{"id":679,"date":"2005-06-09T00:00:00","date_gmt":"2005-06-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=679"},"modified":"2005-06-09T00:00:00","modified_gmt":"2005-06-09T00:00:00","slug":"ambiente-fbrica-de-celulose-detona-escndalo-poltico-judicial-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/ambiente-fbrica-de-celulose-detona-escndalo-poltico-judicial-no-chile\/","title":{"rendered":"Ambiente: F&aacute;brica de celulose detona esc&acirc;ndalo pol&iacute;tico-judicial no Chile"},"content":{"rendered":"<p>Santiago, 09\/06\/2005 &ndash; A f&aacute;brica de celulose que provocou uma maci&ccedil;a mortandade de cisnes no sul do Chile foi fechada nesta quarta-feira de maneira &quot;imediata e volunt&aacute;ria&quot; por seus propriet&aacute;rios, em meio a um esc&acirc;ndalo pol&iacute;tico e judicial que envolve a Suprema Corte de Justi&ccedil;a e o governo do presidente Ricardo Lagos. A decis&atilde;o da empresa Celulosa Arauco e Constituci&oacute;n (Celco) foi recebida com satisfa&ccedil;&atilde;o pelas autoridades e ocorreu depois que um grupo de deputados anunciou na sede do Legislativo em Valpara&iacute;so (120 quil&ocirc;metros a oeste de Santiago) que acusariam constitucionalmente os ju&iacute;zes que no final de maio permitiram a reabertura da f&aacute;brica.<br \/> <!--more--> <br \/> O dirigente ecologista Marcel Claude denunciou uma &quot;manobra de rela&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas&quot; no &quot;autofechamento&quot; da f&aacute;brica, que procura &quot;limpar a imagem&quot; da empresa e &quot;chantagear&quot; a opini&atilde;o p&uacute;blica, ao obrigar seus 300 trabalhadores a irem para as ruas em protesto pela perda de sua fonte de emprego. &quot;&Eacute; o governo que deve se impor e decretar o fechamento da f&aacute;brica&quot;, afirmou Claude, vice-presidente para a Am&eacute;rica Latina da organiza&ccedil;&atilde;o ecologista internacional Oceana. Os conflitos pela contamina&ccedil;&atilde;o do Santu&aacute;rio da Natureza &quot;Carlos Anwandter&acute;&quot; do rio Cruces, constituem uma evid&ecirc;ncia de ingovernabilidade e impunidade ambiental, acompanhadas de &quot;n&iacute;veis severos de corrup&ccedil;&atilde;o&quot;, disse na ter&ccedil;a-feira a ecologista Sara Larra&iacute;n, diretora do n&atilde;o-governamental Programa Chile Sustent&aacute;vel.<\/p>\n<p> Larra&iacute;n julgou dessa maneira tanto a autoriza&ccedil;&atilde;o de meados de maio para a reabertura da f&aacute;brica da Celco no rio Cruces quanto a decis&atilde;o da Suprema Corte do dia 30 passado, que isentou a empresa da contamina&ccedil;&atilde;o que desde outubro de 2004 matou cerca de 500 cisnes. No santu&aacute;rio natural, cerca de 840 quil&ocirc;metros ao sul de Santiago, na prov&iacute;ncia de Valdivia, existia a maior concentra&ccedil;&atilde;o de cisnes de pesco&ccedil;o preto (Cygnus melancoryphus) da Am&eacute;rica Latina, com cerca de seis mil exemplares, dos quais restam hoje aproximadamente 300, depois que a maioria migrou para outros rios e lagos.<\/p>\n<p> No dia 18 de abril, a Universidade Austral, com sede em Valdivia, divulgou um completo estudo cient&iacute;fico no qual determina que tanto a morte de meio milhar de cisnes, quanto a maci&ccedil;a migra&ccedil;&atilde;o desses animais se deveram &aacute; destrui&ccedil;&atilde;o do luchecillo, a alga da qual se alimentam, pelos compostos t&oacute;xicos despejados no rio pela f&aacute;brica da Celco. A empresa, que come&ccedil;ou a operar em fevereiro de 2004, pertence ao grupo Angelini, o segundo conglomerado empresarial deste pa&iacute;s, cujos advogados conseguiram que uma turma da Suprema Corte revogasse no dia 30 de maio uma decis&atilde;o do Tribunal de Apela&ccedil;&otilde;es de Valdivia, que no dia 19 de abril havia ordenado a paralisa&ccedil;&atilde;o da f&aacute;brica.