{"id":7015,"date":"2010-08-16T17:51:14","date_gmt":"2010-08-16T17:51:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=7015"},"modified":"2010-08-16T17:51:14","modified_gmt":"2010-08-16T17:51:14","slug":"na-amazonia-sobra-agua-e-falta-saneamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2010\/08\/america-latina\/na-amazonia-sobra-agua-e-falta-saneamento\/","title":{"rendered":"Na Amaz\u00f4nia sobra \u00e1gua e falta saneamento"},"content":{"rendered":"<p>Altamira, Brasil, 16\/08\/2010 &ndash; Parece um contrassenso adotar na \u00famida Amaz\u00f4nia uma solu\u00e7\u00e3o desenvolvida para as secas do Nordeste brasileiro. Mas as \u00e1guas pluviais, captadas no teto e armazenadas em cisternas, est\u00e3o melhorando a sa\u00fade e a vida em comunidades rurais da regi\u00e3o.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_7015\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/79419.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7015\" class=\"size-medium wp-image-7015\" title=\"Bairro condenado de Altamira. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/79419.jpg\" alt=\"Bairro condenado de Altamira. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7015\" class=\"wp-caption-text\">Bairro condenado de Altamira. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  O governo do Estado do Amazonas promove, desde 2006, o Programa de Melhorias Sanit\u00e1rias e Armazenagem de \u00c1gua da Chuva (Pr\u00f3-Chuva), que j\u00e1 beneficiou dez mil fam\u00edlias em 77 comunidades, com telhados, cisternas e sistema de esgoto.<\/p>\n<p>Sua segunda fase, iniciada em maio, se estender\u00e1 a outros povoados e distribuir\u00e1 equipamentos de saneamento. Na Amaz\u00f4nia h\u00e1 excesso de \u00e1gua, que, em geral, n\u00e3o \u00e9 pot\u00e1vel e muitas vezes est\u00e1 contaminada pelo dejeto dos pr\u00f3prios moradores, espalhando diarreia, hepatite e outras doen\u00e7as. E nem sempre a \u00e1gua \u00e9 de f\u00e1cil acesso. Aos 69 anos, hipertenso e diab\u00e9tico, com 14 filhos espalhados pela Amaz\u00f4nia, Osvaldo Pantoja Ferreira j\u00e1 quase n\u00e3o tem for\u00e7as para carregar a lata com 20 litros de \u00e1gua do rio at\u00e9 sua casa, onde vive com a mulher.<\/p>\n<p>S\u00e3o cerca de cem metros de subida \u00edngreme e escorregadia. \u201cNo ver\u00e3o fica mais dif\u00edcil\u201d, por que o rio se afasta, disse. Caracol, como todos o chamam, precisou apelar para a criatividade. H\u00e1 quatro anos instalou seu pr\u00f3prio sistema de recolher \u00e1gua da chuva, com canos \u00e0 beira do telhado que a leva a um dep\u00f3sito de mil litros em um canto da casa e a outro menor, do outro lado. Mas continua carregando \u00e1gua do rio, por achar que \u00e9 mais pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>Onde vive, no Estado do Par\u00e1, a leste do Estado do Amazonas, n\u00e3o h\u00e1 nenhum plano como o Pr\u00f3-Chuva, que se inspirou no Programa Um Milh\u00e3o de Cisternas que existe no semi\u00e1rido nordestino desde 2003, gra\u00e7as a uma rede de 700 organiza\u00e7\u00f5es sociais. Com uma forte participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, esse programa j\u00e1 instalou quase 300 mil unidades. Antes, Caracol tentou a tecnologia industrial, mas as duas bombas que comprou n\u00e3o aguentaram o esfor\u00e7o. \u201cO motor era muito fraco, perdi dinheiro\u201d, lamentou. Depois, seu gerador de eletricidade quebrou, inutilizando tamb\u00e9m seu televisor, \u201cque com antena parab\u00f3lica pegava bem\u201d.<\/p>\n<p>A Volta Grande do Rio Xingu, o trecho em curva de cem quil\u00f4metros em cuja margem construiu sua casa de madeira, ter\u00e1 a maior parte de suas \u00e1guas desviada para alimentar a hidrel\u00e9trica de Belo Monte, que enfrenta a insistente resist\u00eancia de ind\u00edgenas, movimentos sociais e ambientalistas. A conclus\u00e3o do projeto, prevista para 2015, deixar\u00e1 Volta Grande em um eterno ver\u00e3o. Na Amaz\u00f4nia, as \u00e1guas determinam os ciclos de vida e do ano. O inverno, de dezembro a abril, \u00e9 quando mais chove, quase todos os dias. No ver\u00e3o, o Rio Xingu baixa muito e deixa descobertas suas praias, cascatas e milhares de ilhotas de pedras.