{"id":6768,"date":"2010-06-28T14:23:03","date_gmt":"2010-06-28T14:23:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6768"},"modified":"2010-06-28T14:23:03","modified_gmt":"2010-06-28T14:23:03","slug":"belo-monte-a-terceira-invasao-do-rio-xingu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/06\/america-latina\/belo-monte-a-terceira-invasao-do-rio-xingu\/","title":{"rendered":"Belo Monte, a terceira invas\u00e3o do Rio Xingu"},"content":{"rendered":"<p>Altamira, Par\u00e1, 28\/06\/2010 &ndash; Ao amanhecer, o patr\u00e3o disparou contra o l\u00edder da aldeia e come\u00e7ou o tiroteio.  <!--more--><br \/>\n <a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/76755.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6768\" title=\"Benedito dos Santos, \"Bi\u00e3o\", protagonista de todas as aventuras extrativistas da Bacia do Rio Xingu. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/76755.jpg\" alt=\"Benedito dos Santos, \"Bi\u00e3o\", protagonista de todas as aventuras extrativistas da Bacia do Rio Xingu. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a>  \u201cA floresta tremeu\u201d e os \u00edndios fugiram, deixando seus mortos. Apenas uma menina ficou. Cravou os dentes com tanta for\u00e7a no peito de um atacante que precisou ser degolada.<\/p>\n<p>Cinco d\u00e9cadas depois, Benedito dos Santos recorda as batalhas das quais participou como um dos seringueiros que invadiram, desde o final do S\u00e9culo 19, as florestas da Bacia do Rio Xingu, na Amaz\u00f4nia oriental, enfrentando a resist\u00eancia de alguns grupos ind\u00edgenas e convivendo e se misturando com outros.<\/p>\n<p>Aos 67 anos, com 23 filhos dos 26 que teve com 14 mulheres, \u201cBi\u00e3o\u201d, como \u00e9 conhecido, trabalha de barqueiro na empresa familiar que tem, com oito embarca\u00e7\u00f5es e um atracadouro no centro de Altamira, a principal cidade \u00e0s margens do Xingu, com cerca de cem mil habitantes. Ele viveu todos os ciclos da economia extrativista desta Bacia, desde que chegou, antes de completar cinco anos, com sua m\u00e3e j\u00e1 vi\u00fava e tr\u00eas irm\u00e3os menores, procedentes do Rio Moju, 350 quil\u00f4metros a leste, tamb\u00e9m no Estado do Par\u00e1, no Norte do Brasil.<\/p>\n<p>Diante das transforma\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o causadas pela hidrel\u00e9trica de Belo Monte (que represar\u00e1 o Rio Xingu em dois pontos, inundando ilhas, florestas e terras agr\u00edcolas), Bi\u00e3o diz estar \u201cneutro\u201d. A decis\u00e3o \u00e9 dos poderosos, n\u00e3o importa a controv\u00e9rsia entre defensores e opositores da obra, afirma. S\u00f3 espera que seja gerada renda para a popula\u00e7\u00e3o local carente de emprego, e reconhece que j\u00e1 n\u00e3o tem o protagonismo de antes, quando dependia da natureza para sobreviver.<\/p>\n<p>\u201cFui criado com leite de pau\u201d, brinca para ressaltar que em crian\u00e7a aprendeu a tirar o l\u00e1tex da seringueira, al\u00e9m de ajudar a m\u00e3e e o padrasto na agricultura. Virou seringueiro com 14 anos, se embrenhando nas florestas do M\u00e9dio Xingu com tr\u00eas grupos, quando j\u00e1 esperava seu primeiro filho, ap\u00f3s ter se dedicado a colher castanhas.<\/p>\n<p>Aquele ataque \u00e0 aldeia foi resposta a sucessivos assassinatos de seringueiros, cometidos por \u00edndios que, dessa forma, conseguiam armas de fogo, afirma Bi\u00e3o. \u201cS\u00f3 no grupo do Isaac, mataram mais de 40\u201d, assegura. Mas a matan\u00e7a era rec\u00edproca. Os brancos acrescentavam um rito macabro: enfiavam \u201cpedras no bucho\u201d dos cad\u00e1veres para escond\u00ea-los no fundo do rio e evitar a repress\u00e3o do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio.