{"id":6871,"date":"2010-07-15T14:20:15","date_gmt":"2010-07-15T14:20:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=6871"},"modified":"2010-07-15T14:20:15","modified_gmt":"2010-07-15T14:20:15","slug":"pobreza-zimbabue-disputava-os-ossos-com-os-caes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/07\/africa\/pobreza-zimbabue-disputava-os-ossos-com-os-caes\/","title":{"rendered":"POBREZA-ZIMB\u00c1BUE: \u201cDisputava os ossos com os c\u00e3es\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Bulawayo, Zimb\u00e1bue, 15\/07\/2010 &ndash; \u201cAs pessoas costumavam rir de mim. Diziam que eu disputava os ossos com os c\u00e3es, mas isso n\u00e3o me desanimava\u201d, disse, sem sinal algum de rancor, Sibongile Mararike, uma zimbabuense de 36 anos. <!--more--> Esta m\u00e3e de quatro filhos, com uma suja sacola no ombro, percorre as ruas dos populosos bairros de trabalhadores em Bulawayo, a segundo maior cidade do Zimb\u00e1bue, com dois milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Ela visita de lix\u00f5es a casas particulares, recolhendo ossos que depois vende para uma f\u00e1brica processadora. Neste pa\u00eds da \u00c1frica austral, \u00e9 comum, h\u00e1 anos, a reciclagem de ossos em uma grande variedade de ind\u00fastrias informais. Diante da crise econ\u00f4mica, muitos zimbabuenses foram para as ruas recolher ossos para vender. Para eles, o tempo de bonan\u00e7a agora se mede com a quantidade de restos \u00f3sseos que caem das mesas de outras casas. No entanto, os ossos desapareceram nos \u00faltimos anos, j\u00e1 que o consumo de carne se tornou quase um luxo.<\/p>\n<p>Sibongile aprendeu o quanto pode ser dura a vida neste pa\u00eds, apesar da euforia gerada pela forma\u00e7\u00e3o do governo de unidade em 2009. As esperan\u00e7as de novos empregos se desfizeram. Ag\u00eancias humanit\u00e1rias alertaram que a quantidade de zimbabuenses que precisam de ajuda alimentar aumentar\u00e1 este ano para metade da popula\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o queria que meus filhos soubessem da pobreza onde vivem, mas n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer. N\u00e3o quero recolher ossos, mas cada centavo que consigo com eles faz diferen\u00e7a\u201d, explicou Sibongile. Esta mulher tamb\u00e9m manda os filhos recolherem ossos depois da escola. \u201cAgora est\u00e3o acostumados, pois sabem que o dinheiro vem dali\u201d, disse.<\/p>\n<p>Sibongile mant\u00e9m contato com algumas fam\u00edlias que ainda se d\u00e3o ao luxo de comer carne, que guardam os ossos e ela vai buscar uma ou duas vezes ao m\u00eas, dependendo de quanto pesam. Ela deve cumprir uma cota de ossos por peso para levar \u00e0 f\u00e1brica recicladora. Apenas umas poucas empresas como esta permanecem em Bulawayo. A queda no consumo de carne fez com que menos pessoas se dedicassem a esse tipo de coleta. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o vem tanta gente aqui vender ossos como no final dos anos 90\u201d, disse Topson Mwale, veterano empregado de uma f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Para cada quilo de ossos s\u00e3o pagos pouco mais de US$ 0,30. Os restos \u00f3sseos s\u00e3o submetidos a um processo no qual se desmancham e depois s\u00e3o transformados em copos, chaleiras e pratos, entre outras coisas, explicou Topson. Os cascos de vaca s\u00e3o considerados aqui uma del\u00edcia gastron\u00f4mica. Sua venda tamb\u00e9m gera renda para muitos comerciantes informais, como Gift Ncube, de 29 anos, que parece poder reciclar tudo o que chega a suas m\u00e3os e transformar em objetos \u00fateis e atraentes.<\/p>\n<p>\u201cRecolho cascos de vaca em casas e bares do meu povoado e transformo em curiosidades, como saleiros, caixas para rap\u00e9, ou chaveiros, entre outras coisas\u201d, descreveu Gift. \u201cEsses objetos s\u00e3o atraentes para os turistas\u201d, disse \u00e0 IPS de seu local de trabalho na porta da Prefeitura de Bulawayo, onde ele e outros comerciantes est\u00e3o instalados de maneira permanente.<\/p>\n<p>Japhet Tshuma, colega de Gift, tem um t\u00edtulo universit\u00e1rio, mas ganha mais trabalhando com estes artesanatos do que em um emprego formal. \u201cAs pessoas n\u00e3o acreditam que essas coisas sejam feitas com casaco de vaca. Conseguimos uma forma de vida vendendo ossos de mortos\u201d, disse ironicamente, acrescentando que, \u00e0s vezes, faz a longa viagem at\u00e9 o balne\u00e1rio de Victoria Falls para vender seu artesanato.<\/p>\n<p>O pr\u00e9dio da Prefeitura se converteu em centro para turistas e curiosos. Comumente se v\u00ea mochileiros observando de perto os produtos. \u201cClaro que explicamos do que s\u00e3o feitos, e isso causa mais interesse\u201d, disse Japhet. Embora inconscientemente, as poucas fam\u00edlias que podem comprar carne asseguram um sustento a pessoas como Sibongile, Japhet e outras.<\/p>\n<p>\u201cOs zimbabuenses aprenderam que n\u00e3o h\u00e1 nada que n\u00e3o possa ser vendido. Vender ossos \u00e9 uma das muitas coisas que demonstram o desespero das pessoas\u201d, disse Peter Sifelani, da Associa\u00e7\u00e3o de Comerciantes Informais de Bulawyao. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bulawayo, Zimb\u00e1bue, 15\/07\/2010 &ndash; \u201cAs pessoas costumavam rir de mim. 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