{"id":6583,"date":"2010-05-19T13:57:51","date_gmt":"2010-05-19T13:57:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6583"},"modified":"2010-05-19T13:57:51","modified_gmt":"2010-05-19T13:57:51","slug":"reportagem-amaranto-no-resgate-da-nutricao-mexicana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/05\/america-latina\/reportagem-amaranto-no-resgate-da-nutricao-mexicana\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Amaranto no resgate da nutri\u00e7\u00e3o mexicana"},"content":{"rendered":"<p>TEHUAC\u00c1N, M\u00e9xico, 19\/05\/2010 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- O amaranto regressa do esquecimento com o poder nutritivo necess\u00e1rio para mitigar os dois maiores males alimentares do M\u00e9xico moderno: desnutri\u00e7\u00e3o e obesidade.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6583\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/475_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6583\" class=\"size-medium wp-image-6583\" title=\"Trabalhador mostra as espigas das plantas de amaranto - Emilio Godoy\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/475_2.jpg\" alt=\"Trabalhador mostra as espigas das plantas de amaranto - Emilio Godoy\/IPS\" width=\"150\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6583\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhador mostra as espigas das plantas de amaranto - Emilio Godoy\/IPS<\/p><\/div>  O que tem a ver a filosofia com a diversidade agr\u00edcola? Em 1980, o fil\u00f3sofo Ra\u00fal Hern\u00e1ndez decidiu abandonar a capital do M\u00e9xico para se dedicar ao desenvolvimento social, e assim chegou ao munic\u00edpio de Tehuac\u00e1n, no Estado de Puebla, sul do pa\u00eds. Hern\u00e1ndez, sa\u00eddo da jesu\u00edta Universidade Ibero-Americana, e sua mulher Gisela Herrer\u00edas, uma pedagoga formada na estatal Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, comprovaram que a \u00e1gua era um assunto cr\u00edtico em Tehuac\u00e1n, e bastou apenas um passo para que, em 1983, encontrassem no amaranto uma solu\u00e7\u00e3o m\u00faltipla.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o passaram a fazer parte substancial de seus esfor\u00e7os. Vinte e sete anos depois, a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Alternativas e Processos de Participa\u00e7\u00e3o Social trabalha, em uma \u00e1rea onde confluem tr\u00eas Estados (Puebla, Guerrero e Oaxaca), pela conserva\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e pelo desenvolvimento deste valioso cereal nativo. \u201cPrimeiro foi o investimento agr\u00edcola para incrementar a fertilidade dos solos, fazer composto e respeitar a biodiversidade\u201d, disse ao Terram\u00e9rica Hern\u00e1ndez, diretor-geral da ONG.<\/p>\n<p>Mas o assunto ganhou corpo. Com a supervis\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, o grupo cooperativo Quali procura, desde 1994, agregar valor ao amaranto org\u00e2nico semeado em cerca de 500 hectares certificados por 1.100 agricultores, ind\u00edgenas mixtecos, popolocas e nahuas desta regi\u00e3o semi\u00e1rida. Para este ano, o pagamento ser\u00e1 de US$ 1,4 por quilo de amaranto, \u201cmais que o pre\u00e7o de mercado\u201d, segundo o diretor-geral da Alternativas.<\/p>\n<p>Os gr\u00e3os s\u00e3o vendidos ao setor industrial para elabora\u00e7\u00e3o de cereal, farinha, doces, biscoitos e bebidas. A f\u00e1brica, na cidade de Tehuac\u00e1n, come\u00e7ou a funcionar em 2009, com investimento de US$ 2,3 milh\u00f5es, e processa cem toneladas de gr\u00e3o por ano. \u201cTivemos de dar \u00eanfase especial ao cuidado, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o higi\u00eanica e garantir a inocuidade do produto\u201d, contou Hern\u00e1ndez.<\/p>\n<p>Os alimentos s\u00e3o consumidos e vendidos no M\u00e9xico e exportados para It\u00e1lia, Espanha e em breve para a Su\u00ed\u00e7a. A tecnologia desenvolvida foi reconhecida com muitos pr\u00eamios: Slow Food pela Defesa da Biodiversidade, em 2002, M\u00e9rito Ecol\u00f3gico, em 2005, e Pr\u00eamio Nacional Agroalimentar, em 2008, entre outros.<\/p>\n<p>O amaranto pertence ao g\u00eanero Amaranthus, que inclui 60 esp\u00e9cies. Pelo menos duas delas, cruentus e hipochondriacus, s\u00e3o origin\u00e1rias do M\u00e9xico e valorizadas por seus gr\u00e3os e suas folhas comest\u00edveis, ricas em ferro. O gr\u00e3o, cultivado h\u00e1 cinco mil anos por povos abor\u00edgines, cont\u00e9m o dobro de prote\u00ednas do milho e do arroz, al\u00e9m de ser rico em vitaminas A, B, C, B1, B2, B3, \u00e1cido f\u00f3lico, niacina, c\u00e1lcio, ferro e f\u00f3sforo. \u00c9 uma \u201cprote\u00edna de alto valor biol\u00f3gico, o que \u00e9 \u00fanico e extraordin\u00e1rio. Pode ser cultivado amplamente, seu processamento \u00e9 simples e tem uma composi\u00e7\u00e3o nutritiva muito adequada\u201d, disse Abelardo \u00c1vila, pesquisador do Instituto Nacional de Nutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1975, o informe \u201cUnderexploited Tropical Plants with Promising Economic Value\u201d, da Academia Nacional de Ci\u00eancias dos Estados Unidos, colocou o amaranto em uma lista de 36 vegetais