<\/p>\n<p>Bi\u00e3o sentia cada vez mais medo, inclusive pelas disputas internas. Uma tarde, come\u00e7ou um tiroteio entre os seringueiros do acampamento, com v\u00e1rios mortos. Ele evitava conflitos e desfrutava da prote\u00e7\u00e3o de seus patr\u00f5es por sua habilidade para ca\u00e7ar, que o fez fornecedor de carne e pescado para seus companheiros.<\/p>\n<p>No cerco \u00e0 aldeia ind\u00edgena, ap\u00f3s nove dias de marcha durante a qual desertaram dez dos 35 homens mobilizados, o chefe o colocou \u201catr\u00e1s de um tronco de emba\u00faba, t\u00e3o fino que n\u00e3o aguentaria as balas\u201d, recorda. Atemorizado, passou a noite toda cavando um buraco usando \u201cas unhas como enxada\u201d.<\/p>\n<p>O medo e o barulho do tiroteio fizeram com que muitos homens desperdi\u00e7assem muni\u00e7\u00e3o. Substitu\u00edam cartuchos intactos, convencidos de que haviam disparado, conta Bi\u00e3o. V\u00e1rios \u00edndios morreram e apenas dois seringueiros ficaram feridos, recorda. A aldeia foi incendiada. Depois de nove anos no seringal e j\u00e1 com quatro filhos, voltou \u00e0 \u201cboa vida\u201d de Altamira. Al\u00e9m de perigosa, a atividade tinha pouco futuro.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia brasileira, que enriqueceu com a extra\u00e7\u00e3o de borracha no final do S\u00e9culo 19 e come\u00e7o do 20, a partir de 1920 perdeu o dom\u00ednio do mercado mundial para a Mal\u00e1sia, onde as planta\u00e7\u00f5es de seringueiras (Hevea brasiliensis) alcan\u00e7aram rendimentos maiores.<\/p>\n<p>Bi\u00e3o e seus companheiros se beneficiaram dos bons pre\u00e7os do p\u00f3s-guerra, mas o Brasil j\u00e1 havia ca\u00eddo para exportador secund\u00e1rio, dependente de subs\u00eddios e eventuais bolhas de demanda, como por ocasi\u00e3o da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o Jap\u00e3o bloqueou as exporta\u00e7\u00f5es do sudeste asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>A \u201cca\u00e7a do gato\u201d (on\u00e7a), e de outros animais de couro apreciados no mercado, passou de atividade intermitente a principal fonte de renda para Bi\u00e3o. \u201cFoi quando ganhei mais dinheiro\u201d, suficiente para comprar terrenos na cidade, disse. \u201cUma noite matei 30 jacar\u00e9s, mas, eu e dois companheiros, n\u00e3o conseguimos tirar o couro de todos. D\u00e1 muito trabalho\u201d, contou. Agora, restam poucos desses animais nas proximidades de Altamira, porque \u201cas pessoas os matam para comer\u201d, mas continuam abundantes nas lagoas do Alto Xingu, acrescentou. Em 1967, uma lei proibindo a ca\u00e7a restringiu a atividade, embora sua vig\u00eancia na Amaz\u00f4nia seja relativa.<\/p>\n<p>Bi\u00e3o tamb\u00e9m participou da constru\u00e7\u00e3o da malograda rodovia Transamaz\u00f4nica, iniciada em 1970. Dedicou um ano a derrubar floresta para dar lugar ao projeto de tr\u00eas mil quil\u00f4metros de extens\u00e3o, destinado a unir o Nordeste \u00e0 Amaz\u00f4nia. A estrada, sem asfalto, \u00e9 quase intransit\u00e1vel nos trechos que servem Altamira. A obra atraiu uma nova onda migrat\u00f3ria para a Amaz\u00f4nia, estimulada por promessas e distribui\u00e7\u00e3o de terras a camponeses.<\/p>\n<p>Aparecida Moraes \u00e9 filha desse processo. Nasceu em 1971, um ano ap\u00f3s sua fam\u00edlia chegar do Estado do Paran\u00e1, no Sul, \u201cbuscando terras\u201d, e acabou assentada na margem direita do Rio Xingu. Hoje, casada com outro migrante do Paran\u00e1, vende banana, papaia e cereais na Feira do Produtor, no centro de Altamira. Suas terras n\u00e3o ser\u00e3o inundadas por Belo Monte.<\/p>\n<p>Esta sorte n\u00e3o ter\u00e1 Sebasti\u00e3o de Castro Silva, de 60 anos e oito filhos, que cultiva cacau e cereais nos cem hectares que obteve ap\u00f3s chegar \u00e0 Amaz\u00f4nia em 1977, procedente de Goi\u00e1s. \u201cVou embora da Amaz\u00f4nia se constru\u00edrem a represa\u201d, pois vai inundar 40% de sua propriedade, impedindo de \u201cmanter juntos\u201d seus 32 familiares.