<\/p>\n<p>Antes que o rio se afaste definitivamente, Caracol, ex\u00edmio ca\u00e7ador que acertava o olho de jaguares e ariranhas (nutria gigante) para garantir bom pre\u00e7o pelas peles intactas, espera ser ligado ao sistema el\u00e9trico nacional e recuperar seu televisor, a geladeira e a possibilidade de bombear \u00e1gua do Xingu. \u201cA luz fica a 15 quil\u00f4metros e deve chegar nos pr\u00f3ximos meses\u201d, disse Caracol, diante da expans\u00e3o do programa Luz Para Todos, com que o governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva levou eletricidade a 2,5 milh\u00f5es de fam\u00edlias rurais.<\/p>\n<p>Com geradores pr\u00f3prios, os ind\u00edgenas dos grupos Arara e Juruna, tamb\u00e9m ribeirinhos da Volta Grande, bombeiam \u00e1gua para suas aldeias do Xingu, um dos principais e mais longos afluentes da vertente meridional da bacia amaz\u00f4nica. Entretanto, temem que a constru\u00e7\u00e3o da represa e dos canais para desvio parcial do rio suje suas \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sabemos como ficar\u00e1 a qualidade da \u00e1gua que consumimos\u201d, disse Arlete Juruna, filha do l\u00edder da reserva ind\u00edgena Paqui\u00e7amba, onde vivem 92 pessoas. Ela tamb\u00e9m teme redu\u00e7\u00e3o dos peixes, principal alimento dos ind\u00edgenas, junto com o tracaj\u00e1, esp\u00e9cie de quel\u00f4nio abundante na bacia. \u201cAqui n\u00e3o tem len\u00e7ol fre\u00e1tico, apenas poucas rochas, n\u00e3o se encontra \u00e1gua nem com perfura\u00e7\u00f5es de 200 metros\u201d, disse Jos\u00e9 Carlos Arara, que lidera o grupo Arara da Volta Grande, de 150 membros, e se op\u00f5e decididamente \u00e0 hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>Monitorar a qualidade da \u00e1gua ser\u00e1 indispens\u00e1vel, porque cimento e produtos qu\u00edmicos usados na constru\u00e7\u00e3o poder\u00e3o contaminar os peixes, mat\u00e1-los ou provocar intoxica\u00e7\u00f5es em seus consumidores, acrescentou Jos\u00e9 Carlos. Muitas esp\u00e9cies de peixes se alimentam no lodo onde se depositam os sedimentos, explicou. Impacto oposto sofrer\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o mais pobre de Altamira, capital da bacia do Xingu, com cerca de cem mil habitantes. Uma represa do complexo hidrel\u00e9trico far\u00e1 subir as \u00e1guas at\u00e9 a cidade, que fica 40 quil\u00f4metros acima, inundando bairros ribeirinhos de tr\u00eas igarap\u00e9s que desembocam no rio.<\/p>\n<p>Cristiana Rodrigues de Matos, de 29 anos, sabe que a \u00e1gua cobrir\u00e1 a casa onde vive, na margem do Igarap\u00e9 Altamira, que j\u00e1 esteve com metade submersa em abril de 2009, quando chuvas intensas romperam os diques constru\u00eddos por fazendeiros ao longo do riacho, desalojando 30 mil pessoas. Vivia em uma rua mais acima e mudou-se h\u00e1 quatro meses, conhecendo os riscos. \u00c9 que, devido \u00e0 inunda\u00e7\u00e3o do ano passado, baixaram os alugueis das casas amea\u00e7adas, disse Cristiana, que trabalha como faxineira diarista e tem tr\u00eas filhos, incluindo um beb\u00ea de um ano, e seu marido \u00e9 pedreiro.<\/p>\n<p>O estudo de impacto ambiental de Belo Monte estabeleceu que 4.747 casas e im\u00f3veis comerciais ser\u00e3o inundados e 16.420 pessoas desalojadas nesses bairros de Altamira, que carecem de saneamento e que, na maioria, lan\u00e7am o esgoto nos rios e consomem \u00e1guas de po\u00e7os superficiais e f\u00e1ceis de serem contaminados. Os desalojados, cuja quantidade ser\u00e1 o dobro das previs\u00f5es, segundo os opositores ao projeto, receber\u00e3o indeniza\u00e7\u00f5es e ser\u00e3o reassentados em bairros altos, com saneamento e casas saud\u00e1veis, asseguraram autoridades respons\u00e1veis pela hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>\u201cEm Tucuru\u00ed, as promessas n\u00e3o foram cumpridas\u201d, recordou Vanusa Soares, referindo-se \u00e0 hidrel\u00e9trica constru\u00edda na d\u00e9cada de 80 tamb\u00e9m no Par\u00e1. Ela elevou sua casa sobre palafitas de quase um metro, tentando evitar outra inunda\u00e7\u00e3o como a do ano passado. Mas sua rua toda, bem como o bairro de casas de madeira, n\u00e3o sobreviver\u00e1 \u00e0 cheia das \u00e1guas represadas. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Altamira, Brasil, 16\/08\/2010 &ndash; Parece um contrassenso adotar na \u00famida Amaz\u00f4nia uma solu\u00e7\u00e3o desenvolvida para as secas do Nordeste brasileiro. 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