tropicais ignorados e mais promissores do mundo. Ao longo da hist\u00f3ria da humanidade, muitos alimentos valiosos se perderam. S\u00f3 no \u00faltimo s\u00e9culo, a diversidade dos cultivos caiu 75%, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o. O amaranto, alegria ou \u201chuautli\u201d (caruru, em l\u00edngua n\u00e1huatl), foi combatido pela conquista cat\u00f3lica espanhola, que o via como s\u00edmbolo do paganismo, e acabou quase esquecido neste pa\u00eds que hoje, com 107 milh\u00f5es de habitantes, sofre dois males paradoxais: obesidade e desnutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico lidera a lista de na\u00e7\u00f5es com obesidade infantil e ocupa o segundo lugar em obesidade adulta, depois dos Estados Unidos. Mas a baixa estatura, sinal de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, foi registrada em 888.400 mulheres e em 714.900 homens, com idades entre 12 e 17 anos, pela Pesquisa Nacional de Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o realizada em 2006. H\u00e1, ainda, 832.664 crian\u00e7as desnutridas, segundo o Rel\u00f3gio da Desnutri\u00e7\u00e3o, um medidor di\u00e1rio do Cap\u00edtulo Mexicano da Sociedade Latino-Americana de Nutri\u00e7\u00e3o. E cerca de oito mil crian\u00e7as morrem anualmente por problemas alimentares.<\/p>\n<p>\u201cDiante da obesidade e da sobrealimenta\u00e7\u00e3o urbana, e \u00e0 custa de uma m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o nessas \u00e1reas, diminuiu a desnutri\u00e7\u00e3o infantil, mas em regi\u00f5es pobres o ritmo de redu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito lento\u201d, disse \u00c1vila ao Terram\u00e9rica. Pesquisas feitas em 2009 por sua equipe detectaram desnutri\u00e7\u00e3o severa em 80% das crian\u00e7as estudadas nos munic\u00edpios mais pobres de Chiapas, Guerrero e Oaxaca. Uma ingest\u00e3o di\u00e1ria de 25 gramas de amaranto no per\u00edodo de cinco meses conseguiu combater com sucesso essa desnutri\u00e7\u00e3o, comprovaram \u00c1vila e seus pesquisadores em comunidades de Puebla, Oaxaca e Guerrero.<\/p>\n<p>Resistente \u00e0 seca, \u00e0s altas temperaturas e \u00e0s pragas, o cereal est\u00e1 pronto para ser colhido em seis meses, entre maio e novembro. Primeiro germina em viveiros e depois \u00e9 levado para um local definitivo, onde cresce com suas folhas largas e abundantes e suas espigas e flores p\u00farpura, laranja, roxo e dourada. Puebla \u00e9 o maior produtor mexicano de amaranto, seguido por Morelos, Tlaxcala e a capital do pa\u00eds. Contudo, ainda s\u00e3o apenas tr\u00eas mil hectares. O rendimento m\u00e9dio, de 1,5 toneladas por hectare, \u00e9 muito superior ao do feij\u00e3o (0,7 tonelada), segundo o Minist\u00e9rio da Agricultura, Pesca e Alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas mesmas regi\u00f5es do amaranto, a organiza\u00e7\u00e3o Alternativas trabalha na recupera\u00e7\u00e3o de bacias h\u00eddricas, resgatando t\u00e9cnicas ancestrais \u2013 terra\u00e7os, canais, represas e regenera\u00e7\u00e3o vegetal \u2013 e introduzindo a moderna engenharia e a informa\u00e7\u00e3o digital. Embora o amaranto seja um ingrediente \u201cvers\u00e1til\u201d na cozinha, como farinha ou cereal em saladas, sobremesas, tortilhas ou biscoitos, \u201cn\u00e3o existe um sistema produtivo para que se torne um alimento acess\u00edvel, quando deveriam ser produzidas toneladas\u201d, afirmou \u00c1vila.<\/p>\n<p>As autoridades nacionais trabalham em um plano de promo\u00e7\u00e3o, como os que existem para o milho e o caf\u00e9, com ajuda estatal para as cadeias de produ\u00e7\u00e3o e venda. \u201cCada vez se ouve mais sobre o amaranto. As pessoas t\u00eam maior conscientiza\u00e7\u00e3o com sua alimenta\u00e7\u00e3o e cada vez se conhece mais propriedades nutritivas\u201d, disse Hern\u00e1ndez. Agora, o governo da capital quer que as Na\u00e7\u00f5es Unidas o declarem patrim\u00f4nio da humanidade. Talvez assim se evite o esquecimento e a extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>* Este artigo \u00e9 parte de uma s\u00e9rie de reportagens sobre biodiversidade produzidas por IPS, CGIAR\/Bioversity International, IFEJ e Pnuma\/Conv\u00eanio sobre a Diversidade Biol\u00f3gica, membros da Alian\u00e7a de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (http:\/\/ww<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TEHUAC\u00c1N, M\u00e9xico, 19\/05\/2010 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- O amaranto regressa do esquecimento com o poder nutritivo necess\u00e1rio para mitigar os dois maiores males alimentares do M\u00e9xico moderno: desnutri\u00e7\u00e3o e obesidade. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/05\/america-latina\/reportagem-amaranto-no-resgate-da-nutricao-mexicana\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":66,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,5],"tags":[21],"class_list":["post-6583","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/66"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6583"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6583\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}