{"id":704,"date":"2005-06-17T00:00:00","date_gmt":"2005-06-17T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=704"},"modified":"2005-06-17T00:00:00","modified_gmt":"2005-06-17T00:00:00","slug":"direitos-humanos-agora-militares-argentinos-esto-contra-indulto-a-ditadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/direitos-humanos-agora-militares-argentinos-esto-contra-indulto-a-ditadores\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: Agora, militares argentinos est&atilde;o contra indulto a ditadores"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 17\/06\/2005 &ndash; A c&uacute;pula do Ex&eacute;rcito da Argentina surpreendeu suas fileiras e quem &eacute; de fora, esta semana, ao pedir a revoga&ccedil;&atilde;o do indulto concedido aos chefes da ditadura militar (1976-1983), em busca de um segundo marco hist&oacute;rico depois da anula&ccedil;&atilde;o das leis que haviam dado impunidade a repressores. &quot;A anula&ccedil;&atilde;o dos indultos tem de ser o passo seguinte&quot;, disse o chefe do Ex&eacute;rcito, tenente-general Roberto Bendini, um dia depois da senten&ccedil;a da Suprema Corte de Justi&ccedil;a declarando inconstitucionais as leis de &quot;ponto final&quot; de 1986, e de &quot;obedi&ecirc;ncia devida&quot;, de 1987. Bendini considerou necess&aacute;rio &quot;julgar e condenar os m&aacute;ximos respons&aacute;veis&quot;, pelas graves viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos cometidas pela &uacute;ltima ditadura militar. &quot;N&atilde;o &eacute; certo ficarem presos os que eram subtenentes e em liberdade os que tiveram a maior hierarquia e responsabilidade&quot; nesses fatos, afirmou, em refer&ecirc;ncia aos comandantes em chefia da &eacute;poca.<br \/> <!--more--> <br \/> Os ex-ditadores Jorge Videla e Eduardo Massera cumprem pena de pris&atilde;o domiciliar, mas n&atilde;o por torturas ou desaparecimento for&ccedil;ado de pessoas, mas por apropria&ccedil;&atilde;o de menores, um crime provado anos depois dos julgamentos nos quais foram condenados e depois indultados junto com outros altos oficiais em 1990 pelo ent&atilde;o presidente Carlos Menem (1989-1999). A resolu&ccedil;&atilde;o do m&aacute;ximo tribunal representa um aval para meia centena de causas contra militares, policiais e civis repressores que haviam ficado paralisadas pelas chamadas &quot;leis do perd&atilde;o&quot;. Estima-se que nos pr&oacute;ximos meses podem ser convocados para depor como acusados cerca de 500 deles. Bendini negou que a resolu&ccedil;&atilde;o cause mal-estar no Ex&eacute;rcito, como afirmavam anteriormente alguns analistas.<\/p>\n<p> Para provar o que disse, explicou que no contexto dos processos j&aacute; reativados a justi&ccedil;a ordenou a deten&ccedil;&atilde;o de 89 membros dessa for&ccedil;a e, entretanto, &quot;n&atilde;o houve nenhum tipo de altera&ccedil;&atilde;o nem de como&ccedil;&atilde;o&quot;, destacou. &quot;As seq&uuml;elas do ocorrido nos anos 70 s&oacute; podem ser solucionadas atrav&eacute;s da justi&ccedil;a&quot;, afirmou o chefe do Ex&eacute;rcito, o mesmo que em 2004 cuidou pessoalmente de retirar o retrato de Videla da sala de personalidades do Col&eacute;gio Militar, em cumprimento a uma ordem direta do presidente N&eacute;stor Kirchner. No mesmo sentido, o ex-chefe do Ex&eacute;rcito, Mart&iacute;n Balza, na reserva, considerou que a senten&ccedil;a da Suprema Corte que destravou os julgamentos de militares &eacute; &quot;exemplar&quot;, mas admitiu que pessoalmente ainda espera &quot;a pronta anula&ccedil;&atilde;o ou declara&ccedil;&atilde;o de inconstitucionalidade dos indultos&quot;, para poder p&ocirc;r fim a um passado que qualificou como &quot;vergonhoso&quot;.