{"id":695,"date":"2005-06-15T00:00:00","date_gmt":"2005-06-15T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=695"},"modified":"2005-06-15T00:00:00","modified_gmt":"2005-06-15T00:00:00","slug":"argentina-cai-o-perdo-aos-militares-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/argentina-cai-o-perdo-aos-militares-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Argentina: Cai o perd&atilde;o aos militares da ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 15\/06\/2005 &ndash; Em uma senten&ccedil;a hist&oacute;rica, a Suprema Corte de Justi&ccedil;a da Argentina declarou nesta ter&ccedil;a-feira a inconstitucionalidade das chamadas leis de perd&atilde;o, que em 1987 deixaram livres de processo milhares de policiais e militares que participaram da repress&atilde;o contra a oposi&ccedil;&atilde;o na &uacute;ltima ditadura (1976-1983). O extenso argumento da senten&ccedil;a afirma que a partir da reforma da Constitui&ccedil;&atilde;o, em 1994, o Estado argentino &quot;assumiu a frente quanto ao direito internacional e, em especial, frente &agrave; ordem jur&iacute;dica interamericana, uma s&eacute;rie de deveres de hierarquia constitucional que limitam as faculdades do direito interno de perdoar ou omitir a persegui&ccedil;&atilde;o de fatos&quot; como o colocado para considera&ccedil;&atilde;o do tribunal.<br \/> <!--more--> <br \/> Tamb&eacute;m assinala que, embora as leis de perd&atilde;o tenham sido sancionadas com a id&eacute;ia de &quot;deixar para tr&aacute;s enfrentamentos entre civis e militares&quot;, na medida em que orientem para o esquecimento de graves viola&ccedil;&otilde;es de direitos, &quot;op&otilde;em-se &agrave;s disposi&ccedil;&otilde;es da Conven&ccedil;&atilde;o Americana sobre Direitos Humanos e ao Pacto Internacional de Direitos Civis e Pol&iacute;ticos e, portanto, resultam constitucionalmente intoler&aacute;veis&quot;. A senten&ccedil;a, que teve o voto afirmativo de sete dos nove ju&iacute;zes, constitui um aval jur&iacute;dico para o avan&ccedil;o de meia centena de processos que haviam ficado praticamente paralisados pela promulga&ccedil;&atilde;o de leis de &quot;ponto final&quot; e de &quot;obedi&ecirc;ncia devida&quot;. As duas normas sucederam o hist&oacute;rico julgamento de 1985 contra os comandantes militares que levaram adiante o golpe de Estado e conduziram a ditadura.<\/p>\n<p> A lei do ponto final, sancionada pelo parlamento em dezembro de 1986, estabeleceu prazo de 30 dias para iniciar processos contra crimes vinculados com a repress&atilde;o violenta durante o regime militar, ap&oacute;s o qual n&atilde;o haveria novas a&ccedil;&otilde;es penais.A lei de obedi&ecirc;ncia devida, promulgada em junho do ano seguinte, determinou que todos os militares subalternos aos comandantes da ditadura n&atilde;o podiam ser punidos pelos crimes cometidos, por terem atuado em subordina&ccedil;&atilde;o &agrave; autoridades superior. As duas leis deixaram de fora os crimes de seq&uuml;estro e apropria&ccedil;&atilde;o ilegal de menores, pr&aacute;ticas habituais das for&ccedil;as de seguran&ccedil;a, que costumavam prender fam&iacute;lias inteiras.<\/p>\n<p> O Congresso revogou essas leis em 1998, embora sem efeito retroativo, e as anulou em 2003, em um pronunciamento pol&iacute;tico insuficiente para descongelar os julgamentos. Por isso, embora muitos processos tenham sido reiniciados nos &uacute;ltimos dois anos, n&atilde;o avan&ccedil;aram com o ritmo devido &agrave; espera do aval do m&aacute;ximo tribunal. Esse pronunciamento chegou nesta ter&ccedil;a-feira com a senten&ccedil;a sobre o caso do repressor Julio Simon, acusado do seq&uuml;estro de Marta Hlaczik e Jos&eacute; Poblete. Simon havia sido processado pela apropria&ccedil;&atilde;o da filha do casal, Claudia Poblete, seq&uuml;estrada aos oito meses de idade de junto de sua m&atilde;e. A menina foi entregue a um militar e sua mulher, que ocultaram sua identidade por mais de duas d&eacute;cadas.