Bellentin, onde Josephine Bangali est\u00e1 optimista. <\/p>\n<p>\u201cMuito recentemente, o governo regularizou os meus servi\u00e7os, como parte da prepara\u00e7\u00e3o do (programa) de sa\u00fade gratuito. Agora estou \u00e0 espera de receber o meu primeiro vencimento no final deste m\u00eas, depois de ter passado quase um ano sem receber sal\u00e1rio,\u201d disse Bangali. \u201cO facto de estarem preparados para fazer funcionar este (programa) \u00e9 um bom sinal.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FREETOWN, 12\/05\/2010 &ndash; Uma mulher sozinha: Josephine Bangali tira \u00e1gua do po\u00e7o para ferver no lume e poder esterilizar os seus instrumentos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/05\/africa\/serra-leoa-plano-ambicioso-para-a-saude-materna\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":146,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-6549","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6549","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/146"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6549"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6549\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}