<\/p>\n<p> Balza, atual embaixador na Col&ocirc;mbia, ganhou notoriedade em meados dos anos 90 ao tornar p&uacute;blica uma forte autocr&iacute;tica em nome do Ex&eacute;rcito, que nesse momento comandava, pela participa&ccedil;&atilde;o na repress&atilde;o ilegal. O oficial afirmou na &eacute;poca que &quot;ningu&eacute;m pode ser obrigado a obedecer ordens imorais&quot; e esse crit&eacute;rio marcou uma nova orienta&ccedil;&atilde;o dentro dessa arma, protagonista de v&aacute;rios golpes de Estado ao longo do s&eacute;culo XX. Para Balza, as leis de perd&atilde;o e os indultos contribu&iacute;ram para gerar um clima de impunidade que persistir&aacute; enquanto os &uacute;ltimos se mantiverem vigentes. &quot;Ainda falta esse passo para eliminar definitivamente a impunidade&quot;, afirmou. Nenhum dirigente das organiza&ccedil;&otilde;es de direitos humanos, nem familiares de v&iacute;timas, nem ex-presos pol&iacute;ticos haviam se atrevido at&eacute; agora a exigir esse novo passo &aacute; Suprema Corte de Justi&ccedil;a. Preferiram dedicar a jornada a comemorar a anula&ccedil;&atilde;o das leis e anunciar a apresenta&ccedil;&atilde;o de novas den&uacute;ncias contra militares.<\/p>\n<p> Apesar de em primeira e segunda inst&acirc;ncias judiciais j&aacute; haverem pronunciamentos de ju&iacute;zes e promotores sobre a inconstitucionalidade dos indultos, estes ainda n&atilde;o chegaram &aacute; Suprema Corte. Mas a recente resolu&ccedil;&atilde;o gerou um debate que antecipa uma iminente tomada de posi&ccedil;&atilde;o por parte desse tribunal, voltado no mesmo sentido. Kirchner, que havia comemorado a senten&ccedil;a da Suprema Corte, evitou mencionar uma eventual marcha-r&eacute; com os indultos concedidos por Menem, ambos do mesmo Partido Justicialista, mas em posi&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas opostas. O chefe de Gabinete, Alberto Fern&aacute;ndez, disse que &quot;nunca&quot; falou do tema com Kirchner, e o ministro do Interior, An&iacute;bal Fern&aacute;ndez, afirmou que o assunto &eacute; &quot;para ser estudado com muita prud&ecirc;ncia&quot;.<\/p>\n<p> Nesse sentido, alguns juristas j&aacute; admitiram a possibilidade de anular o perd&atilde;o presidencial. &quot;A mesma linha de argumenta&ccedil;&atilde;o que utilizou a Suprema Corte para privar de efeito jur&iacute;dico as leis do perd&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; aplic&aacute;vel aos indultos&quot;, afirmou Ricardo Gil Lavedra, que integrou o alto tribunal que em meados dos anos 80 condenou os ex-chefes da ditadura. Do mesmo modo opinou Victor Abramovich, diretor do Centro de Estudos Legais e Sociais da Argentina. &quot;N&atilde;o &eacute; certo esta senten&ccedil;a limitar-se &agrave;s leis do perd&atilde;o, &eacute; uma medida que estabelece jurisprud&ecirc;ncia para avan&ccedil;ar contra os indultos&quot;, explicou &agrave; IPS o especialista, rec&eacute;m-eleito membro da Comiss&atilde;o Interamericana de Direitos Humanos da Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos.<\/p>\n<p> Nos &uacute;ltimos dois anos, pelo menos em tr&ecirc;s casos os ju&iacute;zes federais consideraram que o indulto freia os processos e decidiram declarar sua inconstitucionalidade. Em um desses processos, a C&acirc;mara Federal confirmou a senten&ccedil;a, e agora se aguarda que as apela&ccedil;&otilde;es da defesa levem o assunto para decis&atilde;o do m&aacute;ximo tribunal. Em sua senten&ccedil;a sobre as leis do perd&atilde;o, os magistrados consideraram, na ter&ccedil;a-feira, que por se tratar de crimes contra a humanidade &eacute; necess&aacute;rio fazer valer os tratados internacionais sobre o assunto que adquiriram status constitucional na Argentina. &quot;Se nos comprometemos a cumprir tratados internacionais, temos de respeit&aacute;-los e torn&aacute;-los efetivos&quot;, destacou Carmem Argibay, magistrada da Suprema Corte de Justi&ccedil;a que at&eacute; poucos