<\/p>\n<p> Quando a jovem foi encontrada e recuperada por sua fam&iacute;lia biol&oacute;gica, come&ccedil;ou uma batalha judicial contra Simon e outros militares que foram processados pela apropria&ccedil;&atilde;o ind&eacute;bita de Poblete, mas, n&atilde;o podiam ser julgados pelo desaparecimento dos pais, pois estavam amparados pelas leis de perd&atilde;o. A Justi&ccedil;a considerou inadmiss&iacute;vel que Simon se escondesse atr&aacute;s do cumprimento de ordens para justificar &quot;os fatos aberrantes e de manifesta ilicitude&quot; cometidos contra Hlaczik e contra Jos&eacute; Poblete, que perdeu as duas pernas em um acidente e foi cruelmente torturado. Nesse processo, que tem como partes queixosas a fam&iacute;lia Poblete, a organiza&ccedil;&atilde;o de direitos humanos Av&oacute;s da Pra&ccedil;a de Mayo e o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), o juiz Gabriel Cavallo sentenciou em 2000 que as leis de perd&atilde;o eram inconstitucionais.<\/p>\n<p> Essa senten&ccedil;a foi apoiada em segunda inst&acirc;ncia pela C&acirc;mara Federal, e, nesta ter&ccedil;a-feira, pela Suprema Corte. O diretor do CESL, Victor Abramovich, disse &aacute; IPS que a senten&ccedil;a autoriza o prosseguimento de processos em tr&acirc;mite contra militares, mas, sobretudo, representa &quot;um forte sinal de fortalecimento das institui&ccedil;&otilde;es&quot; democr&aacute;ticas, &quot;muito degradadas por causa da impunidade dos &uacute;ltimos anos&quot;. A mesma jurisprud&ecirc;ncia alcan&ccedil;ar&aacute;, &quot;mais cedo ou mais tarde&quot;, os indultos decretados em 1989 pelo ent&atilde;o presidente Carlos Menem para favorecer os ex-comandantes condenados. De fato, alguns magistrados j&aacute; haviam declarado inconstitucionais esses indultos, e essas senten&ccedil;as logo chegar&atilde;o aos tribunais.<\/p>\n<p> Estimativas do Minist&eacute;rio da Defesa indicam que entre 500 e mil militares podem ser citados para deporem em v&aacute;rios processos que j&aacute; foram reativados ap&oacute;s a anula&ccedil;&atilde;o legislativa das leis de perd&atilde;o. A maioria dos r&eacute;is passou para a reserva. O n&uacute;mero preciso de militares e policiais implicados &eacute; dif&iacute;cil de estimar. O especialista em quest&otilde;es militares Rosendo Fraga estima que poderia chegar a seis mil. Mas, Abramovich acredita que n&atilde;o s&atilde;o mais de 400, dos quais apenas 10% est&atilde;o em atividade. O impacto mais forte desta senten&ccedil;a permite prever que n&atilde;o haver&aacute; risco de resist&ecirc;ncia militar aos julgamentos, como existiu nos anos 80, explicou o advogado.<\/p>\n<p> O prop&oacute;sito da lei do ponto final foi por um limite tempor&aacute;rio aos processos contra militares subordinados. Mas a Justi&ccedil;a venceu a restri&ccedil;&atilde;o mediante uma maci&ccedil;a convoca&ccedil;&atilde;o de militares aos tribunais. Setores das for&ccedil;as armadas protagonizaram, ent&atilde;o, um golpe contra o poder civil que, sob a amea&ccedil;a castrense, acabou dando &agrave; luz em 1987 &agrave; lei de obedi&ecirc;ncia devida. Esse cen&aacute;rio parece definitivamente superado em 2005, entre outras raz&otilde;es pela passagem do tempo, que deixou fora de atividade a grande maioria dos implicados. Tamb&eacute;m &eacute; nova a forma&ccedil;&atilde;o da Corte de Justi&ccedil;a, at&eacute; poucos anos questionada por decidir de forma parcial e favor&aacute;vel aos interesses do poder pol&iacute;tico.