{"id":6847,"date":"2010-07-12T15:14:33","date_gmt":"2010-07-12T15:14:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6847"},"modified":"2010-07-12T15:14:33","modified_gmt":"2010-07-12T15:14:33","slug":"mais-de-200-formas-de-ser-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/07\/america-latina\/mais-de-200-formas-de-ser-mae\/","title":{"rendered":"Mais de 200 formas de ser m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 12\/07\/2010 &ndash; Dizem que \u201cm\u00e3e s\u00f3 tem uma\u201d, mas no Brasil existem mais de 200 formas de maternidade, uma para cada uma das etnias do pa\u00eds. Promover a sa\u00fade materna sem passar por cima dessas caracter\u00edsticas culturais \u00e9 um desafio sanit\u00e1rio.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_6847\" style=\"width: 142px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/77457.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6847\" class=\"size-medium wp-image-6847\" title=\"Mulher da etnia marubo controla sua press\u00e3o arterial. - Gentileza Edmar Chaperman\/Funasa\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/77457.jpg\" alt=\"Mulher da etnia marubo controla sua press\u00e3o arterial. - Gentileza Edmar Chaperman\/Funasa\" width=\"132\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6847\" class=\"wp-caption-text\">Mulher da etnia marubo controla sua press\u00e3o arterial. - Gentileza Edmar Chaperman\/Funasa<\/p><\/div>  Silvia Angelice de Almeida, t\u00e9cnica do Departamento de Sa\u00fade Ind\u00edgena da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade (Funasa), sabe disso por sua experi\u00eancia como enfermeira. Para alguns povos, a placenta deve retornar \u00e0 comunidade ap\u00f3s o parto. Para outros, \u00e9 importante que as pessoas nas\u00e7am e morram em sua terra.<\/p>\n<p>Em certas aldeias existem cuidados especiais para as gr\u00e1vidas, como cortes de cabelo e pinturas. \u201cTemos diretrizes gerais de sa\u00fade materno-infantil, mas vimos a necessidade de ter outras espec\u00edficas para os povos ind\u00edgenas\u201d, disse Silvia \u00e0 IPS. \u201cTrata-se de \u201ccuidados interculturais\u201d, que incluem o respeito aos paj\u00e9s e xam\u00e3s, \u00e0s parteiras tradicionais e \u00e0 medicina natural. \u201cA ideia da gravidez \u00e9 outra. O pessoal de campo tem que fazer um treinamento para poder trabalhar estas quest\u00f5es\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Segundo a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), no Brasil h\u00e1 460 mil ind\u00edgenas distribu\u00eddos em 215 grupos, que representam 0,25% da popula\u00e7\u00e3o nacional de mais de 193 milh\u00f5es de pessoas. E pode haver entre cem mil e 190 mil nativos vivendo fora das terras ind\u00edgenas, inclusive em \u00e1reas urbanas, e outros ainda n\u00e3o contatados, estima a Funai. A popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena registrada est\u00e1 distribu\u00edda em 24 Estados, 336 polos, 4.413 aldeias e 615 terras ind\u00edgenas, que compreendem 107 milh\u00f5es de hectares, 12,6% do territ\u00f3rio nacional. A maioria fica em pequenos munic\u00edpios na selva amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas determinam muitas defici\u00eancias de infraestrutura e dificultam o acesso do pessoal de sa\u00fade, e do Estado em geral. Para Silvia, o objetivo \u00e9 garantir \u201cum sistema de sa\u00fade de qualidade em n\u00edvel nacional\u201d, mas isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil em regi\u00f5es inacess\u00edveis como a Amaz\u00f4nia. Os agentes sanit\u00e1rios podem passar uma vez por m\u00eas em cada aldeia, mas quem se encarrega da sa\u00fade das m\u00e3es s\u00e3o as parteiras tradicionais ou os pr\u00f3prios parentes.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as tamb\u00e9m emergem em quest\u00f5es como a amamenta\u00e7\u00e3o, estimulada pelo Estado. Em algumas etnias, as m\u00e3es n\u00e3o podem dar seu primeiro leite ao rec\u00e9m-nascido e quem inicialmente amamenta \u00e9 a av\u00f3. Por isso, explica Silvia, o programa de sa\u00fade materna ind\u00edgena foi concebido com antrop\u00f3logos, paj\u00e9s, parteiras e chefes espirituais nativos. Cada etnia tem uma concep\u00e7\u00e3o de sa\u00fade integral que incorpora dimens\u00f5es espirituais.<\/p>\n<p>Diante de uma paciente ind\u00edgena com febre, os m\u00e9dicos diagnosticaram uma inflama\u00e7\u00e3o e receitaram um rem\u00e9dio. Mas os paj\u00e9s da aldeia trataram o problema com rituais, porque para eles a cura tamb\u00e9m \u00e9 espiritual, contou Silvia. \u201cTemos que trabalhar em conjunto, o paj\u00e9, a cura espiritual e n\u00f3s, o lado f\u00edsico\u201d, acrescentou. Os ind\u00edgenas nem sempre aceitam os m\u00e9todos da medicina ocidental.