meses foi ju&iacute;za do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugosl&aacute;via. Para Argibay, os acordos &quot;n&atilde;o valem apenas pela assinatura e a declara&ccedil;&atilde;o bonita&quot;, e advertiu que seu descumprimento pode acarretar san&ccedil;&otilde;es graves para o Estado. <\/p>\n<p> Os processos contra militares repressores come&ccedil;aram em 1985 com o julgamento e condena&ccedil;&atilde;o dos m&aacute;ximos respons&aacute;veis da ditadura, v&aacute;rios deles a pris&atilde;o perp&eacute;tua. Depois, os julgamentos de milhares de fardados que atuaram na repress&atilde;o motivou uma forte press&atilde;o militar contra a ainda fr&aacute;gil democracia, que encontrou al&iacute;vio no incentivo &agrave;s leis do perd&atilde;o por parte do ent&atilde;o presidente Ra&uacute;l Alfonsin (1983-1989). Essas normas que favoreciam os militares subordinados, entre outros, foram sancionadas pelo Congresso entre 1986 e 1987. Tr&ecirc;s anos depois, Menem finalmente concedeu o indulto aos chefes militares condenados, a alguns oficiais que haviam se levantado contra Alfons&iacute;n e a uns poucos l&iacute;deres guerrilheiros sobreviventes.<\/p>\n<p> Com a pol&ecirc;mica decis&atilde;o, nenhum militar ficou preso por viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos at&eacute; fins dos anos 90, quando as organiza&ccedil;&otilde;es defensoras dos direitos humanos conseguiram abrir novos casos por um crime que havia ficado fora do processo, como a apropria&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as seq&uuml;estradas ou nascidas em cativeiro. Ao conhecer a senten&ccedil;a do m&aacute;ximo tribunal, Alfonsin voltou a justificar a necessidade que teve de avan&ccedil;ar com aquelas leis de perd&atilde;o, mas destacou que a quest&atilde;o &quot;sofre uma evidente paralisia&quot;, porque &quot;os indultos permanecem inc&oacute;lumes&quot;, gerando uma sensa&ccedil;&atilde;o de &quot;injusti&ccedil;a?. Menem, por sua vez, afirmou que &quot;aceita&quot; a decis&atilde;o da justi&ccedil;a em mat&eacute;ria de leis de perd&atilde;o e o mesmo faria se decidisse contra os indultos. &quot;Busquei a pacifica&ccedil;&atilde;o, agora, vamos ver o que acontece&quot;, afirmou, enigm&aacute;tico. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 17\/06\/2005 &ndash; A c&uacute;pula do Ex&eacute;rcito da Argentina surpreendeu suas fileiras e quem &eacute; de fora, esta semana, ao pedir a revoga&ccedil;&atilde;o do indulto concedido aos chefes da ditadura militar (1976-1983), em busca de um segundo marco hist&oacute;rico depois da anula&ccedil;&atilde;o das leis que haviam dado impunidade a repressores. &quot;A anula&ccedil;&atilde;o dos indultos tem de ser o passo seguinte&quot;, disse o chefe do Ex&eacute;rcito, tenente-general Roberto Bendini, um dia depois da senten&ccedil;a da Suprema Corte de Justi&ccedil;a declarando inconstitucionais as leis de &quot;ponto final&quot; de 1986, e de &quot;obedi&ecirc;ncia devida&quot;, de 1987. Bendini considerou necess&aacute;rio &quot;julgar e condenar os m&aacute;ximos respons&aacute;veis&quot;, pelas graves viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos cometidas pela &uacute;ltima ditadura militar. &quot;N&atilde;o &eacute; certo ficarem presos os que eram subtenentes e em liberdade os que tiveram a maior hierarquia e responsabilidade&quot; nesses fatos, afirmou, em refer&ecirc;ncia aos comandantes em chefia da &eacute;poca.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/06\/mundo\/direitos-humanos-agora-militares-argentinos-esto-contra-indulto-a-ditadores\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-704","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=704"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/704\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}