{"id":6796,"date":"2010-07-01T14:12:27","date_gmt":"2010-07-01T14:12:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6796"},"modified":"2010-07-01T14:12:27","modified_gmt":"2010-07-01T14:12:27","slug":"belo-monte-e-a-seca-como-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/07\/america-latina\/belo-monte-e-a-seca-como-presente\/","title":{"rendered":"Belo Monte e a seca como presente"},"content":{"rendered":"<p>Altamira, Brasil, 01\/07\/2010 &ndash; Ser\u00e3o dois anos de abund\u00e2ncia e depois a fome. A l\u00f3gica do \u00edndio Jos\u00e9 Carlos Arara desnuda a ret\u00f3rica que promete manter as condi\u00e7\u00f5es de vida dos que ser\u00e3o afetados pela hidrel\u00e9trica de Belo Monte, a ser constru\u00edda no Rio Xingu.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6796\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/76983.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6796\" class=\"size-medium wp-image-6796\" title=\"No Rio Xingu, onde se v\u00ea as margens, quase sempre s\u00e3o ilhas. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/76983.jpg\" alt=\"No Rio Xingu, onde se v\u00ea as margens, quase sempre s\u00e3o ilhas. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6796\" class=\"wp-caption-text\">No Rio Xingu, onde se v\u00ea as margens, quase sempre s\u00e3o ilhas. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  A gigantesca obra, que consumir\u00e1 cinco anos, inundar\u00e1 uma \u00e1rea 58% menor do que a prevista no projeto original, resguardando terras ind\u00edgenas, afirma o governo brasileiro. Se limitar\u00e1 a 516 quil\u00f4metros quadrados, um quinto da superf\u00edcie que inundou Tucuru\u00ed, hidrel\u00e9trica de pot\u00eancia similar que foi constru\u00edda h\u00e1 26 anos nesta mesma Amaz\u00f4nia oriental.<\/p>\n<p>Mas o trecho subtra\u00eddo da inunda\u00e7\u00e3o \u2013 cem quil\u00f4metros da Volta Grande do Xingu, uma curva do rio em forma de ferradura \u2013 sofrer\u00e1 efeito inverso, a estiagem permanente, pois perder\u00e1 a maior parte de suas \u00e1guas retidas em uma represa e desviadas por um canal para uma segunda represa geradora de energia. Neste trecho vivem cerca de 180 \u00edndios em duas reservas, Paqui\u00e7amba e Arara, e centenas de fam\u00edlias camponesas, que t\u00eam o rio como principal fonte de prote\u00ednas e meio de transporte.<\/p>\n<p>De sua aldeia, escolhida por alguns animais silvestres para viver, com um macaco que cavalga uma queixada (esp\u00e9cie de porco selvagem), Jos\u00e9 Carlos Arara \u2013 cujo sobrenome \u00e9 o mesmo de sua etnia \u2013 participa do movimento contra Belo Monte, que une ind\u00edgenas, ambientalistas, ativistas sociais e pesquisadores acad\u00eamicos. Reduzir o fluxo do rio provocar\u00e1 fatores que reduzir\u00e3o drasticamente o pescado e outros alimentos que o rio oferece, segundo Jos\u00e9 Carlos, l\u00edder da terra ind\u00edgena Arara da Volta Grande, onde vivem 96 pessoas, \u00e0s quais se somam mais de 50 parentes que estudam ou trabalham fora da comunidade.<\/p>\n<p>A altera\u00e7\u00e3o dos ciclos e fluxos hidrol\u00f3gicos extinguir\u00e1 v\u00e1rias esp\u00e9cies de peixes, alertam pesquisadores e admitem tamb\u00e9m as autoridades ambientais que autorizaram a usina de Belo Monte. Haver\u00e1 menos peixes e tracaj\u00e1s, quel\u00f4nios amaz\u00f4nicos t\u00e3o importantes quanto o pescado na alimenta\u00e7\u00e3o local, porque sua reprodu\u00e7\u00e3o depende da cheia do rio na primeira metade do ano, o \u201cinverno\u201d, que inunda as florestas vizinhas, onde estes animais se alimentam e se refugiam.<\/p>\n<p>A vegeta\u00e7\u00e3o crescer\u00e1 nas praias que agora ficam inundadas durante o inverno amaz\u00f4nico, frustrando a desova dos quel\u00f4nios ou elevando sua mortalidade, e, com a mudan\u00e7a de temperatura, nasceriam mais machos do que f\u00eameas, afetando ainda mais a reprodu\u00e7\u00e3o, alertou o bi\u00f3logo Juarez Pezzuti, no Estudo do Impacto Ambiental de Belo Monte. Os tracaj\u00e1s quase desapareceram da \u00e1rea de influ\u00eancia da hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed, que represou \u00e1guas do Rio Tocantins, a leste do Xingu, disse Juarez, pesquisador da Universidade Federal do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a menor quantidade de \u00e1gua facilita a pesca, que por isso se intensifica no segundo semestre, o