<\/p>\n<p>Enquanto ocorria esta invas\u00e3o camponesa do M\u00e9dio e Baixo Xingu, na d\u00e9cada de 70, Bi\u00e3o dedicou-se ao garimpo. Foi \u00e0 Venezuela em busca de diamantes, mas logo foi detido e deportado, junto com outros garimpeiros brasileiros. Descobriu ouro em Ressaca, perto de Altamira, em uma mina onde ainda trabalham alguns de seus descendentes, e esteve por v\u00e1rios garimpos, at\u00e9 escolher um no alto da Bacia do Rio Tapaj\u00f3s, paralelo ao Xingu, mais de mil quil\u00f4metros ao sul de Altamira, no central Estado do Mato Grosso.<\/p>\n<p>\u201cNo garimpo se ganha muito, mas tamb\u00e9m se perde muito, inclusive a vergonha, entre bebidas e putas\u201d, lamenta Bi\u00e3o. Por 18 anos, at\u00e9 2002, Bi\u00e3o explorou v\u00e1rios barrancos (\u00e1reas de garimpo) e um prost\u00edbulo, mas tamb\u00e9m trabalhou para uma madeireira, a Marajoara. A extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira ainda prosperava, sobretudo de mogno, \u00e1rvore preciosa cuja explora\u00e7\u00e3o est\u00e1 restringida desde 1996.<\/p>\n<p>As disputas eram violentas. Uma floresta de mognos no alto de uma montanha, onde Bi\u00e3o chegara com sua equipe e seus tratores, despertou a cobi\u00e7a de um grupo competidor, cujo iminente ataque armado foi frustrado com uma emboscada na qual morreram mais de 20 advers\u00e1rios. Bi\u00e3o teve de fugir. \u201cMinha cabe\u00e7a valia cinco quilos de ouro\u201d, explicou. Voltou a Altamira, atra\u00eddo por seus filhos.<\/p>\n<p>J\u00e1 a vida de barqueiro, em um Xingu povoado de ilhotas submersas e quedas d\u2019\u00e1gua ocultas nas cheias, tamb\u00e9m tem seus riscos. H\u00e1 dois meses, Bi\u00e3o sentiu que o mundo \u201cescurecia muito rapidamente\u201d, quando um redemoinho o tragou juntamente com sua \u201cvoadora\u201d, pequeno barco a motor que \u201cvoa\u201d sobre as \u00e1guas. Sobreviveu nadando mais de uma hora e ficando em cima de uma \u00e1rvore por outras 11 em meio \u00e0 correnteza.<\/p>\n<p>\u00c9 sobrevivente de um modo de vida que, como o Rio Xingu, se desfigurar\u00e1 com a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Belo Monte nos pr\u00f3ximos cinco anos. As obras empregar\u00e3o 18.700 trabalhadores e gerar 80 mil empregos indiretos, com uma previs\u00e3o de que atrair\u00e3o cerca de cem mil migrantes para munic\u00edpios que n\u00e3o t\u00eam mais do que 150 mil habitantes. Al\u00e9m disso, por fim, a Transamaz\u00f4nica ser\u00e1 asfaltada, rompendo um relativo isolamento do M\u00e9dio Xingu.<\/p>\n<p>Um empres\u00e1rio de Goi\u00e2nia, capital do Estado de Goi\u00e1s, 2.300 quil\u00f4metros ao sul por rodovia, come\u00e7ou, h\u00e1 pouco tempo, a comprar pescado em Altamira, que transporta em caminh\u00e3o em quantidades de 600 a 800 quilos at\u00e9 sua cidade, segundo Gilvan de Almeida, que h\u00e1 12 anos vende pescado na Feira do Produtor. Com asfalto, Altamira se integrar\u00e1 ao resto do pa\u00eds e, provavelmente, haja o desenvolvimento da pesca industrial no Xingu, afetando o abastecimento local e a abund\u00e2ncia de peixes neste grande rio e em seus afluentes. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Altamira, Par\u00e1, 28\/06\/2010 &ndash; Ao amanhecer, o patr\u00e3o disparou contra o l\u00edder da aldeia e come\u00e7ou o tiroteio. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/06\/america-latina\/belo-monte-a-terceira-invasao-do-rio-xingu\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12],"tags":[],"class_list":["post-6768","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6768\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}