<\/p>\n<p> Duas semanas antes, em outra decis&atilde;o pol&ecirc;mica, a inst&acirc;ncia regional da Comiss&atilde;o Nacional de Meio Ambiente (Conama), tamb&eacute;m autorizou a reabertura da unidade de celulose, condicionada &agrave; redu&ccedil;&atilde;o de seu volume de produ&ccedil;&atilde;o e ao aperfei&ccedil;oamento do sistema de processamento dos dejetos s&oacute;lidos de ferro e outros contaminantes. A satisfa&ccedil;&atilde;o do grupo Angelini pela senten&ccedil;a da Suprema Corte durou pouco, pois no &uacute;ltimo dia 3 o Centro EULA (Europa-Am&eacute;rica Latina) da Universidade de Concepci&oacute;n (515 quil&ocirc;metros ao sul de Santiago) desmentiu ser de sua autoria um relat&oacute;rio inocentando a Celco da contamina&ccedil;&atilde;o do rio Cruces, no qual se baseou a ordem judicial.<\/p>\n<p> A rigor, o informe era da pr&oacute;pria empresa, com cita&ccedil;&otilde;es de estudos feitos pela EULA. O grupo Angelini atribuiu o &quot;erro&quot; &agrave; sua equipe de advogados, que renunciou na ter&ccedil;a-feira, enquanto a Suprema Corte limitou-se a refazer a reda&ccedil;&atilde;o da senten&ccedil;a e manteve firme a rejei&ccedil;&atilde;o ao pedido de fechamento da f&aacute;brica, apresentada pelo grupo A&ccedil;&atilde;o pelos Cisnes de Valdivia. Jos&eacute; Araya, dirigente dessa organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil, disse &agrave; IPS que a Suprema Corte agiu &quot;de forma deliberada&quot; para favorecer a Celco, j&aacute; que coletou &quot;antecedentes irrelevantes&quot; para justificar sua senten&ccedil;a e n&atilde;o considerou o principal estudo cient&iacute;fico, realizado pela Universidade Austral.<\/p>\n<p> O deputado Guido Girardi, do Partido Pela Democracia (PPD), da governante Coaliz&atilde;o de centro-esquerda, recordou &agrave; IPS que o relat&oacute;rio da Universidade Austral foi encomendado pela Comiss&atilde;o Regional do Meio Ambiente, dependente da Conama, e portanto foi pago pelo Estado chileno e n&atilde;o pela Celco, como o outro informe. Girardi e os deputados Leopoldo S&aacute;nchez e Enrique Accorsi, de seu mesmo partido, uniram-se ao senador Antonio Horvath, do opositor e direitista Partido Renova&ccedil;&atilde;o Nacional, e a l&iacute;deres ambientalistas para apresentar uma demanda judicial para que se investigue e se estabele&ccedil;am as responsabilidades pelo informe falso que a Celco entregou &agrave; Suprema Corte.<\/p>\n<p> Manuel Baquedano, presidente do Instituto de Ecologia Pol&iacute;tica, que tamb&eacute;m assinou essa demanda, disse &agrave; IPS que a senten&ccedil;a da Suprema Corte &quot;foi apressada, seguramente pressionada pela empresa, e revelou a falta de capacidade t&eacute;cnica que os ju&iacute;zes t&ecirc;m para tomarem por si pr&oacute;prios decis&otilde;es ambientais&quot;. Outros parlamentares e ecologistas entregaram na ter&ccedil;a-feira uma carta ao presidente Ricardo Lagos pedindo que anule a licen&ccedil;a de funcionamento da f&aacute;brica de celulose. Tamb&eacute;m pediram ao presidente da Suprema Corte, Marcos Libedinsky, que revogasse a senten&ccedil;a de 30 de maio favor&aacute;vel ao grupo Angelini.<\/p>\n<p> O deputado S&aacute;nchez, presidente da Comiss&atilde;o de Recursos Naturais de sua C&acirc;mara, disse que os cinco magistrados (tr&ecirc;s ju&iacute;zes e dois advogados) que aprovaram a senten&ccedil;a por unanimidade poderiam ser acusados constitucionalmente por prevarica&ccedil;&atilde;o (dar uma senten&ccedil;a injusta com pleno conhecimento) ou por abandono de deveres. Lagos havia reconhecido na segunda-feira que no conflito do rio Cruces &quot;est&aacute; em jogo a credibilidade do pa&iacute;s&quot;, n&atilde;o apenas em torno da Celco, mas de toda a ind&uacute;stria florestal, do ponto de vista das exig&ecirc;ncias ambientais que v&atilde;o se incorporando crescentemente no com&eacute;rcio internacional.<\/p>\n<p> Os ambientalistas consideram que Lagos teve uma atitude fraca neste caso. Araya e Baquedano coincidiram em assinalar &aacute; IPS que a autoriza&ccedil;&atilde;o para reabrir a f&aacute;brica, dada pela Comiss&atilde;o Regional de Meio Ambiente (Corema) n&atilde;o foi uma iniciativa dessa inst&acirc;ncia regional, mas obedeceu a uma pol&iacute;tica de governo de apoio ao investimento empresarial. &quot;Sem d&uacute;vida, a Corema n&atilde;o teve nada a ver com o caso. Para mim, o que ocorreu foi um acerto entre o governo e a empresa&quot;, disse Baquedano, enquanto Araya afirmou que a contamina&ccedil;&atilde;o do rio Cruces &quot;&eacute; uma das evid&ecirc;ncias mais dram&aacute;ticas, onde se nota a m&atilde;o dos setores empresariais e a conviv&ecirc;ncia que t&ecirc;m com os governos&quot;.