{"id":6826,"date":"2010-07-06T14:20:11","date_gmt":"2010-07-06T14:20:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6826"},"modified":"2010-07-06T14:20:11","modified_gmt":"2010-07-06T14:20:11","slug":"quilombolas-brasileiras-a-sombra-de-uma-base-espacial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/07\/america-latina\/quilombolas-brasileiras-a-sombra-de-uma-base-espacial\/","title":{"rendered":"Quilombolas brasileiras \u00e0 sombra de uma base espacial"},"content":{"rendered":"<p>Alc\u00e2ntara, Brasil, 06\/07\/2010 &ndash; A instala\u00e7\u00e3o de uma base espacial em seu territ\u00f3rio alterou a forma de vida que, por um s\u00e9culo e meio, mantiveram neste munic\u00edpio do Estado do Maranh\u00e3o os habitantes dos quilombos, as comunidades agr\u00edcolas comunit\u00e1rias de antigos escravos.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6826\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/77209.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6826\" class=\"size-medium wp-image-6826\" title=\"Uma das agrovilas de Alc\u00e2ntara. - Roberto K-Zau\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/77209.jpg\" alt=\"Uma das agrovilas de Alc\u00e2ntara. - Roberto K-Zau\/IPS\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6826\" class=\"wp-caption-text\">Uma das agrovilas de Alc\u00e2ntara. - Roberto K-Zau\/IPS<\/p><\/div>  Para as mulheres quilombolas de Alc\u00e2ntara, \u00e0 luta junto com os homens para defender os violentados direitos de suas comunidades afrodescendentes, somou-se a batalha para manter \u00e1reas produtivas femininas especialmente afetadas pela base, para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de seu for\u00e7ado novo h\u00e1bitat ou para serem levadas em conta nas repara\u00e7\u00f5es apresentadas contra o Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Cada uma dessas comunidades do munic\u00edpio se desenvolveu com culturas, dialetos, formas produtivas e regulamentos internos diferentes. Por\u00e9m, o que as uniu foi estarem nas terras escolhidas, em 1983, pelo Minist\u00e9rio da Aeron\u00e1utica para instalar o Centro de Lan\u00e7amento de Alc\u00e2ntara, uma cidade que \u00e9 patrim\u00f4nio cultural do pa\u00eds desde 1948. Um acordo entre os governos permite que os Estados Unidos usem a esta\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amento de foguetes e acompanhamento de sat\u00e9lites desde 2000.<\/p>\n<p>A 22 quil\u00f4metros da capital, S\u00e3o Luis, quase 80% dos 19 mil habitantes de Alc\u00e2ntara vivem dos tamb\u00e9m chamados remanescentes de quilombos e sobrevivem da pesca, agricultura e silvicultura, praticadas com m\u00e9todos tradicionais. A base e suas sucessivas expans\u00f5es n\u00e3o inclu\u00edram nenhuma consulta \u00e0s comunidades nem contemplaram a continuidade de suas atividades econ\u00f4micas, embora a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 as reconhe\u00e7a como territ\u00f3rios origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea expropriada viviam 503 fam\u00edlias em 48 comunidades, e quando o centro come\u00e7ou a operar cerca de 312 fam\u00edlias de 32 quilombos foram transferidas para \u201cagrovilas\u201d, conjuntos de casas de alvenaria e alguns servi\u00e7os b\u00e1sicos, como escola, igreja, centro social e casa da farinha de mandioca, alimento essencial para os quilombolas.<\/p>\n<p>Desde 1986, foram formadas sete agrovilas, cujas fam\u00edlias enfrentam o impacto da total altera\u00e7\u00e3o de sua antiga organiza\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica. A divis\u00e3o da propriedade extinguiu, por exemplo, o sistema secular de \u201cuso comum da terra\u201d, e cada unidade hoje \u00e9 insuficiente para manter as fam\u00edlias. A fonte complementar de subsist\u00eancia, a pesca, ficou quase impratic\u00e1vel pela dist\u00e2ncia de praias e rios e pelo controle do litoral mantido pela base.<\/p>\n<p>Em 1992, surgiu o Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Alc\u00e2ntara (Montra) para fazer ouvir suas demandas espec\u00edficas junto ao centro espacial. As l\u00edderes tamb\u00e9m ajudaram a criar, em 1999, o Movimento de Trabalhadores Afetados pela Base Espacial, e depois integraram o F\u00f3rum de Apoio a Comunidades de Alc\u00e2ntara, em que organiza\u00e7\u00f5es de todo tipo defendem os direitos dos descendentes dos escravos fugitivos ou libertados.<\/p>\n<p>Algumas das consequ\u00eancias do deslocamento das fam\u00edlias quilombolas foram o \u00eaxodo rural, a forma\u00e7\u00e3o de assentamentos prec\u00e1rios de palafitas e ocupa\u00e7\u00f5es da zona urbana de Alc\u00e2ntara, al\u00e9m da viol\u00eancia. \u201cA desagrega\u00e7\u00e3o sociocultural das fam\u00edlias trouxe a prostitui\u00e7\u00e3o infanto-juvenil, muitos casos de gravidez precoce e aumento das doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis\u201d, afetando principalmente meninas e adolescentes oriundas dos quilombos, disse \u00e0 IPS F\u00e1tima Diniz Ferreira, militante e ex-coordenadora do Montra.