<\/p>\n<p> Dos sete magistrados que se pronunciaram contra as leis nesta ter&ccedil;a-feira, cinco foram incorporados ao tribunal nos &uacute;ltimos quatro anos, Juan Carlos Maqueda, Eugenio Zaffaroni, Elena Highton, Ricardo Lorenzetti e Carmen Argibay. Os &uacute;ltimos quatro foram propostos pelos presidente N&eacute;stor Kirchner. O mandat&aacute;rio disse nesta ter&ccedil;a-feira que as leis de perd&atilde;o &quot;enchiam de vergonha&quot; os argentinos e destacou que a senten&ccedil;a &quot;devolve a f&eacute; na Justi&ccedil;a&quot;. O ministro da Defesa, Jospe Pampuro, relativizou a inquieta&ccedil;&atilde;o militar que as cita&ccedil;&otilde;es judiciais poderiam provocar, assinalando que j&aacute; foram processados 150 militares em dezenas de processos abertos em todo o pa&iacute;s nos quais se investiga desaparecimentos for&ccedil;ados durante a ditadura, cujo n&uacute;mero chegou a 10 mil (segundo um informe oficial) ou a 30 mil (segundo organiza&ccedil;&otilde;es de direitos humanos).<\/p>\n<p> Os processos com maior quantidade de r&eacute;us incluem os crimes cometidos na Escola de Mec&acirc;nica da Armada e os do I Corpo de Ex&eacute;rcito, unidade da qual dependia a maioria dos centros clandestinos de deten&ccedil;&atilde;o da capital e da prov&iacute;ncia de Buenos Aires. As organiza&ccedil;&otilde;es de direitos humanos reagiram com enorme satisfa&ccedil;&atilde;o. A presidente da Av&oacute;s da Pra&ccedil;a de Mayo, Estela de Carlotto, comemorou, porque poder&aacute; levar a julgamento os militares em seu pr&oacute;prio pa&iacute;s &quot;e com toda a lei e as normas constitucionais que nossos filhos n&atilde;o tiveram&quot;, afirmou.<\/p>\n<p> &quot;As leis nos golpearam com a impunidade. Durante anos convivemos com ladr&otilde;es e assassinos&quot;, disse Estela. Sua filha, Laura Carlotto, foi seq&uuml;estrada em 1976 e assassinada pouco depois de ter dado &agrave; luz um menino, ao qual deu o nome de Guido, e que &eacute; procurado por sua av&oacute; h&aacute; quase 30 anos. Atrav&eacute;s de diversos testemunhos de sobreviventes, Estela reuniu dados que lhe permitiram identificar o assassino de sua filha. Mas, nem mesmo chegou a iniciar a den&uacute;ncia, por causa da barreira que representavam as leis de perd&atilde;o. Agora est&aacute; decidida a percorrer esse caminho.<\/p>\n<p> A presidente da Associa&ccedil;&atilde;o M&atilde;es da Pra&ccedil;a de Mayo, Hebe de Bonafini, expressou seu contentamento pela senten&ccedil;a, embora mantenha cautela quanto &agrave; sua aplica&ccedil;&atilde;o. Hebe destacou o exemplo dado aos jovens pelas organiza&ccedil;&otilde;es humanit&aacute;rias que depois de tantos anos conseguiram acabar com a impunidade. Mas, tamb&eacute;m colocou em d&uacute;vida que muitos militares condenados permane&ccedil;am atr&aacute;s das grades, pois s&atilde;o muitos os que t&ecirc;m mais de 70 anos e que podem ser beneficiados com pris&atilde;o domiciliar aos cuidados de suas fam&iacute;lias. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 15\/06\/2005 &ndash; Em uma senten&ccedil;a hist&oacute;rica, a Suprema Corte de Justi&ccedil;a da Argentina declarou nesta ter&ccedil;a-feira a inconstitucionalidade das chamadas leis de perd&atilde;o, que em 1987 deixaram livres de processo milhares de policiais e militares que participaram da repress&atilde;o contra a oposi&ccedil;&atilde;o na &uacute;ltima ditadura (1976-1983). O extenso argumento da senten&ccedil;a afirma que a partir da reforma da Constitui&ccedil;&atilde;o, em 1994, o Estado argentino &quot;assumiu a frente quanto ao direito internacional e, em especial, frente &agrave; ordem jur&iacute;dica interamericana, uma s&eacute;rie de deveres de hierarquia constitucional que limitam as faculdades do direito interno de perdoar ou omitir a persegui&ccedil;&atilde;o de fatos&quot; como o colocado para considera&ccedil;&atilde;o do tribunal.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/argentina-cai-o-perdo-aos-militares-da-ditadura\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-695","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=695"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/695\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}