<\/p>\n<p> O senador Horvath disse &agrave; imprensa que se deveria investigar as liga&ccedil;&otilde;es do grupo Angelini com a governante Concerta&ccedil;&atilde;o pela Democracia e, em especial, com o Partido Democrata-Crist&atilde;o (PDC), membro dessa coaliz&atilde;o, integrada tamb&eacute;m pelo PPD, Partido Socialista (OS) e Partido Radical Social-Democrata (PRSD). O parlamentar direitista chamou a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de a Celco ter designado em janeiro &uacute;ltimo como vice-presidente de sua diretoria Alberto Etchegaray, do PDC, que foi ministro da Habita&ccedil;&atilde;o no primeiro governo de transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica de Patr&iacute;cio Aylwin (1990-1994).<\/p>\n<p> Por sua vez, Baquedano disse que a atual diretora-executiva do Conama, Paulina Saball, do PS, foi chefe de gabinete de Etchegaray quando este era ministro, e que o gerente de Meio Ambiente da Companhia, Pablo Daud, &quot;at&eacute; h&aacute; pouco tempo era o diretor de Estudos de Impacto Ambiental da Conama&quot;. Entre os integrantes da turma da Suprema Corte que deu a pol&ecirc;mica senten&ccedil;a favor&aacute;vel &agrave; Celco estava o advogado Ren&eacute; Abeliuk, militante do PRSD, que durante o governo de Aylwin foi ministro da Corpora&ccedil;&atilde;o de Fomento, entidade que administra as empresas p&uacute;blicas.<\/p>\n<p> Os fatos tamb&eacute;m alcan&ccedil;am o ex-presidente Eduardo Frei Ruiz-Tagle (1994-2000), do PDC, que pressionou abertamente para que fosse autorizada a instala&ccedil;&atilde;o da f&aacute;brica em 1997, e inclusive a inaugurou antes que estivesse pronto o estudo de impacto ambiental, segundo garantiu Baquedano. Frei, que assumiu como senador vital&iacute;cio ao fim de seu mandato, em mar&ccedil;o de 2000, ser&aacute; apresentado pelo PDC nas elei&ccedil;&otilde;es gerais de 11 de dezembro pr&oacute;ximo como candidato a senador pela X Regi&atilde;o dos Lagos, em cuja circunscri&ccedil;&atilde;o est&atilde;o a prov&iacute;ncia de Valdivia e o santu&aacute;rio do rio Cruces.&quot;O movimento A&ccedil;&atilde;o pelos Cisnes tem uma opini&atilde;o muito negativa sobre a candidatura de Frei. J&aacute; temos um desastre ambiental, e t&ecirc;-lo aqui como senador ser&aacute; um novo desastre&quot;, afirmou Araya, que descreveu o ex-presidente como &quot;um lobista&quot; de grandes empresas. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santiago, 09\/06\/2005 &ndash; A f&aacute;brica de celulose que provocou uma maci&ccedil;a mortandade de cisnes no sul do Chile foi fechada nesta quarta-feira de maneira &quot;imediata e volunt&aacute;ria&quot; por seus propriet&aacute;rios, em meio a um esc&acirc;ndalo pol&iacute;tico e judicial que envolve a Suprema Corte de Justi&ccedil;a e o governo do presidente Ricardo Lagos. A decis&atilde;o da empresa Celulosa Arauco e Constituci&oacute;n (Celco) foi recebida com satisfa&ccedil;&atilde;o pelas autoridades e ocorreu depois que um grupo de deputados anunciou na sede do Legislativo em Valpara&iacute;so (120 quil&ocirc;metros a oeste de Santiago) que acusariam constitucionalmente os ju&iacute;zes que no final de maio permitiram a reabertura da f&aacute;brica.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/ambiente-fbrica-de-celulose-detona-escndalo-poltico-judicial-no-chile\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-679","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/679","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=679"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/679\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=679"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=679"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=679"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}