<\/p>\n<p>Cajueiro, a 14 quil\u00f4metros da cidade, \u00e9 um dos sete quilombos deslocados para agrovilas, onde as fam\u00edlias sobrevivem plantando mandioca, milho, arroz e pescando no riacho mais pr\u00f3ximo. As mulheres contribuem para a renda familiar, de US$ 110 mensais, com a extra\u00e7\u00e3o artesanal de \u00f3leo de baba\u00e7u, palmeira predominante no Maranh\u00e3o \u00e0 qual os quilombolas d\u00e3o m\u00faltiplos usos. Cada litro desse \u00f3leo usado para alimenta\u00e7\u00e3o, limpeza e cosm\u00e9tica, \u00e9 vendido a US$ 2,6 em S\u00e3o Luis ou Alc\u00e2ntara. \u201cSomos 30 quebradoras de coco, e eu trabalho com isso desde os 18 anos, mas as jovens n\u00e3o querem fazer esse servi\u00e7o porque \u00e9 muito duro\u201d, contou Zildene Torres da Silva, de 33 anos, casada e com dois filhos, que chegou \u00e0 agrovila ainda menina.<\/p>\n<p>Cada quebradora de coco consegue entre US$ 21 e US$ 27 mensais com o \u00f3leo. Bas\u00edlia Diniz Silva, de 58 anos, queixa-se que \u00e9 um trabalho muito duro para t\u00e3o pouco dinheiro. \u201cPassamos muito calor, frequentemente adoecemos, porque \u00e9 preciso bater com o pil\u00e3o e depois levar ao fogo\u201d, disse durante visita da IPS \u00e0 agrovila. A pior parte \u2013 asseguram \u2013 fica com as jovens do novo Cajueiro, onde tem apenas uma escola prim\u00e1ria. \u201cAs jovens aqui n\u00e3o t\u00eam futuro, trabalham no campo, ajudam os pais, se casam e pronto\u201d, disse Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Torres, m\u00e3e de uma adolescente, diz que os jovens de Cajueiro quando conseguem terminar o prim\u00e1rio, se querem continuar estudando t\u00eam de ir para Alc\u00e2ntara. Sua filha, de 14 anos, acrescenta que depois do secund\u00e1rio n\u00e3o h\u00e1 mais nada para fazer, a n\u00e3o ser ir para outro lugar. Regina L\u00facia de Azevedo Pacheco, coordenadora do Centro de Forma\u00e7\u00e3o para a Cidadania, participou de um projeto que se desenvolve em Alc\u00e2ntara, desde 2005, com a coopera\u00e7\u00e3o do Centro de Cultura Negra. O projeto forma o professorado nos centros urbanos do Estado em hist\u00f3ria da cultura africana e sua resist\u00eancia no Brasil, de maneira a facilitar uma vis\u00e3o cr\u00edtica da pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n<p>As jovens t\u00eam poucas perspectivas. \u201cO sonho da universidade est\u00e1 muito longe da maioria, limitadas a um futuro de tarefas dom\u00e9sticas, ter filhos muito cedo ou emigrar para centros urbanos e trabalhar como empregada dom\u00e9stica, ou ainda engrossar a fila dos desempregados ou subempregados\u201d, disse Pacheco. Se querem continuar os estudos, t\u00eam de partir, e isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para as economias familiares quilombolas. \u201c\u00c0s vezes, as meninas repetem v\u00e1rios anos a \u00faltima s\u00e9rie da escola prim\u00e1ria porque n\u00e3o t\u00eam como sair de suas comunidades\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, atualmente a base espacial se prepara para lan\u00e7ar foguetes e pretende estender sua \u00e1rea de cobertura, o que diminuir\u00e1 ainda mais o espa\u00e7o para os quilombos. As comunidades buscam um pronunciamento do Tribunal Federal que determine o cumprimento do compromisso de n\u00e3o ampliar a instala\u00e7\u00e3o em \u00e1reas quilombolas de alto rendimento. Pacheco considera que h\u00e1 um processo de exterm\u00ednio dos quilombolas de Alc\u00e2ntara, que vivem em amea\u00e7a perp\u00e9tua, apesar da resist\u00eancia de suas comunidades e de a maioria n\u00e3o querer deixar para tr\u00e1s a terra onde nasceram e cresceram, nem sua hist\u00f3ria individual e coletiva. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alc\u00e2ntara, Brasil, 06\/07\/2010 &ndash; A instala\u00e7\u00e3o de uma base espacial em seu territ\u00f3rio alterou a forma de vida que, por um s\u00e9culo e meio, mantiveram neste munic\u00edpio do Estado do Maranh\u00e3o os habitantes dos quilombos, as comunidades agr\u00edcolas comunit\u00e1rias de antigos escravos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/07\/america-latina\/quilombolas-brasileiras-a-sombra-de-uma-base-espacial\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":540,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[21,24],"class_list":["post-6826","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/540"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6826\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}