ver\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Com um ver\u00e3o cont\u00ednuo na Volta Grande, a pesca em excesso e o exterm\u00ednio de tracaj\u00e1s se estender\u00e3o por todo o ano, destacou Jos\u00e9 Carlos. A depreda\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies se intensificar\u00e1, porque toda a fauna ser\u00e1 mais vulner\u00e1vel aos seus inimigos naturais em um rio mais estreito e menos fundo, com menores espa\u00e7os e ref\u00fagios, acrescentou. A isso se soma a crescente competi\u00e7\u00e3o pelos recursos alimentares, devido ao grande fluxo de migrantes seduzidos pela constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>A obra, segundo seus planejadores, gerar\u00e1 18.700 empregos diretos e 80 mil indiretos, atraindo cerca de cem mil forasteiros que duplicar\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o das cidades vizinhas. Quem n\u00e3o conseguir trabalho buscar\u00e1 sobreviver em atividades como a pesca, disse Jos\u00e9 Carlos, numa disputa por recursos naturais que vem aumentando desde 2005, quando o fim da ind\u00fastria madeireira ilegal agravou o desemprego em Altamira, a principal cidade da regi\u00e3o. \u201cOs 300 quilos de pescado que antes obt\u00ednhamos em quatro dias agora nos custam de sete a oito dias\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, a facilidade de pescar e ca\u00e7ar beneficiar\u00e1 a todos, mas a abund\u00e2ncia de peixes e tracaj\u00e1s na Volta Grande n\u00e3o suportar\u00e1 mais do que dois anos de \u00e1guas reduzidas, disse o l\u00edder arara. O Rio Xingu tem caracter\u00edsticas singulares. Sobe muito com as chuvas do inverno e baixa muito no ver\u00e3o. Pode atingir 30 mil metros c\u00fabicos por segundo, entre mar\u00e7o e abril, e chegar a menos de 500 metros c\u00fabicos entre setembro e outubro. Essa varia\u00e7\u00e3o gera d\u00favidas sobre a viabilidade da central nos meses mais secos.<\/p>\n<p>Como corre em sua maior parte por terrenos rochosos e de pouco declive, o Xingu \u00e9 muito largo e cheio de ilhotas, normalmente submersas pelas cheias, especialmente na Volta Grande, onde tamb\u00e9m se sucedem as cachoeiras. Por isso, navegar aqui \u00e9 perigoso, especialmente no ver\u00e3o, quando as pedras e cachoeiras tornam intransit\u00e1veis v\u00e1rios trechos do rio, inclusive para as rabetas, pequenas embarca\u00e7\u00f5es usadas por \u00edndios e ribeirinhos. Nestes lugares \u00e9 preciso carregar o barco por terra. \u201cDemoramos de nove a dez horas para chegar a Altamira\u201d, disse Jos\u00e9 Carlos, cuja aldeia fica a cerca de 70 quil\u00f4metros da cidade, rio abaixo.<\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o fluvial \u00e9 a \u00fanica desta terra ind\u00edgena com o mundo, e se perder\u00e1 quando secar o leito em Volta Grande e for erguida uma barreira no S\u00edtio Pimental, 40 quil\u00f4metros abaixo de Altamira. O projeto aprovado promete amortizar os impactos em Volta Grande, assegurando um fluxo m\u00ednimo de \u00e1gua que variar\u00e1 mensalmente de 700 a oito mil metros c\u00fabicos por segundo e entre 700 e quatro mil metros c\u00fabicos por segundo em anos muito secos, que sempre s\u00e3o seguidos por outros mais \u00famidos. \u00c9 o chamado \u201chidrograma de consenso\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 muito pouco para garantir as fun\u00e7\u00f5es do rio, que no inverno atinge uma m\u00e9dia de 23 mil metros c\u00fabicos por segundo, criticam os opositores ao projeto. Al\u00e9m disso, essas metas dificilmente ser\u00e3o cumpridas, porque colocar\u00e3o em disputa \u00e1guas que gerar\u00e3o eletricidade e lucro.<\/p>\n<p>Entre as 40 condi\u00e7\u00f5es impostas para aprovar Belo Monte, a autoridade ambiental nacional exigiu que esse hidrograma fosse colocado \u00e0 prova nos seis anos posteriores \u00e0 instala\u00e7\u00e3o da \u201cplena capacidade de gera\u00e7\u00e3o da usina, com um forte plano de monitoramento\u201d dos impactos em Volta Grande, com fins de ratifica\u00e7\u00e3o. Em projetos anteriores, como Tucuru\u00ed, houve exig\u00eancias pr\u00e9vias que ca\u00edram no esquecimento. Agora se trata de adotar uma condi\u00e7\u00e3o posterior ao fato consumado. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Altamira, Brasil, 01\/07\/2010 &ndash; Ser\u00e3o dois anos de abund\u00e2ncia e depois a fome. 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