{"id":6780,"date":"2010-06-29T14:42:10","date_gmt":"2010-06-29T14:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6780"},"modified":"2010-06-29T14:42:10","modified_gmt":"2010-06-29T14:42:10","slug":"tijolo-por-tijolo-pedreiras-fazem-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/06\/america-latina\/tijolo-por-tijolo-pedreiras-fazem-historia\/","title":{"rendered":"Tijolo por tijolo, pedreiras fazem hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 29\/06\/2010 &ndash; A cena \u00e9 igual em muitas constru\u00e7\u00f5es. Um vai-e-vem de carrinhos carregados de tijolos, madeira e ferro, com uma orquestra ao fundo de martelos, serras e furadeiras. Mas atualmente tem algo diferente.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6780\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/76827.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6780\" class=\"size-medium wp-image-6780\" title=\"Trabalhadoras da constru\u00e7\u00e3o em uma obra no Rio de Janeiro. - Fabiana Frayssinet\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/76827.jpg\" alt=\"Trabalhadoras da constru\u00e7\u00e3o em uma obra no Rio de Janeiro. - Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6780\" class=\"wp-caption-text\">Trabalhadoras da constru\u00e7\u00e3o em uma obra no Rio de Janeiro. - Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>  Por tr\u00e1s das m\u00e1scaras, dos capacetes e uniformes, est\u00e3o mulheres pedreiras. Em uma obra da cidade do Rio de Janeiro, aparece uma nova cara do mercado de trabalho do Brasil. S\u00e3o apenas sete entre 90 homens, mas lutaram muito para chegar aos andaimes mais altos da obra, um pr\u00e9dio de oito andares.<\/p>\n<p>\u201cDiziam que como pedreira n\u00e3o aguentaria, e aqui estou\u201d, contou Daiana Aguiar, de 23 anos, casada e com um filho. Muitos de seus conhecidos duvidam que \u201creboque ou coloque tijolos de verdade\u201d. Ela recorda, sem saudades, seu passado de caixa em supermercado. \u201cTrabalhava de segunda-feira a segunda-feira, com apenas um descanso por semana. Em uma obra h\u00e1 uma diferen\u00e7a salarial muito grande. Descanso no s\u00e1bado e no domingo. E agora tenho autom\u00f3vel, estudo e construo minha casa\u201d, conta Daiana.<\/p>\n<p>Para dar esse passo, elas tiveram ajuda do Projeto M\u00e3o na Massa que, desde 2007, promove a inser\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho e o resgate de sua autoestima, em uma iniciativa da Federa\u00e7\u00e3o de Institui\u00e7\u00f5es Beneficentes (FIB), com apoio das estatais Petrobras e Eletrobras. Estudaram 460 horas, mais 180 de pr\u00e1tica e 120 de capacita\u00e7\u00e3o profissional em \u00e1reas como alvenaria, pintura, carpintaria e encanamento. Somaram 160 horas de forma\u00e7\u00e3o social, com mat\u00e9rias como cidadania, g\u00eanero e sa\u00fade, e seguran\u00e7a do trabalho.<\/p>\n<p>O projeto, dirigido a chefes de fam\u00edlia, tamb\u00e9m ajuda a encontrar emprego em empresas p\u00fablicas e privadas, com um \u00edndice de \u00eaxito de 70%. \u201cBuscamos romper o paradigma de que a mulher n\u00e3o pode trabalhar em constru\u00e7\u00e3o\u201d, explicou Norma S\u00e1, coordenadora do M\u00e3o na Massa. A ideia nasceu quando Deise Gravina, engenheira civil e presidente da FIB, viu que as trabalhadoras melhoravam a constru\u00e7\u00e3o e que habitualmente as mulheres das favelas ajudam o pai ou o marido a construir ou reformar suas casas.<\/p>\n<p>Um estudo confirmou que muitas queriam aprender o oficio, mas se autoexclu\u00edam, achando que era profiss\u00e3o de homem. Sunilda dos Santos, de 36 anos, tinha que manter seus dois filhos e um neto. Lavava e passava roupa, mas decidiu ser carpinteira \u201cpara mostrar a mim mesma que podia\u201d. A autoestima se refor\u00e7a com a atividade profissional, a melhoria salarial e o emprego formal. \u201cAgora tenho cart\u00e3o de cr\u00e9dito e at\u00e9 tal\u00e3o de cheque\u201d, contou, ainda surpresa. \u201cComprei uma geladeira com essas portas por onde sai \u00e1gua gelada\u201d, acrescentou, festejada por suas colegas: \u201cque chique!\u201d.<\/p>\n<p>Os homens t\u00eam de se acostumar, disse Sunilda. \u201cN\u00e3o aceitam totalmente mulheres como n\u00f3s, porque estamos invadindo seu campo. Tentamos entender seu lado. Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil para eles\u201d, disse. \u201cAlguns afirmam que se uma mulher j\u00e1 \u00e9 perigosa com uma escova na m\u00e3o, com um martelo \u00e9 ainda mais\u201d, contaram em tom de brincadeira. Norma destacou que \u201cpoucas empresas apostam na m\u00e3o-de-obra feminina, mas quando o fazem pedem mais. De fato, n\u00e3o havia oferta feminina para trabalhos operacionais na constru\u00e7\u00e3o civil. Quando come\u00e7ou a haver mulheres capacitadas, perguntamos \u2018por que n\u00e3o?\u2019\u201d, explicou Denise Rodrigues, diretora administrativa e financeira da construtora Cofix, que emprega as sete trabalhadoras.<\/p>\n<p>Elas foram \u00f3timas em \u00e1reas onde \u00e9 dif\u00edcil encontrar bons profissionais, como a prote\u00e7\u00e3o nas obras. \u201cAs mulheres s\u00e3o mais detalhistas e delicadas\u201d, desperdi\u00e7am menos material e com isso reduzem custos, assegurou Denise. \u201cCi\u00fames delas? Pelo contr\u00e1rio. Com sua presen\u00e7a os pedreiros aparecem mais asseados e perfumados, e dizem menos palavr\u00f5es\u201d, riu, acrescentando que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico derrubou o mito de que a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 um trabalho \u201cpesado\u201d para as mulheres.<\/p>\n<p>Andr\u00e9a Pereira, pedreira de 37 anos e com um filho, antes era cabeleireira. Com seu novo emprego superou uma depress\u00e3o que atribui ao fato de n\u00e3o \u201cse encaixar\u201d em nada. A Secretaria Especial de Pol\u00edticas para as Mulheres destaca que a participa\u00e7\u00e3o feminina na constru\u00e7\u00e3o civil aumentou de maneira sustentada na \u00faltima d\u00e9cada no Brasil. Entre 2008 e 2009, cresceu 3%, com apoio do boom no setor, o aumento da renda familiar e os cr\u00e9ditos para moradia. Outro fator \u00e9 o maior investimento em obras p\u00fablicas, que promove a contrata\u00e7\u00e3o feminina com diferentes normas e est\u00edmulos para os construtores.<\/p>\n<p>A Secretaria desenvolve, desde 2009, o Programa Mulheres Construindo Autonomia na Constru\u00e7\u00e3o Civil, com a meta de formar, no bi\u00eanio inicial, 2.670 trabalhadoras nos Estados de S\u00e3o Paulo, Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, com apoio dos governos estaduais e municipais. As participantes s\u00e3o capacitadas como pedreiras, carpinteiras, pintoras, ceramistas ou encanadoras, em um curso de 236 horas, que inclui forma\u00e7\u00e3o profissional, administra\u00e7\u00e3o empresarial e cidadania.<\/p>\n<p>Uma delas, Daniela da Rocha, de 35 anos, contou que muitas mulheres da favela onde mora, no Morro da Provid\u00eancia, no Rio de Janeiro, \u201ct\u00eam filhos e n\u00e3o marido, e muita necessidade de trabalhar\u201d. Tamb\u00e9m precisam melhorar o lugar onde moram e realizar obras em suas comunidades, acrescentou. Maria Rosa Lombardi, da n\u00e3o governamental Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas, destacou que a presen\u00e7a feminina na constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o ainda se expressa em igualdade salarial nem acesso a cargos de poder.<\/p>\n<p>Maria Rosa disse que no Brasil ainda existe um \u201cmercado de trabalho muito machista\u201d. A crescente oferta feminina em um mercado profissional restrito pode acentuar o desemprego das mulheres, tradicionalmente mais alto do que o masculino, afirmou. Daniela, que sonha ser engenheira, queixou-se de n\u00e3o encontrar emprego na constru\u00e7\u00e3o civil porque o \u201cpreconceito ainda \u00e9 grande\u201d. Alguns empres\u00e1rios contratam por tr\u00eas meses, para simular que cumprem as medidas estatais a favor do emprego feminino, e \u201cdepois nos demitem\u201d, denunciou Daniela. O governo, al\u00e9m de oferecer cursos, \u201cdeve fazer valer a lei junto \u00e0s companhias privadas\u201d, ressaltou. IPS\/Envolverde<\/p>\n<p>* Este artigo foi publicado originalmente pelo peri\u00f3dico independente da IPS TerraViva com apoio do Unifem e do Dutch MDG3Fund. A edi\u00e7\u00e3o completa encontra-se no site http:\/\/www.ips.org\/mdg3\/tv-gender-amr1.pdf.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 29\/06\/2010 &ndash; A cena \u00e9 igual em muitas constru\u00e7\u00f5es. Um vai-e-vem de carrinhos carregados de tijolos, madeira e ferro, com uma orquestra ao fundo de martelos, serras e furadeiras. 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