<\/p>\n<p>Quando uma agente de sa\u00fade, mesmo formada dentro da comunidade, detecta uma gravidez de risco, deve encaminhar a mulher a um hospital, o que em alguns casos exige transporte a\u00e9reo ou de barco. Para evitar o choque cultural, foram criadas casas de apoio pr\u00f3ximo das aldeias, para onde, \u00e0s vezes, se muda toda a fam\u00edlia para n\u00e3o separ\u00e1-la da mulher gr\u00e1vida. Quando a gesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o apresenta riscos, \u00e9 estimulado o parto tradicional. Tamb\u00e9m s\u00e3o discutidos outros temas de sa\u00fade, como preven\u00e7\u00e3o do colo de \u00fatero e de mama, aids, s\u00edfilis e inclusive quest\u00f5es de g\u00eanero como viol\u00eancia dom\u00e9stica, \u00e0s vezes ligada a problemas de alcoolismo.<\/p>\n<p>A mortalidade materna brasileira passou de 140 mortes em cem mil nascidos vivos em 1990 para 75 em cada cem mil em 2007. Segundo a Funasa, a mortalidade infantil caiu 40% entre os ind\u00edgenas desde 1999, como parte de um longo processo, que deve vencer barreiras culturais de um lado e de outro. Contudo, as mortes infantis por infec\u00e7\u00f5es digestivas e respirat\u00f3rias s\u00e3o muito mais altas entre os nativos do que no restante da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como muitas mulheres n\u00e3o aceitam que um m\u00e9dico as atenda, o departamento de sa\u00fade ind\u00edgena aumentou o n\u00famero de agentes femininas, que hoje s\u00e3o 30% do total. \u201cH\u00e1 coisas \u00edntimas que as mulheres n\u00e3o se atrevem a falar com um homem e tampouco com uma parteira de sua aldeia, que pode ser sua sogra\u201d, explicou Silvia. Uma pesquisa da Funasa mostra que 46% das gr\u00e1vidas ind\u00edgenas t\u00eam sua primeira consulta m\u00e9dica nos tr\u00eas primeiros meses de gesta\u00e7\u00e3o, 45% no segundo e quase 9% nos \u00faltimos tr\u00eas meses. A anemia afeta mais de 35% das nativas gr\u00e1vidas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, falta informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre a sa\u00fade destas mulheres, algo reclamado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas por ocasi\u00e3o do Dia Mundial da Popula\u00e7\u00e3o, celebrado todo 11 de julho. O grupo feminista Curumim, do Estado de Pernambuco, tenta cobrir o que sua diretora, Paula Viana chama de \u201cvazios\u201d do sistema de sa\u00fade ind\u00edgena. Sua iniciativa \u201cParteiras Tradicionais\u201d busca proporcionar uma assist\u00eancia segura e humanizada que respeite as diversidades. Desde 2000 treinou 1.150 parteiras e 892 profissionais de sa\u00fade em 14 Estados, com ajuda do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Paula critica o enfoque que prevalece na pol\u00edtica de sa\u00fade ind\u00edgena desde 1940, centrado no hospital, sem considerar as particularidades culturais. S\u00e3o registrados entre 32 mil e 34 mil nascimentos com parteiras tradicionais por ano, embora o n\u00famero possa duplicar, informou, ressaltando que, mesmo assim, \u201cas parteiras tradicionais ainda s\u00e3o muito discriminadas\u201d. Sua iniciativa leva em conta tamb\u00e9m aspectos religiosos. \u201cFazemos com que as decis\u00f5es das pacientes sejam respeitadas. Em algumas etnias, no momento em que sai a placenta o grupo reza. Se isso n\u00e3o interfere com o procedimento e pode ser incorporado sem dano \u00e0 sa\u00fade, o respeitamos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade deveria estabelecer \u201cdiretrizes mais firmes\u201d para o sistema de sa\u00fade ind\u00edgena. Parte do pessoal m\u00e9dico e de enfermagem n\u00e3o respeita as culturas locais, apesar das orienta\u00e7\u00f5es gerais que recebe. Para afinar essa pol\u00edtica, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva criou a Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena, vinculada ao Minist\u00e9rio, para hierarquizar as fun\u00e7\u00f5es antes assumidas pela Funasa. O cat\u00f3lico Conselho Mission\u00e1rio Indigenista tem d\u00favidas de que a nova proposta melhore a situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria destes povos, entre outras raz\u00f5es porque \u201cforam deixados fora das defini\u00e7\u00f5es mais importantes\u201d. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 12\/07\/2010 &ndash; Dizem que \u201cm\u00e3e s\u00f3 tem uma\u201d, mas no Brasil existem mais de 200 formas de maternidade, uma para cada uma das etnias do pa\u00eds. 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